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Postado em 17/11/2017 5:37

A afronta infligida ao Presidente Macron na Arábia Saudita

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Thierry Meyssan

Tendo organizado uma ida à Arábia Saudita afim de trazer de volta o Primeiro- ministro libanês, que aí está retido como prisioneiro com a sua família, o Presidente Emmanuel Macron sofreu lá uma afronta pública sem precedentes. Muito embora a imprensa francesa e ocidental tudo tenha feito para ocultar uma parte dos acontecimentos, a opinião pública árabe acabou por constatar a perda vertiginosa de prestígio e de influência da França no Médio-Oriente.

Rede Voltaire | Damasco (Síria)

Este artigo dá seguimento a : «Golpe Palaciano em Riade», por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 7 de Novembro de 2017.

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O Presidente Macron (aqui com «MBS») não é o único responsável pela humilhação que lhe foi infligida pelo Rei da Arábia Saudita. Ele paga quer pelos crimes dos seus predecessores, como pela sua incapacidade em determinar uma nova política no Médio-Oriente.

A demissão do Primeiro-ministro sunita libanês e o seu discurso televisionado anti-persa não provocaram o confronto esperado no seu país. Pior, o seu adversário de sempre, o xiita sayyed Hassan Nasrallah, Secretário-geral do Hezbolla, deu-se ao luxo de tomar a sua defesa, desvelando que ele estava prisioneiro em Riade e denunciando a ingerência saudita na vida política libanesa. Em poucas horas a comunidade religiosa de Hariri começou a inquietar-se pelo seu chefe. O Presidente da República, o cristão Michel Aoun, denunciou um «sequestro» e recusou levar em conta esta demissão forçada, até que o seu Primeiro-ministro venha apresentar-lha em pessoa. Enquanto certos líderes da Corrente do Futuro, o Partido de Hariri, garantiam que ele estava livre e de boa saúde, os Libaneses, no seu conjunto, faziam bloco para exigir a sua libertação. Todos compreenderam que a breve viagem de Saad Hariri aos Emirados Árabes Unidos e as suas curtas aparições públicas não passavam de poeira atirada para os olhos, estando a sua família tomada como refém no hotel Ritz-Carlton de Riade junto com centenas de personalidades presas. Da mesma forma, todos perceberam que ao recusar, de momento, a demissão do Primeiro-ministro, Michel Aoun agia como Estadista e conservava o único meio de pressão que podia permitir obter a sua eventual libertação.

A França é a antiga potência colonial do Líbano, que ocupou até a Segunda Guerra Mundial. Durante muito tempo tudo dependia dela. Hoje em dia ela usa isso como uma antena no Levante e como paraíso fiscal. Personalidades libanesas estão mergulhadas em todos os escândalos político-financeiros dos últimos trinta anos em França.

O Presidente Emmanuel Macron, agindo como protector do Líbano, evocou a necessidade de retorno do Primeiro-ministro ao seu país.

Possibilitando o acaso do calendário que fosse a Abu Dhabi, a 9 de Novembro, para aí inaugurar o «Louvre das Areias», ele não podia deixar de tomar a iniciativa. Acontece que, sucedendo a «Jacques Chirac, o Árabe», a «Nicolas Sarkozy, o Catari» e a «François Hollande, o Saudita», o Presidente Macron não deixara, durante a sua campanha eleitoral, de dizer o pior sobre o que pensava de Doha e de Riade. Embora não manifestando nenhuma simpatia pelo Golfo, ele acabara próximo dos Emiradenses por exclusão de partes .

O Palácio do Eliseu tentou organizar uma paragem de Emmanuel Macron em Riade, para de lá trazer de volta Saad Hariri. Mas, o Rei Salman recusou receber o pequeno Francês.

Do ponto de vista do Conselho de Cooperação do Golfo (quer dizer, de todos os Estados árabes desta região), a França foi durante os sete últimos anos um aliado seguro contra a Líbia e contra a Síria. Ela participou militarmente —publicamente ou em segredo— em todas as golpadas contra estes dois países, e forneceu a cobertura diplomática e o discurso cor-de-rosa necessários a estas agressões. No entanto, enquanto a Líbia está presa no caos e a Síria está, contra todas as expectativas, à beira de ganhar a guerra, a França está, de facto, desamparada e apática. O novo hóspede do Eliseu, Emmanuel Macron, ignora tudo sobre esta região do mundo e balança entre o reconhecimento da República síria, num dia, e no dia seguinte ofensas contra o seu Presidente eleito. Além disso, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos levaram muito a mal as declarações do Presidente Macron apelando a um apaziguamento com o Catar. Para eles, cientes dos esforços que iniciaram para romper com os jiadistas, é inaceitável tolerar o apoio de Doha aos terroristas.

A inauguração do «Louvre das Areias» era a ocasião perfeita para um belo discurso sobre a cultura que nos une; prestação que estava incluída no pacote de mil milhões (1 bilhão-br) de dólares concluído há muito tempo entre os dois Estados. Encerrada esta formalidade, o Presidente Macron inquiriu junto ao seu anfitrião, Xeque Mohammed Ben Zayed, sobre o que se passava na vizinha Arábia Saudita e qual o destino de Saad Hariri.

Ao contrário dos beduínos da Arábia Saudita e do Catar, os Emiradenses são um povo de pecadores. Enquanto os primeiros apenas viveram durante séculos no seu deserto, os segundos percorriam os mares. Por causa desta peculiaridade, os Emiradenses haviam sido anexados, durante a colonização britânica, ao Império das Índias, não dependendo directamente de Londres, mas, sim de Deli. Hoje, eles investiram os seus rendimentos petrolíferos comprando uns sessenta portos em vinte e cinco países (entre os quais Marselha, em França, Roterdão nos Países Baixos, Londres e Southampton no Reino Unido). Este dispositivo permite aos seus serviços secretos fazer entrar e sair nesses países o que eles desejem, apesar dos controles aduaneiros locais; um serviço que eles sabem vender a outros Estados. Graças às sanções norte-americanas contra Teerão o porto de Dubai tornou-se de facto a porta do Irão (Irã-br), encaixando lucros faraónicos ao violar o embargo dos EUA. É por isso que o Abu Dhabi tem um interesse económico vital em encorajar a querela árabe-persa, mesmo quando os Emirados reivindicam as ilhas de Tonb e Bou-Moussa a seus olhos «ocupadas» pelo Irão.

Não é segredo para ninguém que o Xeque Mohammed Ben Zayed exerce um forte ascendente sobre o Príncipe herdeiro saudita Mohammed Ben Salmane («MBS»). Assim sendo, o primeiro telefonou, na frente do Presidente Macron, ao segundo para obter um encontro.

O Francês (39 anos) fez, portanto, escala em Riade no seu caminho de volta a casa. Foi acolhido no aeroporto por «MBS» (32 anos) e aí jantou com ele.

Na noite de 4 para 5 de Novembro, «MBS» pôs fim ao governo colegial da Dinastia Saud e instaurou o poder pessoal do seu pai, o Rei Salman. Para o conseguir, ele mandou prender, ou assassinar, todos os líderes dos outros clãs da família real, bem como os pregadores e imãs a eles devotados, ou seja, um total de cerca de 2.400 personalidades. Spin doctors (peritos em assessoria- ndT) israelitas apresentaram este golpe Palaciano como uma operação anti-corrupção.

Contrariamente aquilo que esperava, o Presidente francês tinha lá ido para nada. Não trouxera consigo o ainda Primeiro-ministro libanês de volta, e nem sequer falou com ele. Muito pior ainda, dizendo-se preocupado com as suas pesadas obrigações parisienses, «MBS» acompanhou-o de volta ao seu avião.

Talvez não vos seja possível captar o nível da afronta feita a Emmanuel Macron, tão incrivelmente grosseira ela foi: o Presidente francês não foi recebido pelo seu homólogo, o Rei da Arábia Saudita, muito embora este tenha concedido, todos os dias, uma enorme quantidade de audiências a personalidades de segunda classe.

Esta forma de grosseria, característica das maneiras da diplomacia árabe, não pode ser unicamente imputável a «MBS», mas, também ao Xeque Mohammed Ben Zayed, que sabia muito bem o que esperar ao enviar o jovem Francês para ser humilhado em Riade.

Conclusão: ao não se adaptar, de imediato, à reviravolta da Arábia Saudita após o discurso anti-terrorista de Donald Trump, em Maio passado, e, ao manter a aposta em dois cavalos ao mesmo tempo, a França colocou-se à margem da região. Os Emirados apreciam o Louvre e as corvetas da Marinha francesa, mas já não levam os Franceses a sério. Os Sauditas lembram-se bem das palavras do candidato Macron contra eles e das do Presidente Macron a favor do Catar, o actual padrinho dos Irmãos Muçulmanos. Assim, eles mostraram-lhe que não devia envolver-se, nem nos problemas do Golfo, nem na sucessão ao trono dos Saud, ainda menos na querela contra o Irão, e muito menos ainda nos conflitos em torno do Líbano.

A França tornou-se uma estranha no que diz respeito ao Médio-Oriente. 

Thierry Meyssan

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