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Coluna de José Ribamar Bessa Freire
Os donos da memória
Levanta a mão aí quem já ouviu falar de Tanavari? Ninguém? Puxa vida! O cara é um personagem importante na história da Amazônia. Morou na foz do Rio Negro, em 1729. Saiu pro pau com as tropas portuguesas, chefiadas por Belchior Moraes. Não se deixou escravizar. Seu nome consta num documento do século XVIII, publicado por Joaquim Nabuco e reproduzido na tese de doutorado de David Sweet, defendida em 1974 na Universidade de Wisconsin-Madison.
Mais de duzentos índios, como Tanavari, se destacaram na resistência contra os portugueses, no período de 1616 a 1750. Seus nomes, escondidos nos arquivos, não figuram nos livros didáticos, não tem monumento lembrando suas lutas, não aparecem na mídia, não são nomes de rua, com exceção de Ajuricaba, que foi folclorizado pelo poder. O apagamento dos nomes encobre com o silêncio a resistência dos índios.
Agora, levanta a mão aí quem já ouviu falar de Pedro Teixeira (1587-1641)? Todo mundo, porque ele é nome de avenida em Manaus, foi patrono de turma da Escola Superior de Guerra e recebeu as homenagens do ministro Alfredo Nascimento (ver http://www.taquiprati.com.br/home/apresenta-cronica.php?cronica=cronica44). Chegou em Belém em 1616, com a patente de alferes, sendo nomeado anos depois governador do Pará. Esse assassino de índios, transformado em herói, é até hoje cultuado.
Batizar uma escola, uma rua, uma praça, um hospital, uma maternidade, um bairro com o nome de um político não é um mero ato de puxa-saquismo individual para satisfazer vaidades, mas algo coletivo, que faz parte da estratégia de organização da memória social. Escolher o que a gente vai lembrar e o que vai esquecer é antes de tudo uma ação política. Nesse contexto é que devem ser analisadas as homenagens a Gilberto Mestrinho, o Boto.

Convite a pensar
Na semana passada, ministrei um curso para professores tikuna, kambeba, kokama e kaixana, em uma comunidade indígena do Alto Solimões. De passagem por Manaus, um dia após o enterro do Boto, fiquei chocado com a espetacularização do seu funeral e com a sua santificação. Houve um coro afinado quase unânime de loas, despido de qualquer senso crítico, apresentando-o como um homem virtuoso, empreendedor, justo.
Decidi desafinar, discordando do coro de ‘Gloria in excelsis Botorum’. Escrevi a coluna lá da aldeia no Alto Solimões. Convidei os leitores a pensar a realidade política do Amazonas e lembrei a truculência do Boto contra seus adversários políticos e os movimentos sociais. Apresentei fatos. Nada pessoal contra o Boto, apenas informações para que as futuras gerações tomem consciência e não permitam que se repitam acontecimentos traumáticos do passado.
O objetivo era, portanto, político e educativo. Tratava-se de transmitir experiências coletivas da luta dos professores do Amazonas, duramente reprimidos por Gilberto Mestrinho e de mostrar os horrores da repressão, num combate contra o esquecimento e o silêncio. Lembrar para não repetir o erro. É uma forma de dizer: nós não queremos mais seguir esse caminho. Um povo esquece, quando uma geração deixa de transmitir para a geração seguinte suas vivências
Meu papel, portanto, foi não deixar cair a peteca. Mas ai dezenas e dezenas de cartas entupiram minha caixa de correspondência, bem como o Blog do Holanda, que reproduziu a coluna. Muitos leitores aceitaram o convite, compreenderam o sentido da proposta e discutiram a questão. Alguns concordaram com a necessidade da crítica e elogiaram a coluna, outros discordaram por achá-la inoportuna.
Entre os que discordaram, alguns foram agressivos, ameaçadores, alegando que eu merecia umas porradas, como as que recebi em 1997 em Niterói, onde resido (http://www.taquiprati.com.br/home/apresenta-cronica.php?cronica=cronica05-02-1997). Não tiveram vergonha. Com esses últimos não discuto, porque nossos focos são diametralmente opostos. O interesse deles é reverenciar o Boto, o meu é discutir a memória.

Monopólio da lembrança
Por que houve gente ofendida com a crítica ao Boto? Tenho uma hipótese. Suspeito que os donos da memória não se satisfazem em ter a hegemonia na escolha entre o que merece ser lembrado e o que deve ser esquecido. Eles querem exercer o monopólio da memória e para isso procuram desesperadamente a unanimidade. É como se uma única voz discordante, débil e solitária, seja suficiente para derrubar a versão que eles estão inventando. O rei está nu.
Dessa forma, os donos da memória se apoderam dos corações e das mentes de uns pobres coitados, que sem ter o mesmo padrão de vida e de consumo de seus senhores, compartilham as mesmas idéias. Ninguém – mais ninguém mesmo – contestou os fatos apresentados no artigo de domingo passado. Por uma simples razão: porque não é possível negá-los. Apenas um leitor disse que não foram 3.500 policiais que deram porrada nos professores na batalha do igarapé de Manaus. Mas não negou a porrada.
Contrariamente ao que escreveu outro leitor, de forma irresponsável, não sou aposentado da Universidade Federal do Amazonas, onde trabalhei durante nove anos. Dela me desliguei em 1987, quando fiz concurso para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e para a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), nas quais continuo ativo, ministrando aulas todos os semestres, orientando pesquisas de mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Memória Social.
Na última sexta-feira, participei de uma banca de mestrado de Carolina Dellamore, que defendeu com brilho a dissertação intitulada “As marcas da clandestinidade: memória da ditadura militar brasileira”. Ela cita sua orientadora, doutora Joana Ferraz: “Lembrar é resistir, é impedir que o tormento ganhe força, é enfrentar um vazio. Por mais que seja difícil e doloroso, o ato de lembrar nos remete às dores, mas igualmente às superações dessas dores, transpõe o sofrimento e funciona como um ato político”.
É isso ai! Que Alfredo Nascimento, Amazonino, Eduardo Braga, Belão, os irmãos Souza et caterva reverenciem Pedro Teixeira. Da minha parte, fico com Tanavari. O leitor é livre para fazer sua escolha.

Postado em 03/08/2009 ás 09:52

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