O deputado Henrique Eduardo Alves, do Rio Grande do Norte, líder do PMDB, negocia mudança de cargos na Mesa da Câmara, com o novo líder do PSDB, deputado Duarte Nogueira, de São Paulo, cujas consequências podem ser nefastas ética e politicamente. Ética, porque revela que o PMDB está de olho não nas reformas, que Dilma Rousseff pregou no discurso de posse, mas no comando de cargo$ na CD; politicamente, abre aliança com tucanos , favorecendo candidaturra de Aécio Neves à presidência em 2014, jogando, portanto, contra a titular do Planalto. Ambiguidade política peemdebista em marcha.
O novo líder tucano na Câmara, eleito essa semana, promete dura oposição ao Governo Dilma ao mesmo tempo que abre espaço, em aliança com o PMDB, para poder ficar perto da presidência da Câmara, com o segundo posto da Mesa. Caso ocorra afastamento do presidente, os tucanos estariam no comando do legislativo, criando, evidentemente, dificuldades para a governabilidade dilmista. Fortaleceriam os propósitos oposicionistas do senador tucano mineiro. Agita-se a sucessão presidencial, antecipando-a em quatro anos.
O PMDB tem jeito não. A vocação do partido para as negociatas é inquestionável. Ainda não acabou o incêndio político levantado pelo escândalo da Funasa, onde os peemedebistas desviaram R$ 500 milhões, segundo relatório da Corregedoria Geral da União(CGU), e o partido, que um dia foi dirigido pelo grande Ulisses Guimarães e teve integrantes da honorabilidade de um Tancredo Neves, Mario Covas etc, já abre trincheiras que deixam em seu rastro um mal cheiro decorrente de intenções latentes e ocultas que prenunciam interesses que se constroem nas noites brumosas nas quais todos os gatos são pardos. É o caso, por exemplo, da negociação – ou negociata? – que se evolui para a formação da Mesa da Câmara, em meio a disputa que se concretizará no dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. De acordo com o princípio da proporcionalidade partidária(ppp), bíblia orientadora da distribuição dos cargos no Legislativo, na formação da Mesa Diretora da Casa, o PMDB, segunda maior força, depois do PT, ocuparia a primeira vice presidência. Já o PSDB, sempre conforme a ppp, ocuparia a primeira secretaria. Esta é, na prática, o alvo das atenções dos patrimonialistas históricos, dos interessados em dinheiro, porque mexe com muita grana. A administração do PIB legislativo da CD fica por conta do primeiro secretário. Ele comanda os contratos , os interesses, os acertos, os remanejamentos, as jogadas etc e tal, tudo regado pelo espírito monetário, aliado ao político. O que faz o PMDB, nesse instante, em que acertou aliança com o PT, a fim de que os petistas comandassem o poder legislativo nos próximos dois anos, para que os peemedebistas ocupassem o mesmo cargo na próxima legislatura, quando as posições serão trocadas pelo voto dos integrandes da Casa? Simplesmente, rompe o princípio da proporcionalidade partidária. Deixa prá lá a primeira vice presidência e propõe trocar ela com o PSDB que ocupará a primeira secretaria. É correto romper o ppp com essa negociação que esconde interesse monetário puro por parte dos peemdebistas? Se for assim, por que os peemedebistas estão cobrando dos seus próprios aliados, dentro da aliança geral governista que se forma para comandar a Câmara, com o deputado petista Marco Maia, do Rio Grande do Sul, à frente, para que se afastem da disputa em nome do princípio da proporcionalidade partidária? Aliados governistas, como o deputado Sandro Mabel(PR-GO), habilitam-se à disputa, democraticamente. Mas, são, em nome da ppp, afastados sob ameaça de que se o PR insistir em apoiar essa legítima pretensão à disputa por parte de um dos seus integrantes perderá cargos no governo. Mas, e o troca-troca não romperia a ética do princípio da proporcionalidade?
Jogo de conveniência
O deputado Marcos Maia(PT-RS), virtual presidente eleito, calou-se, por conveniência, diante da troca prenunciada pelo PMDB com o PSDB, em que os peemedebistas colocam um cavalo de troia dentro da aliança governista, a fim de se darem bem seja com o governo seja com a oposição, sempre na expectativa de dispor de força para não ficarem em desvantagem em relação ao PT. Tentam o jogo da esperteza, que, por sua vez, evita que surjam candidaturas alternativas, sujeitas às pressões de todos os lados, como acontece com a do deputado Sandro Mabel(PR-GO). Ameaças surgem de todos os lados contra o partido governista minoritário, no sentido de ser detonado dos seus cargos dentro do governo. Enquanto isso, as questões relevantes, como as reformas políticas, que tinham que pontificar no debate maior, são jogadas para debaixo do tapete.
A arma intimidatória passou a ser utilizada contra todos. O estratagema utilizada pela cúpula PT-PMDB foi o de combinar com a presidente Dilma Rousseff que preenchesse cargos de segundo escalão governamental, apenas, depois da eleição da Mesa. Tratou-se, com essa jogada nada sutil, de bloquear o debate político parlamentar, jogando-o para as questões menores , em vez de estimular as maiores. O que seriam as questões maiores? Claro, a reforma política. Os candidatos ao legislativo, para conquistarem os votos dos seus pares, teriam que debater no plano das idéias e não no das questões patrimonialistas, meramente, administrativas, voltadas para a ocupação dos cargos, tanto dentro da administração no executivo, como, também, no legislativo. Os peemedebistas não conseguem esconder seus próprios propósitos monetários. Desejam comandar os orçamentos financeiros gordos. A presidente Dilma, no seu discurso de posse, considerou inadiável e urgente o debate das reformas políticas, de modo a alinharem os partidos a uma nova moral político-eleitoral, tema que esquentou os interesses populares, durante a campanha política, à luz da lei da ficha limpa, que representou um avanço da consciência social. Seria o mote que os políticos teriam que pegar para debater no momento mais adequado, ou seja, agora, que se disputa os destinos do legislativo, na Câmara e no Senado. Onde está esse debate fundamental que interessa de perto a sociedade? Debaixo do tapete, jogado pelas lideranças do PT e do PMDB. Quando o princípio da proporcionalidade partidária atende os interesses dos jogos aliancistass, tudo bem; mas , se ele contraria os interesses escusos do partido que tem o poder, como é o caso do PMDB, ele rompe com o ppp, para fazer valer o que lhe é mais caro. O jogo PT-PMDB capou o debate político que abriria a Câmara às atenções gerais das organizações sociais. A cúpula parlamentar que domina a cena política foge do essencial e busca o acessório. Foge de sua responsabilidade.
Sucessão antecipada
O senador Aécio Neves, que se articula a todo o vapor para arregimentar forças sindicais na nova estratégia que adota para sair candidato à presidência da República em 2014 , pode ser o principal beneficiado da negociação entre PMDB e PSDB, na formação da Mesa da Câmara, em que os peemedebistas abrem mão da primeira vice presidência para ocupar a primeira secretária, apostando, quem sabe, no inusitado, que abriria possibilidade de os tucanos comandarem a Casa, dando novo equilíbriio à governabilidade, se a história conspirar contra as forças governistas. O partido de Sarney e Temer joga nas duas pontas, esperando pelo milagre de ser soberano na condução da governabilidade dilmista.
Poder romper o ppp, na medida em que se busca lançar candidaturas, para abrir o verdadeiro debate político, não pode; mas suprimi-lo, para patrocinar trocas de cargos, como é o caso dessa combinação espúria entre PMDB e PSDB, tudo bem. Suponha-se – evidentemente, esse não seria o desejo de ninguém – que o presidente da Casa que será eleito, o deputado Marcos Maia, por uma razão qualquer superior, seja obrigado a deixar o cargo. Evidentemente, o PSDB subiria ao posto da presidência da Câmara dos Deputados. Poderia, certamente, haver uma reviravolta geral, cujas consequências tenderiam a ser prejudiciais à governabilidade ou à criação de um ambiente bem ao gosto do PMDB, de jogar uma no cravo outra na ferradura, abrindo espaço entre os tucanos, especialmente, se a candidatura à presidência da República do PSDB do senador eleito Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, levantar vôo, como se prenuncia. Como evitar cogitações segundo as quais as raposas peemedebistas, com o acordo que elas armam com os tucanos, na sucessão da Mesa, trabalham de olho no futuro, abrindo possibilidades, desde já, para marchar tanto com Aécio, como, evidentemente, com Dilma Rousseff, de agora em diante, criando ambientação político parlamentar para tirar do governo tudo que puder, o máximo possível, através da ambiguidade política? O PMDB, como o escorpião, poderia fugir da sua característica principal, a de ser, realmente, o grande chupim nacional de primeiríssima qualidade no plano da falta de ética, para alcançar seus objetivos? Olha a Funasa aí! Podem os peemedebistas estar, antecipadamente, construindo armadilha, quando negociam com os tucanos acordo para que, ao lado do provável futuro da Camara, deputado Marco Maia, esteja não um integrante do PMDB, mas do PSDB, adversário da presidente Dilma.
| Postado em 02/02/2011 ás 13:26 |