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Papo do Dia

Postado em 08/01/2019 7:41

AS RAZÕES DA GUINADA: OS BRASILEIROS SÃO TODOS FASCISTAS?

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por Renaud Lambert/Le Monde Diplomatique
Foto: Allan Sieber

As eleições de outubro de 2018 no Brasil foram marcadas pelo avanço de Jair Bolsonaro e sua formação de extrema direita, o Partido Social Liberal (PSL). Misógino, homofóbico, racista e cercado por defensores de um retorno ao poder dos militares, Bolsonaro encarna uma corrente política que permanecia discreta na América Latina desde o fim das ditaduras

Há poucos meses, o Brasil caminhava para uma guinada à esquerda. Tudo indicava que Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores, PT) venceria facilmente a eleição presidencial em outubro de 2018. Com 40% das intenções de voto, o ex-chefe de Estado desfrutava de uma vantagem confortável sobre seus adversários, inclusive em um contexto de volatilidade que complicava as estimativas. No entanto, condenado por corrupção após um processo duvidoso – marcado por uma intransigência que a justiça não impôs aos dirigentes de direita1 –, Lula teve de renunciar à sua candidatura em 11 de setembro de 2018. Em seguida, um deputado de extrema direita, que propõe purgar o Brasil do comunismo e restaurar a ordem, emergiu como o homem forte do quinto país mais povoado do planeta. Será que os brasileiros se tornaram fascistas em poucas semanas?

Poucos sabiam da existência de Jair Bolsonaro (Partido Social Liberal, PSL) antes da campanha presidencial. Seus impulsos sexistas, homofóbicos, favoráveis à tortura ou desaprovando a moleza repressiva do general chileno Augusto Pinochet, sem dúvida, teriam sido esquecidos se tivessem sido proferidos por um desses jornalistas instruídos para ativar os microfones e polemizar. Considerando que representam o programa de um homem que obteve 55% dos votos no segundo turno das eleições presidenciais, deram a volta no mundo.

Existem, sem dúvida, brasileiros de extrema direita. Mas representam mais que uma fração dos 57,8 milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro? Será que devemos avaliar, como Juan Jesús Aznarez, jornalista do diário espanhol El País, que o resultado da votação ilustra o “analfabetismo político de boa parte da América Latina”, uma região povoada por “milhões de analfabetos no que se refere à democracia”?2 Em outras palavras, o raciocínio dos jornalistas para explicar a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e o voto a favor da saída do Reino Unido da União Europeia se aplicaria também ao êxito de Bolsonaro no Brasil?

Uma terceira análise parte do sentimento de ser relegado por um bom número de brasileiros. Há poucos anos ainda, o país suscitava esperanças e admiração. Na reunião do G20 em abril de 2009, o presidente norte-americano Barack Obama interrompeu uma negociação para se aproximar de Lula, que acabara de chegar: “Eu o admiro: o dirigente político mais popular do mundo!”. Poucos meses depois, a cobertura da revista semanal britânica The Economistcelebrava a “decolagem” do Brasil: uma emergência espetacular, simbolizada na capa pelo voo da estátua do Cristo Redentor no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro. Enquanto a imprensa glorificava a esquerda “sensata” de Lula – oposta àquela considerada extremamente “vermelha”, do presidente venezuelano Hugo Chávez –, Brasília modificava a hierarquia das relações internacionais. Em maio de 2010, a Europa descobriu a amplitude da crise na Grécia e na Irlanda. Por sua vez, o Brasil exibiu resultados econômicos extraordinários, tendo até o prazer, em forma de revanche, de emprestar US$ 14 bilhões para o FMI. No mesmo ano, Brasília e Ankara provocaram um curto-circuito nas chancelarias ocidentais e chegaram a um acordo com o Teerã sobre o programa nuclear iraniano. O mundo parecia ter mudado, e o Brasil desempenhou um papel importante nisso…

Menos de dois anos depois, o país suscitou consternação. Os roteiristas da série norte-americana House of Cards, diante das intrigas bizantinas, reconheceram-se ultrapassados pela criatividade que revelaram os escândalos de corrupção brasileiros. Salientados pelas mídias transformadas em força de oposição a um PT durante muito tempo hegemônico, esses casos de corrupção tiraram o crédito do sistema político. A violência dos eleitos para com as instituições se refletiu na que oprime a população de rua: um assassinato a cada dez minutos em média, para um total de mais de 500 mil entre 2006 e 2016. Inúmeras famílias da classe média superior deixaram o país.

Nas vésperas das eleições, o Brasil se encontrava em uma situação insustentável. A partir da década de 2010, a queda das exportações (de volume e de valor) provocou uma grande recessão. As dezenas de milhões de pessoas que o PT tinha tirado da pobreza não concebiam voltar a ela. Durante os “anos Lula”, elas haviam desfrutado do progresso e da esperança, aos quais não se renuncia facilmente. Por sua vez, a oligarquia, detentora de uma dívida interna cujo pagamento corresponde a quase metade do orçamento federal, exigia continuar a ser bajulada. Sem recursos, Brasília não podia satisfazer essas exigências ademais contraditórias. A estratégia de conciliação do ex-sindicalista Lula, que lhe havia permitido aliviar as favelas e, ao mesmo tempo, encantar a Bolsa, não funcionou mais.

Da urgência social à urgência repressiva

Em 2013, eclodiram manifestações para reivindicar mais serviços públicos. Muito rapidamente, as mídias privadas travestiram suas motivações, apresentando-as como uma reação à prevaricação, cuja cobertura ganhou destaque em suas primeiras páginas. A operação funcionou ainda mais porque ofereceu às classes médias a possibilidade de expressar – enfim – uma irritação até então contida: a de ver seus privilégios cotidianos apropriados pelas políticas sociais do PT. Um representante da burguesia de São Paulo nos explicou em 2013: “É preciso compreender que, poucos anos antes, os aeroportos eram lugares de refinamento. Com o aumento do nível de vida dos mais pobres, a partir de então, as classes médias tiveram de entrar nas filas ao lado de pessoas que elas consideravam miseráveis”. E o que dizer da decisão do Senado, em 2013, de dotar as domésticas dos mesmos direitos que os outros trabalhadores? Uma humilhação inaceitável, que introduzia o vírus da luta de classes no universo atapetado dos lares opulentos.3

Aos olhos dessa população, a corrupção não se limita ao enriquecimento ilícito dos dirigentes políticos: diz respeito também aos programas sociais voltados para as classes populares que, para ela, se tornaram ainda mais insuportáveis com o tensionamento da situação econômica. Na rua, os slogans evoluíram. A urgência não era mais social, mas repressiva. Tratava-se de libertar o país dos “comunistas”, do PT no poder, cujos dirigentes teriam roubado duas vezes: uma primeira, enchendo os próprios bolsos, e uma segunda, ao cultivar a ociosidade de seu eleitorado.

A crise econômica ganhou um ar político quando a direita aproveitou a situação para destituir a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. A acusação não tinha fundamento, mas a operação funcionou. O governo de Michel Temer, membro do Movimento Democrático Brasileiro (MDB, direita), chegou ao poder sem passar pelas urnas e redefiniu o papel econômico do Estado, amputando as despesas, flexibilizando o mercado de trabalho e ameaçando as aposentadorias. Criticado pelos escândalos e sem a menor legitimidade, Temer tirou cada vez mais o crédito do Estado. Sua popularidade não ultrapassou os 3%. O Estado de direito desapareceu das ruas, cada vez com menos segurança; e parece ter desertado os ministérios. Alguns começaram a pedir a volta dos militares. A crise política pouco a pouco se transformou em crise institucional.

Nesse contexto, uma nova candidatura de Lula significava, por uma ampla coalizão de classes, uma esperança: a de uma volta ao período próspero dos anos 2000, quando o crescimento permitia absorver as contradições da sociedade; em outras palavras, a ambição de aprofundar a jovem democracia brasileira sem desorganizar o status quo. Segundo o historiador Fernando López D’Alesandro, “esse projeto poderia contar com o apoio do patronato mais lúcido, em sintonia com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), e uma ala do PT desejosa de reconstruir um pacto social”.4 Afinal de contas, quando o dinheiro circula, a corrupção – inscrita no centro das instituições brasileiras5– atrapalha menos. A barulheira dos helicópteros transportando milionários de arranha-céu em arranha-céu pode até fazer sonhar os que acabaram de comprar seu primeiro automóvel. Um projeto como esse seria realista? Recluso em sua cela, Lula não poderia defendê-lo nem ajudar seu designado herdeiro, Fernando Haddad, a fazê-lo. A esperança desembocou num impasse: “O PT sem Lula não é nada, e, sem Lula, a ideia de um novo pacto social perde sua viabilidade”, conclui López D’Alesandro.

Ao barrar o caminho do antigo dirigente, a direita tradicional pensava abrir a via da presidência para si. Ela deu um tiro no pé. Com o apoio da justiça e das mídias, ela convenceu o povo de que o Estado tinha apenas uma função: assaltar. Ora, os eleitores compreenderam que o PT não era o partido mais corrompido. Se, por um lado, seu peso diminuiu, por outro ele se mantém como a principal formação no Congresso (passou de 69 para 56 assentos). Por sua vez, a direita tradicional afunda. Pedra angular da maior parte das alianças no Congresso desde a volta à democracia, em 1985, o MDB perdeu quase metade de seus assentos (seu número passou de 66 para 34). Quanto ao PSDB, seu grupo foi reduzido de 54 para 29 deputados. No primeiro turno da eleição presidencial, os votos obtidos pelos candidatos de dois grandes partidos conservadores mal atingiram 6%. Apoiado pelos evangélicos6 e, no momento, poupado pelos escândalos, Bolsonaro apareceu como um recurso em um sistema engripado. Quer seus eleitores concordem ou não com suas ideias. “Neste momento, eu prefiro um presidente homofóbico e racista a um presidente ladrão”,7 afirmou um funcionário entrevistado pela BBC.

A “solução” Bolsonaro se distingue inteiramente da representada por Lula. Entre a defesa do status quo e a da democracia, ele já fez sua escolha faz tempo. A cada etapa, a receita de Bolsonaro se baseia em um princípio: os mais fracos deverão fazer concessões. A defesa da segurança individual e da propriedade privada, que preocupa tanto as classes populares quanto as outras, exigirá o sacrifício de vidas inocentes. A restauração das hierarquias sociais, dando às classes médias superiores seus privilégios, implicará relegar algumas categorias da população (mais frequentemente operários e negros) ao lugar de plebe subalterna. Na área econômica, o apoio às empresas levará, por exemplo, a colocar o Ministério do Meio Ambiente sob a tutela do Ministério da Agricultura. E a defesa dos interesses do mercado (garantidos pelos bons conselhos do ex-banqueiro Paulo Guedes, de quem Bolsonaro parece ter se tornado inseparável) se contentará com o crescimento da pobreza e das desigualdades.

“Só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil. […] Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”, declarou o deputado de extrema direita em 1999.8 No momento, os tanques ainda dormem nas casernas, mesmo que alguns militantes do PSL tenham estimado que seu êxito os autorize a agredir fisicamente militantes de esquerda, homossexuais ou opositores. No entanto, as manobras da direita e das mídias contra Lula tornaram possível o impensável: elevar a política encarnada por Bolsonaro ao lugar de solução aceitável para o país.

*Renaud Lambert é jornalista do Le Monde Diplomatique.

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