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Coluna de Fidel Castro
O discurso de Obama no Cairo
NA quinta-feira, 4 de junho, na Universidade Islâmica de Al-Azhar, no Cairo, Obama proferiu um discurso de especial interesse para os que acompanham de muito perto suas ações políticas, devido ao enorme poder da superpotência que dirige. Emprego suas próprias palavras para assinalar que, a meu ver, foram as ideias básicas expressas por ele, resumindo dessa maneira o discurso para poupar tempo. Não só devemos saber que falou, mas também de que falou.

“Reunimo-nos num momento de tensão entre os Estados Unidos e os muçulmanos do mundo…”

“A relação entre o Islã e o Ocidente inclui séculos de coexistência e cooperação, mas também conflitos e guerras religiosas.”

“… o colonialismo negou a muitos muçulmanos direitos e oportunidades, …a Guerra Fria utilizava frequentemente os países de maioria muçulmana como agentes, sem levar em conta suas próprias aspirações.”

“Extremistas violentos tiraram proveito destas tensões…”

“…levaram algumas pessoas no meu país a considerarem o Islã inevitavelmente hostil não só aos Estados Unidos e aos países do Ocidente, mas também aos direitos humanos.”

“Vim aqui à procura de um novo começo para os Estados Unidos e para os muçulmanos do mundo, com base nos interesses e no respeito mútuos...”

“…concordam em parte e têm princípios comuns, princípios de justiça, progresso, tolerância e respeito pela dignidade de todos os seres humanos.”

“Nenhum discurso por sua conta pode acabar com anos de desconfiança, nem posso no tempo que tenho responder a todas as perguntas complexas que nos levaram a este momento.”

“Como diz o Sagrado Alcorão, ‘tenham consciência de Deus e sempre digam a verdade.’”

“Sou cristão, mas meu pai pertencia a uma família no Quênia, que inclui várias gerações de muçulmanos. Quando eu era criança, passei vários anos na Indonésia e escutei a chamada do Athan ao amanhecer e ao entardecer. Quando era jovem, trabalhei em comunidades de Chicago, onde muitos encontravam dignidade e paz em sua religião muçulmana.”

“Foi o Islã – em lugares como a Universidade de Al-Azhar – que levou a tocha da aprendizagem durante muitos séculos e preparou o caminho para a Renascença e o Século das Luzes na Europa.”

“…desde nossa fundação, os muçulmanos norte-americanos têm enriquecido os Estados Unidos.”

“Lutaram em nossas guerras, trabalharam para o governo, defenderam os direitos civis…”

“…faz parte de minha responsabilidade como presidente dos Estados Unidos lutar contra os estereótipos negativos do Islã onde quer que surgirem.”

“…os Estados Unidos não encaixam no estereótipo grosseiro de um império que apenas se preocupa por seus interesses.”

“O sonho de oportunidades para todas as pessoas ainda não se tornou realidade em todos os casos…”

“As palavras por si só não satisfazem as necessidades de nossos povos.”

“Quando uma nova gripe contamina um ser humano, todos estamos em perigo.”

“Quando uma nação procura armas nucleares, todas as nações correm maior risco de um ataque nuclear.”

“…qualquer regime no mundo que eleve uma nação ou grupo humano acima de outro fracassará inevitavelmente.”

“Em Ankara, deixei bem claro que os Estados Unidos não estão e jamais estarão em guerra contra o Islã.”

“…rejeitamos a mesma coisa que as pessoas de todos os credos rejeitam: o assassinato de homens, mulheres e crianças inocentes.”

“…alguns questionam ou justificam os acontecimentos de 11 de setembro.”

“As vítimas foram homens, mulheres e crianças inocentes dos Estados Unidos…”

“…que fique bem claro: não queremos manter nossas tropas no Afeganistão. Não queremos lá ter bases militares. É doloroso para os Estados Unidos perder nossos jovens. Continuar este conflito tem um custo político e econômico muito alto. Com muito prazer faríamos retornar a casa todas nossas tropas, se tivéssemos a certeza de que não há extremistas violentos no Afeganistão e no Paquistão decididos a assassinar todos os norte-americanos que puderem.”

“O Sagrado Alcorão ensina que quem matar um inocente, mata toda a humanidade; e que quem salvar uma pessoa, salva toda a humanidade.”

“Ao contrário do Afeganistão, nós decidimos ir à guerra no Iraque, e isso provocou forte antagonismo no meu país e no mundo.”

“…acho também que os acontecimentos no Iraque fizeram com que os Estados Unidos lembrassem que é necessário usar a diplomacia e promover consenso em nível internacional para resolver nossos problemas quando for possível.”

“Hoje, os Estados Unidos têm uma dupla responsabilidade: ajudar o Iraque a forjar um futuro melhor e deixar o Iraque nas mãos dos iraquianos.”

“Eu disse, às claras, ao povo iraquiano que não queremos bases militares e não queremos reclamar nenhuma parte de seu território nem de seus recursos.”

“A soberania do Iraque é toda dela. Foi por isso que ordenei o retorno de nossas brigadas de combate para o próximo mês de agosto.”

“…nossas tropas de combate das cidades iraquianas para o mês de julho e retirar todas nossas tropas do Iraque em 2012.”

“O dia 11 de setembro foi um trauma enorme para nosso país.”

“…nalguns casos, levou-nos a agir contra nossos ideais.”

“Proibi inequivocamente o uso de tortura pelos Estados Unidos e ordenei o fechamento da prisão na baía de Guantánamo para o início do ano próximo.”

“…os Estados Unidos vão se defender, respeitosos da soberania das nações e do império da lei.”

“A segunda fonte importante de tensão que é preciso discutir é a situação entre os israelenses, palestinos e o mundo árabe.”

“Os estreitos vínculos dos Estados Unidos com Israel são bem conhecidos. Este vínculo é inquebrantável.”

“Por outro lado, também é inegável que o povo palestino – muçulmanos e cristãos – sofreu na luta por uma pátria. Durante mais de sessenta anos, têm sofrido a dor do deslocamento.”

“Muitos ficam à espera, em acampamentos para refugiados na Ribeira Ocidental, Gaza e terras vizinhas, uma vida de paz e segurança que jamais tiveram.”

“…que ninguém duvide: a situação para o povo palestino é insuportável. Os Estados Unidos não decepcionará as aspirações legítimas dos palestinos de dignidade, oportunidades e um estado próprio.”

“…dois povos com aspirações legítimas, cada um com uma dolorosa história que dificulta chegar a um acordo.”

“É fácil atribuir a culpa, para os palestinos, culpar o deslocamento a partir da fundação de Israel, e para os israelenses, culpar a hostilidade constante e os ataques perpetrados durante toda sua história dentro e fora de suas fronteiras.”

“…se vemos este conflito apenas de um lado ou do outro, então não podemos ver a verdade”

“…a única resolução é que as aspirações de ambas as partes as satisfaçam dois estados, onde os israelenses e os palestinos tenham paz e segurança.”

“Durante séculos, as pessoas da raça negra nos Estados Unidos sofreram os açoites do chicote como escravos e a humilhação da segregação. Porém, não foi com violência que conseguiram direitos plenos e equitativos.”

“O Hamas dever pôr fim à violência, reconhecer acordos passados e reconhecer o direito de Israel de existir.”

“…os israelenses devem reconhecer que, da mesma maneira que não se pode negar o direito de Israel de existir, tampouco deve ser negado o da Palestina. Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade de mais assentamentos israelenses.”

“Essa construção viola acordos prévios e menoscaba os esforços por conseguir a paz. É hora de pôr fim a esses assentamentos.”

“Israel também deve cumprir suas obrigações de ter a certeza de que os palestinos possam viver, trabalhar e desenvolver sua sociedade.”

“O progresso na vida cotidiana do povo palestino deve fazer parte do caminho para a paz, e Israel deve dar passos concretos para permitir esse progresso.”

“O conflito árabe-israelense já não deve ser usado para distrair os povoadores dos países árabes e dissimular a existência de outros problemas.”

“A terceira fonte de tensão é nosso interesse compartilhado nos direitos e responsabilidades das nações quanto às armas nucleares.”

“Em meio à Guerra Fria, os EUA tiveram um papel de destaque na derrubada de um governo iraniano eleito democraticamente.”

“Desde a revolução islâmica, o Irã tem desempenhado um papel importante em sequestros e atos de violência contra militares e civis estadunidenses. ”

“Em vez de permanecermos presos no passado, esclarecei aos líderes e ao povo iraniano que meu país está disposto a deixar tudo isso atrás. A questão agora não é a que se opõe o Irã, mas sim que futuro quer construir.”

“Será difícil ultrapassar décadas de desconfiança, mas iremos para frente com coragem, firmeza e convicção. Os nossos dois países têm muitos temas que discutir e estamos dispostos a continuar indo para frente sem condições, baseados no respeito mútuo.”

“Compreendo aqueles que protestam, porque alguns países têm armas que outros não. Nenhuma nação, por sua conta, pode escolher quais as nações que devem ter armas nucleares. Por isso, reafirmei energicamente o compromisso dos EUA de conseguir um mundo em que nenhuma nação tenha armas nucleares.”

“…todas as nações – inclusive o Irã – deverão ter o direito de utilizar a energia nuclear pacífica se cumprirem as suas responsabilidades, conforme o Tratado de Não Proliferação Nuclear.”

Nestes três primeiros temas de seu discurso está contido o objetivo fundamental de sua viagem a essa Universidade Islâmica do Egito. O novo presidente dos Estados Unidos não pode ser culpado da situação criada no Oriente Médio. É lógico que ele deseja encontrar uma saída ao colossal enredo ali criado por seus antecessores e pelo próprio desenvolvimento dos acontecimentos durante os últimos 100 anos.
Nem sequer o próprio Obama poderia imaginar, quando trabalhava nas comunidades negras de Chicago, que os terríveis efeitos de uma crise financeira se acescentariam aos fatores que tornaram possível sua eleição como presidente numa sociedade fortemente racista.
Assume o cargo num momento excepcionalmente complexo de seu país e do mundo. Tenta resolver problemas que, talvez, considera mais simples do que são realmente. Séculos de exploração colonial e capitalista deram lugar a um mundo onde um punhado de países muito desenvolvidos e ricos coexiste com outro imensamente pobre, que fornece matérias-primas e força de trabalho. Se forem acrescentadas a China e a Índia, duas nações verdadeiramente emergentes, a luta pelos recursos naturais e os mercados criarão uma situação inteiramente nova no planeta, onde a própria sobrevivência humana ainda não foi resolvida.
A raiz africana de Obama, sua origem humilde e sua assombrosa ascensão despertam esperanças em muitos que, como náufragos, procuram tábuas de salvamento em meio da tempestade.
É correta sua afirmação de que “qualquer regime no mundo que ponha uma nação ou um povo acima de outro, fracassará inevitavelmente”; ou quando expressa que “pessoas de todos os credos rejeitam o assassinato de homens, mulheres e crianças inocentes” ou ratifica perante o mundo sua oposição ao uso da tortura. De maneira geral, vários dos pronunciamentos assinalados são, em teoria, corretos; ele percebe claramente a necessidade de que todos os países, sem exceção alguma logicamente, renunciem às armas nucleares. Personalidades conhecidas e influentes dos Estados Unidos veem nisso um grande perigo, à medida que a tecnologia e as ciências generalizam o acesso ao material radioativo e as formas de utilizá-lo, inclusive em pequenas quantidades.
Ainda é cedo para emitir raciocínios sobre seu grau de compromisso com as ideias que expressa, e até que ponto está determinado a sustentar, por exemplo, o propósito de chegar a um acordo de paz sobre bases justas, com garantias para todos os estados no Oriente Médio.
A maior dificuldade para o atual presidente é que os princípios que defende entram em contradição com a política aplicada pela superpotência durante quase sete décadas, desde que acabaram os últimos combates da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945. Abstraio-me neste instante da política agressiva e expansionista aplicada nos povos da América Latina e, particularmente, em Cuba, quando ainda estava longe de ser a nação mais poderosa do mundo.
Cada uma das normas que predicou Obama no Cairo contradizem as intervenções e as guerras promovidas pelos Estados Unidos. A primeira delas foi a famosa Guerra Fria, que ele menciona em seu discurso, desatada pelo governo de seu país. As diferenças ideológicas com a URSS não justificavam a hostilidade a esse Estado, que ofereceu mais de 25 milhões de vidas à luta contra o nazismo. Obama não estaria rememorando nestes dias o 65º aniversário do desembarque de Normandia e a libertação da Europa sem o sangue dos milhões de soldados que morreram combatendo contra as tropas elites do nazismo. Aqueles que libertaram os sobreviventes do famoso campo de concentração de Osviecim, foram os soldados do exército soviético. O mundo ignorava o que estava acontecendo, apesar de muitos nos círculos oficiais de Ocidente saberem dos fatos. Tal qual milhões de crianças, mulheres e idosos judeus foram assassinados brutalmente, milhões de crianças, mulheres e idosos russos perderam a vida por causa da brutal invasão nazista buscando espaço vital. O Ocidente fazia concessões a Hitler e conspirou para lançá-lo, e finalmente, lançou-o para ocupar e colonizar o território eslavo. Na Segunda Guerra Mundial, os soviéticos eram aliados dos Estados Unidos e não seus inimigos.
Sobre Hiroshima e Nagasaki, duas cidades indefesas, lançaram e provaram os efeitos de duas bombas nucleares. Os que ali morreram eram em sua maioria crianças, mulheres e idosos japoneses.
Se forem analisadas as guerras promovidas, apoiadas ou lançadas pelos Estados Unidos na China, Coreia, Vietnã, Laos, Camboja, entre os milhões de pessoas que morreram, muitos eram crianças, mulheres e idosos.
As guerras colonialistas da França e Portugal depois da Segunda Guerra Mundial receberam o apoio dos Estados Unidos; os golpes de Estado e as intervenções na América Central, Panamá, Santo Domingo, Granada, Chile, Paraguai, Uruguai, Peru e Argentina foram promovidos e apoiados pelos Estados Unidos.
Israel não era uma potência nuclear. A criação de um Estado em território onde os judeus foram expulsos ao êxodo pelo Império Romano há 2 mil anos, foi apoiada de boa fé pela URSS e outros muitos países no mundo. Ao triunfar a Revolução Cubana, tivemos relações com esse Estado durante mais de uma década, até que suas guerras de conquista contra os palestinos e outros povos árabes nos conduziram à ruptura. O respeito total ao culto e à atividade religiosa judia se manteve sem nenhuma interrupção.
Os Estados Unidos nunca se opuseram à conquista de territórios árabes por parte de Israel, nem protestou pelos métodos terroristas usados contra os palestinos. Tudo o contrário, ali criou uma potência nuclear, das más avançadas do mundo, no coração do território árabe e muçulmano, criando no Oriente Médio um dos pontos mais perigosos do planeta.
A superpotência usou igualmente Israel para fornecer armas nucleares ao exército do apartheid na África do Sul, para usá-las contra as tropas cubanas que, junto às forças angolanas e namibianas, defendiam a República Popular de Angola. São fatos bem recentes que o atual presidente dos Estados Unidos certamente conhece. Não ignoramos, portanto, a agressividade e o perigo que o potencial nuclear israelense significa para a paz.
Depois dos três pontos iniciais, Obama em seu discurso do Cairo dedicou-se a filosofar e doutrinar sobre política externa dos Estados Unidos:

“A quarta questão da qual desejo tratar é a democracia”, disse.

“…gostaria de ser claro: nenhuma nação pode nem deve impor um sistema de governo a uma nação.”

“Os EUA não pretendem saber o que é melhor para todos, bem como não pretenderíamos determinar o resultado de eleições pacíficas.”

“Mas eu tenho uma convicção inquebrantável de que todas as pessoas almejam certas questões: a possibilidade de se expressarem livremente e de terem voz e voto na forma de governo; a confiança no estado de direito e imparcialidade da justiça…”

“Estas não são só ideias norte-americanas, esses são direitos humanos e é por isso que vamos apoiá-los em toda parte.”

“A quinta questão que devemos encarar juntos é a liberdade religiosa.”

“O Islã tem uma orgulhosa tradição de tolerância… Consegui vê-lo com meus próprios olhos, quando era criança, na Indonésia, onde cristãos devotos praticavam sua religião livremente num país predominantemente muçulmano.”

“Entre alguns muçulmanos, existe a tendência preocupante a medir as crenças próprias, baseadas na rejeição das dos outros.”

“…devem-se acabar também as divisões entre os muçulmanos, já que a divisão entre sunitas e xiitas já resultou em trágica violência, particularmente, no Iraque.”

“…é importante que países do ocidente evitem que se impeça que os cidadãos muçulmanos pratiquem sua religião como quiserem – por exemplo, tentando determinar o tipo de roupa que as mulheres muçulmanas devem usar. Não podemos esconder a hostilidade contra qualquer religião sob o pretexto do liberalismo.”

“Rejeito o ponto de vista de alguns no Ocidente, de que a mulher que opta por cobrir seu cabelo é, de certa maneira, menos igual, mas acredito que se negam educação à mulher, estão negando-lhe igualdade. E não é coincidência que os países onde as mulheres têm uma boa educação têm muitas mais possibilidades de serem prósperos.”

“…a luta pela igualdade das mulheres continua em muitos aspectos da vida estadunidense e em países do mundo.”

“Nossas filhas podem contribuiu tanto,para a sociedade, quanto nossos filhos, e nossa prosperidade comum pode ser promovida se permitimos a toda a humanidade – homens e mulheres – alcançarem seu pleno potencial.”

“A internet e a televisão podem trazer conhecimento e informação, mas também sexualidade ofensiva e violência irracional. O comércio pode trazer nova riqueza e oportunidades, mas também enormes alterações e mudanças para as comunidades.”

“…vamos investir no ensino pela internet para professores e crianças de todo o mundo; e vamos criar uma nova rede de internet, de modo que um adolescente no Kansas possa comunicar-se instantaneamente com um adolescente no Cairo..”

“…Temos a responsabilidade de nos unirmos para benefício do mundo que queremos tornar realidade: um mundo onde os extremistas já não ameacem nossos povos e os soldados norte-americanos possam voltar à casa; um mundo onde tanto israelenses como palestinos, tenham segurança num Estado próprio e a energia nuclear seja usada para fins pacíficos…”

“Esse é o mundo que queremos. Mas só poderemos consegui-lo juntos.”

“É mais fácil começar guerras que pôr fim a elas.”

“Tratar os outros da mesma maneira que gostaríamos que nos tratassem.”

“Temos o poder de criar o mundo que queremos, mas devemos ter a valentia de criar um novo começo, levando em conta o que está escrito.”

“O Sagrado Alcorão diz: ‘Oh humanidade! Criamos vocês, homens e mulheres, e agrupamo-los em nações e tribos com o objetivo de que se conheçam uns aos outros.’”

“O Talmude diz: ‘Toda a Torá visa promover a paz.’”

“A Santa Bíblia diz: ‘Benditos os que promovem a paz, eles serão chamados filhos de Deus.’”

“Os povos do mundo podem viver juntos e em paz.”

Como pêde ser constatado, ao abordar o quarto tema de seu discurso na Universidade de Al-Azhar, Obama se contradiz. Depois de começar suas palavras com um aforismo como é habitual nele, quando afirmou: “…nenhuma nação pode nem deve impor um sistema de governo a uma nação”, princípio que recolhe a Carta das Nações Unidas como elemento fundamental do Direito Internacional, logo se contradiz com uma declaração de fé que torna os Estados Unidos juiz supremo dos valores democráticos e dos direitos humanos.
Depois faz referência a temas relacionados com o desenvolvimento econômico e a igualdade de oportunidades. Faz promessas ao mundo árabe; assinala vantagens e contradições. Tal parece uma campanha de relações públicas por parte dos Estados Unidos com os países muçulmanos, que em qualquer circunstância é melhor que ameaçar de bombardeá-los e destruí-los.

No final de seu discurso, há um amálgama de temas.
Se levamos em conta o tamanho do discurso, não usando papel, o número de lapsos é ínfimo comparado com o de seu antecessor, que se enganava em cada parágrafo. Tem muita facilidade para se comunicar.
Eu costumo observar com interesse as cerimônias históricas, políticas e religiosas.
O da Universidade de Al-Azhar parecia-me um quadrado irreal. Nem mesmo o papa XVI Bento teria proferido frases mais ecumênicas que as de Obama. Eu imaginei num instante o piedoso crente muçulmano, católico, cristão ou judeu, ou de qualquer outra religião, escutando o presidente na larga sala da Universidade de Al-Azhar. Em certo momento, não sabia se estava numa catedral católica, num templo cristão, numa mesquita ou numa sinagoga.
Viajou cedo para a Alemanha. Durante três dias, visitou lugares de significado político. Participou e falou em todos os atos comemorativos. Visitou museus, recebeu a família e jantou em restaurantes famosos. Possui uma capacidade de trabalho impressionante. Passará muito tempo e não haverá um caso assim.

Fidel Castro Ruz
8 de junho de 2009
19h12





Resposta ridícula a uma derrota
ONTEM, à tarde, enquanto analisava detidamente o discurso de Obama na Universidade muçulmana do Cairo, chegaram notícias das agências com a estranha informação de que duas pessoas aposentadas, com mais de 70 anos, foram presas acusadas de ter espionado durante 30 anos para o governo de Cuba. Quase todas as importantes agências de notícias ocidentais, oito delas, difundiram a notícia.
As pessoas acusadas são Walter Kendall Myers e sua esposa, Gwendolyn Steingraber Myers. Acrescenta-se que o primeiro trabalhou como especialista de assuntos europeus; que em 1995, há 14 anos, vieram a Cuba, data em que foram recebidos por mim. Durante esse tempo, reuni-me com milhares de norte-americanos por diversos motivos, individualmente ou em grupos, às vezes, com coletivos de várias centenas deles, como é o caso dos estudantes que viajavam a Cuba no cruzeiro Projeto Semestre no Mar, por tal motivo, mal poderia lembrar pormenores de uma reunião com duas pessoas. Agora reparo por que George W. Bush proibiu os estudantes do cruzeiro de continuarem visitando Cuba; durante muitas horas, conversavam comigo, apesar de que pertenciam a famílias da classe média alta.
A acusação especifica que o casal recebeu numerosas condecorações, mas também admite que nunca procurou dinheiro ou benefícios pessoais.
De minha parte, posso assegurar que, por uma questão de princípios, jamais torturamos nem pagamos a ninguém para obter informação alguma. Aqueles que, de alguma maneira ou outra, contribuíram à proteção da vida de cidadãos cubanos, diante dos planos terroristas e projetos de assassinato aos seus dirigentes, dos muitos planejados por várias administrações dos Estados Unidos, fizeram-no por imperativos de suas próprias consciências e merecem, a meu ver, todas as honras do mundo.
O que mais chama a atenção é que essa notícia foi divulgada 24 horas depois da derrota sofrida pela diplomacia dos Estados Unidos na Assembleia Geral da OEA.
É certamente estranho, pois, se essas pessoas estavam sob controle, devido a que agentes do FBI os enganaram fingindo ser espiões cubanos, por que não foram presas antes e fazem-no neste momento?
Agora começará o jogo da pretensa justiça contra duas pessoas trituradas moralmente de antemão com acusações que predeterminam a conduta do júri, que deverá decidir se são culpadas ou inocentes. Com certeza, não receberão o tratamento amável dado aos terroristas recrutados pelo governo desse país para destruírem o avião da Cubana com todos os que viajavam nele e cometerem horrendos crimes contra o nosso povo, os quais, inclusive, violaram as leis dos Estados Unidos cometendo no seu próprio território numerosos atos terroristas execráveis.
Já lançaram a campanha contra o casal. Foram apresentados como traidores que podem ser sancionados a 35 anos de prisão, e permanecerão no cárcere até terem mais de 100 anos. Os promotores poderão fazer suas habituais manobras com fins políticos.
Armaram toda esta tramoia depois que Obama tomou posse da presidência dos Estados Unidos. Talvez influiu na detenção não apenas o tremendo fracasso sofrido em San Pedro Sula, mas também as notícias de que se estavam estabelecendo contatos entre os governos dos Estados Unidos e Cuba sobre assuntos importantes de interesse comum.
Uma notícia da ANSA já informou que Walter Kendall Myers declarou que tentou ser "muito prudente" na hora de obter e transmitir secretos para Cuba.
Outras publicações se referem a um diário confiscado a Gwendolyn. Se tudo isso for verdade, não deixarei de admirar sua conduta desinteressada e valente em relação a Cuba.
O confronto com os Estados Unidos é ideológico e para nada tem a ver com a segurança desse país.
Contudo, ontem, outras três informações das agências de notícias divulgavam três temas que, com certeza, têm a ver com a moral política e a segurança dos Estados Unidos:
A agência AFP assegurou: "Uma nova discussão surgiu na sexta-feira, quando legisladores democratas acusaram opositores republicanos de revelarem informação secreta sobre técnicas de tortura divulgada durante uma sessão a portas fechadas no Congresso.
"A representante de Illinois, Jan Schakowski, assinalou que ‘todo mundo na comissão compreende o que significa uma audiência a portas fechadas’.
"Acrescentou num comunicado que é ‘irresponsável que membros dessa comissão saíssem do encontro confidencial antes de terminar e se dirigissem diretamente ao lugar onde estava a imprensa.’"
A agência AP informou: "Promotores federais acusaram um homem de proferir ameaças contra o presidente Barack Obama, depois que ele disse supostamente a um empregado de banco em Utah que sua missão era matar o presidente.
"Daniel James Murray comunicou, em 27 de maio, suas intenções a um empregado de uma caixa num banco, enquanto tirava US$13 mil de uma conta, segundo publicou o jornal local Salt Lake Tribune, na quinta-feira no site de internet.
"Não se sabe onde está o acusado. Um documento apresentado à justiça afirma que Murray é de Nova Iorque e esteve há pouco na Califórnia, Utah, Georgia, Oklahoma e, provavelmente, no Texas.
"O Serviço Secreto assegura que Murray tem pelos menos oito armas de fogo registradas, informou o diário.
"Malcolm Wiley, porta-voz do Serviço Secreto em Washington, disse à Associated Press que não faria comentários a respeito do assunto."
A agência AFP noticiou: "Sensíveis tecnologias militares estadunidenses necessárias para o fabrico de armas nucleares podem ser facilmente adquiridas nos Estados Unidos e depois exportadas ilegalmente, advertiu a Controladoria do Congresso (GAO, por suas siglas em inglês).
"‘Utilizando uma empresa fantasma e identidades falsas, o GAO comprou produtos sensíveis, como óculos infravermelhos usados pelas tropas (estadunidenses) no Iraque e no Afeganistão para identificar alvos noturnos, eletrodos para detonar armas nucleares, sensores electrônicos utilizados na fabricação de bombas artesanais e chipes utilizados de mísseis teleguiados’, escreveu a instituição num recente relatório."
Por acaso esse imenso e sofisticado arsenal à disposição do mercado não coloca o mundo à beira do abismo?
Não acham bem ridícula essa história da espionagem cubana?

Fidel Castro Ruz
6 de junho de 2009
15h12

Postado em 09/06/2009 ás 00:40

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