Brasília - Quarta , 19 de Junho de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de Cesar Fonseca
É hora do Banco Sul-Americano
Por que está demorando tanto? Não teria chegada a hora – ou melhor, não estaria passando da hora – de os governos dos países da América do Sul criarem o Banco Sul-Americano, para reciclar os dólares candidatos à desvalorização, atuando como câmara de compensação, para reemprestá-los em moedas sul-americanas, promovendo o desenvolvimento continental sustentável, ao mesmo tempo em que evitaria que elas sejam contaminadas pela podridão dolarizada em marcha?

O que seria melhor? O governo brasileiro e os demais sul-americanos colocarem suas reservas para render nada nos títulos do governo americano, dos quais os aplicadores estão fugindo, ou aplicá-las no Banco Sul-Americano, transformando-as em recursos disponíveis para acelerar a infra-estrutura continental, configurando o novo pólo de desenvolvimento global, já que a Europa e os Estados Unidos, baleados, deixaram de exercer a atratividade econômica internacional?

É evidente que os especuladores estão chegando ao continente sul-americano, fugindo da taxa de juro zero ou negativa – eutanásia do rentista – , predominante nos países capitalistas ricos, garroteados pela crise mundial, cuja possibilidade de aprofundamento é anunciada a cada dia, com mais força, pelos especialistas em geral.

A enxurrada de dólares, que não pode ser enxugada pela política monetária adotada pelo governo americano, sob pena de ir aos ares em forma de hiperinflação exponencial, com o estouro financeiro do tesouro de Tio Sam, passou a ameaçar as moedas dos países capitalistas emergentes, que estão em melhores situações do que a falida moeda americana. Sem garantia, porque a que existia, ou seja, a capacidade de consumo interno dos Estados Unidos, está inerte, o dólar, excessivamente inchado, devido às emissões sem lastros acumuladas no mercado mundial, espanta os investidores. Estes, para fugirem do prejuízo, deslocam-se para a América do Sul, principalmente, onde as garantias reais estão se expressando como o novo poder mundial nas relações de troca.

O que vale mais , nesse contexto das relações de troca: o dólar, que pode virar papel de parede, nos próximos anos, ou as matérias primas, como o petróleo, minérios, biodiversidade infinita, terras abundantes sob regime de chuvas normais, potencial e economicamente valorizadas, para ampliar a oferta mundial de alimentos em condições competitivas, além, naturalmente, da existência de uma base industrial capaz de manufaturá-las, como existem no Brasil?

Reservas para desenvolver

É claro que os investidores já descobriram o que vale mais e o que tende a dar o tom das relações de trocas, fixando o novo poder monetário na nova divisão internacional do trabalho. Não é à toa que, por exemplo, a China se desloca, com seus trilhões de dólares para o continente sul-americano, comprando terras, investindo em parcerias com grandes empresários, tentando, como grande polvo econômico, garantir as ofertas das matérias primas necessárias ao abastecimento de suas indústrias, em escala crescente, capaz de sustentar desenvolvimento interno, bombando PIB de 10% ao ano.

Onde os chineses conquistarão esse espaço? Nos Estados Unidos? Não. Na América do Sul. Onde entraria o Banco Sul-Americano nesse contexto? Claro, ele serviria para reciclar as moedas podres que estão fugindo do colapso. Depois de recicladas, seriam distribuídas no mercado, impulsionando o desenvolvimento sul-americano, sem a influência decorrente da deterioração nas relações de trocas, imposta por uma moeda que vai deixando de ser equivalente monetário global, por não dispor mais de garantia real aos olhos dos aplicadores.

Trata-se, portanto, de separar as maças frescas das maças candidatas ao apodrecimento. Seria necessária e urgente a separação de ambas por uma escolha política de distribuição do produto, dando preço adequado a quem tem preço e a quem está perdendo seu próprio preço. Na medida em que forem deixadas as moedas candidatadas à desvalorização – caso do dólar – perto das moedas que tem garantia real – caso da moeda brasileira –, naturalmente, o mercado vai dando valor a quem merece.

Deixar que seja mantido livre o chamado falso câmbio flutuante, evidentemente, que a enxurrada de dólares levará o real brasileiro a um preço insuportável para os exportadores ao mesmo tempo em que condenará, também, em grau explosivo, a economia à crescente desindustrialização.

Golpe dos ricos

A bancarrota financeira americana, que coloca a economia mundial em recessão, transforma-se, portanto, em razão principal para que os governos sul-americanos alavanquem o Banco do Sul ou Banco Sul-Americano. Ou isso acontece para que haja uma coordenação continental para a política econômica sul-americana, por meio da Unasul, ou cada país, diante da enxurrada de dólares, terá que adotar medidas unilaterais para não ser levado pela correnteza de moeda podre.

Na prática, não é mais a economia sul-americana que precisa da poupança externa para alavancar seus investimentos, mas, justamente, o contrário, ou seja, a poupança externa é que depende da economia sul-americana, no quadro da deterioração das relações de trocas, já que o dólar, como equivalente geral dessas relações, deixa , paulatinamente, de sê-lo.

Vai sendo superada pela história a conjuntura estabelecida pela conferência de Bretton Woods, em 1944, quando se estabeleceu, sob domínio do dólar, a divisão internacional do trabalho no pós segunda guerra mundial.

Passados quase 70 anos de Bretton Woods, o poder monetário-militar americano, sucateado pelos excessivos déficits, perde, após a bancarrota financeira de setembro de 2009, capacidade de continuar sustentando tal divisão internacional. A saúde financeira do dólar, excessivamente emitido sem lastro, impede o governo de Washington de continuar irrigando e enxugando a praça global para sustentar as relações de trocaa seu favor.

O elevado endividamento interno americano coloca a economia sob suspeita do mercado financeiro internacional, justamente, porque a capacidade de manobrar o sistema por meio da taxa de juro, aumentando-a ou diminuindo-a, conforme a necessidade de puxar keynesianamente a demanda global, a partir das determinações do Banco Central dos Estados Unidos, entrou em estresse total.

Nesse ambiente, o Banco Sul-Americano entra como antídoto capaz de evitar que as moedas sul-americanas apodreçam no contato com a moeda doente de Tio Sam. Ao mesmo tempo contribuiria para colocar preço nas próprias mercadorias sul-americanas.
Estas passariam a ser cotadas, não pelo equivalente geral, dólar, que perde preço, mas por outras forças que emergem diante da valorização das mercadorias sul-americanas, dadas sua valorização intrínseca capaz de estabelecer nova correlação de forças nas trocas internacionais.

Postado em 18/09/2010 ás 18:44

[ Imprimir ]

Veja Também
» Perigo: austeridade fiscal = explosão social
» Conspiração do silêncio contra nacionalismo
» Bancocracia trava diálogo Planalto-Legislativo
» PMDB impõe novo jogo político ao Planalto
» BNDES começa a pensar em financiar mídia de democratização
» CPI para a bancocracia,urgente
» Burrice: Aécio ataca JK prá rachar PT-PMDB!
» Dilma acelera nacionalismo cambial e industrial
» Oposição em perigo: desemprego pode desabar
» Dilma detonou agiota traficante jurista
» Sopro arrepiante de vida e morte no domingo
» Orfandade reacionária do herdeiro do Estadão
» Ulisses, liberal neorepublicano equivocado
» Burocracia vira arma da bancocracia para atrasar investimento e conter avanço do PIB
» Escravo da antiética do dinheiro
» Socialismo dobra burguesia financeira do G-8
» Golpismo midiático-bancocrático ataca Dilma
» Vitória de Hollande fortalece Dilma
» JK manda construir a Brasília subterrânea
» CPI da agiotagem bancária, URGENTE!
» BRICs, nova moeda global
» Capitalismo estatal-social distancia do falido neoliberalismo e do irrealizado socialismo
» Coalizão presidencial entra em crise na gestão empresarial-neoliberal do capitalismo estatal
» Racismo sexual global
» Eike, candidato da Globo ao Planalto
» Crise abala economia de guerra capitalista
» Dilma – como Daniel – está na toca dos leões
» De bandida a heroína no JN
» Crise do euro acelera Estado Nacional Europeu
» Pré-sal leva PT a virar PSDB e acelerar desnacionalização industrial na Era Dilma
» Realidade em rítmo de ficção eletrizante
» Bancocracia substitui Democracia
» Dependência do Brasil
» Coalizão dilmista vira saco de gatos
» Oposição periga suicidar na crise global
» Dilma desarmou ou não golpe de direita?
» Real pode ir para o ralo
» Socialismo democrático, saída para Dilma
» FHC não suportou grande favor de Itamar
» Medo da revolução que impõe calote
» Dilma recua na política e avança na economia
» Sarney vira moda na Europa
» STF cria caos econômico federativo e acelera reforma tributária no Congresso Nacional
» Lula politiza Planalto despolitizado
» O poder corrompe absolutamente
» Obama joga Dilma contra Cristina
» Inflação alarma Dilma e anima Aécio
» Obama acelera privatização dilmista
» Tombini pode tombar economia
» Educação imoral produziu barbárie em Realengo
» Choque cambial contra juro e inflação à vista
» Economia sai do samba e cai na marchinha
» Revolução nega que salário gere inflação
» Democracia sucumbe-se à ditadura econômica
» Blá, blá, blá imperialista de Geithner
» Juventude acelera democracia direta
» Acordo espúrio PMDB-PSDB favorece Aécio
» Sindicalismo racha governo e atrai oposição
» Dilma torna BC independente… do mercado
» Mulheres garantiriam segundo mandato dilmista
» Ajuste fiscal...
» Nacionalismo dilmista segura Mantega no Governo
» Dólar forte vem aí para reeleger Obama, deixando pepino para quem suceder Lula
» É hora do Banco Sul-Americano
» Revolução ética nacional pressiona STF
» Fome industrial chinesa vira armadilha especulativa sob capitalismo de estado
» Sucessão põe social avalista do real
» Amorim entre Ahmadinejad e Sakineh
» Serra nega Serra
» Sucessão presidencial com emprego em alta
» Banqueiros dominam o Congresso
» Reserva cambial vira risco especulativo
» Serra avaliza Dilma ao elogiar Lula
» Metamorfose legislativa evita intervenção
» Crise detona independência do BC
» Dilma, ex-guerrilheira, incomoda militares
» Consumo reduz inflação e eleva poupança
» Copenhague expôs loucura capitalista alienada
» Brasil entra na dança de Dubai e do dólar
» FHC, candidato do PSDB contra Dilma
» Dólar bloqueia integração sul-americana
» Extroversão social-sexual pede paz e não guerra
» Zelaya veste Fidel, Ortega etc
» Privatização fracassa na educação
» Ópera bufa: Estadão versus Sarney
» China-EUA aplicam golpe do dólar podre para apossarem do petróleo sul-americano
» Moeda sul-americana:demorou
» Expropriação do quintal de Tio Sam
» Cadastro positivo é fetichismo legislativo
» Real desbanca dólar sob ataque especulativo
» Câncer combina razão e emoção na sucessão
» Bancarrota moral neorepublicana
» Mudança no BB é recado para Meirelles do BC
» Governo descarta comunidade
» Governo descarta comunidade
» Banqueiros manobram Obama e fragilizam dólar
» Estado usa inflação contra luta de classes
» Bolsa Família para aumentar arrecadação
» Coronelismo enterra Nova República
» CPI para PMDB corrupto que vira ARENA
» Moratória eleitoral antecipa sucessão
» Sapatada no Bradesco e na Febraban
» Desaceleração econômica detona Copom
» Crise neoliberal acirra mercado da fé
» Latinos ensaiam resistência aos EUA
» Globo investe contra soberania sul-americana
» O golpe do dólar a galope
» Campanha nacional: juro tabelado contra crise
» Obma: vitória do poder comunitário digital
» Show de incompetência sul-americana
» Lenin no comando do capitalismo em crise
» UNASUL desbanca OEA
» Democracia direta detona guerra civil na Bolívia
» Nasce moeda sul-americana
» Petróleo agita sucessão presidencial
» Produção da (des)informação fascista
[ Ver todas as publicações da coluna ]

 

Buscar Conteúdo
Colunistas

Fatal error: Cannot redeclare foto_existe() (previously declared in /home/patria/public_html/colunaconteudo.php:16) in /home/patria/public_html/lado_colunistas.php on line 13