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Postado em 13/07/2018 4:03

Chegando o tsunami do povo brasileiro

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Pedro Augusto Pinho*

Nos últimos 50 anos, o Brasil passou por dois momentos de crescimento com políticas e projetos distintos.

O primeiro resultou de um golpe dentro do golpe, quando militares nacionalistas assumiram o poder, contrariando o projeto colonial do golpe de 1964. Foi um projeto autoritário, com o apoio e participação do empresariado nacional, principalmente o paulista, e com repressão violenta às oposições. O projeto estava sintetizado no slogan Brasil Grande. “A formulação da política econômica tem que ser subordinada aos grandes objetivos políticos e informada pela filosofia do projeto Desenvolvimento-Liberdade-Segurança. É preciso distinguir a ação direta do governo (o governo como agente econômico produtor de bens e serviços) de sua ação indireta (a formulação da política econômica) que condiciona o comportamento do setor privado” (Antonio Delfim Netto, GGN, 02/06/2015).

Neste período sobressai a figura do general Geisel que proporcionou o desenvolvimento das principais tecnologias do século atual, em verdadeira visão de estadista: informática, nuclear, aeroespacial e energética. Todo este esforço nacional começou a ser destruído ainda com o general Figueiredo, aguçou-se nos governos do PSDB (Fernando Henrique Cardoso-FHC) e atinge o paroxismo com o golpe de 2016.

O segundo momento ocorre com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi bastante diferente do anterior em vários aspectos. Um foi o aproveitamento nacional de momento favorável da economia internacional, outro foi o de privilegiar a distribuição de renda, levando cerca de 40 milhões de brasileiros a sair da área de extrema pobreza. Criou-se, associando com  aumento real do salário mínimo, um mercado interno que gerou emprego e renda como em raros momentos da história do Brasil.

Neste segundo período ocorreu o evento extraordinariamente importante da descoberta de petróleo em reservatórios do pré-sal. A destacar a elevada capacidade tecnológica e gerencial da Petrobrás, a compreensão do significado desta descoberta pelo Governo Federal e o projeto de aproveitamento dessa riqueza para a educação e a saúde dos brasileiros.

O golpe de 2016 concentrou-se na destruição de todos os benefícios que estes dois períodos trouxeram para o Brasil, a iniciar pela alienação da soberania nacional nas decisões relativas ao aproveitamento do pré-sal, às conquistas nas áreas aeroespacial e nuclear, e na transferência para o exterior dos resultados positivos deste esforço nacional.

Assim, os resultados em dois anos do golpe são o desemprego, a redução dos salários reais, a recessão econômica, o retrocesso cultural e uma revolta que não se materializa em movimento social pelo fator alienante e antinacional da comunicação de massa; atividade comercial, desvinculada da formação cultural e educacional brasileira, oligopolizada em seis famílias e uma seita religiosa também interessada prioritariamente no lucro financeiro.

A situação do Brasil, no fim do primeiro semestre de 2018, em muito se assemelha à francesa, às vésperas da Revolução de 1789.

Transcrevo do prefácio que António Ruas escreve para sua tradução da “História da Revolução Francesa”, de Thomas Carlyle:

“Dá-se o seguinte, um governo que já não governa nada, nem o pensamento francês, nem a economia, nem as finanças, nem a nobreza, nem o clero, nem o povo. Quer dizer: era um mundo a gritar pela morte, eram os próprios condenados a pedir a forca ou o veneno, era uma dissolução geral de instituições e crenças”.

Norbert Elias, em “O Processo Civilizador” (1939), descrevendo o comportamento burguês (observe que Elias não trata da alienação aristocrata) neste período que antecede a Revolução Francesa, escreve:

“Não era em absoluto verdade que toda a burguesia desejasse a reforma e que apenas a aristocracia a ela se opusesse. Houve certo número de grupos claramente identificáveis de classe média que resistiram até o fim a qualquer tentativa de reforma e cuja existência, na verdade, estava ligada à preservação do ancien régime na sua forma original. Esses grupos incluíam a maioria dos altos administradores, a noblesse de robe, cujos cargos eram propriedade de família no mesmo sentido em que uma fábrica ou empresa é hoje propriedade hereditária. E se a reforma fracassou na França, se as disparidades da sociedade finalmente romperam de forma violenta o tecido da estrutura institucional, grande parte da responsabilidade coube à oposição desses grupos de classe média”.

Não seremos ingênuos ou levianos em imaginar que depois de mais de dois séculos, com toda transformação política, econômica, tecnológica, as condições de revolta social sejam idênticas.

Mas muitas situações tem suas semelhanças.

Vejamos o caso das instituições consideradas fundamentais na sociedade hodierna: a representação congressual, a estrutura judiciária, as forças armadas.

Cada dia mais se desnudam seus compromissos de classe, ou menos ainda, de grupos de poder.

O juiz pertence à família de fundadores de um partido dominante em sua região e não se considera suspeito de julgar as causas que interessam diretamente à manutenção do poder familiar. Qual a avaliação que a população fará deste juiz, na medida que for relacionando suas decisões com os interesses políticos, econômicos, do status social de sua família e apoiadores?

Hoje a justiça do Paraná, do Rio Grande do Sul e de outros locais está sob forte suspeita, quando não inteiramente desacreditada. E para a desobediência não serão necessários muitos novos eventos.

Como acreditar em oficial general das forças armadas que não defende o País da espoliação por empresas estrangeiras, as quais corrompem parlamentares e membros do executivo para auferirem vantagens e lucros, e ainda se manifesta como militante de partido político contra qualquer ação política, administrativa ou judicial que lhe for oposta?

Poderia enumerar uma série de incongruências, parcialidades, contradições que a mídia já não consegue encobrir.

Entendo ser da mídia oligárquica brasileira a maior responsabilidade, além de promover a alienação da população, cria estereótipos, movimentos de ódio, deseduca todos, não há exclusão por classe nem currículo acadêmico. É o mais sério obstáculo à transformação do País. E será, a meu ver, a grande responsável se o tsunami social for destruidor, qual o terror na Revolução Francesa, atingindo todas as classes, todos setores, cometendo injustiças e vilanias.

Infelizmente a elite política não entende, com as pequenas ressalvas, que não haverá vencedor quando explodir o tsunami.

Antes de prosseguir nesta linha de análise é importante verificarmos a transformação do poder. Considero grande falha não se ensinar nas escolas militares, nas escolas de administração, de sociologia e de política a teoria do poder, a cratologia.

Até o governo Geisel, o sistema de poder dominante era o industrial. Havia duas vertentes, o capitalismo industrial que o principal país representante eram os Estados Unidos da América (EUA) e o socialismo industrial na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Mas combatendo contra ambos havia o capitalismo financeiro, originário da Inglaterra, que tinha como arma a dívida. Os capitalismo e socialismo industrial tinham a produção e consumo como meta.

Nos anos 1980, o capitalismo financeiro tornou-se o poder mundial. Para simplificar o denominarei “banca”, muitos o chamam Nova Ordem Mundial (NOM ou NWO, em inglês).

Há fundamental diferença entre estes poderes. O capitalismo financeiro é estéril, nada produz, vive de especulação com títulos e moedas. Não é difícil associá-lo à grande corrupção que envolve todo mundo contemporâneo: nos negócios, nos Estados, nos esportes, em todas atividades humanas, pois tudo se resume ao lucro monetário e rápido (tempo de retorno).

A conquista dos Estados Nacionais, para dar total mobilidade ao capital (sob disfarce de uma inexistente globalização – por que passaporte? por que restrição às migrações) e isentá-lo de tributação (veja as medidas dos governos da banca – FHC e Temer), é a principal meta deste capitalismo financeiro.

Chega a ser irônico ler ou ouvir dos opositores de Lula e do PT (sempre citando José Dirceu) que estes estavam “aparelhando o Estado”. Observe o caso do habeas corpus concedido a Lula no domingo 08/07/18; quase toda cúpula do judiciário, da polícia federal e do ministério público está dominada pelos “tucanos”. E quem, senão a elite escravagista e rentista, sempre dominou o poder no Brasil e aparelhou o Estado para manter seus privilégios, seus ganhos fáceis e suas alianças com os interesses estrangeiros?

É esta aparelhagem do Estado por interesses que nem são populares nem nacionais que fará brotar, em momento de surpresa para todos, o tsunami do povo brasileiro.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador

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