Brasília - Quarta , 22 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de José Ribamar Bessa Freire
Tu és Pedro
A gente se apaixona por algumas palavras e expressões como se elas fossem gente ou animal de estimação. Foi o que aconteceu com meu amigo Armindo Barroso, professor da UFF. Ele namora, firme, as palavras ‘interface’, ‘sinergia’ e ‘episteme’, delas não se desgruda nem quando está descontraído num bar. Mantém caso rumoroso com o verbo ‘perpassar’, de quem usa e abusa. Promíscuo e bígamo, casou-se com a expressão ‘esgarçamento do tecido social’, sem se divorciar da ‘capilaridade social’, embora saiba que as duas, oferecidas, se entregam ao primeiro que aparece. Às vezes, exibicionista, junta todas elas e promove surubas lexicais que escandalizam a vizinhança pudibunda.

‘Pudibunda’ é, aliás, uma palavra que não pode ser apresentada ao estudante amazonense Pedro (Kokay) de Souza, aluno da Escola Concórdia, da ULBRA, em Manaus. Ele acaba de completar 6 anos de idade e descobriu aquilo que os índios guarani sabem há dois mil anos: as palavras têm alma. Nheen, em guarani, quer dizer ‘alma’ e, ao mesmo tempo, ‘palavra’. Pedro se apaixonou perdidamente por uma palavra-alma, logo que foi alfabetizado. A professora ensinou-o a escrever com letra cursiva. E a palavra foi justamente essa, que o neoleitor, recém-alfabetizado, pronuncia enchendo a boca e lambendo os beiços:

- Pai, deixa eu te dar um beijo cursivo?

Ele está encantado com a palavra. Não se separa mais dela, é um grude só. Nada mais diz, só diz cursivo. Seu quarto é cursivo, o primo Palmito é cursivo, a vida e o mundo são cursivos.

Tudo pra ele é cursivo. Viu o gol do Neymar no Peñarol e fez um comentário, muito apropriado, que deixaria o Galvão Bueno de queixo caído:

- “Esse foi um gol cursivo”.

E foi mesmo. Quem viu o chute do Neymar, sabe disso.

Outro dia, no banheiro, antes de puxar a descarga, Pedro chamou:

- Pai, vem ver, meu cocô hoje está cursivo.

Deixou no chinelo a ‘episteme’, a ‘sinergia’ e a ‘capilaridade social’ do Armindo. Como disse Hamlet a Polônio, num quarto do castelo de Kronborg, na Dinamarca: “words, words, words’.

Outro dia, Pedro, sob os cuidados da avó, declarou:

- "Vovó, o buraco CUrsivo do meu bumbum tá coçando".

O palavrão
Pedro descobriu que a palavra, que tem alma, pode ser dita, mas se ela crescer e virar palavrão, a alma se transforma em assombração e tem que ser silenciada.

Outro dia, diante da TV, assistia o ‘Fantástico’, uma matéria sobre a gordura dos peixes e comentou:

- Pirarucu, pacu, tucunaré, aracu curimatã... Pai, por que todo peixe tem cu, mas a gente nunca vê o cu do peixe?

O pai explicou que nem toda palavra podia ser dita em qualquer lugar. Intrigado, mostrando que compreendeu bem, Pedro perguntou se podia nomear o amiguinho dele, na escola, que era um palavrão: Orlando Pinto. O pai explicou que “pinto”, se fosse nome de pessoa, podia falar. Ele aprendeu rapidamente a lição.

Pedro: - Porra!!!

Pai: - Que é isso, meu filho. Que palavrão feio!!

Pedro: (com uma cara safada) - Pai, não é palavrão. Porra é o nome que eu dei pro meu robô de Lego. Legal, né? Nome de pessoa pode falar.

Na última quinta-feira santa, Pedro, cuja bisavó foi professora de catecismo na paróquia de Aparecida, resolveu não negar o DNA. Deu uma aula de religião:

- "Vovó,’amanhã’ Jesus morreu e domingo ele ‘Jesussitou...’”

No noticiário, Pedro viu a cavalice do deputado Bolsonaro, o coice que ele deu na senadora Marinor. O pai aproveitou para fazer um discurso sobre o respeito à diversidade, ao outro, à diferença. Foi ai que Pedro decidiu sair do armário, confessando:

- Pai, eu sou bi...

Se fosse o Bolsonaro, sairia logo cobrindo de porrada para ‘educá-lo’. Mas o pai achou que era precocidade demais:

- O que isso, meu filho?

- Sou bi-atleta, treino judô e futsal.

Eliza, a irmã de Pedro, pegou uma conjuntivite e foi advertida pela mãe, que é médica, que não podia ficar coçando o olho. No dia seguinte, Pedro falou:

-“Mãe, tô com conjuntivite...só que é no braço. Pode coçar?"

Pedro Malasartes
Quando seu pai sai pra tocar música na noite manauara, dorme até tarde. Numa dessas, Pedro, que acorda com os galos, cochichou, amoroso, no sonolento ouvido paterno:

- “Pai, a Eliza tá querendo te acordar, porque ela quer brincar com você... eu também quero, mas vamos deixar você dormir mais um pouco, tá? Mas se tu acordar logo, eu vou te dar cascudos de beijos”

No outro fim de semana, o mesmo cenário.

Pedro – “Pai, quando a gente vai acordar?

Pai (virando na cama) – “A gente vai acordar daqui a pouco”.

Pedro – (susurra no ouvido do pai, aproveitando o embalo) - "A gente tem de acordar logo porque a gente tem de pegar o toddynho, porque a gente tá com fome..."

Num programa de TV, ao lado do pai, assistia uma propaganda sobre o Teste do Pezinho. Pergunta pra que serve, o pai explica que é pra ver se o bebê tem alguma doença.

Pedro – Ahhh, tá. Eu não preciso fazer nada, porque não tenho nada no pé.

Pai – Não é pra ver se tem doença no pé, mas no corpo.

Pedro – Isso me confunde. Devia chamar Teste do Corpinho e não do pezinho.

No carro, indo pra escola:

- Pedro, você me ama?

- Claro, né, você é meu pai.

- E o que é amar?

- Não sei.

- Se você não sabe, como é que me ama?

- Não precisa saber, basta amar...

Puxando conversa, o pai diz: - Pedro, você ficou famoso. Todo mundo no facebook se diverte contigo, te acham engraçado, inteligente.

Pedro dá um suspiro profundo e depois de um longo silêncio comenta: - É...celebridade é assim mesmo”.

Depois, ele convoca o pai, chamando insistentemente:

- "Pai pai pai pai pai pai pai pai pai..."

- "Tou ocupado. Pára de falar “pai, pai, pai”.

Dois segundos de reflexão, e Pedro, obediente, contra-ataca:

- "Paulinho Kokay, Paulinho Kokay, Paulinho Kokay, Paulinho Kokay..."

Sei dessas histórias porque com o Pedro tenho um laço atávico. Ele é filho da doutora Zuleica com o cantor e professor universitário Paulinho Kokay, que vem a ser filho do Bibi, meu cunhado, e primo do Pão Molhado, meu sobrinho, ou seja, neto da mãe da Nakamura, se bem me explico, além de pai, até o momento, da Érika, Mariah, Eliza, Gabriel e Bebel. Da mesma forma que em toda família há uma tia Nenen, sempre se pode encontrar também um Pedro.

Ver pkokay@terra.com.br

Postado em 27/06/2011 ás 22:31

[ Imprimir ]

Veja Também
» Em defesa de Dona Miloca
» A ex-irmã Gleisi e os índios
» Confesso que trai
» Stradelli: As vozes da floresta
» EL CHE PAPA
» Mil meu com mil teu
» Dona Taci: A sabedoria fulniô
» Coitada da Lazinha
» O cantar do Cid
» Doña Aurélia, a última sogra
» Weffort, o explorador do Brasil
» Feliz 2013, Tataitá!
» Na cama, com Silvio Tendler
» Na escola do Igapó
» Niemeyer no sonho de Darcy
» Kátia, a antropóloga, criadora da abreugrafia
» Um índio museólogo na canoa das almas
» Os eleitores prefulgenciados
» Os candidatos vira-casaca
» Entre Amazonino e Aquilino
» Planejando a própria morte
» O professor que torturava
» O biquinho francês: Um patrimônio escondido
» Os museus da resistência
» Os bundões e a bíblia da bunda
» Manicy e a porcaria da AGU
» Um cardeal sem passado
» Brand - Um amigo dos índios
» A prisão de Lupicinio
» As primaveras da UFAM
» THOMAZINHO
» A bola dos Kamaiurá
» Os indios do século XXI
» Pão molhado na CPI
» Neiva Moreira, o contados de histórias
» Creio em Tupã
» Unibiótica, nunca mais!
» Tia Suzana, meu amor
» Fale com o presidente
» O canário nas minas de carvão
» O ex-governado Illinoizinho
» O leite do meu filho
» O omelete do Belão
» Dois presos e uma medida
» AI DE TI, HAITI!
» Volta pro navio, seu porra!
» Faz mal uma palmadinha?
» Alguém morreu em Cuipiranga
» Um berço de escritores
» Lúcio Flávio: Ameaças a um jornalista
» Alberto Santoro: A partícula de Deus
» Dona Yedda
» O agrobanditismo: A hora de a onça beber
» Rondônia: A operação magnifico Januário
» Um deles já nos viu!
» O album da família Pirroque
» Dois médicos e uma briga
» O milagre da pimenta murupi
» Carta aberta à Comissão da Verdade
» Os cães farejam livros
» A província se defende como pode
» A provícia se defende como pode
» O tambor do caboco suburucu
» Canta lá que eu conto cá
» As duas mortes do avô da Rosi Odina
» Conradinho close up
» AI DE TI, IJUÍ !
» Falta um contínuo no Ministério dos Transportes
» Maria Pucú, a militante fiel
» Tu és Pedro
» O pirarucu safado
» Que time é teu?
» O português e o Tupi no Brasil
» Oa Tarumã estão voltando
» Os xerifes da língua
» O tacacá do Bolsonario
» Com o coração enterrado na curva do rio
» O carimbo da Kate
» O olhar dos índios
» O pajé que fala com as árvores
» Alô Alô, Realengo!
» Faltou alguém no velôrio do Zé
» O detetive da palavra
» Peret, o contador de histórias
» Cadê o Thomazinho?
» Nem ruim da cabeça, nem doente do pé
» O Berlusconi da floresta: "Essa coisa"
» O discurso dos surdos
» Confissão na era digital
» Lá se foi nosso Jardim
» Essa Manaus, que se foi
» Dona Alvina, a tacacazeira
» Maria fecha a porta
» O ministro e a pipa do vovô
» Um natal com bolo e bola
» O cordelista que não se vendeu
» O Rio de Janeiro continua lindo?
» A anta que virou elefante num domingo espetacular
» O cafofo da Rua da Instalação
» O circo sem teto da Amazônia
» Vovó Dilma ou vovô Serra?
» Pedro e o Globo
» Serra: A fé de um ambientalista
» O encardido: Seu filho, seu neto
» Ai de ti, Amazonas!
» Ele, Ely, é o cara
» A sogra do Jacamim em busca da beleza
» O capeta apareceu em Dourados
» Ação redibitória neles!!!
» Da arte de ser Manoel Octávio
» Para não falar com o espelho
» Para não falar com o espelho
» Suplica do eleitor brasileiro
» A filosofia do pão francês
» Zé Melo no Espoca-Velha
» O horóscopo nas eleições
» Aldo e a maldição do curupira
» Serra e a derrota do Brasil
» Te mando um passarinho
» A tribo dos escritores e o jabuti
» Dona Dadá da jaca
» LULA, O PÜTCHIPÜ´Ü DO MUNDO
» As bruxas também morrem
» Quem tem olhos que veja
» O IDD do Brasil é mais embaixo
» Avisa que estão matando o Mindu
» Um filho teu fugiu à luta
» Um namoro etnodigital
» Um namoro etnodigital
» Judas no Brasil
» Um blog chamado Lucta Social
» O dicionário do Bewrinho
» A cotia risonha ri de quem?
» Vai lavar teu tcherembó!
» O tocador de pandeiro
» O dia em que a Geny me salvou
» As várias fomes da Marina
» Ê, OLHA A FUNAI, CAMARÁ!
» Brasil: A lagoa dos negros
» A paçoquinha de dona Maria
» Madinha e a taxa de lixo
» O revolver do Quidoca
» Amazonino e a baronesa de Igarapé
» Ore Roimé nderehe ym
» A ponte que partiu
» Levi-Straus e Verequete
» O filho da cobra
» Lula, Cristo e Judas
» O dia em que Mercedes encantou Manaus
» Nós que amamos as pererecas
» As donas das receitas
» A volta dos kabokoves
» A sena da Sasha
» You are my sunshine
» PT: VIXE, VIXE ?
» O Rio Negro e a sua universidade
» Os donos da memória
» O boto navegador
» Senhor juiz, pare agora!
» A caneta do Sarney
» O senado e o caso da tartaruga
» Na enfermaria 209
» A novela dos irmãos Souza
» Ninguém mais será Jaú
» Se eu fosse os índios: as línguas
» Tikuein, Entxeiwi
» Confirmando suspeitas
» Aldo, o bandeirante vermelho
» O almirante Kadiwéu
» O almirante Kadiwéu
» Morte e vida das línguas
» Eu telo chê chenadô
» A menina, o bispo, nós
» Uma cronica censurada
» Belão, o gato bilingue
» Mamãe, eu quero tribumelo!
» Adeus a um prefeito singular
» Gandra: A fábrica de tijolos
» LÉVI-STRAUSS: Tão perto da Amazonia
» TAQUI PRA TI - Contra a leitura
» Tem um negão na Casa Branca
» As aventuras de Jean Frébourg
» Novela eleitoral: O favorito
» Caboco tranca-rua: Nu e cru
» Cartas de Vania e Marilza
» Adeus Manaus, adeus Waldick!
» a SOBREMESA ESTA GOSTOSA
[ Ver todas as publicações da coluna ]

 

Buscar Conteúdo
Colunistas

Fatal error: Cannot redeclare foto_existe() (previously declared in /home/patria/public_html/colunaconteudo.php:16) in /home/patria/public_html/lado_colunistas.php on line 13