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Postado em 21/09/2018 5:01

A verdadeira corrupção que a candidatura de Bolsonaro esconde e fortalece

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Enquanto polemiza, Bolsonaro espera esconder a corrupção final do Estado brasileiro

Os eleitores do sr. Bolsonaro gostam de se ver no interior de uma cruzada redentora contra a corrupção centenária do Estado brasileiro. Mas há de se perguntar se isso não é apenas um conhecido capítulo do sistema de autoengano que acomete setores da sociedade do país.

Afinal, seria bom começar por se perguntar sobre o que significa, de fato, corrupção. Se aceitarmos que estamos a falar dos processos de apropriação privada do bem comum, teremos que admitir que se pratica corrupção de várias formas. Há os casos nos quais a corrupção será o desvio de fundos públicos por agentes privados, sejam eles indivíduos, associações ou partidos.

No entanto, há ainda dois casos mais brutais de corrupção, casos nos quais a apropriação privada do bem comum é ainda mais explícita. O primeiro é o exemplo privilegiado de corrupção no interior da filosofia política. Trata-se da tirania e do autoritarismo. A tirania é a pior forma de corrupção porque ela é a apropriação violenta da força do estado e de sua soberania por grupos particulares. Vimos como isso funciona na ditadura militar, a mesma ditadura que o sr. Bolsonaro e seus seguidores admiram e da qual eles louvam as práticas.

O autoritarismo corrompe o bem comum não apenas porque permite aos ocupantes do Estado desviarem fundos públicos (lembre-se dos casos Capemi, Coroa Brastel, Projeto Jari, Brasilinvest, Petropaulo, entre tantos outros que marcaram a ditadura).
Ele corrompe o bem comum não apenas por fazer do Estado agente de assassinato, estupro, ocultação de cadáveres e tortura perpetrada por bandidos como o sr. Ustra, que Bolsonaro canoniza.

Ele corrompe o bem comum porque saqueia a soberania popular. Para quem não sabe o que é saque da soberania popular, pergunte ao vice do sr. Bolsonaro, o general Mourão. O mesmo que sonha com uma nova constituição escrita não por representantes do povo, mas por “notáveis”. Ou perguntem ao general Villas Bôas, que costuma chantagear a sociedade civil a propósito de suas escolhas eleitorais enquanto aponta um revólver em nossa direção.

Mas, além da tirania, há outra forma insidiosa de corrupção, a saber, a plutocracia, o governo dos ricos para a defesa incondicional de seus próprios interesses. A mesma plutocracia que Bolsonaro e seu “cérebro” Paulo Guedes querem implementar de vez no Brasil.
Enquanto cria polêmicas criminosas com homossexuais, negros e mulheres, Bolsonaro espera esconder que seu “governo” será a corrupção final do Estado brasileiro, pois será a entrega final do bem comum à mesma elite que sempre governou o país, mas agora sem necessidade de intermediários e de negociação com outros setores.

Há dias descobrimos que o sr. Guedes pretende reduzir o imposto de renda dos mais ricos, de 27% para 20%. Uma proposta obscena dessa natureza demonstra para quem essas pessoas querem realmente governar.

Em terras liberais como o Reino Unido, os impostos são progressivos até 50%, o que permite ao Estado oferecer serviços públicos aos mais pobres.

No mundo de Guedes, esses serviços inexistirão. O SUS (um sistema que garante saúde gratuita para 206 milhões de pessoas) será sucateado até sua morte, as agências de pesquisa e tecnologia serão letra morta, as universidades públicas deixarão de ser gratuitas, os museus queimarão e tudo o que ouviremos é o sr. Bolsonaro a dizer: “Já foi, o que você quer que eu faça?”.
Sua proposta pueril de “privatizar tudo” para amortizar até 20% da dívida pública significa destruir todo bem comum de empresas estatais estratégicas para o país, que produzem tecnologia nacional e garantem que dividendos não sejam remetidos para fora do Brasil, a fim de entregar o resultado do saque aos detentores de títulos da dívida pública, ou seja, em sua grande maioria bancos, especuladores, rentistas.

Sua defesa da reforma trabalhista significa quebrar toda força de defesa da classe trabalhadora contra a espoliação a que ela está normalmente submetida em suas “negociações” com o patronato. Negociações nas quais os trabalhadores verão, de forma cada vez mais abertas, contratos que diminuem salários, benefícios, férias e direitos. Enquanto isso, o governo comandará caças a “kits gay” inexistentes e organizará lutas contra “comunistas” imaginários. Diante de corrupção dessa natureza, o que vimos até agora é nada.

Vladimir Safatle
Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

(Fonte original: FSP 21/09/2018)

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