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Coluna de Argemiro Ferreira
A promiscuidade no jornalismo político
Certa vez estive envolvido numa discussão interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pelé no "Jornal do Brasil". Discordei da idéia de impedí-lo de escrever por não ser jornalista. Mas o próprio craque, interpelado pelo sindicato, preferiu recuar. Concordou em expor suas análises sempre na forma de entrevistas, cabendo o texto a um jornalista.
Mais tarde ouvi dizer que Tostão, formado em Medicina, fez curso de comunicação para não ter de enfrentar a ira de jornalistas inconformados com a competição de não diplomados. A disputa permanece, mas minha opinião continua a mesma. Não parece correto insistir em restrições assim para impedir um Pelé, um Tostão, um Gerson, um Sócrates e tantos outros de escrever sobre o que conhecem tão bem.
O jornalismo ganha com eles. Se esse caso e outros semelhantes violam a lei que regulamenta profissão, os colegas jornalistas e os professores de comunicação que me desculpem, é hora de mudar a lei. Mas há certas sutilezas a serem examinadas. Volto a essa questão hoje por causa do que está acontecendo nos EUA, onde o marqueteiro Karl Rove tornou-se a mais nova estrela do jornalismo político americano.

Rove, Russert, Stephanopoulos
Nos EUA existem escolas de jornalismo e de comunicação, mas não a exigência de diploma para o exercício da profissão. Um dos jornalistas mais bem-sucedidos da TV - Mike Wallace, do "60 minutes" da CBS - celebrizou-se primeiro como animador de programas de prêmios. Tim Russert, que faz sucesso no "Meet the press" da NBC, começou como assessor do governador Mario Cuomo e, depois, do senador Daniel Moynihan.
O programa político da ABC que disputa o horário de domingo com Russert na NBC é "This week", de George Stephanopoulos, formado em Ciências Políticas, Direito e Teologia - e sem nenhuma experiência jornalística até celebrizar-se em 1992 como secretário de imprensa da campanha presidencial de Bill Clinton e, posteriormente, diretor de comunicações da Casa Branca.
Na mesma campanha presidencial, destacaram-se ainda James Carville, principal estrategista de Clinton e, do outro lado, Mary Matalin, a serviço da campanha rival de George Bush I. Carville e Matalin (ela serve hoje ao vice Cheney) casaram-se depois e ganham a vida com política e jornalismo. Fazem na TV (inclusive na NBC) um "número": brigam expondo posições opostas, a democrata e a republicana. Teatro, claro.

Obama, o próximo alvo dos 527
Ontem o "New York Times" - que há dias devassou o escândalo dos "analistas militares" da TV, generais treinados pelo Pentágono para melhor defender na mídia as opções bélicas dos EUA - expôs a situação atual de Karl Rove, transformado em analista político da mídia após dirigir com sucesso as duas campanhas de Bush (2000 e 2004). Ele fala na Fox News e escreve para o "Wall Street Journal" e a "Newsweek".
Convenhamos que enquanto o debate é sobre Pelé, Tostão, Sócrates, está fora de dúvida que o jornalismo - como os leitores ou telespectadores - só tende a ganhar Mas uma relação promíscua entre a mídia e a política corre o risco de comprometer a própria integridade do jornalismo. E Rove, especialista em truques sujos da política, traz ainda seu status de celebridade e muitas dúvidas éticas.
Sobre a competência do personagem, nada a opor. Dificilmente alguém domina tão bem o tema que analisa - como na certa concordam os que acompanharam sua participação na cobertura das últimas primárias pela Fox News. Mas, entre outras coisas, Rove pode estar envolvido, segundo sugeriu o "Times", num projeto para produzir e veicular comerciais difamatórios contra Barack Obama.
Esses comerciais, como mencionei em coluna anterior, viriam dos chamados grupos 527 - desregulamentados, livres de impostos e sem ligação visível com a campanha republicana. Exatamente como ocorreu na primeira e na segunda campanha de Bush, ambas dirigidas por Rove. Em 2004 a difamação de John Kerry em comerciais agressivos que inundaram o país ficou a cargo do grupo "Swift Boat Veterans for Truth".

A mesma porta de vaivém

Coube ao mestre de Rove, Lee Atwater, fazer a campanha de Bush pai em 1988 e usar comercial semelhante - sobre Willie Horton, presidiário negro que, liberado para passar um fim de semana em casa, estuprou e matou uma mulher branca. O anúncio foi produzido por empresa sem ligação com a campanha. Ante a vantagem do democrata Mike Dukakis, de quase 20 pontos percentuais, Bush autorizou a veiculação - e se elegeu.
Depois de Atwater prever que ao fim da campanha Horton seria célebre em todo o país, um ex-assessor de mídia de Ronald Reagan - Roger Ailes, hoje presidente da Fox News, que acaba de contratar Rove - completou: "A única dúvida é se vamos mostrá-lo com a faca na mão ou sem ela". E Larry McCarthy, que produzira o comercial e antes tinha trabalhado para Ailes, encarregou-se de convencer as TVs a aceitá-lo.
As relações promíscuas de gente como Rove com a mídia são e serão sempre uma preocupação para quem se preocupa com a ética e a integridade jornalística. Rove foi da Casa Branca para a redação - como Ailes, Stephanopoulos, Carville, Matalin e outros. Às vezes o fluxo é inverso na porta de vaivém: Tony Snow, ex-âncora do programa político da Fox, tornou-se depois porta-voz de Bush na Casa Branca.

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Postado em 13/05/2008 ás 22:01

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