TAQUI PRA TI
No auditório da Sorbonne não cabia mais uma agulha. Lotado até o tucupi. Renomados antropólogos em pé, sentados no chão, amontoados na porta, espalhados pelo corredor, disputando um lugar com os seus próprios alunos. Tinha gente pendurada no lustre. Eram assim os seminários de Claude Lévi-Strauss: um acontecimento, quase um espetáculo, para o qual era preciso chegar com duas horas de antecedência.
Assisti uma dessas aulas, em 1982, com Maurice Godelier – isso mesmo, Godelier, então com seus 50 anos – na platéia, sentado no chão. O antropólogo Patrice Bidou falou sobre os índios Tatuyo, do rio Vaupés e descreveu, com riqueza de detalhes, o trabalho duro e cansativo da roça e da fabricação de farinha de mandioca, exclusivo das mulheres. Foi quando Lévi-Strauss o interpelou:
- Se são as mulheres e não os homens que fazem o trabalho mais pesado, e se elas é que são as responsáveis por extrair a substância tóxica da mandioca, como é que você explica que não tenham ainda envenenado esses homens?
Foi essa provocação desconcertante e, aparentemente angelical, que permitiu discutir, naquela aula, a organização patriarcal dos Tatuyo, índios da Amazônia colombiana, cujos mitos legitimam o poder masculino. Mas a desigualdade de gênero, presente em narrativas míticas, já havia sido analisada por Lévi-Strauss em seus livros: Do mel às cinzas e A origem dos modos à mesa. Ele sugeriu que a divisão do trabalho por sexo constitui o embrião da sociedade de classes, ou seja, da exploração de homens por outros homens.
Lembrei-me dessa aula por causa da comemoração, anteontem, do aniversário de cem anos de Lévi-Strauss, que contou com leitura de trechos de sua obra por cem personalidades e com uma exposição de fotos de suas viagens, no Museu do Quai Branly, em Paris, aonde vive. No Brasil, jornais de circulação nacional, como O Globo e A Folha de SP, editaram cadernos especiais em sua homenagem, e a USP, aonde lecionou entre 1935-1938, festejou, promovendo um seminário sobre seu pensamento.
Pensamento selvagem
E na Amazônia? O que as universidades, os centros de pesquisa e a mídia fizeram para celebrar um dos maiores pensadores contemporâneos, que está tão perto de nós? Afinal, sua obra deu visibilidade à região. Ele estudou as culturas amazônicas, recolheu mais de 800 mitos ameríndios e equiparou os conhecimentos indígenas às mais altas reflexões da civilização ocidental, chamando atenção para a contribuição que os índios deram à humanidade com suas formas de pensar.
Seu grande mérito foi ‘abrir’ a cabeça dos índios para ‘ver’ o que tinha lá dentro. Gostou do que viu e comparou o pensamento indígena com o ocidental: “Uma das diferenças essenciais é a necessidade que temos de fragmentar. Dividimos a dificuldade para melhor resolvê-la. Já o pensamento indígena rejeita essa fragmentação: uma explicação só é válida desde que seja total. Quando queremos solucionar um problema, procuramos esta ou aquela disciplina científica, ou então o direito, a moral, a religião, a arte. Nos povos estudados pelos etnólogos, todos esses domínios estão ligados, constituindo um fato social total, que põe em questão, simultaneamente, todos esses aspectos”.
Lévi-Strauss desmontou os fundamentos metafísicos do colonialismo ocidental e, dessa forma, reinventou a antropologia – diz Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional. Acrescenta que com o livro O Pensamento Selvagem e os estudos sobre mitologias, seu autor “tirou o pensamento ameríndio do gueto em que jazia desde o século XVI e lhe deu carta de cidadania para ingressar com a cabeça erguida no futuro intelectual da espécie”.
A etnologia brasileira, avaliada por Lévi-Strauss como a melhor do mundo, confirma a atualidade do pensador francês, em livro recente - Lévi-Strauss: Leituras Brasileiras - organizado por Rubens Queiroz e Renarde Nobre, com a participação, entre outros, de Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha, Márcio Goldman e Tânia Stolze.
Sua importância aparece, ainda, no filme Lévi-Strauss auprès de l’Amazonie, de 52 minutos, realizado para a TV francesa por Marcelo Flores, um antropólogo brasileiro residente em Paris, que destaca o lado “profeta” do antropólogo, considerado um precursor dos ecologistas, por haver defendido, desde 1950, a diversidade, e por perceber que as terras indígenas constituem uma esperança para a Amazônia: “hoje, onde há índio, há floresta”.
Fofocas acadêmicas
Um bom livro para os não-iniciados conhecerem Lévi-Strauss - De Perto e de Longe – contém entrevistas feitas pelo jornalista Didier Eribon. Nele, o antropólogo, descontraído, fala de sua vida, da infância em Paris, do pai pintor, do bisavô violinista, de suas leituras de Dom Quixote por quem se apaixonou aos dez anos, da militância política, dos estudos, das viagens, dos amigos, dos alunos da USP, dos índios, das brigas, de suas andanças, de seu trabalho intelectual e das disputas acadêmicas: a tribo dos antropólogos vivia em guerra antropofágica, praticando o endocanibalismo. Ralph Linton e Ruth Benedict, por exemplo, se odiavam, um vivia falando mal do outro.
Pé-frio. Não sente com ele à mesma mesa. Quando residia em New York, em 1942, foi almoçar no restaurante com vários amigos. Sentou-se ao lado de Franz Boas - o grande mestre da antropologia americana. No meio da conversa, Boas caiu para trás, morto, em seus braços, na presença da própria filha. Outro antropólogo famoso, Alfred Kroeber, presidente da Associação Antropológica Americana, de passagem por Paris, em outubro de 1960, morreu no dia em que, acompanhado de sua mulher, ia jantar na casa dele, Lévi-Strauss, que conta isso com respeito, mas sem esconder certa dose de humor.
Merece destaque sua atitude em relação à ciência e à religião. Ele continua ateu, embora mais tolerante do que na juventude: “Mesmo continuando surdo às respostas religiosas, cada vez mais sou invadido pelo sentimento de que o cosmos e o lugar do homem no universo ultrapassam sempre nossa compreensão. Acontece que me dou melhor com os crentes do que com os racionalistas empedernidos. Pelo menos os que têm fé possuem o sentido do mistério. Um mistério que o pensamento parece incapaz de resolver. É preciso contentar-se com as mordidelas infatigáveis que o conhecimento científico dá em suas bordas”.
Narra, ainda, que fez concurso para o magistério. No dia em que soube o resultado, passou numa livraria e comprou um livro. De astrologia. Oh, surpresa! Um intelectual de seu porte lendo astrologia? Alguém imagina Einstein vendo telenovela? Lévi-Strauss estava se lixando. Ele explica: “Não que eu acreditasse em astrologia: peguei o livro, só para provar a mim mesmo que eu não havia perdido minha independência de espírito”. Confessou, em Tristes Trópicos, ter uma inteligência neolítica, que não se aproveita do saber adquirido: “Sou, antes, alguém que se desloca a uma fronteira sempre instável do conhecimento”.
Esse é Lévi-Strauss, o sábio mestre, provocador, instigante. Hoje, domingo, 30 de novembro, seu horóscopo diz: felicidade para os sagitarianos, sobretudo aqueles que, amantes de Dom Quixote, são antropólogos nos Andes ou em Paris. Escute sempre os conselhos de seu pai: flanando pelo Quartier Latin, plantando batatas em Sibayo ou bailando wititi em Chivay, reafirme sua vocação etnológica como um refúgio contra uma civilização e um século que querem nos roubar a esperança e nos emprenhar de melancolia.
P.S. – Um jornal do porte do Diário do Amazonas tinha de reverenciar, nessa data, um sábio tão importante para nós da Amazônia. Não tinha não?
Dudu, o comendador emedalhado
As grotescas presepadas de três imperadores romanos provocaram, historicamente, chacota, deboche e gozação. Nero, Calígula e Cômodo foram avacalhados por falta de desconfiômetro e senso do ridículo. A plebe ria pelas costas deles em todas as vielas e becos de Roma. Assim, rindo, a plebe ignara se vingava do sofrimento e da opressão. As gargalhadas se espalharam pelo norte da África, Cartago e Alexandria, atingindo Bizâncio, Macedônia e Gália. Até hoje, a gente continua rindo desse Festival da Besteira que Assolou o Império, conhecido como efe-bi-ai (FBAI).
Afinal, o que fizeram eles para ser objeto de tanto escárnio e zombaria? Calígula nomeou seu cavalo Incitatus como senador. Nero baixou um decreto, através do qual concedia a si mesmo a medalha Imperium Maius, do Comando Supremo, e determinava que fosse tratado, a partir daquela data, como Dominus et Divus – Senhor e Deus. Cômodo se autodenominou Hércules Romano, exigiu ser adorado como a reencarnação do filho do deus Júpiter e emitiu moedas em que aparecia com clava, arco, flechas e uma pele de leão. Assim, fantasiado de Hércules, carnavalizado, apareceu no Senado.
Por que homens poderosos se amesquinham tanto disputando farelos? Parece que essa mania por insígnias, medalhas, comendas e honrarias, historicamente insignificantes, é causada por um vírus conhecido como Microbius Babacorum, que ataca os deslumbrados com o Poder. Segundo o filósofo Sêneca, Babacorum qui se ipsum laudat, cito derisorem invenit, ou seja, os babacas que ficam se auto-homenageando, caem no ridículo. Seu colega Salviano observou que isso era um sinal de que o Império agonizava. Roma moritur, et ridet – ele escreveu, comentando que Roma morria, mortalmente ferida pelo deboche e pela gozação.
O Rubicão amazônico
A cidade de Manaus, nesse final de governo, assemelha-se a Roma no seu período de decadência. O governador Eduardo Braga acha que o rio Negro é o Tibre; o igarapé de Manaus, o Rubicão; o bosteiro onde ele desagua virou o Mar Adriático, e seu aliado, Adail Pinheiro, com o título de amicus princeps, é nada mais nada menos que o pro-consul da Gália Cisalpina. Ludere me putas, lector amicus? Pensas que estou brincando, leitor amigo? Então lê o Diário Oficial de 19/11/2008.
Lá, está publicado o Decreto 28.096, através do qual o governador Eduardo Braga, seguindo a linha política de Nero e Cômodo, resolveu se conceder uma comenda, a medalha Imperador Dom Pedro II. Para não dar bandeira – flamulam no dare – o decreto é assinado por Omar José Abdel Aziz, como governador em exercício, e pelos dois puxa-sacos José Melo Merenda, Secretário de Governo, e Raul Zaidan, chefe da Casa Civil, esse último contemplado também com uma medalha pelo decreto 28.097, que distribuiu medalhas para 28 autoridades civis e militares.
Eles se emedalham mutuamente e ficam todos emedalhados. É medalha que não acaba mais, distribuida entre eles mesmos ad pompam et ostentationem. Um dos contemplados é Lupércio Ramos, secretário de Juventude, Desporte e Lazer. Se romano fosse, Lupércius certamente seria nomeado senador, mas essa vaga vai ser disputada no tapa, dentro de dois anos, pelo próprio Dudu, que de qualquer forma fez com seu secretário aquilo que Caligula fez com Incitatus: rendeu-lhe uma homenagem.
Intrigado, o leitor se pergunta: qual o significado dessa medalha? Deixo que as palavras do próprio decreto respondam: “O governador do Estado do Amazonas, considerando a proposição do Conselho de Mérito Bombeiro Militar, com vistas a galardoar o dr. Eduardo Braga, governador do Estado do Amazonas, pelos serviços prestados ao Corpo de Bombeiro Militar do Amazonas, decreta: art. 1 – Fica concedida a Medalha Dom Pedro II ao Dr. Eduardo Braga, governador do Estado”.
Bombeiro pode apagar?
A medalha, portanto, é concedida para aquelas pessoas que prestaram serviços ao Corpo de Bombeiro. O que ninguém sabe é que diabos de serviços o Dudu, Lupércio, Raul Zadan e demais membros da lista prestaram aos bombeiros de Manaus. Apagaram incêndio? Consertaram cano? Mijaram em fogueira de São João? Prestaram algum tipo de socorro? Ah, leitor, hic culum cotiae sibilare, como dizia Nero, contemplando o incêndio que ele mesmo provocou em Roma. Ou seja, é aqui que o fiofó da cotia assovia, porque os serviços prestados pelos emedalhados constituem segredo de estado.
O repórter Tambaqui, com seu faro investigativo, descobriu, porém, quais foram esses serviços. Vocês sacam o Arnold Schwarzenegger, o exterminador do futuro que governa a Califórnia? Pois é, na semana que passou, ele assinou um acordo com o Dudu Braga, que prevê a possibilidade de investimentos na preservação ambiental da floresta amazônica, como forma de compensar as emissões de carbono, responsável pelo clima seco, que está provocando incêndios na Califórnia.
Epa!!! Eu falei incêndio? É isso aí, gente. A grande contribuição do Dudu Braga aos bombeiros foi assinar um acordo que pode evitar incêndios na Califórnia. Faz sentido. Com essa medalha, o comendador Dudu Braga, clonando o imperador Cômodo, pode se fantasiar de bombeiro ou gladiador, com um capacete metálico, caneleira, brasões e outros penduricalhos, e adentrar a Assembléa Legislativa do Amazonas. Pode também cunhar uma moeda com sua efígie em baixo relevo.
No dia da cerimônia de condecoração e entrega das medalhas, o repórter Tambaqui estará infiltrado para registrar as labaredas da fogueira de vaidades que nem bombeiro pode apagar porque o Calígula caboco, igual a Nero, esqueceu o provérbio latino: laus in ore proprio vilescit – louvor em boca própria é ato vergonhoso e infame.
E o Secretário de Cultura, Berinho Braga, que adora e coleciona medalhas, por que não foi condecorado com a medalha dos bombeiros? Se você entrar no Curriculum Lattes do Berinho, verá que ele tem 25 medalhas e condecorações (mais do que o Nero e o Calígula juntos), incluindo ai as medalhas da Polícia Militar, do 1º. Centenário do Duque de Caxias, do Bicentenário da Justiça Militar, do Mérito Tamandaré do Ministério da Marinha, do Mérito Judiciário do Estado do Amazonas, e dos Amigos do 2º. GEC. Dudu precisa fazer um terceiro decreto contemplando Berinho. Ele merece.
Cômodo, filho de Marco Aurélio, o Podrão e de Faustina, a Jovem, foi estrangulado pelo gladiador Narciso, numa banheira, a mando de sua amante. Calígula foi assassinado pela Guarda Pretoriana. E Nero se suicidou, depois de assassinar a própria mãe, dona Agripina. Esperamos, sinceramente, que os emedalhados do Império Amazônico tenham um fim menos trágico, embora todos eles, como nós, estejam condenados a bater as botas de forma nada gloriosa. A morte é o único bombeiro capaz de apagar o fogo de todas as vaidades. (E olhe lá! Tem algumas sepulturas no São João Batista que negam essa afirmação).
| Postado em 23/11/2008 ás 22:14 |