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Postado em 05/12/2018 2:18

Aviltando a intelligentsia

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por Prabhat Patnaik [*]

[O primeiro-ministro] Narendra Modi disse recentemente, de modo escarninho, que os “naxalitas urbanos” [1] vivem no conforto do ar condicionado. Esta observação acaba por abranger toda a intelligentsia, uma vez que aqueles que falam ou escrevem em público, defendendo o direito a discordar das posições do hindutva [2] , incluindo conhecidos críticos de esquerda – praticamente todos os membros da intelligentsia que mantêm a integridade, foram classificados pelo governo de “naxalitas urbanos”.

A sua observação constitui uma tentativa extremamente grosseira de deslegitimar qualquer posição intelectual que seja desagradável para o governo, sugerindo que os que defendem tais posições vivem confortavelmente e, portanto, não deveriam ser levados a sério. Ou seja, o próprio facto de viverem confortavelmente tornaria falsos os seus argumentos.

Esta afirmação é absurda pelo menos por três razões. Primeiro, a maioria das pessoas presas nos últimos meses como “naxalitas urbanos” eram ativistas dos direitos civis que trabalhavam com pessoas tribais marginalizadas e a viverem com elas em condições difíceis, como autênticos ativistas de todo o tipo, incluindo os ativistas políticos de esquerda, costumam fazer. As condições em que vivem de facto estão muito longe da imagem do conforto do ar condicionado, de Modi.

Em segundo lugar, o próprio Modi e os seus amigos nos grandes negócios e nos media , cujas declarações ele deseja sem dúvida que as pessoas levem a sério como constituindo a “verdade”, não vivem propriamente na penúria. Na verdade, vivem num conforto de ar condicionado muito maior do que quaisquer outros no país. (Um deles até tem um alto edifício em Mumbai só para si).

Em terceiro lugar, e de modo ainda mais pertinente, a validade ou não de uma posição intelectual tem de ser definida intelectualmente e não apenas olhando para o estilo de vida da pessoa que mantém essa posição. Na verdade, quando o estilo de vida da pessoa que mantém uma determinada posição é invocado para denegrir essa posição, então podemos ter a certeza de que, subjacente a tal invocação, há uma incapacidade de confrontá-la intelectualmente.

Mas este hábito de tentar negar posições intelectuais simplesmente tentando rebaixar aos olhos do povo as pessoas que as mantém caracteriza todos os movimentos de direita (por vezes, incorretamente chamados de “populistas”) que se estão a verificar por todo o mundo. Todos eles tentam denegrir posições intelectuais que lhes são intragáveis, não através de argumentos, mas utilizando diversas formas de caluniar o conjunto de intelectuais que defendem tais posições. Mas como eles não têm muitos intelectuais dignos desse nome, porque se tivessem, confrontariam críticas com argumentos ao invés de simples calúnias, suas calúnias aos intelectuais que não estão de acordo com eles limitam-se a rebaixar todos os intelectuais: consideram todos os intelectuais como reais ou potenciais ameaças de grau variável. Em resumo, eles opõem-se à própria atividade intelectual.

Não há nada de surpreendente nas razões porque estes grupos reacionários não têm quaisquer intelectuais dignos desse nome. A intelecção exige fazer perguntas e uma característica destes grupos marcados pelo fanatismo é que os membros dos mesmos devem engolir incondicionalmente o que lhes é transmitido a partir do topo, pelo “líder”. Isso não significa necessariamente que não façam perguntas. Muitos deles não fazem, claro, mas outros fazem-nas, presumivelmente. Mas aqueles que as fazem, mantêm esse facto cuidadosamente camuflado, seja por medo ou por puro oportunismo ou ainda por razões carreiristas.

Porém, o resultado é que a atividade intelectual no seio destes grupos assume a forma de simples propaganda de um conjunto de pensamentos transmitidos, pensamentos que depois são repetidos por todo o grupo. Não assume a forma de qualquer envolvimento independente dos seus membros com ideias ou dúvidas.

Quando um movimento reacionário surge de súbito e rapidamente se guinda à proeminência, ele pode conseguir arregimentar o apoio de algum intelectual importante já conhecido e, dessa forma, alegar um certo pedigree intelectual. Mas, mesmo neste caso, trata-se de uma coexistência do movimento com alguns intelectuais por sua conveniência e não de qualquer atividade intelectual no seio do movimento. Por outro lado, em movimentos antigos e bem instalados, como o Hindutva , o âmbito desses arranjos de conveniência praticamente não existe. Como as ideias são transmitidas a partir do fundador por intermédio dos líderes que o seguiram, alegar um pedigree intelectual emprestado torna-se muito arriscado, não vá criar confusão entre os adeptos devido a alguma falta de sincronia entre as ideias do intelectual “possuído” por conveniência e as ideias transmitidas pelos líderes.

Tais movimentos são portanto intrínseca e essencialmente anti-intelectuais, não apenas anti-esquerda mas opostos a qualquer forma de atividade intelectual independente. Daí oporem-se ao ensino per se, o qual, pela sua própria natureza, exige uma atividade intelectual na procura do conhecimento.

Há aqui uma diferença fundamental entre a esquerda e a direita. A esquerda, tradicionalmente, apoia ideias em geral, na procura de conhecimentos em geral. Sem dúvida esse apoio baseia-se na crença de que, num ambiente destes, as ideias da esquerda darão frutos dado o seu valor intelectual, mas isso é irrelevante. Mas a questão é que as apoia. Muitos ativistas de esquerda na Índia, por exemplo, ajudaram a construir escolas e liceus, não com o objetivo tacanho de propagandear as ideias da esquerda (da forma que o RSS [4] usa as escolas para propagandear as ideias RSS), mas apenas para fomentar o pensamento, para fomentar a busca de conhecimentos na sociedade. Estas instituições não são instituições do Partido, seja em que sentido for, nem instituições controladas pelos ativistas do Partido que as fundaram; pelo contrário, aqueles que as fundaram têm a tendência de se afastarem, depois de plantarem a sementinha para o futuro da sociedade.

A direita, por outro lado, tem uma perspetiva totalmente diferente, que se manifesta no facto de um dos legados mais duradouros do atual governo BJP [5] , que será lembrado durante muito tempo, é o caos em que lançou o sistema de ensino do país, em especial no sistema do ensino superior. Isto não tem origem numa gestão desastrada de um ministro em especial; nem de um tratamento de má qualidade imposto a uma instituição em especial; nem de um simples grupo de pessoas, associadas à direção de instituições de ensino anteriores ao período BJP, e substituídas por outro grupo de pessoas aceitáveis ao BJP, menos competentes ou com menos experiência ou com um espírito menos académico. Os danos têm sido sistemáticos, generalizados e provocados não por qualquer diferença sociológica entre um conjunto de administradores e outro, mas pelo facto estrutural de que o fanatismo hindutva não suporta qualquer escrutínio de si mesmo e, portanto, não suporta qualquer vibrante instituição de ensino superior, visto que a razão de ser de uma instituição dessas é escrutinar tudo.

O hindutva só pode adquirir hegemonia matando o pensamento per se. A oposição à atividade intelectual que lhe é fundamental tem de se transformar obrigatoriamente numa oposição à atividade intelectual, enquanto tal.

Mas não basta que a tribo dos intelectuais seja vitimizada oficialmente. Se estes mantiverem o respeito da sociedade, essa vitimização pode virar-se contra o partido no governo, dada a simpatia que a população tem por eles. A vitimização dos intelectuais tem pois de ser acompanhada pela difamação dos mesmos, para que percam o seu estatuto moral entre a população. A população tem de os ver como “os outros”. Tornam-se necessários para esse objetivo qualificativos como “naxalitas urbanos”, elementos “anti-nacionais”, uma imoral “multidão de língua inglesa”, um grupo promíscuo no “luxo do ar condicionado”. Juntamente com os muçulmanos, os dalits e os grupos marginalizados, também os intelectuais têm de passar a ser estranhos para a população.

Isto torna-se especialmente importante numa sociedade em que os intelectuais sempre foram tidos em alta estima pela população, um legado do nosso passado feudal, baseado nas castas (apesar de os intelectuais de outrora terem sido um grupo muito diferente dos intelectuais duma sociedade pós-colonial que ainda evidenciam as marcas de serem um produto da luta anti-colonialista). Ironicamente, um partido como o BJP que defende aspetos essenciais do nosso passado feudal, como o sistema de castas (que é central em todo o hinduísmo ortodoxo e, portanto, o projeto hindutva ) está a tentar vigorosamente destruir um importante legado desse passado, nomeadamente a estima pelos intelectuais ou pelas pessoas empenhadas em trabalho mental.

Também não é surpresa nenhuma que o esteja a fazer atribuindo-lhes “vícios burgueses”, como viver no conforto do ar condicionado. Contudo, mais uma vez, a ironia consiste no facto de que isso está a ser feito por um governo que afirma que a sua capacidade mais importante é a de anunciar um rápido desenvolvimento bourgeois, ao ponto de abrir a economia à operação desenfreada do capitalismo internacional. Mas esta ironia é inerente à lógica do capitalismo neoliberal contemporâneo.

Notas da tradutora

[1] Naxalitas: Movimento maoísta indiano, radicado sobretudo em zonas rurais.

[2] Hindutva: Antigo movimento nacionalista hindu violentamente anti-muçulmano.

[4] RSS : Organização Patriótica Nacional, organização nacionalista hindu, da ala direita, considerada como organização originária do Partido Bharativa Janata, o partido no governo da Índia.

[5] BJP: Partido Bharativa Janata, Partido do Povo Indiano, lidera o governo da Índia.

Ver também:

Também sou uma naxalita urbana , de Arundhati Roy

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/1125_pd/vilifying-intelligentsia

Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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