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Coluna de José Ribamar Bessa Freire
A sena da Sasha
Na sexta-feira, O Globo publicou duas notinhas. Numa delas - Velinha ou velhinha? - Ancelmo Góis informa que no programa partidário na TV, quando a senadora Marina Silva falou da avó dela, colocaram legenda com a palavra: ‘uma velinha’. Na outra nota – Descredencia - Joaquim Ferreira dos Santos escreve: “A Bienal do Livro distribuiu credenciais onde estava escrito acessoria de emprensa”.

A ‘emprensa’ ficou também escandalizada com a filha da Xuxa, a Sasha, que escreveu no Twitter: “Estou aqui filmando, vou fazeruma sena com a cobra”. Os jornais, embora cometam suas infrações, acabam desempenhando a função do Appendix Probi, aquela lista feita por autor anônimo, no século III a.C., que continha palavras em latim vulgar e sua ‘correção’ em latim clássico. A forma ‘correta’ de escrever era, por exemplo, ‘articulus’ e não ‘artigu’, como a plebe falava, ou ‘artigo’, como ficou em português.

Tanto antigamente, como agora, ninguém diria que se tratava de um erro, se a palavra, em vez de escrita, fosse falada. Afinal, não existe diferença, na fala, entre sena ou cena, velinha ou velhinha, anselmo ou ancelmo, acessor ou assessor, o que demonstra que a forma de grafar os sons de uma língua tem sempre certa dose de arbitrariedade.

Numa peça de teatro que montamos com os índios guarani – o Bicho Lixo - eles não entenderam, assim como nós, porque se escreve “bicho” com “ch” e “lixo” com “x”, se o som é o mesmo. É claro que é recomendável a padronização ortográfica, na medida em que dá maior precisão à comunicação escrita. O problema não está no zelo pela norma, mas em criminalizar a variação. Foi o que aconteceu no Peru e na Amazônia.

Polícia da grafia
Lá, no Peru, os índios conseguiram eleger vários deputados, falantes de quéchua ou aymara como línguas maternas. A representante do Cuzco, Hilária Supa é uma camponesa, combativa, inteligente, sagaz, dona de uma boa oratória, tanto em quéchua como em espanhol, que é sua segundo língua. Ela se comunica muito bem, falando. Escrever, em espanhol, já é outro babado.

Então, um repórter bisbilhoteiro do diário Correo, de Lima, invadiu a privacidade da deputada e fotografou, sem permissão dela, a página de um caderno que continha suas anotações pessoais. Não se tratava de um documento público, oficial, apresentado pela deputada (para isso ela tem assessores, com muitos ‘ss’), mas de lembretes para uso próprio na hora em que subisse à tribuna para falar. Afinal, se ela escrevesse cena ou sena em suas notas, na hora do discurso, a pronúncia seria uma só.

O jornal não contou com conversa. Sua edição de 27 de abril de 2009 deu destaque com a manchete: “La Congresista no tiene quién le escriba”. O foco central da notícia era que a deputada não sabia escrever de acordo com as normas da Real Academia Espanhola. Um editorial assinado pelo diretor do jornal, um tal Aldo Mariategui - tinha que ser um Aldo - humilhou a deputada e exigiu sua cassação.

“Não se pode pagar mais de 20 mil soles por mês e dar tanto poder a pessoas que não estão minimamente iluminadas pelas luzes da cultura. Não é bom para o país que possa ser eleito para o Congresso alguém com um nível cultural tão baixo, cuja ortografia e gramática revelam sérias carências. Uma pessoa com uma instrução tão elementar não pode contribuir na elaboração de leis e nos rumos da nave do Estado”.

Não se faz mais Mariátegui como antigamente! Saudades de José Carlos Mariátegui, que nos ajudou a compreender o seu país com os “Sete ensaios”. Já o Aldo Mariategui, me perdoem, é um babaca. Seu discurso boçal acha que quem segue a norma é inteligente, quem não segue é burro. Com uma visão cartorialista, teve a cara-de-pau de sugerir que o diploma universitário fosse requisito para que alguém pudesse ser candidato ao Congresso. Ele, que tem curso superior, escreveu, dentro das normas ortográficas, tantas besteiras, ignorando os avanços da lingüística e da antropologia, quando confunde cultura com escolaridade e conhecimento da ortografia com sabedoria.

A deputada Hilária Supo, ao contrário de Aldo que não fala e nem entende quéchua, é bilíngüe e transita por duas línguas. Possui experiências, herdou saberes milenares e conhece muito bem a realidade peruana, como mostra sua participação nas comissões de Saúde e dos Povos Indígenas. Excluí-la do Congresso por não conhecer as normas da língua espanhola escrita é um projeto daqueles que usam a gramática normativa para policiar, controlar e impedir a atuação política de quem não forma parte da elite letrada do país.

Comeu inzercito
Na Amazônia, igual preconceito foi usado durante a Cabanagem, a revolta popular mais importante da história regional (1832-1840). Índios, tapuias, negros, enfim, toda a cabocada, que não falava o português como língua materna, saiu pro pau com os gringos de raízes lusitanas Os poucos cabanos alfabetizados escreveram alguns documentos, num português delicioso, que não seguia as normas ortográficas de Portugal.

Um desses documentos é um bilhete ameaçador, com letra irregular: “...E se V. Exa. responsave pellos mal desta provincia não sortar logo logo móhirmão e otros patrisio que saxão prezo prometo intrar na sidade comeu inzercito de sinco mil Ome i não dexar Pedra sobre Pedra”.

As vacilações visíveis da ortografia, a segmentação das palavras e a concordância reproduzem na escrita algumas formas características do português falado na região, sem comprometer em nenhum momento sua compreensão. A prova é que a autoridade – o tal da Vossa Excelência a quem o bilhete foi enviado - não esperou o exército de cinco mil homens e soltou imediatamente o irmão e outros patrícios “que se acham presos”.

No entanto, mais tarde, essa forma de escrever, numa “caligrafia feita de garranchos”, foi apresentada no tribunal como “prova dos instintos criminosos” dos cabanos. Na opinião dos acusadores, o crime maior não era matar pessoas, mas “assassinar” a gramática. Quem não escrevia dentro da norma, imposta pelo grupo dominante, além de burro, era delinqüente. Confundiam cinto com bunda e cipó com jerimum. “Assim é phooddaa” – como dizia a tia Ernestina, que mesmo depois da reforma ortográfica de 1943 continuou escrevendo com “ph” de pharmácia, dois “o” de cooperativa, dois “d” de toddy e dois “a” de caatinga.

Foi por isso que Xuxa tirou o seu da reta. Sasha não é nenhuma deputada indígena, nem um cabano qualquer. Se ela transgrediu a norma em português – disse Xuxa – é porque estuda numa escola americana, onde se fala uma língua de prestígio. – “Então, quem ensina inglês para a Sasha deve ser o Joel Santana” – comentou em sua coluna José Simão, que certamente trocaria o nome do professor, se conhecesse o inglês shakespeariano falado por Berinho, o eterno secretário de cultura do Amazonas, organizador do Amazon Film Festival.

P.S. – Ontem, sábado, na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, houve um lançamento da segunda edição do livro “Os Aldeamentos Indígenas do Rio de Janeiro”, que escrevi com Márcia Malheiros.

Postado em 17/09/2009 ás 17:30

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