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Economia

Postado em 08/08/2017 8:06

As sanções dos EUA: Remix ruim de “Looney Tunes”* 

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William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO, trad. btpsilveira
Os sempre sábios membros do Congresso (norte)Americano acabaram de aprovar uma das peças legislativas mais bizarras da História do país. Tornam ilegais e punem severamente, de maneira unilateral, os investimentos de companhias europeias em projetos internacionais de energia nos quais a Rússia esteja envolvida. Mas vão ainda mais longe. Ao contrário do que aconteceu nos casos anteriores de imposição de sanções, dessa vez os países da União Europeia nem foram consultados quanto à nova Lei.

É bem provável que essa lei, HR-3.364 [Lei n. 3.364 da Câmara dos Deputados]: Lei de Combate contra Adversários dos EUA Mediante Sanções (sic) e sua contraparte do Senado marquem o declínio irreversível dos Estados Unidos como potência global e estabeleçam novos laços entre Rússia, China, Irã e, sim, também com outros grandes Estados da União Europeia, dentre os quais a Alemanha.

O que estabelece a Lei

 

Primeiro, veja o que realmente estabelece a Lei HR-3.364:

No Título I, a parte da Lei que trata do Irã, a legislação determina que o Presidente dos EUA, “deve impor as sanções descritas… com respeito a qualquer pessoa que o presidente considere (1) sabidamente envolvido em qualquer atividade que contribua materialmente para o suprimento, venda ou transferência direta ou indiretamente para ou do Irã, ou para uso em benefício do Irã, de quaisquer tanques de batalha, veículos blindados de combate, sistemas de artilharia de grande calibre, aviões de combate, helicópteros de ataque, navios de guerra, mísseis ou sistemas de mísseis, como definido para o propósito de Registro de Armas Convencionais das Nações Unidas, ou material relacionado, incluindo kits de reparo, peças sobressalentes; ou (2) sabidamente providencie para o Irã treinamento oficial, serviços ou recursos financeiros, aconselhamento, outros serviços ou assistência relacionados ao suprimento, venda, transferência, manutenção ou uso de armas e material relacionado descrito …[aqui traduzido, tradução de trabalho, sem valor legal].
Embora essas determinações de lei pareçam relacionar-se com o Irã, que não foi citado por violação de qualquer lei internacional e apesar de até os serviços de inteligência dos Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia Atômica terem declarado que o Irã está agindo de acordo com o tratado nuclear, o alvo principal aí, é a Rússia.

Com o levantamento em janeiro de 2016 pelos Estados Unidos e União Europeia das sanções aplicadas pelo regime Obama, a Rússia começou conversações com Teerã para o suprimento de $10 bilhões de dólares em armamento russo, dentre os quais tanques avançados, sistemas de artilharia, aviões e helicópteros. Da mesma forma, a remoção das sanções permitiu que a Rússia negociasse legalmente a entrega de seu sistema avançado antimísseis S-300, de Agosto de 2016.

Na seção da lei que trata do Irã, é evidente o interesse de impedir as relações, incluindo militares, entre Rússia e Irã, parte vital do emergente espaço econômico eurasiano que Washington e o Estado Profundo sentem como grave ameaça ao seu poder.

Vamos, sobre a seção da nova lei que trata da Rússia.

Título II: Seção Russa

A seção sobre a Rússia foi inserida dentro do projeto original sobre sanções contra o Irã. É chamado TÍTULO II – SANÇÕES QUE SE APLICAM À FEDERAÇÃO RUSSA E DE COMBATE AO TERRORISMO E FINANCIAMENTO ILÍCITO.

O Título II justifica as novas e inéditas sanções contra a Rússia citando a anexação da Crimeia, já sancionada e o alegado apoio russo aos separatistas ucranianos na sequência do golpe de estado de 2014 em Kiev, instigado pela CIA, bem como alegações não provadas de que a Rússia teria hackeado o banco de dados do Comitê Nacional do Partido Democrata durante a campanha para as eleições de 2014. Para dourar a pílula, o Congresso acrescenta o envolvimento da Rússia na Síria, mesmo sendo ação perfeitamente legal sob a lei internacional, porque a Rússia foi chamada pelo governo Assad para ajudar a Síria a lutar contra o Estado Islâmico e outros terroristas.

Outra justificativa para as sanções sem precedentes contra a Rússia seria uma suposta “violação dos direitos humanos pela Federação Russa” não especificada.

Claro que os “violadores dos direitos humanos russos” são todos os que se puseram contra as tentativas da CIA de fomentar ‘Revoluções Coloridas’ na esperança de, com isso, impedir a reeleição do Presidente Vladimir Putin nas eleições de março de 2018.

Além disso, em ação muito duvidosa, do ponto de vista da constitucionalidade, de usurpar poderes do Executivo, o Congresso estatuiu que o presidente deixa de ter autoridade para remover sanções contra a Rússia sem prévia aprovação do Congresso.

“Oposição ao Gasoduto ‘Nord Stream II’”

A subdivisão anti-Rússia da Lei, dentre outras disposições incríveis, declara na seção 257: A Segurança Energética da Ucrânia (sic), que, “é política dos Estados Unidos… continuar a se opor ao gasoduto Nord Stream II, dado seus impactos em detrimento à segurança energética da União Europeia, desenvolvimento do mercado de gás na Europa Central e Oriental, e reformas energéticas na Ucrânia.

Como os governos da Alemanha e da Áustria já destacaram fortemente, de quem os governos da União Europeia decidem comprar gás natural é da conta daqueles governos, e não é questão que caiba a Washington decidir.

O Título II continua, dando as razões para esse atropelo extraordinário na Lei Internacional, “…o governo dos Estados Unidos deve priorizar a exportação dos recursos de energia dos EUA no intento de criar empregos nos Estados Unidos, ajudar os aliados e parceiros dos Estados Unidos e fortalecer a política externa do país”.

As novas sanções fazem parte do esforço para dar ao Tesouro (norte)americano o direito de castigar e penalizar companhias europeias que têm negócios com a Gazprom relacionados à proposta de levar o gasoduto Nord Stream até a Alemanha.

Eita! Será que li errado a Lei? O presidente dos Estados Unidos deve impor sanções para que os EUA consigam interromper a construção do Gasoduto EU/Gazprom Nord Stream II, que está próxima de ser completada, ligando Vyborg na Rússia a Griefswald na Alemanha, desviando dos gasodutos da era soviética que cruzam território de uma Ucrânia hoje hostil à Rússia e agindo como fantoche dos EUA?! E deve(ria) fazer isso como parte de um esforço para a criação de empregos nos Estados Unidos?

Ou, mais provavelmente, se trata da atual estratégia dos Estados Unidos repetida incessantemente pela administração Trump, para “dominar o mercado global de energia”, incluindo a exportação de petróleo, gás de xisto na forma de gás liquefeito de petróleo (LNG, na sigla em inglês – NT),exportação de carvão e energia nuclear?

Ferrovias e Mineração Russa

A Seção 233 da Lei também especifica que o Tesouro dos EUA pode determinar sanções contra “entidade estatal que opere no campo de ferrovias ou metalurgia ou mineração da economia da Federação Russa”. Sanções dos Estados Unidos contra a Mineração ferrovias e Indústria Metalúrgica russas?

Por que não agir com honestidade e declarar de uma vez por todas que o Congresso (norte)americano é o ditador absoluto do mundo inteiro, que pode decidir tudo em qualquer lugar? Não se permitem questionamentos…

Além disso, a Lei “proíbe a provisão, exportação ou reexportação… por pessoas dentro dos Estados Unidos de bens, serviços… ou tecnologia de apoio para a exploração ou produção para novos projetos de águas profundas, no Ártico, ou projetos para exploração de gás de xisto… que tenham potencial para a produção de petróleo…” As sanções incluem o poder de “bloquear… quaisquer transações em quaisquer propriedades… de qualquer pessoa determinada pelo presidente que seja sujeito à subseção (a) (1).”

A seção 232 vai atrás do desenvolvimento de gasodutos na Federação Russa, contra qualquer um que “conscientemente faça investimentos… ou venda, empreste ou providencie bens, serviços, tecnologia ou informação à Federação Russa para a construção de gasodutos de exportação de energia… com o valor de $1 milhão de dólares ou mais; ou valor agregado de mercado de $5 milhões de dólares ou mais”. Vai ainda contra qualquer investimento estrangeiro que “direta e significantemente contribua para o fortalecimento da capacidade da Federação Russa de construir gasodutos de exportação de energia”. Tais gasodutos podem ser para a China, Europa, Turquia ou para onde for.

Combatendo a influência russa na Europa e Eurásia

O subtítulo B é denominado Combatendo a Influência Russa na Europa e Eurásia. A seção afirma como “conclusões” do Congresso, sem especificar quais, que “O governo da Federação Russa tentou exercer sua influência na Europa e Eurásia, incluindo nesse rol antigos estados da União Soviética, mediante fornecimento de recursos para partidos políticos, think tanks e grupos da sociedade civil que demonstram desconfiança em relação aos atores e instituições democráticas, promovem visões xenofóbicas e não liberais, e com isso comprometem a unidade europeia”.

A lei ignora convenientemente as centenas de milhões de dólares que o Departamento de Estado, a agência USAID, as ONGs civil financiada pela CIA, pelo National Endowment for Democracy, NED [Fundação Nacional para a Democracia] e outras agências de Washington gastaram nos últimos 25 anos, para exercer a “influência dos Estados Unidos na Europa e Eurásia, incluindo os antigos países da União Soviética, mediante fornecimento de recursos para partidos políticos, think tanks e grupos da sociedade civil”.

E quanto a “comprometer a unidade Europeia”? Desde quando a unidade Europeia ou seu comprometimento é assunto que tenha a ver com os Estados Unidos? Perdão, leitor. Esqueci que agora Washington é ditador autoproclamado, governante absoluto do mundo, o Cão Alfa, a latir ordens para o planeta inteiro…

Para a conter o suposto esforço russo para ‘influenciar’ Europa e Eurásia, a seção 254 da Lei autoriza o gasto de $250 milhões, entre 2018 e 2019 para um Fundo de Combate à Influência Russa (sic).

Os países na esfera do “Combate” dos Estados Unidos incluem Albânia, Bósnia e Herzegovina (com adição da República Sérvia), Geórgia, Macedônia, Sérvia, Moldávia, Kosovo e Ucrânia. As ações de combate são descritas como “construir a habilidade da sociedade civil, imprensa e outras organizações não governamentais para conter a influência e a propaganda da Federação Russa”.

As novas sanções contra a Rússia agem de maneira explícita ao usar esse monte de dinheiro dos contribuintes (norte)americanos para interferir em assuntos internos de países da Europa e da Eurásia: “organizações internacionais não governamentais, como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, a Fundação Nacional para a Democracia, o Fundo para o Mar Negro, o Fundo dos Balcãs para a Democracia, o Centro de Sociedade Civil de Praga, Centro para Qualificação de Comunicações da OTAN, a Fundação Europeia para a Democracia, e organizações relacionadas…

Resumindo, as novas sanções extraordinárias agem abertamente para provocar ‘Revoluções Coloridas’, a “Falsa Democracia” que a CIA distribui pelo mundo, usando a Fundação Nacional para a Democracia e as ONGs aliadas da CIA e do Departamento de Estado (norte)Americano para intervir massivamente nos assuntos internos de todo o espaço terrestre que vai da Europa até a Eurásia. Não é surpresa, dado que a principal figura no Senado dos Estados Unidos que tem o crédito de apoiar fortemente as novas sanções contra a Rússia e o “santo padroeiro” da NED e de virtualmente todas as ‘revoluções coloridas’ promovidas por Washington é John McCain.

A Seção 257 – Segurança Energética Ucraniana (sic) mira explicitamente “os recursos em petróleo e gás natural da Federação Russa, e além disso, sua energia nuclear e companhias estatais de eletricidade.”

Na verdade, a Lei que estabelece as novas sanções dos Estados Unidos é uma bomba nuclear ‘de fragmentação’, com sanções voando em todas as direções – Rússia, Irã, Coreia do Norte, China, companhias europeias de energia e até companhias (norte)americanas de petróleo e outras.

A lei HR-3.364: Lei de Combate aos Adversários dos Estados Unidos Através de Sanções não passa de remake malfeito da famosa série de desenho animado da Warner Brothers, Looney Tunes. Desta vez, coube ao senador John McCain o papel de Patolino, com toda sua claque de senadores e congressistas marchando bravamente atrás do líder, como se fossem patriotas ardorosos, não um bando de lemingues em marcha cega para o abismo da insanidade.

Por sorte, é lei é tão radical que com certeza explodirá na cara de seus apoiadores. Talvez até venha a ser o catalisador que mudará todo o equilíbrio geopolítico mundial, para bem longe do poder que Washington exerce insanamente.*****

Looney Tunes, literalmente “música para doidos”, “música de hospício”, é uma série famosa de desenhos animados da Warner Bros. Animation, tendo ganhado o mundo na época dourada dos desenhos animados, entre 1930 e 1970 [NTs].

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