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Postado em 09/07/2018 2:16

Às favas os escrúpulos, por Tereza Cruvinel

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Jornal GGN – Em sua coluna no Jornal do Brasil, Tereza Cruvinel faz uma boa análise do que aconteceu ontem com o habeas corpus de Lula e as suas consquências. Coloca a sequência de fatos que culminaram com o impedimento de soltura determinada pelo juiz Rogério Favreto e a saga até o impedimento final determinado pelo presidente Thompson Flores.

O descrédito com as instituições saiu fortalecido neste episódio, assim como a imagem de Lula enquanto preso político. Um delegado da polícia federal recebe ordem para liberar o paciente e, no lugar de obedecer, liga para o juiz que o condenou. O juiz da condenação, de férias, emite ordem contrária. Entra em cena o juiz relator da Lava Jato que também está de férias e não tem respaldo para fazer isso. E, por fim, arbitrando sem causa, surge no horizonte o presidente do TRF4. Um desfilar de ferimentos na justiça.

no Jornal do Brasil

Às favas os escrúpulos

por Tereza Cruvinel

As praças se encheram de pessoas esperando por Lula Livre e a noite caiu sem que a ordem de soltura do desembargador Rogério Favreto fosse cumprida.

Uma sequência de atos impróprios e mesmo ilegais postergaram a soltura até que se encontrasse a solução para manter Lula preso, mandando às favas os escrúpulos em relação ao Estado de Direito, como fizeram os que assinaram o AI-5.

Solto, mesmo não podendo ser candidato, Lula mudaria completamente a dinâmica da disputa presidencial.

Por isso valeu tudo ontem para mantê-lo preso.

O longo domingo terminou com o presidente do TRF-4, Thompson Flores, decidindo que o desembargador de plantão não tinha autoridade para conceder habeas corpus a Lula, e dando razão a Gebran Neto, que desautorizara a soltura.

Este capítulo inesperado da saga de Lula – que em nenhum momento acreditou que seria liberado – terá suas consequências, e a mais óbvia delas será o aumento da percepção de que há parcialidade da Justiça contra Lula. E isso terá seus efeitos eleitorais.

O juiz Sérgio Moro será novamente denunciado ao Conselho Nacional de Justiça, agora por desobediência à Justiça e quebra da hierarquia.

Por outros abusos, nunca foi molestado.

Nove entre dez juristas, do porte de um Lênio Streck, sustentaram ontem que um juiz em férias não pode se imiscuir em procedimentos judiciais.

E muito menos, determinando à PF que descumprisse a ordem de um desembargador que lhe é superior, violando a hierarquia.

Foi com absoluta naturalidade, como se isso não fosse escandalosamente ilegal, que policiais federais informaram os deputados petistas autores do pedido de habeas corpus – Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous – que o juiz havia ligado de Lisboa desautorizando a soltura.

E quem foi que avisou Moro em Lisboa?

Pimenta soube que foi o delegado-chefe, Roberval Ricalvi.

Só numa republiqueta um delegado federal, ao invés de cumprir uma ordem judicial, vai atrás do juiz que condenou o réu, pedindo sua autorização.

Depois da ordem telefônica, Moro tascou um despacho contrário à soltura, embora estando de férias.

Esta sua disposição para sujar a toga na caça a Lula foi maior que na condução coercitiva e que na divulgação de grampos ilegais para impedir que Lula fosse nomeado ministro, e com isso seus processos fossem transferidos para o STF.

Difícil de prever com que rigor o CNJ examinará o caso, agora que o Judiciário perdeu completamente a racionalidade.

A ordem de Moro era ilegal e discutível, e por isso a PF seguiu protelando a soltura até que viesse solução mais consistente.

E veio a manifestação do desembargador Gebran Neto, alegando o fato de ter sido relator do processo de Lula no TRF-4. A defesa usara argumentos impróprios, induzindo seu colega Favreto a erro, disse ele.

Mas Gebran também está de férias, e logo tão impedido quanto Moro.

Às 16hs04m Favreto expediu sua terceira ordem de soltura, dando prazo de uma hora para ser cumprida e contestando o colega. Não fora induzido a erro algum. Lula, além de ter ainda direito a recursos, devia ser solto em função de fato novo, a condição de pré-candidato a presidente. Com ele preso, privado de participar da campanha, o processo eleitoral se entortará, sem a garantia de igualdade de oportunidades aos concorrentes.

Um país com os nervos retesados esperou pelo transcurso desta uma hora.

Atos se formaram em Curitiba, Rio, Brasília e outras cidades.

O Sindicato de São Bernardo novamente foi ocupado. Às 18 horas, os deputados petistas foram levados a uma sala da PF, e informados de que a ordem de soltura só agora havia chegado.

E lá ficaram sem receber informações, enquanto lá fora o pais seguia em suspense. Finalmente, a solução para manter Lula preso foi dada por Thompson Flores, com o despacho em que deu razão a Gebran Neto.

Essa batalha não acabou ontem. Ela desemboca na eleição com Lula livre ou preso.

O Judiciário saiu mais desacreditado e a vitimização de Lula,

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