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Argentina

Postado em 09/08/2018 10:55

A Lava-Jato argentina nos “cadernos virtuais”­­­­ para ocultar a catástrofe dos ajustes neoliberais de Macri

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Helena Iono

O poder Judicial, às ordens do Executivo, e sob coordenação da mídia hegemônica decide lançar, com o estopim de notícias dadas pelo Jornal La Nación sobre os tais “cadernos K”, mais um circo para entreter o povo na falta de pão.  Mais uma manobra que se confirma até mesmo através do analista político, Carlos Pagni (La Nación), que ao citar, num canal de TV, a galopante e incontrolável crise econômico-social do governo atual, revela que um ministro lhe teria declarado: “Se não há pão, que haja circo”.

Preâmbulo desta situação: em meio a um clima de alta tensão social realizou-se a visita de Christine Lagarde do FMI, frente ao qual o país acabou de se endividar meses atrás por outros 30 bilhões de dólares. Objetivo da visita? Acertos, controles e garantias de pagamento, que Macri execute arrochos salariais, cortes na Previdência e nos gastos do Estado. Neste clima, explode o escândalo pelas  denúncias reveladas por jornalistas pela verdade (Juan Amorin, do El Destape).  Cruzando investigações, descobre-se um banco de dados na qual constam 3.500 falsas doações que envolvem candidatos (Cambiemos-PRO) nas eleições de 2015, e cidadãos descomprometidos com partidos políticos que tiveram suas identidades roubadas dos arquivos da ANSES (tipo INSS). Muitas vítimas de tal falsificação testemunharam não haver jamais feito qualquer doação a Cambiemos. Paira no ar o mistério da origem de um super-fundo obscuro de campanha presidencial de 2015, que compromete a atual governadora de Buenos Aires, Eugenia Vidal (PRO), no mesmo momento em que sai à luz que há 269 membros do governo que ocupam 890 cargos em  empresas privadas, e o país fervilha em protestos contra os “tarifaços”, desemprego, cortes na Educação pública e empobrecimento alarmante.

Em contraposição, surgem os incógnitos “Cadernos”. A estas alturas, poucos duvidam de que trata-se de uma manobra do poder vigente para o entretenimento, criando uma espécie de “Lava Jato” argentina contra a gestão kirchnerista, tirando de cena a realidade dos fatos, da corrupção de altos funcionários de Cambiemos, o desastre econômico e a falência política do governo Macri diante de uma crescente deserção da sua base eleitoral. Este “filme” com suspeitosa produção nos EUA, já foi visto no Brasil: o julgamento midiático da Globo, e os alienantes  “ataques sem prova, mas por convicção”  contra o ex-presidente Lula da Silva. No dia 1 de agosto na Argentina, lançou-se a reprise deste “filme” com outros atores quando, ao amanhecer, uma mega-operação policial prendeu 14 pessoas (ex-membros do governo kirchnerista e alguns empresários) e invadiu o domícilio de 34, por ordem do juiz Bonadio (o Moro argentino) baseado no inverossímil, quase ridículo: denúncias contidas em fotocópias de cadernos de um ex-motorista do ministério de Planificação kirchnerista, ex-militar, que menciona, sem provas, milhões de dólares de propina recebidos por funcionários na gestão de obras públicas no governo anterior, inclusive membros já falecidos. Indaga-se, onde estão os cadernos originais? Não se encontram os originais destes famosos cadernos (cuja veracidade, em termos de autoria e de cronologia, não está comprovada). A oposição, não tem dúvidas de que tal ação é parte do chamado “lawfare”  latinoamericano, com a mesma metodologia midiática da Lava Jato contra Lula e o PT, visando inviabilizar o papel dirigente e a candidatura em 2019 de Cristina Kirchner, cuja aceitação popular cresce frente ao declínio de Macri. No entanto, a tentativa de cassar o mandato da senadora Cristina Kirchner, como fizeram com Júlio De Vido (deputado da FPV e ex-ministro da Planificação de Nestor e Cristina Kirchner), não deverá contar com o apoio de Miguel Pichetto do peronismo conservador.

O lado real da supressão dos direitos humanos que a mídia quer ocultar

No mesmo dia em que a mídia inundava a tela com imagens dos chamados “cadernos K”, de camburões de polícia, de ex-funcionários kirchneristas algemados, e de Néstor e Cristina Kirchner, num pacote midiático único, somente um canal de TV, o C5N, através do programa “Minuto Uno” do moderador Gato Silvestre, noticiava o lançamento do documentário, “O caminho de Santiago”, de Tristán Bauer no Teatro ND Ateneo, por ocasião do aniversário da morte de Sérgio Maldonado. Outros canais de TV, ausentes, sequer anunciaram tal evento e muito menos um atentado ao Teatro: cerca de 15 pessoas encapuçadas destruíram as vidraças da entrada, arriscando a integridade de vários participantes, artistas, intelectuais, parlamentares e apoiadores da família de Santiago. Tal violência, não contou com nenhuma proteção dos serviços oficiais de segurança, nem antes, nem depois. Simultaneamente o canal C5N sofreu ameaça de explosão de bomba, através de um chamado telefônico recebido pelos órgãos policiais. Os trabalhadores da TV, recusaram-se a evacuar o local, e mantiveram a programação enquanto se realizava a perícia que confirmou o falso alarme de bomba. Louvável a batalha comunicacional do C5N, sobrevivente em tempos de exceção, com seus proprietários na prisão, por possibilitar informar verdades; entre elas, sobre os 357 jornalistas demitidos da TELAM, num país onde a indústria (desde o início de 2016) decaiu a sua produção em 8,2%, gerando 85 mil desempregados.

Outro lado real: a tragédia  escolar anunciada pela ausência do Estado

Neste contexto, somou-se no amanhecer seguinte, 2 de agosto, a dolorosa tragédia da escola pública 49 de Moreno, um município pobre na província de Buenos Aires. Sandra Calamano, vice-diretora, e Rubén Rodríguez, porteiro da escola, morreram numa explosão de, quando preparavam o café da manhã para as 400 crianças prestes a chegar (20 minutos depois). Uma enorme comoção sacudiu toda a classe de educadores que decretou greve geral; a “Educação Pública em luto!” nas escolas públicas da Província e da capital. A consciência de que “não foi um acidente, não foi casual, foi o ajuste do governo de Vidal (Cambiemos-PRO)” esteve presente em todas as manifestações de familiares e alunos que irromperam em vários municípios; o funeral desbordou de comoção e raiva pondo em xeque a desídia, a ausência do governo frente às inúmeras denúncias sobre a precariedade e a insegurança das escolas. Na berlinda a governadora Vidal que silencia frente à tragédia, e que habitualmente não responde aos apelos, ataca os professores, vítimas de salários de miséria, defensores da integridade das escolas públicas, resistindo à privatização do ensino e à demonização dos sindicatos.

O exemplo destes dois trabalhadores argentinos da educação merece ser conhecido não somente pela tragédia que os ceifou da vida de forma tão injusta, mas pelo seu compromisso social que reflete o nível da maioria dos professores argentinos e latino-americanos, ainda não reconhecidos justamente, como na ilha cubana de José Marti, onde “um homem livre é um homem culto”. Sandra Calamano, ativista de SUTEBA (Sindicato dos Professores), era uma educadora comprometida com as causas sociais; defendia o sistema de orquestras infantis escolares na recuperação social, seguindo o modelo do falecido maestro venezuelano José Abreu, incorporado por Cristina Kirchner e anulado por Macri em 2016. O porteiro, Rubén era ativista da ATE (sindicato dos servidores estatais) e da CTA.

Prepara-se um 8 de agosto pelo Aborto Legal e tantas outras

No bojo desta Argentina conflitiva e polarizada prepara-se a segunda etapa da luta das mulheres pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito em votação no Senado, após a aprovação na Câmara. Cresce a consciência popular a cada ataque aos direitos sociais, às ameaças de Macri de suprimir os direitos democráticos e envolver o exército em funções repressivas; as mudanças entre militares (para a fronteira) e a chamada gendarmeria (para a repressão social), indica também certa insegurança na centralidade de um exército desmoralizado pelos fatos da ditadura, numa Argentina que não perde a memória. Graças à memória e a persistente luta das mães e avós de Praça de Maio, acaba de surgir o neto número 128, filho de uma desaparecida de Tucuman em 1976.

 

Paralelamente, o movimento sindical se unifica e se fortalece, não obstante todas as ameaças de esvaziamento, com multas absurdas ordenadas pelo Ministro do Trabalho, Jorge Triaca, contra os sindicatos combativos dos Caminhoneiros e dos Professores. Cristina Kirchner também se reuniu com dirigentes da SMATA (mecânicos e do setor automobilístico) e Hugo Moyano, dirigente tradicional dos caminhoneiros (CGT). Leia. Cristina e Moyano haviam se distanciado por muitos anos durante a gestão kirchnerista, e agora indicam um caminho possível para a organização de uma ampla frente única político-sindical, de massas contra o governo neoliberal de Macri.

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