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Postado em 20/04/2019 6:17

Aldeia Brasil: os outros 500 que ainda esperam ser contados

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 Povo indígenas realizam anualmente o Acampamento Terra Livre, em Brasília
“Os indígenas voltam a viver um pesadelo, atacados pelo latifúndio, ameaçados pelo grande capital, com o incentivo declarado de um governo de extrema-direita, que vê os indígenas e suas terras como “selvagens” numa paisagem vazia, que deve ser preenchida pela cultura urbana, industrial, e ‘desenvolvida’.”
Por Juliana Belota e George Rebelo*
A aldeia Brasil se despediu das comemorações dos 500 anos do Brasil, na BR-367, que liga Porto Seguro a Santa Cruz Cabrália (BA), em 2000, em lágrimas. Uma lástima! A marcha indígena recordou os 500 anos da conquista sendo bombardeada pela polícia, que entrou em cena para dispersar a manifestação com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha que fizeram da marcha um caos. Os jornais Le Monde e El País lançaram manchetes em choque: “Brasil comemora 500 anos reprimindo índios”, ou “Amargo quinto centenário no Brasil”. Não importa. Os índios, jogados no asfalto, levantaram entoando seus cantos ancestrais, buscando forças nos seus antepassados. E ainda estão de pé, junto com a floresta que preservam porque, nela, sobrevivem desde tempos imemoriais. E, sim, os indígenas estão vivos, são a população mais antiga do Brasil, tem voz ativa, inclusive, representação na câmara dos deputados, e seu território tradicional está garantido e salvaguardado na constituição brasileira.

A carta que, na ocasião, entregaram ao ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, afirmava categoricamente: “não estamos comemorando nada!”. A frase denunciava que os indígenas, como continuam até aqui, vivem ameaçados por projetos desenvolvimentistas que não consideram a sua visão de mundo e a sua forma de viver. Isso se deve ao fato de, no Brasil, o conhecimento tradicional ter sido reconhecido antes mesmo de ser conhecido e, como afirma na carta, Eurico, xavante, e Ciucartec, mehinaku: “o povo brasileiro não conhece o povo indígena”.

Aliás, a política de sempre, uma política de exploração de desigualdades, fez da Amazônia – onde está a maior diversidade de etnias do Brasil – uma eterna desconhecida, como se, na região, não houvesse produção de conhecimento, quando o que não há é escoamento do conhecimento que é produzido e, no caso dos indígenas, isto se traduz numa dívida pra lá de histórica. Essa política é uma política neocolonial de povoamento da Amazônia e desenvolvimento a qualquer custo, passando por cima dos direitos indígenas, sob a égide da total ignorância quanto ao conhecimento tradicional dos povos nativos do Brasil.

O objetivo daquela marcha era realizar o rito de passagem para transformação deste lugar num país onde o povo indígena pudesse sobreviver. A cerimônia terminou com mais de 141 indígenas detidos e, os demais, foram bombardeados ao longo de um quilômetro, até serem dispersados por completo. Muitos saíram com traumatismos, agredidos pelos policiais. Na ocasião, o chefe da casa militar da Bahia, general Alberto Cardoso, disse que a operação foi feita com “aquiescência e conhecimento”.

Agora, em 2019, os indígenas voltam a viver um pesadelo, atacados pelo latifúndio, ameaçados pelo grande capital, com o incentivo declarado de um governo de extrema-direita, que vê os indígenas e suas terras como “selvagens” numa paisagem vazia, que deve ser preenchida pela cultura urbana, industrial, e “desenvolvida”. Como parte da natureza, são tratados como animais em extinção, um Brasil a ser escondido: natural, selvagem e primitivo. Nesse cenário angustiante e neocolonialista, os indígenas e todos os oprimidos brasileiros sofrem os ataques cada vez mais brutais patrocinados pela elite europeizada (ou norte-americanizada), mas tem o direito e a necessidade de resistir e lutar contra a insanidade que toma conta do país. O Acampamento Terra Livre, o maior encontro dos povos indígenas do Brasil, que acontece anualmente em Brasília, está sob ameaça direta, mas a nota da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil contra a portaria que autoriza o uso da força para reprimir as manifestações pacíficas finaliza com o grito de resistência: “diga aos povos que avancem!”

 *Juliana Belota é jornalista e socióloga e George Rebelo é coordenador do Laboratório de Manejo e Fauna do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Do Portal Vermelho.org

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