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Altamiro Borges

Postado em 26/06/2017 7:40

Apesar da mídia, economia gera pessimismo

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Por Altamiro Borges
Bem que a mídia chapa-branca, nutrida com milhões em publicidade, tentou criar um clima de otimismo na sociedade. Ela garantiu que bastava derrubar a presidenta Dilma Rousseff para a economia voltar a crescer, gerando emprego e renda para os trabalhadores. Os famosos urubólogos da imprensa venal, que antes só davam notícias negativas, viraram otimistas de plantão, apostando todas suas fichas no sucesso da equipe econômica do Judas Michel Temer. Este esforço, porém, foi em vão – dava até para o golpista pedir de volta dos mercenários a grana dos anúncios. Segundo a pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (25), a maioria dos brasileiros segue pessimista com relação à economia.

De acordo com a enquete, 54% dos entrevistados acreditam que a taxa de desemprego, que está hoje no nível recorde de 13,6%, vai crescer ainda mais nos próximos meses. Mesmo com relação à inflação, que a mídia venal insiste em bravatear que está em queda – sem explicar os reais motivos da retração –, o Datafolha frustrou os ex-urubólogos. Segundo a pesquisa, 55% da população espera que os preços aumentem daqui para a frente. O levantamento também pesquisou a expectativa do brasileiro em relação ao poder de compra dos salários. Para 41% dos entrevistados, ele vai cair, 29% acreditam que ele vai ficar como está e outros 26% afirmam que ele vai aumentar.

A pesquisa ajuda a entender a drástica queda de popularidade do Judas Michel Temer. Ele hoje é odiado pela esmagadora maioria do povo. Oito em cada dez brasileiros defendem que o Congresso Nacional abra um processo para afastá-lo do poder. A aprovação do seu covil caiu a míseros 7%, o menor índice nos últimos 28 anos. Como lembra o jornalista Bernardo Mello Franco, uma das poucas vozes críticas que ainda restam na Folha, “a pesquisa deu números a um fenômeno visível a olho nu: o apoio a Michel Temer derreteu. A rejeição ao peemedebista já supera as piores marcas de Collor e Dilma, que sofreram impeachment. Ele está próximo de igualar o recorde negativo de Sarney”.

Ela também serve para enterrar as pretensões presidenciáveis de Henrique Meirelles, o czar da economia da quadrilha que assaltou o poder. Diante da possibilidade do descarte de Michel Temer, a mídia rentista tentou apresentar o ex-executivo de bancos e da JBS como o potencial sucessor em um processo de eleições indiretas. Com a economia derretendo e o clima de pessimismo que toma conta da sociedade, esta alternativa dos golpistas também vai gorando. Os ex-urubólogos da mídia chapa-branca terão dificuldade para alavancar a sua candidatura. As mentiras difundidas na chamada grande imprensa não convencem mais os brasileiros. Sobre estas manipulações, vale conferir o artigo da economista Laura Carvalho, publicado na Folha nesta quinta-feira (22).

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Queda da inflação não é fruto de mudança na política econômica

Segundo o presidente do Banco Central, a “mudança na direção da política econômica gerou resultados positivos, como a queda das expectativas de inflação”.

A nota publicada no site do BC em 19/6 ressalta que, quando Ilan Goldfajn assumiu o comando da instituição, em junho de 2016, “a inflação chegava a 9% no acumulado de 12 meses. Havia batido 11% em dezembro de 2015. () Um ano depois, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 3,6%”.

Vale a pena esclarecer que a queda da inflação acumulada em 12 meses não se iniciou após Goldfajn assumir o comando do Banco Central: o índice atinge seu auge em dezembro de 2015 e vem caindo desde janeiro de 2016.

Os boxes de decomposição da inflação que compõem os Relatórios de Inflação de 2015 e 2016 apresentam estimativas baseadas nos modelos de projeção do Banco Central e permitem mapear os principais fatores determinantes da queda da inflação no período.

Segundo essa metodologia, o reajuste de preços administrados contribuiu para uma variação de 4,1 pontos percentuais do IPCA em 2015. Ou seja, 38,4% da inflação do ano, que foi de 10,67%, deveu-se diretamente ao reajuste em preços estabelecidos por contrato e que independem, portanto, de condições de oferta e demanda. Incluem, por exemplo, tarifas de energia elétrica, água, esgoto, transporte e preços de combustíveis. Em 2016, a contribuição do aumento desses preços caiu de 4,1 pontos para 0,64 ponto.

O outro fator que explica boa parte da queda da inflação entre 2015 e 2016 é o efeito do chamado “repasse cambial”. O dólar também reverteu sua tendência de alta e passou a cair em janeiro de 2016. Por afetar diretamente os preços de insumos importados, altas do dólar são repassadas para outros preços da economia. Permitem também que os produtores nacionais reajustem seus preços sem perder competitividade em relação aos estrangeiros.

Em 2015, o efeito do repasse cambial foi de 1,57 ponto percentual, o que respondeu por 14,7% do total da inflação do ano. Em 2016, esse componente passou a contribuir para uma redução no IPCA de 0,17 ponto percentual, ou seja, -2,6% do total.

Já o efeito dos “choques de oferta”, que incluem, por exemplo, altas de preços de produtos agrícolas causadas por mudanças nas condições climáticas, foi de 0,86 ponto percentual em 2015 e de 0,67 ponto em 2016. Sobrou pouco, portanto, para fatores que poderiam estar ligados a uma suposta mudança de orientação de política econômica e maior credibilidade do BC.

O componente “expectativas de inflação” contribuiu com 0,73 ponto percentual da inflação em 2015 e 0,69 ponto em 2016, tendo ampliado sua participação no total.

Os demais fatores que afetam preços livres —incluindo condições de demanda, desemprego e salários— contribuíram com 2,91 pontos percentuais para a inflação em 2015 e 2,62 pontos em 2016. Dada a recessão do biênio, a queda na contribuição desse componente foi até pequena em 2016, mas deve ser maior em 2017 com o prolongamento da crise e o desemprego em alta.

Como se vê, está difícil encontrar algum motivo para comemorar a atuação do tal “dream team” da política econômica. Ainda assim, o presidente do Banco Central utilizou-se dos supostos resultados positivos para reforçar sua tese.

“É o que dizíamos há um ano: se tivermos ajustes, se as questões fiscais e de produtividade passarem, se as reformas trabalhista e da Previdência saírem, as incertezas sobre a economia diminuirão e o juro neutro estrutural tenderão a cair”, prometeu Godlfajn.

Talvez até interesse aos agentes econômicos saber o que pensa o presidente do Banco Central sobre as diretrizes da política econômica no país. Mas, se objetivo for compreender a dinâmica da inflação brasileira, talvez devessem concentrar-se na análise dos relatórios produzidos pelo corpo técnico.

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