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Coluna de Cesar Fonseca
Tombini pode tombar economia
Se a presidente Dilma tivesse seguido o exemplo de Lula que segurou os juros no final do seu governo, a pressão inflacionária estaria mais intensa ou mais arrefecida? Com juro estável, tendente à queda por força de decisão política, os empresários não estariam investindo mais para gerar mais oferta que equilibraria a demanda, a fim de conter as pressões de alta dos preços? Também, com o juro no mesmo lugar, o custo da dívida não estaria apontando para relação mais tranquilia entre dívida-PIB, jogando consequentemente as pressões dos credores para baixo?

O custo mais barato do dinheiro não estaria diminuindo o custo das empresas e por isso diminuindo repasses dessa despesa financeira sobre os preços ao consumidor? Enfim, com juro mais baixo, as expectativas das atividades produtivas não estariam bem melhores, já que o câmbio poderia estar, igualmente, melhor controlado do que com o juro mais alto em vigor, que bloqueia as exportações, eleva a dívida e sinaliza deficit no balanço de pagamentos, abrindo espaço para o colapso cambial com possível fuga de capitais? O BC, ao mudar as expectativas dos agentes econômicos, disseminando dúvidas, errou ou acertou retomando o aumento das taxas de juros, que , agora, contribui para elevar a taxa de desemprego? Te cuida,Tombini!

Se o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, não se ligar no alerta que a agência de classificação de crédito americana Standart & Poor deu relativamente ao endividamento americano, balançando a economia mundial e podendo prenunciar nova bancarrota global, estará contribuindo para apressar o mesmo fenômeno no Brasil, ou seja, a desclassificação do país, se for elevada, mais uma vez, a taxa de juro básica, selic, em nome do combate à inflação.

O maior instrumento de combate à inflação , no cenário capitalista global, é justamente aquele que a elevação do custo do dinheiro contribui para destruir,ou seja, a dívida pública interna.

Por que o governo americano assustou essa semana com o alerta do mercado financeiro? Porque não pode mais utilizar, como outrora, o aumento do endividamento na tarefa de entesourar e irrigar, simultaneamente, a circulação capitalista, como arma capaz de puxar a demanda global em equilíbrio relativo. Com uma mão, o governo joga dinheiro na circulação, irrigando-a. Com a outra, lança título para enxugar – entesourando – parte da base monetária, de modo a evitar a enchente inflacionária. Os Estados Unidos, que imaginaram dispor do fôlego eterno para emitir dinheiro sem lastro, chegaram ao limite, no momento em que a dívida pública alcança 14 trilhões de dólares. Não dá mais para avançar com o superendividamento na escala de 1 trilhão de dólares ao ano. O mercado financeiro, que rola a dívida, deu o alerta, acendeu sinal vermelho. Isso signfica que o dólar não é mais aquela brastemp.

Inviabiliza-se como equivalente geral das trocas comerciais globais. Elevar as reservas em dólar torna-se risco total. Como qualquer outra mercadoria, o dinheiro, se em excessso, cai de preço. A crise global , em face da multiplicação dos derivativos dolarizados, completamente, liberados de qualquer fiscalização dos bancos centrais, irresponsavelmente, pôs Tio Sam em sinuca de bico. Ele teria que enxugar-entesourar o que lançou na circulação, para evitar a bancarrota geral. Não tem mais gás. O jogo de continuar emitindo, mas, simultaneamente, manter o juro em quase zero ou negativo, representa tentativa desesperada de evitar bomba atômica hiperinflacionária. Sem poder entesourar, passa o governo americano a não poder, também, irrigar, a partir de determinado momento.

O que a agência de classificação de crédito disse, realmente, para os americanos, é que não será possível continuar por mais tempo, de agora em diante, com a política de expansão monetária, adotada pelo Banco Central, FED. Se a Casa Branca joga trilhões de dólares na circulação, mas não consegue sustentar juros positivos como arma para enxugar uma parte desses trilhões, a fim de evitar a enchente monetária, que levaria o dólar a virar pó, fica evidente que acabou a festa para Tio Sam. A dívida que cresce dialeticamente no lugar da inflação, escondendo-a, coloca à mostra a própria inflação, assustando, extraordinariamente, o mercado financeiro. Este se vê diante do perigo hiperinflacionário exponencial.O jeito é fugir.

Estado burguês broxou
A moeda capitalista burguesa, o dólar, que dominou a cena global depois da segunda guerra mundial, sendo emitida sem lastro, apenas ancorada na capacidade de endividamento do Estado, apoiado na força militar, entrou em crise total. Trata-se da bancarrota da moeda do estado burguês erguido sobre os escombros do poder monárquico do século 19, sustentado pelo padrão ouro. As emissões monetárias patrocinadas pela burguesia financeira, que afastou o rei do seu caminho e eliminou os controles financeiros, depois da crise de 1929, deixando de se submeter ao despotismo monárquico, entra em derrocada. Esgotou-se completamente o poder do Estado burguês de continuar sustentando eterno endividamento estatal. O BC brasileiro dará uma mãozinha a esse estado falido americano, bancando-o mediante juro alto para atrair dólares podres? Obama está jogando a toalha molhada para Dilma segurá-la. Até quando, presidenta?

O jogo imperialista americano de tentar dinamizar a economia, jogando moeda na circulação, mas sem poder enxugar o tsunami monetário, transfere para a periferia capitalista a tarefa de executar o que a autoridade monetária americana não pode mais suportar. Assim, os países que mantiverem juros positivos, como o Brasil, em nome do combate à inflação, estarão contribundo para os Estados Unidos fugirem da hiperinflação, mas correndo o risco de que esta seja acelerada no avanço do endividamento periférico. Como por aqui a taxa de juro é a mais alta do mundo, em meio a um endividamento que exige pagamento de serviço da dívida na casa dos 230 bilhões de reais por ano, sinalizando perigo crescente, a subida do juro, estimada pelos analistas para acontecer nessa quarta feira, na reunião do Copom, lança mais perigo para a saúde da economia brasileira.

Os dólares, vindo o juro a subir mais, chegarão com vigor redobrado, a fim de faturar na arbitragem cambial, proporcionada pelo paraíso especulativo nacional erguido pela taxa mais elevada do mundo em vigor em plena crise financeira global. Incoerência total. Enquanto Tio Sam, com o seu juro negativo, atua para, praticamente, cancelar a dívida, a fim de ganhar fôlego para, naturalmente, poder emitir mais, o governo brasileiro, no polo oposto, suicida-se mediante sustentação das taxas altamente positivas. Obama luta para não quebrar o tesouro, emitindo sem lastro, mas cortando juro; Dilma emite, com a riqueza nacional como lastro que dá sustentação ao real, mas eleva o juro, que destroi essa riqueza real, vulnerabilizando o país. A economia mundial, depois do alerta do mercado financeiro relativamente ao perigo do estouro hiperinflacionário americano em marcha, muda de patamar.

Durante todo o século 20, o panorama foi dado pela moeda estatal inconversível que fugiu do padrão ouro vigente no século 19. A burguesia financeira, que era prisioneira do equilibrismo orçamentário mantido pelas monarquias, assumiu plenamente a economia mundial globalizada, depois da crise de 1929, rasgando o equilibrismo orçamento ao qual o rei obrigava ela a se enquadrar nos limites da economia clássica. A moeda emitida pelo governo sem lastro, é a moeda burguesa, no século 20, plena para tirar a produção da estagnação a que chegara com a emergência da crise de 1929.

Sua primeira providência foi a de remover a “relíquia bárbara”, ou seja, o padrão ouro monáquico. Se a burguesia passa a dominar o Estado, por que teria que continuar subordinada às regras monárquicas que haviam levado o capitalismo ao crash? A solução burguesa, no entanto, passaria a depender da capacidade de endividamento dos governos. A partir do momento em que o mercado financeiro, que troca o dinheiro emitido por títulos da dívida, passa a desconfiar da saúde financeira do governo burguês emissor, babau. O que está no horizonte da economia global, depois do alerta geral da Standart & Poor, é óbvio: o Estado burguês não é mais solução, mas problema. Ele não irriga nem entesoura. Broxou. O BC brasileiro vai sustentar esse impotente, jogando os juros para cima, nessa quarta feira?

Postado em 24/04/2011 ás 08:36

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