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Coluna de José Ribamar Bessa Freire
Eu telo chê chenadô
Cinqüenta anos depois, diante do pelotão de jornalistas enxeridos que faziam perguntas inoportunas, o deputado Belarmino Lins (PMDB – vixe, vixe!) haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai, no quintal da casa em Fonte Boa, no Alto Solimões, lhe perguntou à queima-roupa: “O que você quer ser quando crescer?”. Era 1º de janeiro de 1954, festa de aniversário de Belarmino, que completava cinco aninhos de solidão. A mesma pergunta fora endereçada também ao seu irmão Átila.
Deslumbrado com o desenho de uma sereia que havia visto num remo pintado de azul, cujo dono era um índio Miranha, morador de Tefé, Átila gaguejou: “Catraieiro. Quero ser catraieiro”. Já Belarmino, conhecido como Belão, não se deixou seduzir pelo canto da sereia. Criança precoce, embora ainda nem falasse direito, respondeu ao pai, meio tatibitati: “Eu telo chê chenadô”.
A família toda riu. De onde o menino tirara idéia tão audaciosa? Naquele ano de 1954, um ex-funcionário dos Correios se elegeu senador, com um jingle que tocava nas rádios: “Povo, povo, povo, o senador do povo, oi (bis), Antóvila Mourão Vieira no Amazonas tudo novo”. O jingle se popularizou entre as crianças, porque adaptou sua letra à música de uma cantiga de roda: “Fogo, fogo, fogo, fogo de abrasar”. Foi aí que Belão, decidiu que, quando crescesse, seria senador.
Ele cresceu. Ainda não é senador, mas seu perfil se encaixa na Casa de Sarney, Collor e Renan Calheiros. Conhecido em Miami como Big Beautiful, Belão é o atual presidente da Assembléia Legislativa do Amazonas (ALE). Nomeou para cargos comissionados 33 parentes, entre os quais a mulher, quatro filhos – um deles morando em Paris - e a própria mãe, octogenária, que recebiam sem trabalhar. A mulher e os filhos custavam anualmente à ALE R$1,6 milhão, segundo cálculos do Diário do Amazonas. Além disso, pagou com dinheiro público as viagens de lazer da família. Uma grande façanha.

Senador e Catraieiro
Hoje, Belão, embora vivendo em Manaus, está mais perto do Senado do que seu irmão, o “catraieiro” Átila Lins, que é deputado federal e vive em Brasília. Ambos foram filiados a vários partidos vixe-vixe: Arena, PDS, PFL, DEM, PTB e agora PMDB e se elegeram enganando os cabocos do Alto Solimões. Belão, no entanto, vai assumir o governo do estado por nove meses, quando Dudu e Omar se licenciarem, o que lhe permite continuar sonhando em ser senador, sobretudo depois que a mídia mostrou que o senado é uma mina de ouro, de empregos, de mordomias e prebendas.
Como eu ia dizendo, a vontade de ser senador, manifestada na infância, cresceu recentemente, depois que se tornou pública a existência de 181 diretores no Senado, com salário médio mensal de R$ 18 mil, podendo chegar até R$ 30 mil, se somado às horas extras, gratificações, auxílio moradia e outros benefícios indiretos, sem contar o uso de carro oficial e de celular sem limite de gastos. “Isso é que é profissionalismo. Eu sou um amador” – disse Belão, com os olhos prenhes de cupidez.
Modéstia, modéstia! Mais conhecido na Alemanha como Grosse-Schon, Belão usou a presidência da Assembléia para nomear seus parentes como assessores de diretorias, embora – é verdade - não tivesse tido a idéia de criar as próprias diretorias, como as existentes no Senado: de Ata, de Anais, de Apoio Aeroportuário, de Coordenação de Visitas, de Pessoal Inativo, de Rádio em Ondas Curtas, todas elas mais atraentes que as assessorias. Acontece que quem nasceu Belão leva tempo pra chegar a Sarney.
Mas chega lá. O exemplo do Senado inspirou Belão, que vai apresentar o projeto de criação da Diretoria de Invenção de Nomes para as Novas Diretorias da Assembléia, todas elas a serem ocupadas por seus parentes: Diretoria do Sanitário Masculino, encarregada do papel higiênico, Diretoria do Cafezinho, Diretoria de Buscas de Cargos Comissionados, Diretoria para Puxar Saco do Eduardo Braga, Diretoria de Recepção do José Mello Merenda, Diretoria para acobertar os crimes do Adail e por ai vai.
Autor de projetos relevantes, como a concessão do título de cidadã amazonense à Maria Emilia, esposa de Gilberto Mestrinho, Belão elaborou outros de igual importância que batizam espaços públicos com o nome da família Lins. Em Atalaia, por exemplo, tudo tem nome de Lins: centro esportivo, feira municipal, hospital, praça, rua, bairro, coreto, até estacionamento de moto, só escapa mesmo a igreja, porque não tem nenhum santo Lins. O calçadão Zé Lins, que custou uma fortuna, ruiu uma semana depois de sua inauguração. Eu vi, meninos, eu vi.

A flauta de Belarmino
Belão merece uma cadeira nesse Senado que aí está, porque leva para Brasília a experiência que acumulou no Estado. Tem um perfil muito mais adequado do que o dos atuais representantes do Amazonas – Arthur Neto (PSDB), João Pedro (PT) e Jeferson Praia (PDT) – que até agora demonstraram uma incapacidade de projetar o Amazonas no terreno da corrupção nacional. A atual bancada é limpa, decente, escrupulosa. Belão não. Belão, embrião de Sarney, é uma promessa. Vai tratar Collor de igual para igual.
Por que o Pará conseguiu projetar nacionalmente um Jader Barbalho e nós, do Amazonas, mantemos o Belão confinado no âmbito estadual? Por razões como essa é que Belém – e não Manaus – vai acabar sediando os jogos da Copa do Mundo. Temos que escutar o grito de Belão que nos implora: “Eu telo che chenadô”. Nossa bancada não teve sequer a iniciativa de um Tião Viana, que projetou o Acre nacionalmente, através do celular do Senado levado pela filha para o México.
É por isso que o Amazonas não vai pra frente, porque sua bancada não é capaz de se adaptar ao estado de putrefação do Senado, que é hoje a vanguarda do atraso, do nepotismo, do fisiologismo, do cinismo. Belão tem jogo de cintura, coragem e cara-de-pau para assumir as causas mais ignóbeis.
Por isso, ele apóia, sem vacilar, a empresa Lajes Logísticas que projeta construir o porto privatizado para embarque de containers de grandes grupos internacionais. O porto vai destruir as Lajes e acabar com o Encontro das Águas? Azar, Baltazar! Quem contrata a mãe de 80 anos não tem medo de destruir a paisagem do encontro das águas e os sítios paleontológicos, queimando arquivos. Deixa o Márcio Souza, o Rogelio Casado e os ambientalistas reclamarem.
Esse filho de índio que odeia seus ancestrais e inventou uma árvore genealógica alemã é um político de barranco tão ousado que se infiltra nesse espaço do jornal para dizer: “Feliz aniversário, Preta”. Merece ser senador!




A RAPADURA CULTURAL
Em verdade em verdade vos digo, o Programa Rapadura Cultural, do município cearense de Crato, com pouca grana, está fazendo mais em defesa das expressões de criação popular do que toda a Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas, cujo orçamento estratosférico é usado pelo seu titular,
Berinho Braga (BB) para, entre outras coisas, trazer a Manaus os integrantes do Big Brother Brazil (BBB) em eventos que ele organiza como o Amazon Film Festival. Provo o que digo, mas antes esclareço.
O programa cearense não podia ter melhor nome, pois a rapadura, embora difícil de roer, é doce e nutritiva. Feita do caldo da cana, essa comida de pobre aparece, hoje, como suplemento alimentar indispensável nos cardápios regionais da merenda escolar do Nordeste. De baixo custo, é um produto energético com ferro, cálcio, potássio, fósforo, vitaminas, sais minerais e – imaginem só! - até riboflavina que, na minha santa ignorância, não sei bem o que diabo é, mas me asseguram que é a vitamina B2.
Consciente de que coenzimas da riboflavina são essenciais para converter a piridoxina e o ácido fólico (Eraste! Eu, hein, Rosa! Vade retro, Satanás!), uma empresa alemã, em 2006, registrou a rapadura como marca registrada de sua propriedade. Houve protesto em frente ao Consulado da Alemanha, no Rio de Janeiro: “A rapadura é nossa, cabra da peste” – gritavam os manifestantes, sabedores de que a deficiência em riboflavina causa rachadura na boca, língua arroxeada, coceira, pele seca, dor de olhos, inflamação da gengiva e até frieira. Aprenderam isso, visitando o Museu da Rapadura, criado pela Universidade Federal da Paraíba em antigo engenho da cidade de Areia.

Dia do Poeta
Como já deu pra sacar, não é bem sobre o Berinho BB que eu quero falar, nem sobre sua aliança com o BBB, mas sobre esse doce programa cultural que traz a rapadura no nome. Eis o que eu queria dizer: o Rapadura Cultural, criado há quase dez anos por Jorge Carvalho, um professor cabra-da-peste, é o anti-Berinho, porque divulga artistas de verdade que estão fora da grande mídia e dos mega-eventos: seresteiros, brincantes, cordelistas, forrozeiros, cantadores, mamulengueiros, palhaços, poetas marginais, compositores, violeiros - tudo gente humilde, que está longe dos holofotes.
Todo ano, no dia 14 de março – Dia do Poeta - o Programa Rapadura Cultural organiza um evento chamado ‘De Aderaldo a Patativa’, onde celebra as expressões de cultura popular. Ontem, na Praça Siqueira Campos, em Crato, a homenagem foi ao maior poeta do Ceará, Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, que se vivo fosse estaria completando 100 anos.
“Para ser poeta, não precisa ser doutor. Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor, brotada nas árvores do seu sertão” – declamava Patativa do Assaré, que em toda sua vida freqüentou a escola apenas por um semestre, mas que teve sua genialidade reconhecida pela academia. Três universidades diferentes conferiram-lhe o título de Doutor Honoris Causa.
Desde menino, o poeta trabalhou duro na roça, ficando com calos na mão pelo uso da enxada. Aos quatro anos, ficou cego de um olho. Com oito anos, trocou a ovelha do pai por uma viola. Com dezoito, viajou para o Pará, onde enfrentou peleja com outros cantadores e ficou conhecido em toda a região.
“Camões também só tinha um olho” – declarou ele, bem humorado, buscando companhia. Antes de morrer, aos 91 anos, Patativa concedeu uma entrevista, que foi reprisada esses dias pela TV Brasil, mostrando que embora não escolarizado, lia muito, conhecia os clássicos da língua portuguesa, entre os quais Luiz de Camões, Bocage, Castro Alves. Traçou até o ‘Tratado de Versificação’, de autoria de Olavo Bilac e Guimarães Passos.

O sertão é meu
Patativa ficou consagrado mesmo quando Luiz Gonzaga gravou as músicas dele, entre as quais ‘A triste partida’, que canta o drama da seca e da migração nordestina tanto para a Amazônia, na época da borracha – difícil encontrar um amazonense que não tenha sangue nordestino – quanto para São Paulo, em período mais recente. “Distante da terra tão seca, mas boa, exposto à garoa, à lama e ao paú, meu Deus, meu Deus, faz pena o nortista, tão forte, tão bravo, viver como escravo, no Norte e no Sul”.
“Cante a cidade, que é sua, que eu canto o sertão, que é meu” – ele declamava e reclamava da imagem criada pela mídia eletrônica sobre o sertão. O reconhecimento de sua genialidade, além da consagração popular, pode ser avaliado pelos estudos que estão fazendo de sua obra em universidades da França e da Inglaterra e pela representação de seus escritos em várias santuários da chamada cultura erudita, como no teatro de Amir Haddad, que montou o espetáculo ‘Meu querido jumento’ .
“Leitor ferrenho de clássicos da literatura portuguesa, não seguiu metodologias acadêmicas para elaborar seus versos, e sim sua sensibilidade. O que talhou uma arte para ter, entre outras funções, a de enfrentar as injustiças sociais, sem que sua riqueza estética ficasse abalada” – escreveu recentemente Eduardo Sales de Lima.
Ele lembra que depois da morte de Patativa, o crítico literário Mário Chamie dizia com propriedade: “Enquanto um Guimarães Rosa, um João Cabral de Melo Neto e outros escritores eruditos convertem a matéria-prima da tradição oral em alta literatura, Patativa faz o inverso, serve-se da literatura erudita para enunciar uma linguagem de comunicação direta”.
Outro poeta popular é Miguezim de Princesa, paraibano radicado em Brasília, que já escreveu até um cordel sobre o fato recente do aborto da menina de nove anos. Em função das várias cartas de leitores sobre a coluna passada, que abordou o tema, reproduzo aqui as duas estrofes finais do citado cordel:
“Milhões morrendo de Aids: / É grande a devastação, / Mas a igreja acha bom / Furunfar sem proteção / O padre prega na missa / que camisinha na lingüiça / É uma coisa do Cão./ E esta quem me contou / Foi Lima do Camarão/ Dom José excomungou /
A equipe de plantão,/ A família da menina / E o ministro Temporão, / Mas para o estuprador, / Que por certo perdoou, / O arcebispo reservou /A vaga de sacristão”.
Poetas como Miguezim da Princesa e Patativa do Assaré merecem a homenagem mais do que justa que lhes foi feita, ontem, no Crato, atendendo plenamente os objetivos do Programa Rapadura Cultural, que é defender a cultura popular regional e estimular os artistas populares a ocupar as praças e as feiras, disseminando a beleza de sua arte e evidenciando sua importância na formação cultural do povo brasileiro. Bem que o Amazonas está precisando comer rapadura.
P.S.– Recolho, nesse mês de março, um poema na flor do sertão do Assaré, para oferecê-lo amorosamente a duas jovens sexagenárias, que aniversariam: Ângela, no dia 8 e Teca no dia 15. Quando completarem setentinha, - falta muito ainda – dou noticias delas.

Postado em 16/03/2009 ás 19:20

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