Se o governo Lula vai bem e a gerente geral desse governo é Dilma, Serra , ao elogiar Lula, dizendo que o governo dele vai bem, logicamente, avaliza, também, quem é a comandante geral da administração lulista, Dilma, a candidata do titular do Planalto, escalada para sucedê-lo.
Raciocínio lógico. O presidente Lula está terminando o governo bem,segundo o governador de São Paulo , José Serra. Logo, a sustentação do bem lulista seria uma boa que continuasse, segundo a própria oposição. Qual a proposta de Lula, para a sustentação desse bem? Dilma! O elogio do governador representa recomendação dele à proposta Lula, que é Dilma Rousseff, visto que o programa dela é a continuidade do bem proporcionado pelo governo Lula. Qual é a base do governo lulista, que a oposição considera um bem? A popularização presidencial decorrente, naturalmente, da expansão e da distribuição melhor da renda nacional ao longo dos oitos anos de lulismo,apoiado na coalizão governamental PT-PMDB-PSD-PDT-PR-PTB etc. As pesquisas quanto à distribuição da renda apontam que nasce, no país, a partir da emergência dos pobres, subindo das classes E para D, da D para C e da C para a B, uma nova classe média nacional, diferente, qualitativa e quantitativamente, daquela antiga e reacionária classe média, atada à classe A, subordinada, egoísta, individualista, puxa-saquista, sem cabeça para pensar por si mesma, porque, essencialmente, dependente do pensamento das cúpulas econômicas e financeiras comandantes históricas do poder nacional.
A emergência das novas classes médias, em decorrência da melhor distribuição da renda, proporcionada pelos aumentos reais de salários mínimos que transformaram a Previdência Social no maior programa distributivo da história brasileira, aliado.ao programa social Bolsa Família,criou novo conceito de classe, mais coletivista, mais participativa, mais ligada nos acontecimentos, disposta à organização política para além dos partidos cujas cúpulas estão apartadas da realidade social, como destaca o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, do PTB mineiro.O bem que Lula faz ao país está ligado a essa nova emergência social. As cúpulas partidárias, que sempre deixaram o povo para trás, jogando à revelia das opiniões populares, das organizações comunitárias, enfim , do pensamento coletivo, estão sendo ultrapassadas, sem que elas percebam. Há, evidentemente, uma articulação social realizada por cima desse pensamento único cupulista partidário, que, durante a Nova República, fortaleceu-se, principalmente, em São Paulo, onde as elites, econômicas e financeiras, aliadas ao capital externo, comandam o país , pensando ser o país propriedade delas.
Prisioneiro do óbvio
Serra esticou ao máximo sua disposição de lançar-se candidato com discurso lulista que avaliza Dilma como comandante mor do governo, portanto, capacitada, tanto quanto ele, de levar adiante uma administração que vai bem. Se o que está aí vai bem , por que mudar o comando? Serra candidata-se a elogiar Dilma durante a campanha porque elogiando Lula, como está fazendo, produz o mesmo elogio para quem Lula considera seu braço direito para produzir governo de bem exaltado pelo discurso serrista. O governador tornou-se vítima de sua própria obviedade.
Serra pode ter marcado bobeira total, quando , seguindo o pensamento cupulista paulista reacionário, negou a disputa dentro do PSDB com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Emergiu o argumento elitista segundo o qual ele estava na fila, a hora seria dele e não de Aécio, para ser o candidato tucano à disputa com a candidatura da coalizão. Poderia ter dado show democrático, mas, não. Manobrou, e nessa manobra burra, ficou sem o parceiro ideal para facilitar sua vitória, mais difícil de ser alcançada. Agora, resta ao titular do Palácio dos Bandeirantes, sem a companhia de Minas Gerais, para valer, buscar agradar ao eleitor de Lula, dizendo que o titular do Planalto seria uma boa como plataforma política. Tenta, meio que escalafobeticamente, escalar as bases lulistas, a fim de furar o esquema de Dilma.
Não seria contraditório ele elogiar Lula e deixar de elogiar a canditada de Lula, sabendo que Lula diz que quem comanda o governo é ela, por isso ter-se optado pela emergência da mulher como tsunami no mercado político eleitoral nacional? Onde se ancora Dilma? Na estratégia lulista que ela comanda, segundo o próprio presidente. E essa estratégia, na verdade, é a que salvou o Brasil da bancarrota financeira global, desatada pela irresponsabilidade do governo americano, ao sustentar economia de guerra keynesiana, emitindo dólar sem lastro a ser reciclado no sistema financeiro internacional, inundando monetariamente a praça até que tudo foi para os ares em setembro de 2008.
Essencialmente, os programas sociais lulistas criaram a base da poupança interna, para sustentar o desenvolvimento nacional, historicamente, dependente da poupança externa. Na medida em que tais programas distributivos fortaleceram o mercado interno de consumo, tornaram-se pouco relevantes os problemas crônicos anteriormente existentes de formação de excedentes econômicos que necessitavam, por carência de consumo interno, de desvalorizações cambiais, a fim de serem exportados. Emergia inflação, enfraquecimento da moeda, corridas cambiais contra ela, arrochos salariais, mais dependência da poupança externa etc. Consumidos internamente os excedentes, a moeda valorizou-se, tornou-se relativamente mais forte para combater a inflação e os investimentos externos afloraram mais intensamente para o pais, porque com mais consumo interno, ocorreram maiores arrecadações tributárias, maiores disponbilidades de finanças públicas destinadas aos investimentos, maior volume de emprego, maior sustentação da previdência social.
Os analistas em geral pregam que o país, historicamente, dependente de poupança externa precisa, antes de estimular o consumo interno, de mais investimentos. Como, por essa visão, os investimentos requereriam poupança externa, para atraí-la tornam-se necessários indispensáveis arrochos fiscais intermitentes. Com menos gastos públicos, gastos correntes, principalmente, haveria espaço para redução das taxas de juros etc. Um papo que não cola mais no compasso da emergência da nova classe média participativa, coletivista, solidária, diferente daquela que escutava essa baboseira econômica adequada aos interesses do capital internacional. O fato, como diz Marx, é que produção é consumo, consumo é produção. A estratégia lulista demonstrou que mais consumo representa mais produção porque há mais arrecadação que bombeia mais investimentos.
Ou seja, a poupança interna , para crescer, depende não da restrição ao consumo, para que sobre mais recursos para os investimentos, mas, justamente, o contrário, requer mais consumo para que, obtendo maiores ingressos tributários, ocorram maiores inversões nas atividades produtivas. A manutenção da taxa de juros no patamar de 8,75%, na última reunião do Copom, obedece a essa lógica capitalista, porque , se ocorresse o contrário, isto é, se o juro subisse, o mercado interno, que está salvando o capitalismo nacional , seria prejudicado e, ao mesmo tempo, a dívida pública, que teve de crescer, para atuar como fator anticíclico, no auge da crise financeira, implodiria, jogando tudo pelos ares. A sustentação do status quo econômico-social-político lulista é incompatível com o juro alto, como se deu, até agora, na economia brasileira, porque não haveria autosustentabilidade econômica, caso vencesse a tese do mercado financeiro segundo a qual torna-se necessário conter o consumo, para permitir o avanço dos investimentos, tese que os analistas despejam, como prisioneiros de um pensamento que a crise neoliberal detonou por ser incompatível com o avanço da distribuição da renda nacional.
Serra, durante a campanha, terá que continuar elogiando Lula e, consequentemente, Dilma, como se fosse cabo eleitoral dela e não de si mesmo, porque o que prega para a economia, no momento, ou seja, sua disposição de lutar contra a política monetária seguida, até agora, pelo Banco Centrla, que se tornou incompatível com a estratégia capitalista nacional para enfrentar a bancarrota financeira internacional, é o mesmo que já está praticando o governo Lula, cuja gerente é Dilma, como destaca o próprio titular do Planalto. Assim, ao elgoiar Lula, Serra apoia a proposta lulista que é Dilma. Por que trocar de atacante quanto o time está batendo de goleada, obtendo apoio popular e tornando o país atrativo ao capital externo mesmo diante da expansão do consumo que os analistas subordinados ao pensamento do capital internacional pregam ser necessário ser contido para que os capitais cheguem? Nada mais doido!
| Postado em 27/03/2010 ás 18:20 |