Brasília - Segunda , 20 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de Argemiro Ferreira
A vitória histórica e o desafio da mudança
Outra etapa está vencida. Barack Obama derrotou o republicano John McCain por maioria esmagadora no Colégio Eleitoral e vantagem também expressiva, na votação popular, de 7 milhões de votos. Sem falar no índice de comparecimento às urnas, o mais elevado em quase um século. Tudo isso depois do que pode ter sido a mais longa companha presidencial da história. Como Obama está eleito, o país já é outro. E o 44º presidente será diferente.
Pela primeira vez desde que as colônias se uniram para declarar a independência, há 232 anos, um negro chega à Casa Branca. Nada menos de 52% dos eleitores, mais de 62,4 milhões, quiseram assim. Foram convencidos pelo seu perfil, pela sua trajetória humana e política singular, pela sua eloquência, pelo seu carisma. Ele teve de superar eventuais imperfeições e também acusações duras, às vezes torpes e de má-fé, algumas claramente motivadas pelo racismo.
Mas a votação de Obama no eleitorado branco, embora bem inferior à do adversário republicano, foi significativa para um candidato democrata. Na verdade, superior à de todos os democratas que se candidataram à Casa Branca nos últimos 32 anos, desde o sulista Jimmy Carter (1976), inclusive Bill Clinton, eleito duas vezes. O feito de Obama tem um significado especial e é motivo de orgulho para os negros do país, como destacou o próprio senador McCain ao reconhecer a derrota.

Como desfazer o legado de Bush
Naquele parque de sua Chicago, ao falar à multidão entusiasmada, 150 mil a 200 mil pessoas, Obama deixou claro que tem um caminho longo e difícil a percorrer. "Mesmo agora, enquanto comemoramos, temos consciência de que os desafios a enfrentar são os maiores de nosso tempo - duas guerras, um planeta ameaçado e a pior crise financeira em um século". Foi enfático ainda ao dizer que não recebe o mandato de um partido ou uma ideologia. Recebe a missão de mudar o país.
O cartunista do jornal britânico "The Guardian" sintetizou a missão de Obama ao desenhar a máquina de destruir papéis, com as listas e estrelas da bandeira, a devorar e desfazer a imagem de George W. Bush e seu legado desastroso da crise econômica, das guerras e do ressentimento antiamericano no mundo. Se é essa sua missão, o presidente eleito tem serenidade e elegância suficientes para cumprí-la, mesmo diante das provocações e acusações sórdidas de adversários.
Há muito a fazer. É revelador, no entanto, que ante a aproximação do desfecho da campanha de 2008, passou a prevalecer um eforço insólito na Fox News do magnata Rupert Murdoch - reduto do jornalismo mais tendencioso dos EUA, no qual pontificam estrelas do neoconservadorismo bushista. Neocons notórios como Bill Kristol e Fred Barnes (que criaram para Murdoch a revista ideológica "Weekly Standard"), Charles Krauthammer e outros menos intelectuais advertem Obama ali contra "ir para a esquerda".

Os neocons de novo no palco
É a mesma gente que, no passado recente, teve sucesso em empurrar o governo Clinton para a direita, até forjando no Congresso a lei do "regime change" (mudança de regime) para o Iraque. A guerra contra o Iraque, para tomar o controle de petróleo, foi criada no Projeto do Novo Século Americano (PNAC) de Kristol, com a ajuda de Krauthammer, Barnes, Paul Wolfowitz e o resto dos guerreiros neocons. Clinton, em minoria no Congresso, acabou por assinar a lei.
Perdida a eleição de 2008, os neocons ainda acham que serão capazes de impor ao futuro governo, as mesmas posições extremistas e belicistas, que Clinton absorveu em parte porque os republicanos tomaram a Câmara e o Senado em 1994. O que a facção neoconservadora da mídia tenta agora é prolongar a aventura bushista dos últimos oito anos, mesmo depois da derrota eleitoral. E adverte Obama e sua equipe para fugir da esquerda porque "o país é conservador e centrista".
Para os neocons, esquerdista é quem defende qualquer regulamentação contra a livre roubalheira dos executivos larápios de Wall Street - aqueles das fraudes da Enron, WorldCom, Arthur Andersen, dos bancos de investimento que roubam clientes e acionistas. Em colapsos sucessivos desde 2001, eles levaram à lambança geral e ao tsunami financeiro. O próprio presidente da Bolsa de Valores de Nova York, Dick Grasso, foi um dos executivos conspícuos pilhados.
Punir lambões e fraudadores, para os neocons, é esquerdismo e comunismo. Afinal, foi um deles, Ken Lay, o maior financiador da carreira política de George W. Bush - até ir para a cadeia por causa do conjunto de contabilidade "criativa" e fraudes da Enron. Tudo aquilo fora possível graças à era Reagan-Bush (1981-1992) e aos dois mandatos de Bush II (2001-2008). Exatamente o legado que cabe a Obama desfazer no shredder.

A receita contra a marcha a ré
Usando o 11/9 como pretexto, o governo Bush II oficializou em setembro de 2002, como Estratégia de Segurança Nacional (NSS), um texto baseado em documentos que o PNAC discutia desde o governo de Bush I (1988-92), inicialmente uma Orientação de Política de Defesa (DPG, Defense Planning Guidance), que ao ser revelada publicamente horrorizou o Establishment de política externa do país e os principais aliados dos EUA na Europa.
Quando surgiram, o DPG, o PNAC e um documento posterior dos neocons, conhecido pelas iniciais RAD (de "Rebuilding America's Defense: Strategy, Forces and Resources for a New Century") não tinha acontecido a ação terrorista de 11/9 (World Trade Center, etc) e não se prestava qualquer atenção a Osama Bin Laden ou ao terrorismo. Mas os neocons agarraram-se ao terrorismo como pretexto - e o governo Bush II abraçou a insanidade e lançou a histeria patrioteira para justificá-la, incluindo a invasão do Iraque.
Agora, a causa deles é não deixar Obama "ir para a esquerda": os mesmo neocons que no passado venderam a Clinton o "regime change" tentarão empurrar o futuro governo para o rumo que desejam - ainda que Bush tenha manchado para sempre a imagem dos
EUA no mundo com suas aventuras bélicas e produzido a tragédia da desintegração financeira, justificando o repúdio atual de mais de 70% dos americanos e a mudança consagrada nas urnas.
A diferença entre Clinton e Obama é a extensão da vitória eleitoral de 2008. Pois além de esmagadora na votação popular e no Colégio Eleitoral (349 a 163, faltando ainda dois estados), ela ainda ampliou a vantagem no Senado (pelo menos 56 das 100 cadeiras) e na Câmara (pelo menos 252 contra 173). Esses números equivalem em princípio a uma garantia contra rendição ou intimidação.

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A conduta infame do império de Murdoch
Provavelmente pouca gente no Brasil ouviu falar de Heather Mallick. Ela é uma canadense simpática, escritora e jornalista que sempre teve coisas a dizer e em geral o diz muito bem, com um toque de humor e irreverência. Por causa disso acabou punida no mês passado. Mas não é preciso ter pena dela. Está muito bem, continua a fazer livros e escrever artigos para o "Guardian" de Londres.
O episódio que a envolveu, levando a esse desfecho, encerra lições sobre a mídia em geral e a rede Fox News Channel (FNC), do império Murdoch, em particular. Acompanho a FNC desde que entrou no ar em Nova York, em 1996. Recrutou então o prefeito Rudy Giuliani para dar uma chave de galão em outro império de mídia, o da Time-Warner, cujo serviço de cabo em Nova York resistiu enquanto pôde à inclusão da FNC porque era dono da CNN, ameaçada pela concorrência.
Depois, como todo mundo sabe, a FNC passou a comer a CNN pelas beiradas, como um prato de mingau, e passou à liderança de audiência entre as redes de cabo dedicadas ao jornalismo. A opção inicial do magnata Rupert Murdoch foi aliar-se a governos conservadores (Margaret Thatcher na Grã Bretanha, Ronald Reagan nos EUA) e tirar partido disso. Nos oito anos de George W. Bush apostou tudo na histeria patrioteira pós-11/9 e se deu muito bem.

Um expurgo no avião de Obama
Como o quadro mudou depois dos dois mandatos desastrosos de Bush, a FNC está em baixa e a CNN em alta. E na última sexta-feira vi com supresa a rede de Murdoch investir contra Barack Obama em nome da liberdade de expressão. É que o avião do candidato democrata, lotado nesse fim de campanha, decidiu excluir três jornalistas - um do "New York Post" de Murdoch, um do "Washington Times" da seita Moon e um do bushista "Dallas Morning News".
O expurgo saudável foi encarado pelo império Murdoch, principalmente a FNC, como grave atentado à liberdade de imprensa. Só que em geral essa questão não preocupa Rupert Murdoch quando é ele próprio a desrespeitar a liberdade de imprensa. Por exemplo, há alguns anos fez um acordo com o governo da China para cobrir esse vasto e populoso território fornecendo as imagens de seu sistema via satélite, Star TV, que incluia o canal de televisão da BBC internacional.
Algum tempo depois, o regime comunista de Pequim indignou-se com uma reportagem da BBC criticando violações dos direitos humanos na China A BBC, como se sabe, é uma rede pública, estatal, que faz jornalismo de alto nível. O conservador Murdoch, por sua vez, é mais pragmático do que ideológico. Avisado então pelo governo chinês para retirar o canal britânico de seu serviço sob pena de cancelamento de todo o sistema via satélite, expurgou a BBC.

Direito de dizer o que bem entende
Outro episódio que escancarou o zelo de Murdoch e sua FNC pela liberdade de imprensa aconteceu este ano, depois que o "New York Times" mostrou numa reportagem que, com a ajuda da campanha presidencial, a CNN dera um salto na audiência e estava praticamente empatada com a FNC. O império Murdoch reagiu com violenta matéria contra o Times, na qual incluiu fotos grosseiramante adulteradas para fazer parecer que os dois repórteres do jornal eram monstros de filme da Universal Pictures.
"Fair & Balanced" (honesto e equilibrado) é o slogan do jornalismo da FNC (para muitos, piada de mau gosto). Mas também a pretexto de defender a liberdade de imprensa, a FNC faz campanha agora contra a idéia de ser forçada, através de lei, a respeitar uma "fairness doctrine" - doutrina que a obrigue a conceder direito de resposta a alguém que tenha sido ofendido, corrigir informação errada ou veicular também opinião diferente da defendida pela emissora. A lei, para todos os veículos, é discutida por democratas do Congresso, fartos da falta de honestidade e equilíbrio, além de outros excessos murdochianos.
É que tanto a FNC como a Fox News Radio têm "talk shows" ideológicos e extremistas, como os de Sean Hannity e Bill O'Reilly. Segundo o argumento apresentado por um dos apresentadores da emissora, os telespectadores que vêem ou ouvem programas de um Hannity, um O'Reilly ou um Rush Limbaugh, o rei dos talk shows de rádio, querem só a opinião deles e nunca a de alguém que discorde deles.

O jornalismo das listas negras
Isso nos leva de volta à doce Heather Mallick. Em coluna para o website da CBC, rede pública canadense de TV, ela foi irreverente sobre a candidata Sarah Palin, heroína da FNC, e insinuou, com humor, haver desajuste sexual entre os republicanos machos. A página da CBC a rigor não tem leitores nos EUA. Mas três programas da FNC orquestraram uma reação irada de telespectadores. E ante os ataques irracionais, o ombudsman da CBC pediu explicações à colunista.
"Escrevo para certo tipo de leitor canadense - minha visão de um canadense inteligente. Não escrevo para gente que vê a Fox News", disse Mallick. O diretor geral da CBC News, solidário com o ombudsman, alegou que "se fosse sátira era diferente". "Não era sátira", respondeu ela. "Era comentário político franco. Não sei de ninguém que tenha levado ao pé da letra que republicanos são sexualmente desajustados". Mas a coluna foi removida do site.
A reação orquestrada me fez lembrar o tempo do senador Joe McCarthy nos EUA. Os caçadores de bruxas mobilizavam pessoas para escrever cartas indignadas a emissoras de rádio e TV, cujos diretores demitiam escritores, atores e diretores, engrossando as listas negras. O jornalismo da FNC, desde que nasceu, é herdeiro das listas negras. Faz campanhas de difamação, destrói reputações e representa exatamente o oposto da liberdade de expressão.

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Os candidatos e os

Em um dos websites que melhor cobrem a campanha presidencial de 2008 e a política dos EUA, o Politico.com fez um balanço dos rumores levianos que circulam contra os candidatos na Internet. E que levam pessoas - talvez algumas até sem maldade ou má intenção, mas muitas apenas empenhadas em explorar a boa fé alheia ou fazer jogo sujo - a reclamar a atenção da mídia em geral para aqueles boatos.
A vítima mais freqüente das intrigas e esforços sórdidos de difamação, claro, é o democrata Barack Obama, mas também John McCain é alvo de ataques. Na reta final da campanha, nos últimos dias, o esforço subterrâneo redobrou. E leitores cobram informações dos jornais e outros veículos, em especial da TV. Às vezes leitores são enérgicos, exigindo a cobertura, a pretexto de que os boatos não podem ser ignorados.
Veículos como a Fox News mostram-se algumas vezes favoráveis à disseminação de boatos lançados claramente para denegrir Obama, talvez para vê-lo despencar da liderança nas pesquisas. Mas o Politico.com revelou a informação surpreendente de que esse canal do império Murdoch de mídia julgou "absolutamente falso" pelo menos um boato difamatório - o que acusava Michelle Obama de ter sido radical no passado.

O ativismo conservador religioso
Alguém que tenha acompanhado a total irresponsabilidade da grande mídia do Brasil (organizações Globo, "Veja", Estadão & cia.) durante a campanha presidencial de 2006, quando os veículos acabaram humilhados por causa da obsessão de mudar a tendência do eleitorado e impedir a reeleição do presidente Lula, poderia estranhar que veículos dos EUA não sejam tão levianos na cobertura eleitoral.
Curiosamente, um brasileiro que escreve para jornais do Rio e São Paulo está em processo de assimilação pela direita religiosa dos EUA através de um "ativista conservador cristão". E envia regularmente ataques à mídia, dos dois países, por omitir os boatos suspeitos. Ao mesmo tempo, veicula ele próprio os rumores selvagens que a mídia americana rejeita como maluquice sem pé nem cabeça.
Não por coincidência, claro, ele abraça com entusiasmo baboseiras que fazem a festa no submundo dos "talk shows" de rádio, onde as falsidades são veiculadas com aparência de verdades eternas. A essa gente referia-se o Politico.com no texto publicado agora - um balanço do que chamou de "os mais sórdidos rumores" da campanha de 2008, sobre os quais seus leitores têm perguntado e pedem informações.

A certidão de nascimento de Obama
Em matéria de sordidez, o boato que deixa longe todos os outros continua a ser o da certidão de nascimento de Obama. Primeiro alegou-se que o candidato não tinha a tal certidão. Depois que o documento foi exposto no website do candidato, mostrando que ele de fato nasceu no Havaí, onde morava a mãe americana e o pai do Quênia, adaptou-se o rumor. Hoje este passou a atacar a certidão como falsa.
Para ser presidente, não basta ser americano: é preciso ser americano nato. E os boateiros juram que Obama nasceu no Quênia. O rumor já circulava, durante as primárias, em blogs que apoiavam Hillary Clinton. Agora existe até ação judicial, na Filadélfia, iniciada por um advogado, Philip Berg - o mesmo que no passado tinha denunciado o governo Bush como cúmplice do terrorismo do World Trade Center.
O Politico.com citou o website Annenberg Political Fact Check, que provou a autenticidade da certidão de nascimento com documentação farta e até ampliações de detalhes Não há qualquer dúvida, mas Berg disse há seis dias no "talk show" do extremista Michael Savage que "em um ou dois dias" mostraria gravação na qual a avó queniana de Obama jura ter ele nascido no Quênia. Ao menos por enquanto ainda não mostrou.

O caso Odinga e outros boatos
A Jerome Corsi, autor de um dos livros que difamam Obama (depois de ter feito o mesmo com John Kerry em 2004, em outro livro), é atribuído o boato de que o premier do Quênia, Raila Odinga, que se diz primo distante do candidato, teve apoio de Obama para chegar ao cargo. Na versão de Corsi, os dois conspiraram ainda para "impor a lei islâmica no Quênia" - o que não faz sentido, pois são cristãos (Odinga é anglicano).
Boatos envolvendo McCain estão longe de ter a mesma gravidade. Um deles refere-se a suposto palavrão ofensivo que ele teria dito em 1992, referindo-se à esposa Cindy - e citado depois pela revista "Vanity Fair". Na mesma linha, falou-se de conduta imprópria e insultos de McCain a turistas certa vez em Fiji. Mesmo se fossem boatos com fundamento, o que não é o caso, parece coisa sem maior relevância.
O boato que poderia ser mais sério - mas foi considerado falso pelo mesmo FactCheck que investigou a certidão de nascimento de Obama - referia-se à suspeita de conduta irresponsável de McCain como piloto, que teria causado um acidente grave. Não há prova de que seja verdade. Se fosse o caso, não passaria de um excesso como tantos que ocorrem com pilotos jovens. E, afinal, acidentes acontecem.


Ainda o debate do Colégio Eleitoral
Para encerrar a discussão sobre o Colégio Eleitoral, é relevante acrescentar mais informações históricas. Elas permitem que cada um chegue às próprias conclusões - avaliando se a instituição está de fato obsoleta e se, pior ainda, pode até ser acusada de antidemocrática, como foi afirmado na coluna anterior. Em primeiro lugar, convém esquecer a idéia de uma Constituição dos EUA como algo perfeito.
Ela não é e nem poderia ser perfeita - tanto que, no desdobramento, teve de receber muitas correções relevantes, na forma de emendas constitucionais. E mais: o texto original resultou de confrontos, negociações e compromisso. Por exemplo, havia 3,8 milhões de pessoas no país e 18% delas (700 mil) eram escravos. Só não havia escravos em Massachusetts, Vermont e Maine.
Na Carolina do Norte, 43% eram escravos. Na Virgínia, os escravos eram ainda mais numerosos, embora a percentagem deles na população fosse um pouco menor, 39%. Se Massachusetts insistisse no fim da escravidão, talvez não houvesse Constituição. O texto referia-se aos escravos como "outras pessoas". Até previa a devolução aos estados de origem daqueles escravos que fugissem em busca da liberdade.

Escravos e direitos dos estados
O Colégio Eleitoral nasceu com a Constituição mas não tinha esse ou qualquer outro nome. O artigo II, seção 1, descrevia o processo: cada estado escolhe eleitores em número igual ao de seus deputados e senadores. Cada eleitor vota em dois candidatos - e pelo menos um dos votados tem de ser de outro estado. Quem recebesse maior número de votos seria presidente; o segundo, vice-presidente.
A preocupação central era em torno dos direitos dos estados (temia-se que os maiores impussem sua vontade aos menores). Continuou a ser assim nos anos seguintes (para o Sul racista, teria sido essa a causa real da guerra civil na década de 1860). O impasse na eleição de 1800, com o empate em votos eleitorais entre Thomas Jefferson e Aaron Burr, acabou por detonar o processo eleitoral imaginado inicialmente, forçando a 12ª Emenda, mas isso não neutralizou os complicadores.
Eles reapareceram em 1824, 1876, 1888 e 2000. À exceção de George W. Bush, os outros que se tornaram presidentes nesses anos, a começar por John Quincy Adams (1825-29), não tiveram novo mandato. Quincy Adams é especialmente sugestivo: foi o único caso, além de Bush, em que o filho de um presidente também se tornou presidente (John Adams, pai, fora o 2º presidente, 1797-1801).
Na eleição de 1824 Andrew Jackson teve mais votos populares (152.901, 42,34%) do que Quincy Adams (114.023, 31,57%). Jackson teve mais votos também no Colégio Eleitoral (99, contra 84 de Adams), mas nenhum obteve maioria absoluta e a disputa foi para a Câmara - cujo presidente, Henry Clay, fez conchavo com Adams, em troca do cargo de secretário de Estado.

A segregação racial prorrogada
Adams ficou tão marcado como beneficiário de eleição ilegítima que quatro anos depois sofreu derrota esmagadora frente ao mesmo Jackson - tanto na votação popular (647.292, 56%, contra 507.730, 44%) como no próprio Colégio Eleitoral, que em 1828 consagrou a escolha de Jackson, reeleito ainda para o segundo mandato (em 1832, contra
Clay).
Rutherford B. Hayes (1877-81) foi o segundo na história a se tornar presidente sem ganhar a votação popular. Em 1876 esse republicano de Ohio teve 48% dos votos (4.036.572) e seu rival democrata Samuel J. Tilden, de Nova York, 51% (4.284.020). No Colégio Eleitoral, vieram resultados duplos de três estados do Sul (Carolina do Sul, Flórida e Louisiana) - um a favor de cada partido.
Tilden só precisava de mais um dos 20 votos eleitorais (dos três estados) em disputa, Hayes precisava de todos. O Congresso resolveu confiar a solução do impasse a uma comissão de 15 membros (10 parlamentares e cinco juízes da Suprema Corte). Em teoria, a comissão era apartidária, mas na verdade tinha oito republicanos e um democrata - e apontou Hayes.
Apesar da rejeição do resultado pela Câmara dos Deputados, Hayes foi confirmado no Senado. Prevaleceu graças ao contexto da época. Em troca de sua concordância, o Sul derrotado na Guerra Civil, até então sob o regime da chamada Reconstrução, obteve o fim da "ocupação" nortista. E os democratas voltaram ao poder ali, impondo mais um século de segregação racial.

O fantasma da ilegitimidade
Ao fim de quatro anos, certo de que não se reelegeria, Hayes sequer candidatou-se a novo mandato. Doze anos depois, em 1888, outro republicano, Benjamin Harrison, tornou-se o terceiro a virar presidente (1889-93) sem ganhar a votação popular no país. Obteve 5.444.337 votos contra 5.540.050 dados ao presidente democrata Grover Cleveland. Ganhou só no Colégio Eleitoral, por 233 contra 168.
Como nos exemplos anteriores, não houve reeleição. Harrison tentou um segundo mandato em 1892, mas estava tão impopular ao fim do primeiro que não escapou da revanche do ex-presidente Cleveland, que ganhou por maioria esmagadora, tanto na votação popular (5.554.414 contra 5.190.801) como no Colégio Eleitoral (277 contra 145). De novo o fantasma da ilegitimidade.
O confronto Bush-Gore ocorreu mais de um século depois da eleição de Harrison. Na votação popular Bush perdeu por mais de meio milhão de votos (Gore, 50.999.897, 48,38%; Bush, 50.456.002, 47,87%). Tornou-se o 43º presidente porque a Suprema Corte validou a contagem duvidosa da Flórida, governada por seu irmão Jeb, que deu a ele 537 votos populares mais.
Isso permitiu somar a favor de Bush todos os 25 votos da Flórida no Colégio Eleitoral, totalizando nacionalmente 271 - contra 266 do rival Gore. O resultado serviu para escancarar a inconveniência, para dizer o mínimo, da manutenção de um processo eleitoral obsoleto e antidemocrático. Sem falar no detalhe de que a decisão, pela primeira vez na história, foi no tapetão judicial.

Postado em 27/10/2008 ás 18:53

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