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Postado em 27/01/2019 8:49

Classes, Democracia, Pedagogia Colonial

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Pedro Augusto Pinho*

Nosso maior sociólogo vivo, Jessé Souza, elaborou “Introdução” específica para a 3ª edição da obra monumental “A Ralé Brasileira Quem é e como vive” (Contracorrente, São Paulo, 2018).

Este artigo discute alguns temas desta Introdução.

Jessé Souza mostra que as teorias mundiais sobre a sociedade sempre procuraram reduzir as relações humanas/sociais como troca de mercadorias ou fluxo de capitais.

Há alguns anos, preocupado com a aceitação pacífica das sujeições de pessoas e classes a interesses antagônicos a elas e à própria humanidade, acabei por desenvolver a ideia da pedagogia colonial.

Colonial não somente para dominar outras nações e povos, mas para controlar os habitantes das terras deste poder. O poder que chega à colonização das mentes, das razões e do sentir. Muito parecido com a invasão de alienígenas em romances e filmes de ficção científica.

A construção do Estado Nacional Soberano é base da cidadania, da democracia, do desenvolvimento com justiça social. As ideologias universais nem se sustentam no campo teórico nem tem aplicação em lugar algum. Impõem-se pela força, farsa e engodo.

Quando o caro leitor compreender que a competitividade, que é uma balela, leva à morte e a solidariedade engrandece a vida, terá compreendido a importância do Estado Nacional, a única instituição que pode sustentar a construção da cidadania. E sem cidadania não haverá democracia nem justiça.

A ralé, de Jessé Souza, “constitui uma classe inteira de indivíduos, não só sem capital cultural nem econômico em qualquer medida significativa, mas (é) desprovida, esse é o aspecto fundamental, das pré-condições sociais, morais e culturais que permitem essa apropriação”. Que cinismo é tratar de competitividade!

Mas na classe média, “a cegueira da visão redutoramente economicista do mundo é ainda mais visível”. Por isso ela se impressiona com a “corrupção” dos políticos e acha natural a “corrupção” dos banqueiros. Nem consegue ver a ordem de grandeza distinta de um caso Banestado, abafado por Sergio Moro, de um mensalão que nem permitiu José Genoíno adquirir residência mais confortável.

Jessé Souza nos desafia com frase cruel: “o que é comum no desprezo e na pena é que só sentimos desprezo e pena por quem consideramos inferior”.

Esta hierarquia da humanidade é fruto da pedagogia colonial, que dá orgulho ao inglês ser designado súdito e não cidadão, que faz do capitão-do-mato se considerar um cão fiel de seu dono e a militares reverenciarem bandeiras de países estrangeiros, mesmo quando estes afirmam que um país não tem amigos, tem interesses.

E imagine agora, nesta segunda década do século XXI, que Estados Nacionais, detentores de armas atômicas, são tomados por financistas, que os corrompem em favor da permanente concentração de renda.

Fui informado da morte de John Bogle, aos 89 anos, denominado “pai” do Vanguard Group, dos maiores fundos especuladores do mundo. Dizia a comunicação que o Vanguard tinha ativos avaliados em US$ 5 trilhões. Pode parecer bobagem mas, na primeira quinzena de dezembro passado, ou seja, há um mês, eu calculara um trilhão de dólares a mais para este megafundo. Erro de informação? de digitação? Creio que não.

Simplesmente, uma civilização autofágica que se formou com o domínio da banca, do sistema financeiro internacional, que permite a transferência de um trilhão de dólares em 30 dias a a falência de dezenas, centenas de famílias em decorrência do poder dessa especulação.

E é a pregação diária de Paulo Guedes e seus asseclas no governo do Brasil. Seria esta a escolha da população?

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

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