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Postado em 18/12/2016 7:49

Chubais – A próxima cabeça neoliberal a rolar na Rússia?

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Dos barões-ladrões aos privatizadores-ladrões
por F. William Engdahl
Aposto que pouca gente, fora da Federação Russa, conhecerá o nome de Anatoly Chubais, atual presidente de uma empresa russa de alta tecnologia, chamada Rusnano. Na sequência da escandalosa detenção, em 15 de novembro, de Alexei Ulyukaev, ministro da Economia do primeiro-ministro Dmitry Medvedev, acusado de aceitar luvas de pelo menos dois milhões de dólares numa privatização estatal envolvendo as empresas de energia Rosneft e Bashneft, os holofotes viraram-se para a empresa de Anatoly Chubais, o czar das privatizações dos anos 90, de Boris Yeltsin, e atual presidente da Rusnano, uma empresa estatal. [1] Se forem pronunciadas formalmente as acusações contra Chubais – inegavelmente um dos mais odiados “reformistas” cleptocratas da era Yeltsin, que trabalhou com a CIA durante os anos 90 na pilhagem do património estatal russo no valor de centenas de milhares de milhões, apenas em troca de tostões – isso significará que Putin se sente numa posição suficientemente forte para depurar a mafia liberal que defende o mercado livre e que ainda mantém um forte controlo no desenvolvimento da economia russa.
No dia 16 de novembro, um dia depois da dramática detenção de Ulyukaev, promotores públicos e polícia invadiram os escritórios da Rusnano de Chubais. [2] De notar que, nos relatórios do interrogatório de Chubais e de outros funcionários de topo da Rusnano, pelos promotores, vários deles fugiram da Rússia nos últimos meses para evitar a acusação. [3] Neste momento, Chubais mantém-se detido e afirma veementemente a sua inocência.
Na minha opinião, há muito mais em jogo do que a inocência ou a culpa de Chubais. Esta ação, se combinada com a detenção de Ulyukaev, assinala uma importante limpeza de elementos corruptos que, começando ainda antes de 1991, se organizaram para vender a Rússia à CIA e a especuladores ocidentais, como George Soros. Parte da história que, em geral, tem sido denegrida no Ocidente quanto ao verdadeiro papel de Anatoly Chubais e da presidência de Yeltsin, é muito instrutiva para também percebermos a raiva irracional de Washington e dos bancos e dos oligarcas norte-americanos contra Putin e contra tudo o que ele faz para restaurar a soberania e a estabilidade da Rússia.
O Golpe ‘democrático’ de Yeltsin da CIA
A pilhagem da Rússia – da nação russa, do estado russo, do povo russo – que começou no final dos anos 80, foi um golpe de estado preparado pela CIA norte-americana, em conjunto com as redes vigaristas dirigidas pelo antigo diretor da CIA, na altura o presidente George Herbert Walker Bush, e continuado pelo sucessor de Bush, Bill Clinton. Relatos ocidentais do que ocorreu na Federação Russa, durante os anos 90 de Yeltsin, falam da “mafia russa” ou do “crime organizado russo”. Nunca referem, nem sequer ao de leve, que os russos que pilharam o seu próprio país tinham sido organizados e pagos, enriquecendo, pelo Ocidente, ou seja, pelas redes Old Boy da CIA, leais ao anterior diretor e depois presidente dos EUA, George Herbert Walker Bush.
O que ocorreu nos anos 90, sob a presidência russa de Boris Yeltsin, foi descrito por uma fonte interna conhecedora norte-americana, Mortimer Zuckerman, membro do Conselho de Nova Iorque para as Relações Externas e proprietário do US News & World Report , como “o maior desbarato da História da riqueza de uma nação”. O desbarato, ou mais precisamente o roubo, foi feito através de roubo descarado, de guerra monetária e de um programa fraudulento de ações como empréstimos a empresas, dirigido por Anatoly Chubais. [4]
O ataque da administração de Bush Senior à Rússia pós-comunista, batizado de “Operação Hammer”, tinha quatro elementos secretos distintos. A CIA financiou secretamente o golpe dos generais, em agosto de 1991, contra o líder soviético Mikhail Gorbachev. Usou o seu orçamento de guerra secreto para desestabilizar o rublo. Usou os corruptos funcionários russos do banco nacional Gosbank para organizar o roubo das reservas de ouro oficiais do país, quase por inteiro. Depois, iniciou o controlo sistemático das indústrias energéticas estratégicas, das matérias-primas e das indústrias militares estatais na União Soviética, através de operações de privatização impostas pelo FMI, que foram dirigidas por Yegor Gaidar, ministro das Finanças de Yeltsin, e pelo seu estreito colaborador, Anatoly Chubais, o responsável pela privatização estatal. Gaidar e Chubais trabalharam em conjunto com Jeffrey Sachs, de Harvard, e com outros amigos do multimilionário George Soros, especulador de fundos de investimento, na pilhagem literal da Rússia, como uma fonte interna o descreveu. [5]
À medida que os generais vigaristas ex-KGB e os seus protegidos, escolhidos a dedo, pilhavam as reservas de ouro da agora defunta União Soviética, assim como os significativos ativos financeiros do agora banido Partido Comunista, tudo isso com a bênção e a cumplicidade de Boris Yeltsin e do seu círculo interno, os Old Boys da CIA de Bush prepararam-se para desencadear a fase seguinte, o controlo sistemático das indústrias energéticas estratégicas, das matérias-primas e das indústrias militares estatais na União Soviética, através de operações de privatização impostas pelo FMI, que foram dirigidas por Yegor Gaidar, ministro das Finanças de Yeltsin, e pelo seu cúmplice Anatoly Chubais.
Em novembro de 1991, Chubais passou a ministro do gabinete de Yeltsin, onde geria o portfólio da Rosimushchestvo – a Comissão para a Gestão do Património Estatal, que Yeltsin decretou ser uma organização responsável pela privatização das companhias estatais da Rússia definida. Gaidar e Chubais trabalharam com George Soros, o especulador de Wall Street e fundador da National Endowment for Democracy [Fundação Nacional para a Democracia – NT], uma fachada da CIA. Soros, por sua vez, levou Jeffrey Sachs, o arquiteto da “terapia de choque económico” da Polónia, e outros “amigos” americanos, para os círculos de Yeltsin.
George Soros e as suas Fundações de Sociedade Aberta tinham sido ligados à CIA pelos serviços de informações chineses e outros. As suas instituições de Sociedade Aberta apareciam “por coincidência” em todas as situações em que a National Endowment for Democracy, fachada da CIA, e o Departamento de Estado norte-americano procuravam uma mudança de regime para um governo pró-Washington. Já em 1987, quando Gorbachev ainda chefiava a União Soviética, Soros aproveitou os esforços do regime para a reforma e para a abertura cautelosa ao Ocidente, para fundar o seu Instituto de Sociedade Aberta em Moscovo. Aí, podia dar dinheiro a investigadores importantes e a outros para apoiar a investigação sobre “economia do mercado”. [6]
Todas as ações de Yeltsin foram orientadas pela CIA e por vigaristas manipuladores da KGB, nomeadamente, pelos generais da KGB Filipp Bobkov, Alexei Kondaurov e pelo guarda-costas pessoal de Yeltsin, o general Alexander Korzhakov – o grupo conspirador que, em coordenação com George Bush Sénior e os seus Old Boys da CIA, descreveu e encenou a falsa tentativa de “golpe” da KGB contra Gorbachev que, com o apoio dos media ocidentais dominantes, projetou Yeltsin como o “paladino da democracia”.
Em dezembro de 1991, quatro meses depois, Yeltsin, na altura presidente da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, a maior república” federada no seio da União Soviética, reuniu com os presidentes da Ucrânia e da Bielorrússia e assinou aquilo a que se chamou o Pacto de Belaveja, declarando a dissolução da URSS que existia formalmente desde 1922. Foi a tónica, no golpe apoiado pelos EUA, para começar a pilhagem da Rússia. Nessa altura, Gorbachev já estava completamente desacreditado e tinha-se demitido.
A terapia de choque da Rússia, Harvard e a CIA
Nos termos do acordo de dissolução, a Rússia assumiu a posse de todos os ativos estatais da anterior URSS, agora desaparecida, assim como assumiu todas as dívidas externas da URSS. Yeltsin recebeu ordens para que um amigo de George Soros, de 32 anos, chamado Yegor Gaidar, fosse o seu czar da Economia. Gaidar, que passou formalmente a ministro das Finanças da nova Federação Russa em fevereiro de 1992, nomeou chefe das privatizações outro jovem economista, Anatoly Chubais.
Gaidar foi mandado para a Polónia para estudar o modelo “Terapia de Choque” polaco, o processo que tinha sido introduzido por Jeffrey Sachs, o jovem economista de Harvard, protegido de George Soros. De volta a Moscou, Yegor Gaidar, usando o exemplo polaco de Sachs, convenceu Yeltsin a “deixar subir os preços para aumentar a oferta e a abolir as barreiras comerciais para que as mercadorias estrangeiras pudessem encher as prateleiras das lojas”.
Era uma mentira. A economia soviética era auto-suficiente em tudo, exceto talvez em bananas e café. As lojas estavam cheias até que Yeltsin anunciou, em novembro de 1991, a data exata em que os controlos dos preços seriam abolidos, em 31 de dezembro desse ano. Os proprietários das lojas retiveram as suas mercadorias, à espera da anunciada bonança de lucros do descontrolo de preços. De repente, as lojas ficaram vazias. Uma semana depois do discurso de Yeltsin, foi imposto o racionamento aos moscovitas.
Gaidar era instruído pelo Tesouro dos EUA da nova administração Clinton que tomou posse em janeiro de 1993. A pessoa chave no Tesouro para a subsequente pilhagem Gaidar-Chubais da Rússia de Yeltsin era um antigo economista de Harvard chamado Lawrence Summers. Summers usou a poderosa influência do Departamento do Tesouro norte-americano para arranjar dólares do Fundo Monetário Internacional para o governo Yeltsin, sedento de dinheiro vivo, dizendo a Yeltsin e a Gaidar que a Rússia tinha que se abrir a importações sem restrições se quisessem receber empréstimos do FMI e de outras agências internacionais.
Gaidar em breve seguiu uma política que servia as exigências de Washington e dos novos oligarcas banqueiros do KGB, em volta do Banco Menatep de Mikhail Khodorkovsky e de outros. Com os decretos de Gaidar, as manufaturas russas iriam à falência em face da competição externa sem restrições, mas a banca interna, tal como o Menatep, controlada pelos generais do KGB e pelos bancos ocidentais ligados à CIA, seriam protegidos contra a competição.
Depois da vitória eleitoral de novembro de 1992, de Bill Clinton, Larry Summers, o novo vice-secretário do Tesouro dos EUA, responsável pelas “reformas” da Rússia, também antigo professor economista de Harvard, levou para Moscou um grupo dos seus antigos colegas de Harvard, incluindo Jeffrey Sachs, o conselheiro de George Soros da Terapia de Choque polaca, e Andrei Shleifer, professor de economia, sob os auspícios do Instituto Harvard para o Desenvolvimento Internacional (HIID). O triângulo Sachs-Shleifer-Summers orquestrou essencialmente todos os aspetos chave na implementação da “terapia de choque” de Gaidar-Chubais no início dos anos 90 de Yeltsin.
Em 1991, Summers tinha sido economista chefe no Banco Mundial, onde Summers nomeara o seu antigo aluno de Harvard, Shleifer, russo-americano, como “conselheiro” do Banco Mundial para o governo de Yeltsin. Pouco depois de Summers passar a vice-secretário do Tesouro na administração Clinton em 1993, Shleifer entrou para o Instituto Harvard para o Desenvolvimento Internacional (HIID) de Jeffrey Sachs, como chefe das operações em Moscou.
O HIID foi inteligentemente escolhido por Summers como a principal organização consultora para trabalhar com Gaidar e Chubais, para organizar a colossal pilhagem, conhecida por privatização da Rússia. Summers, a partir do seu gabinete do Tesouro em Washington, nomeou todos os principais agentes na privatização/pilhagem da Rússia de Chubais no início dos anos 90. Era aquilo a que se viria a chamar uma mafia de Harvard. Summers contratou David Lipton de Harvard, um antigo sócio consultor da Jeffrey D. Sachs & Associates, para vice-secretário adjunto do Tesouro para a Europa de Leste e Antiga União Soviética. Sachs foi nomeado diretor do HIID em 1996. O HIID recebia subsídios USAID para o “trabalho” do Instituto na Rússia. [10]
A USAID era conhecida como uma agência de fachada da CIA, mantendo o papel da CIA de mudança de regime escondido por detrás do véu de uma organização caritativa do governo dos EUA, que fomentava o desenvolvimento económico. Era um elo fundamental de dinheiro para dirigir cada passo das operações de privatização de Chubais, através dos Boys de Harvard Summers-Sachs. [11]
Harvard foi uma escolha inteligente para ser o operador prático da CIA para a privatização de Chubais. Os dinheiros da CIA, via Universidade de Harvard, davam uma aura de respeitabilidade académica imparcial e de negação plausível de que era a CIA a responsável. Shleifer, um emigrante nascido na Rússia, e protegido de Summers, já era professor titular de economia em Harvard desde os 30 anos. Passou a chefe do projeto Rússia do HIID de Sachs, com sede em Moscovo. Depois, Summers levou mais um Boy de Harvard, outro antigo consultor de Summers no Banco Mundial, chamado Jonathan Hay. Em 1991, na Escola de Direito de Harvard, Hay também passara a ser consultor legal sénior para a GKI, a organização de privatização estatal de Chubais. No ano seguinte, em 1992, Hay passou a diretor geral do HIID em Moscou. Hay assumiu amplos poderes sobre empreiteiros, políticas e especificações de programas. Não só controlava o acesso ao círculo de Chubais como era o seu porta-voz. [12]
Tanto Jonathan Hay como Andrei Shleifer foram posteriormente identificados como agentes da CIA.
Vladimir Putin, no diálogo anual de abril de 2013, com os cidadãos russos, embora discretamente não tenha referido nomes, referiu-se a Hay e a Shleifer como agentes identificados da CIA que trabalhavam com Chubais e Gaidar na privatização criminosa da Rússia. Putin disse: “Soubemos agora que funcionários da CIA dos Estados Unidos funcionavam como consultores de Anatoly Chubais. Mas o mais engraçado é que, quando eles regressaram aos EUA, foram acusados de violarem as leis do seu país e de terem enriquecido ilegalmente no decurso da privatização na Federação Russa”. [13]
Em 2006, o Tribunal Distrital norte-americano em Boston tinha multado Hay e Shleifer, pessoalmente, em 2 milhões de dólares e a Universidade de Harvard em 26,5 milhões de dólares por fraude e por desvio de fundos governamentais para enriquecimento privado. Nesse mesmo ano de 2006, Summers – que, na altura, já era presidente de Harvard, foi forçado a demitir-se, aquando da revelação do seu papel nos escândalos do HIID de Moscou. Antes disso, tinha conseguido atribuir a Shleifer uma cadeira de professor em Harvard. Hay posteriormente, reapareceu como fundador do ramo ucraniano do Centro Polaco para Investigação Social e Económica (CASE) de “mercado livre”, durante o golpe de estado da CIA em Kiev, em 2014. [14]
A privatização criminosa da Rússia de valiosos ativos estatais que Hay e Shleifer criaram, em conjunto com Anatoly Chubais e Yegor Gaidar, após 1992, foi feita até ao último pormenor por Chubais, em cooperação com os seus novos consultores americanos. Quando o anúncio da privatização dos propostos “vales-por-ações” (“vouchers-for-shares”) obteve uma resposta fria dos russos, já vacilantes sob o choque da liberalização de preços, Hay e Shleifer arranjaram astutos especialistas norte-americanos das Relações Públicas da Burson-Marsteller e do Grupo Sawyer Miller, para traçarem uma campanha a ser transmitida nos canais da TV dos recém-criados oligarcas russos para convencer os russos a aceitar o programa.
Chubais, enquanto chefe do GKI, a organização de propriedade estatal, emitiu 150 milhões de “vales” para cada um de todos os cidadãos. Por seu turno, eles podiam investir esse vale numa pequena ação numa empresa ou loja estatal russa privatizada ou vendê-lo a um preço de mercado instituído, indexado ao dólar norte-americano, claro. Como a maior parte dos russos nem sequer sabia se receberiam o próximo pagamento das suas pensões, ou se encontrariam trabalho na economia industrial em colapso, havia um resultado previsível na Terapia de Choque Sachs-Harvard-Chubais. Milhões venderam os seus vales pelo mesmo preço. Teria sido uma ideia louca se Chubais e Gaidar se tivessem preocupado com o futuro económico da Federação Russa. Foi brilhante, se o que eles queriam era criar oligarcas multimilionários em dólares, e foi isso que eles fizeram.
Os vales podiam ser comprados ou vendidos em cada esquina na Rússia, no início de junho de 1992. Eram trocados segundo as novas trocas de mercadorias não regulamentadas em Moscovo, instituídas por Jonathan Hay de Harvard com o dinheiro da USAID canalizado via HIID. Fundos de investimento em vales não regulamentados (deliberadamente, um decisão de Gaidar, Chubais e seus consultores Harvard da CIA) surgiram por toda a parte para recolher os milhões de vales dos cidadãos. O rublo foi equiparado internamente ao dólar americano, por conselho da equipa HIIF de Sachs. Nos vinte meses que durou o programa vales-por-ações, o preço passou de 20 dólares para 4 dólares por vale. Como se transacionavam livremente, chegara a altura de os oligarcas multimilionários em volta de Yeltsin que já tinham acumulado enormes quantias, poderem comprá-los, e foi o que eles fizeram. [15]
Cerca de seiscentos fundos de vales obtiveram 45 milhões de vales. O maior, intitulado Primeiro Vale, recolheu 4 milhões de vales. [16]
Ao preço fixado para os vales, Chubais e os seus Boys de Harvard tinham avaliado toda a economia russa – o que incluía a maior empresa de níquel do mundo, algumas das maiores empresas mundiais de petróleo e gás, incluindo a Sibneft e a Gazprom, a RUSAL, a maior empresa do mundo de alumínio – num total que era menor do que o valor de mercado da empresa General Electric dos EUA. O valor facial de cada vale era de 10 mil rublos, que Chubais promoveu mentindo ao público, afirmando que um vale seria suficiente para pagar dois ou mesmo três automóveis Volga.
Como tinham sido autorizados pelas redes da CIA de Bush, que controlavam o lado financeiro da mafia de Yeltsin, a serem os primeiros russos com muito dinheiro, os oligarcas selecionados de Yeltsin puderam comprar centenas de milhares de vales e trocá-los por indústrias inteiras, que posteriormente seriam despojadas e vendidas. Embora supostamente estivessem a agir por conta do estado, os leiloeiros dos bancos de propriedade dos oligarcas manipularam o processo. Foi assim que Mikhail Khodorkovsky do Banco Menatep obteve uma quota de 78% como proprietário da petrolífera Yukos, no valor de cerca de cinco mil milhões de dólares, por apenas 310 milhões de dólares. Foi assim que Boris Berezovsky obteve a Sibneft, outro gigante do petróleo, no valor de três mil milhões de dólares, por cerca de cem milhões. [17]
Usando as suas ligações, Khodorkovsky pôde comprar várias fábricas em concursos de investimento, e grandes blocos de ações em madeira, titânio, tubagem e fundições de cobre. No total, assumiu o controlo de mais de cem empresas antes de obter a Yukos. Nos leilões, com base no número total de vales que estavam em circulação, todo o sistema industrial russo, minas, empresas petrolíferas, fábricas, tinham um valor total de menos de 12 mil milhões de dólares. [18]
Sob a pressão do Parlamento, Chubais concordou proibir a venda de vales de empresas estatais a investidores estrangeiros. Mas houve duas exceções dignas de nota feitas por Chubais. Em 1995, na sequência da vitória do referendo de Yeltsin, financiado por Soros, a Harvard Management Company (HMC), que investe o maior donativo da universidade, e George Soros, que levou Sachs de Harvard para Chubais, foram as únicas entidades estrangeiras que foram autorizadas a participar. Tanto a HMC como Soros passaram a ser os principais acionistas da Novolipetsk, a segunda maior siderurgia da Rússia, e da Sidanko Oil, com reservas que ultrapassam as da Mobil. A HMC e Soros também investiram no mercado interno russo de obrigações GKO, de alto rendimento, subsidiado pelo FMI. Em 1997, comprou 24% da Sviazinvest, a gigante das telecomunicações, juntamente com Vladimir Potanin do Uneximbank, o porta-voz nominal dos novos oligarcas russos. A certa altura, Soros afirmou que tinha investido dois mil e meio milhões de dólares nesses ativos russos pelos sujos preços baixos que Chubais tinha estipulado deliberadamente. [19]
Soros vai em socorro de Yeltsin
Isto fez com que os cidadãos russos se sentissem ludibriados, totalmente lixados, furiosos quando se desvaneceram os seus sonhos de um prometido quinhão na “propriedade privada capitalista”, juntamente com as suas poupanças, durante a hiperinflação da impressão de moeda do Banco Central, outra parte da Operação Hammer de George H.W. Bush. Em 1993, aumentaram drasticamente as pressões de todos os lados, incluindo da Duma. A população exigia ação. O Supremo Soviete, a câmara alta, começou a redigir uma lei que congelaria todo o processo de privatizações. A oposição começava a ser tão grande que Chubais, por fim, teve que se basear principalmente nos decretos presidenciais de Yeltsin, em vez de na aprovação parlamentar, para a sua implementação. O homem de Moscou do HIID de Harvard, o Jonathan Hay da CIA, e os seus associados do HIID, redigiram muitos desses decretos. Walter Coles, da USAI, cujo gabinete financiava as privatizações Chubais através do HIID, reconheceu: “Se precisávamos de um decreto, Chubais não tinha que passar pela burocracia”. [20] Os esforços nascentes da Rússia para instituir uma certa forma de democracia parlamentar ou mesmo para vigiar o poder ditatorial presidencial pouco interesse tinham para os funcionários de Washington pu para Chubais e a sua cabala em volta de Yeltsin.
O referendo Soros-Yeltsin
Nessa altura, quando a oposição ameaçava fugir ao controlo, Yeltsin sentiu-se forçado a concordar com um referendo nacional sobre todo o processo de privatização. A data iria ser 25 de abril de 1993.
O referendo continha quatro perguntas sim/não: (1) Apoia Yeltsin? (2) Apoia a política económica de Yeltsin? (3) Quer eleições antecipadas para presidente? E (4) Quer eleições antecipadas para o parlamento?
Convencido de uma derrota certa, Chubais, provavelmente a conselho dos seus mentores de Harvard, arranjou uma reunião secreta com o multimilionário norte-americano George Soros. Soros concordou financiar, a favor de Yeltsin, a campanha do referendo. Soros injetou um milhão de dólares, uma soma enorme na Rússia daquela época, em contas offshore, destinadas a Chubais usar para comprar a orientação dos “media”. Yeltsin sobreviveu por uns magros 52% e a privatização das principais empresas industriais russas prosseguiu. [22] Yeltsin estava a entregar as joias da coroa e muito mais a um grupo conspirativo de oligarcas russos apoiados pela CIA, assim como posteriormente ao próprio Soros.
A partir de Washington, Summers no Tesouro arquitetou a privatização Chubais-Gaidar, e Jeffrey Sachs e Andrei Shleifer transmitiram diretamente os planos aos consultores económicos de Yeltsin. A privatização Chubais-Washington dos ativos da Rússia foi um roubo numa escala sem precedentes em qualquer nação, mesmo em tempo de guerra. De 1992 a 1994, a propriedade de 15 mil empresas foi transferida do controlo estatal principalmente para os novos oligarcas multimilionários, como Khodorkovsky e Berezhovsky, através do programa de vales Chubais-Washington.
Oligarcas compram a reeleição de Yeltsin
Em 1996, com a economia russa mergulhada profundamente numa hiperinflação, Yeltsin enfrentava uma derrota certa nas eleições programadas. O dirigente do Partido Comunista, Gennadi Zyuganov, que prometia o regresso à estabilidade, estava muito à frente nas sondagens. Alguns dos consultores mais próximos de Yeltsin até sugeriram o cancelamento das eleições e a declaração de uma ditadura de facto. Nessa altura, a filha de Yeltsin, Tatyana Borisovna Yumasheva, tinha passado a ser a consultora mais próxima do pai, juntamente com Berezhovsky, Guzinsky e os outros oligarcas criados pela USAID e pela CIA. Os media russos rotularam a clique que controlava a Rússia, em especial depois do ataque cardíaco de Yeltsin naquele ano, de “A Família”, como na família da mafia, não uma família de sangue, embora fosse, de facto, a filha Tatyana a Capo di tutti capi da família devido à sua influência sobre o presidente. [23]
Na sequência do êxito do Partido Comunista Russo nas eleições parlamentares, ou Duma, em dezembro de 1995, o Fundo Monetário Internacional fez um empréstimo extraordinário de 10,2 mil milhões de dólares ao governo de Yeltsin, em que mil milhões eram destinados secretamente por Washington à campanha para reeleger o presidente Yeltsin nas eleições de 1996. Posteriormente, vieram a público gravações de conversas entre Clinton e Yeltsin que mostraram que, em troca, entre outros favores, Yeltsin isentaria as exportações da Tyson Chicken para a Rússia – na altura um negócio na ordem dos 700 milhões de dólares por ano – da ameaça de um aumento da tarifa de 20%. A Tyson Chicken era um apoiante e contribuinte de campanha de Clinton de longa data, com sede em Arkansas.
Berezhovsky e Guzinsky, os novos oligarcas russos, apoiados por Washington, receando a perda dos seus milhares de milhões roubados para os comunistas da oposição, formaram aquilo a que chamaram o “Grupo dos Sete”, que incluía Berezhovsky, Guzinsky, Khodorkovsky, Potanin, Vinogradov, Smolensky e Friedman. Com a ajuda de comentadores políticos de Madison Avenue, o Grupo dos Sete – que possuíam as duas principais estações de TV, enquanto a terceira continuava estatal, assim como a principal imprensa – realizaram uma campanha mediática ao estilo dos EUA, enquanto bloqueavam Zyuganov de comprar tempo de antena. Os pósteres de Yeltsin tinham o slogan “Escolhe com o Coração”. Outro anúncio apresentava fotos de família de Yeltsin, enquanto clips na TV recordavam acontecimentos da sua infância: como atleta, como rebelde, como pai, e como avô. E, em tudo, música sentimental…
Os oligarcas contrataram Anatoly Chubais, o homem responsável pela criação das suas fortunas, como diretor da campanha de Yeltsin. Chubais criou um fundo privado chamado o Centro para a Proteção da Propriedade Privada e recebeu 5 milhões de dólares do Grupo dos Sete para a campanha. Criaram-se jornais falsos e imprimiram-se notícias, afirmando a descoberta de atas secretas de uma reunião de dirigentes do Partido Comunista em que Zyuganov teria dito: “Não poderemos dar ao povo nada do que prometemos”. O fundo de Gaidar para a reeleição também canalizou centenas de milhares de dólares, uma fortuna na época da hiperinflação do rublo, para importantes jornalistas escreverem artigos fraudulentos elogiando Yeltsin e desacreditando Zyuganov. [26]
O facto de os oligarcas terem quase o monopólio da TV e da imprensa russa tornou possível elevar a votação em Yeltsin até aos 54%. O Politburo Corporativo Russo ficou assim firme na sela, com os seus cavalos Yeltsin e Chubais. [27]
O custo humano da Terapia de Choque russa, imposta pelos EUA, realizada por Anatoly Chubais, Yegor Gaidar, em conjunto com George Soros, Jeffrey Sachs e um grupo de operadores financeiros e legais, ligados à CIA, como Jonathan Hay e Andrei Shleifer, foi inacreditável. Entre 1991 e 1997, o PIB russo – o valor de todos os bens e serviços que a Rússia produz – caiu em 83%. A produção agrícola diminuiu 63%, quando acabou o apoio estatal à agricultura e as importações norte-americanas baratas, como os frangos Tyson substituíram a produção interna. O investimento industrial e não só diminuiu 92%. Foram fechadas mais de 70 mil fábricas. Isso fez com que a Rússia produzisse menos 88% de tratores, menos 76% de máquinas de lavar, menos 77% de tecidos de algodão, menos 78% de aparelhos de TV, etc, etc. Num país sem desemprego na era soviética, 13 milhões de pessoas perderam os seus empregos. Os que ainda tinham trabalho, viram os salários cortados por metade. A esperança média de vida dos homens reduziu-se em seis anos, ao mesmo nível da Índia, do Egito e da Bolívia. O alcoolismo tornou-se epidémico, à medida que a depressão e o desemprego se espalhavam pela população. Foi de facto um choque, o tipo de choque que um país só sofre numa grande guerra. A esperança média de vida dos homens reduziu-se em pouco anos ao mesmo nível da Índia, do Egito e da Bolívia.
O facto de Anatoly Chubais estar agora sob enorme pressão e provavelmente vir a ser acusado vai muito para além da corrupção de um diretor empresarial. Vai direito ao coração dos círculos corruptos que, desde a subida ao poder de Vladimir Putin em dezembro de 1999, têm tentado retomar a pilhagem Wall Street da Rússia, até agora sem êxito. Para eles, Putin é o símbolo dessa derrota. Para a grande maioria dos russos que viveram no meio da pilhagem do seu país nos anos 90, Anatoly Chubais é o símbolo dessa devastação e destruição.
Notas
  1. The Moscow Times, Fearing Criminal Prosecution, Chubais Allies Flee Russia, 29 November, 2016, www.themoscowtimes.com
  2. RAPSI, Police raid Moscow office of Rusnano corporation, 16 November, 2016, http://rapsinews.com/news/20161116/277151707.html
  3. Fearing Criminal Prosecution Chubais Allies Flee Russia – Report, July 22, 2015 themoscowtimes.com/…
  4. Mort Zuckerman, cited in email from Karon von Gerhke-Thompson to the author, 14 August, 2011.
  5. E.P. Heidner, Collateral Damage US Covert Operations and the Terrorist Attacks on September 11, 2001,
wikispooks.com/w/images/d/db/Collateral_Damage_-_part_1.pdf
  1. Sebastian Mallaby, More Money than God: Hedge Funds and the Making of the New Elite, Council on Foreign Relations, New York, 2010, p. 212.
  2. Anne Williamson, Testimony Before the Committee on Banking and Financial Services of the United States House of Representatives September 21, 1999, www.thebirdman.org/…
  3. Ibid.
  4. Janine R. Wedel, The Harvard Boys Do Russia, The Nation, May 14, 1998, www.thenation.com/article/harvard-boys-do-russia/
  5. Ibid.
  6. Mark Ames, The murderous history of USAID– the US Government agency behind Cuba’s fake Twitter clone, April 8, 2014, pando.com/…
  7. Janine R. Wedel, op. cit.
  8. Ibid.
  9. Vladimir Putin, Direct Line with Vladimir Putin April 25, 2013, en.kremlin.ru/events/president/news/17976
  10. David E. Hoffman, The Oligarchs: Wealth and Power in the New Russia, New York, Public Affairs Press, Chapter 8, p. 193.
  11. Ibid., p. 197.
  12. Marshall I. Goldman, Putin and the Oligarchs, Foreign Affairs, November/December, 2004, www.cfr.org/world/putin-oligarchs/p7517
  13. David E. Hoffman, op. cit., p.202.
  14. Janine R. Wedel, op. cit.
  15. Ibid.
  16. David E. Hoffman, op. cit., p.202.
  17. Ibid.
  18. Wikipedia, Tatyana Yumasheva.
  19. Anne Williamson, Testimony…,op. cit
  20. David E. Hoffman, op. cit., p. 345.
  21. Ibid, p. 345.
  22. Ibid., p. 327.
  23. Dan Josefsson, Shock Therapy: The Art of Ruining a Country, 1 April, 1999, josefsson.net/…
O original encontra-se em thesaker.is/chubais-the-next-neoliberal-head-to-roll-in-russia/
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
14/Dez/16

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