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Postado em 09/04/2017 5:47

Antonio Pitanga, golpe e contragolpe

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O ex-vereador pelo PT carioca é iluminado num documentário dirigido pela filha Camila Pitanga e apoiado pela Rede Globo (Matheus Brant)
por Pedro Alexandre Sanches — Carta Capital
As contradições do Brasil movem o memorial de um pioneiro da luta negra

É o caso de Pitanga, um documentário sobre o ator baiano Antonio Pitanga, dirigido pela filha dele, a também atriz (carioca) Camila Pitanga, em duo com o cineasta paulista Beto Brant (de Os Matadores, O Invasor e Cão sem Dono, entre outros).

Pitanga não é apenas pioneiro do empoderamento negro brasileiro, pela infinidade de filmes de que participou desde o fim dos anos 1950 (e em especial no movimento sessentista do cinema novo). Foi vereador carioca por dois mandatos pelo Partido dos Trabalhadores e é marido da ex-governadora fluminense Benedita da Silva, também petista.

Entre 2002 e 2003, foi “primeiro-damo” (como gosta de dizer) negro de uma governadora mulher, negra e ex-favelada. No contrapé, Pitanga, o documentário, leva a assinatura parceira da Globo Filmes e do canal noticioso GloboNews, o mesmo aparato midiático que teve papel nuclear na derrubada de Dilma.

Tal como o homem que é ligado ao candomblé e está casado com uma mulher evangélica, ele tem sido um hábil malabarista a se equilibrar entre a esquerda progressista e a direita reacionária, o racismo branco e a resiliência negra, a Rede Globo onde a filha trabalha e o PT em que a esposa milita.

O artista negro explica a habilidade em circular desde sempre em meio a um status quo flagrantemente hostil a tudo que ele significa e representa: “Eu não posso deixar de usar uma tribuna, sem deixar de ser eu, Antonio Pitanga, para fazer a minha fala, levar meu filme, meu discurso, meu pensamento. Qual é o espaço que eu tenho? Eu tenho esse espaço, que se associa com o projeto, tem uma admiração pelo projeto. Eles estão me dando essa chance, eu tenho de usar essa tribuna”.

Ainda que Pitanga (e, por contiguidade, todo o PT e o campo progressista que compuseram e compõem com o status quo global) se mova pelas tribunas inimigas, ele não economiza palavras ao interpretar o golpe de 2016.

“Nasci em 1939. Vi sair Dutra, chegar Vargas, suicídio de Vargas, Café Filho, Jânio, golpe, Jango, golpe. Com 77 anos achei que isso não fosse mais acontecer. Estamos vivendo um golpe mais trágico, porque esse não tem armamento. São os caras travestidos de civis, mas muito bem organizados. Todos os poderes estão conectados, sejam o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal, sejam os meios de comunicação. Estão todos conectados. Mas a gente não deve deixar de fazer, a minha profissão é essa. A minha maneira de pegar uma AR-15 é fazer filmes, teatro.”

No fio da navalha de ser protagonista de novelas da Globo, Camila reafirma o sangue do pai ao enfrentar o mesmo tema. “Foi no meio da caminhada do processo de montagem do filme que este país de hoje eclodiu no golpe, nestes desmandos” , diz a atriz.

“A cada dia somos alvejados por milhões de notícias que fazem a gente voltar no tempo, com o desmonte dos direitos dos trabalhadores, um cenário horrível. Eu jamais imaginaria que a gente estaria mostrando o filme neste cenário, mas, uma vez que ele dialoga com este momento, acho que vem como um respiro fundamental.”

Pitanga
O ator negro emerge da areia clara, em cena com o filho Rocco e as três netas (Foto: Matheus Brant)

O pai se orgulha de ter pressionado o autor de novelas globais Silvio de Abreu a incluir na trama de A Próxima Vítima (1995) um núcleo negro, de “família normal”, no qual ele interpretava o pai e Camila era um dos filhos. “Falo sempre que sou um capoeirista mental. Quero trabalhar com o intelecto dos contragolpes. Não dei um golpe, quem deu golpe são eles. Aliás, um golpe em todos os sentidos.”

A filha responde se é possível a combinação intrincada de lutar contra o golpe, ser funcionária da Globo e produzir, com apoio e divulgação da mesma corporação, um documentário que tem DNA antigolpe. “Não posso falar pela empresa. Eu falo por mim, pelas minhas ideias e ações. Exerço a minha liberdade, e sou respeitada lá na empresa, até mesmo por isso. Nunca deixei de falar as coisas que eu penso por nada, nem por ninguém. Eu penso o que penso e me coloco de acordo com o que eu sinto, sem nenhum cerceamento.”

Tampouco o codiretor Beto Brant usa tons de cinza para abordar o substrato político no parto de Pitanga. “O PT é um partido que ficou muito tempo no poder, e muita gente fisiologicamente pulou para dentro. Não nego que foi uma bandalheira, mas o pior de tudo é que os caras mais corruptos estão lá e inclusive deram esse golpe de Estado e estão fazendo o desmonte de várias conquistas sociais que o PT promoveu, como na questão trabalhista, na previdenciária, na educacional. Acho importante neste momento temerário, de intolerância, em que as pessoas começaram a falar merda na rua e ser aplaudidas”, diz.

Na situação ou na oposição, o documentário é por natureza uma obra de resistência, na opinião do diretor: “Não é um filme de ressentimento, de rancor, de mágoa. O Pitanga mostra seu valor por aquilo que ele afirma”.

O desassombro com que Brant e os Pitanga comentam a tragédia brasileira de 2017 leva a refletir sobre o silêncio dos artistas em relação ao golpe. Eles estão mesmo calados e medrosos, ou não se posicionam, por que os jornalistas não perguntam?

O cineasta afirma que, não, nenhum jornalista lhe perguntou antes se estamos ou não sob golpe de Estado. O documentário é uma passarela pela qual desfilam, ao lado de Pitanga, nove entre dez personalidades cruciais da geração do ator. O amigo e correligionário Luiz Inácio Lula da Silva não comparece.

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