Brasília - Quinta , 23 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de José Ribamar Bessa Freire
A caneta do Sarney
Pode conferir. Os atos de José Sarney (PMDB – vixe, vixe!) ou de qualquer membro de sua família escondem sempre alguma ilegalidade ou, no mínimo, alguma imoralidade. O mordomo com salário de R$ 12 mil, a casa não-declarada à Justiça Eleitoral, o auxílio-moradia, o neto e a mina de dinheiro do crédito consignado no Senado, os parentes nomeados por atos secretos e por ai vai. Sarney jura que não sabia de nada.
As falcatruas afloram com tanta freqüência e as desculpas são tão esfarrapadas, que as pessoas, com motivos para desconfiar, botam os bigodes de molho. Inspirado no ‘serial killer’, o ‘serial corrupt’ produz escândalos em série. Aí qualquer coisa que Sarney faça, tem cheiro de corrupção. Fede. Se ele der um prosaico ‘bom dia’, ou se espirrar, ninguém vai pensar que, no primeiro caso, ele está sendo cortês e, no segundo, que está resfriado. A gente se pergunta logo: qual é a mamata escondida detrás desse ‘atchim’?
Se notícia é tudo aquilo que é novidade, inédito, extraordinário, então as mutretas de Sarney e de seu clã deixaram de ser notícia, porque se integraram ao nosso cotidiano e fazem parte da normalidade. São meras “divergências internas do Senado”, como disse o presidente Lula. Portanto, admirável e inusitado seria, no caso, se Sarney fizesse algum gesto de honradez ou de grandeza, algo conforme as leis e os bons costumes.
A forma marcada de sua conduta são os trambiques. Portanto, o trabalho de jornalismo investigativo consiste em descobrir uma ação honesta e desinteressada do presidente do Senado. Esse sim, seria o grande furo jornalístico. Enquanto essa notícia não vem, temos que nos contentar com o trivial feijão-com-arroz da trapaça. O jornal ‘Estadão’ denunciou o escândalo da Fundação José Sarney, e a Folha de São Paulo o da Associação dos Amigos do Bom Menino das Mercês, evidenciando a existência de uma máquina para sugar os recursos públicos. .

O dono da memória
Acontece que a Fundação José Sarney, uma entidade privada da qual ele é – imaginem! - o presidente de honra, captou recursos da Petrobrás, com o objetivo de manter o museu que guarda em seu acervo documentos e objetos, especialmente do período em que Sarney foi presidente da República, além de presentes oferecidos por outros presidentes.
Não sei se o Museu conserva um dos objetos que foi doado a Sarney pelo marechal Dutra e que eu vi, nos anos 1980, exposto no Museu Histórico e Artístico do Maranhão, na Rua do Sol, em São Luis. Trata-se de uma caneta. Uma caneta simples. Uma caneta qualquer, que estava exposta em uma vitrine, ao lado de uma ficha onde se lia: “Caneta com a qual o Marechal Eurico Gaspar Dutra assinou, em 1947, o decreto que colocou o Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade”.
Qual é o valor histórico de uma caneta dessas? Com que objetivo se preserva e se expõe esse objeto? O que queremos lembrar e o que queremos esquecer, quando o conservamos e o exibimos? A memória é um campo de disputa política. Já constitui, por si só, um escândalo a Petrobrás financiar a recuperação de um acervo desse tipo, privilegiando os manipuladores da memória coletiva e discriminando as memórias subterrâneas dos excluídos, dos marginalizados, das minorias, dos vencidos.
Aliás, o lugar dos documentos de valor histórico do Presidente da República, no exercício de suas funções, é o Arquivo Nacional. A Comissão responsável pela guarda dos documentos presidenciais deu parecer contrário, em 1990, ao envio da papelada para o Maranhão. Sarney, no entanto, ignorou o parecer, e criou uma instituição privada – a Fundação José Sarney – instalando-a no Convento das Mercês, um prédio histórico do século XVII, cujo diretor era remunerado pelo Senado.
A Fundação Sarney habilitou-se, então, para abocanhar R$ 1,3 milhão da Petrobrás, que dessa forma financiou o projeto de quem quer ser o dono da memória e controlar o discurso sobre o passado. Mas o escândalo é ainda maior, porque esses recursos – segundo denúncias do Estadão – foram desviados para empresas fantasmas e outras da família do próprio senador. O projeto não saiu do papel.

O Bom Menino
Um dos objetivos do patrocínio da Petrobrás era o processamento técnico e a automação do acervo bibliográfico, que incluía a digitalização dos documentos do museu, cujo valor histórico é discutível. De qualquer forma, a proposta previa a instalação, até abril de 2007, de computadores nos corredores do museu, para facilitar o acesso dos visitantes aos documentos. Segundo o Estadão, até o dia 8 de julho de 2009 não havia um único computador.
Computador não, mas em compensação a prestação de contas da Fundação José Sarney exibe notas referentes à compra de quentinhas num restaurante na rua do museu, no valor total de R$ 15 mil pelas marmitas. O Estadão levantou o preço unitário das marmitas – R$ 4,50, concluindo que o restaurante forneceu mais de 3 mil quentinhas. Para quem? Não foi esclarecido. Cerca de R$ 500 mil foram parar nos cofres de empresas prestadoras de serviço, com endereços fictícios. Outra parcela do dinheiro foi para a TV Mirante e duas emissoras de Rádio de propriedade da família Sarney.
Sarney - fundador e presidente de honra da Fundação que leva seu nome - conseguiu, através do jogo político, agilizar a liberação dos recursos da Petrobrás. No entanto, diante das irregularidades e dos trambiques, declarou que a responsabilidade não era sua, que não participa da administração da entidade, que os esclarecimentos devem ser prestados pelos administradores legalmente constituídos.
Processo similar ocorreu com a Associação dos Amigos do Bom Menino das Mercês, fundada, em 2000, pela família Sarney. Nos últimos anos, essa instituição, que fica ao lado do Convento das Mercês, recebeu pelo menos R$ 3 milhões de empresas estatais. Na última quarta-feira, a Caixa Econômica pagou R$ 600 mil destinados a despesas das festas juninas em São Luis. A Eletrobrás repassou, em dezembro de 2008, R$ 389 mil. Vai receber, em breve, do Banco do Brasil, R$ 99,5 mil. A empresa Mineradora Vale não divulgou o montante do seu patrocínio.
Enfim, há muito tempo Sarney perdeu a vergonha. Da mesma forma que privatiza a memória e os documentos, se apropria de recursos públicos em benefício próprio. Constitui um exemplo, um modelo a ser seguido por políticos em todo o Brasil, deve ser o herói do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes e do presidente da Assembléia Legislativa, Belarmino Lins, o Belão. Acredito que o próprio governador Eduardo Braga (PMDB vixe, vixe!) deve também invejá-lo. Quem sabe, o Berinho não cria um museu para guardar a caneta com a qual Braga assinou cheque de R$ 18 milhões pagos à Pampulha Construções e Montagens Ltda por obras-fantasmas no Alto Solimões?

P.S.- Nos anos 1980, com um grupo de alunos de história da UFAM, fomos fazer um levantamento da documentação existente nos arquivos cartoriais e paroquiais de Coari. À noite, num barzinho, batendo papo com um morador da cidade, ele nos contou que, dias antes, o dono da padaria havia flagrado, de madrugada, um menino de 9 anos que tentava roubar pão. O menino foi espancado pelo dono da padaria e preso pelo delegado de policia, como era de praxe. No entanto, o novo juiz, quando soube da história, mandou soltar o menino e prendeu os dois. “Esse juiz não aceita ‘bola’ e está do lado dos fracos” – disse-nos o morador. Será que fazer justiça não é isso: estar do lado dos fracos? No próximo dia 16 de julho, quinta feira, esse juiz toma posse como desembargador. Seu nome: João Mauro Bessa. Sua integridade abre uma esperança para quem tem fome de justiça.

Postado em 12/07/2009 ás 11:42

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