Brasília - Domingo , 19 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de Cesar Fonseca
Reserva cambial vira risco especulativo
"Caro Lula, segura esse pepino aí da nossa crise monetária. Mande o Meirelles comprar nossos dólares que estão sobrando. Não posso enxugar, subindo os juros, senão quebro. Quebra esse meu galho, ô cara. Mande o Meirelles ligar pru Paul Vocker", tenta Obama vender seu peixe podre ao titular do Planalto, que orienta o titular do BC resolver o abacaxi obamista.

Antes de iniciar essa matéria, parabéns ao Ricardo Noblat, no site do Globo, pela nova seleção musical do Jazz & Tal. Sensacional. E, igualmente, ao Marco Antônio Pontes, no Jornal da Comunidade, pelas pancadas no Arnaldo Jabor, boquirroto neoliberal, falando besteira sobre Brasília.


Vamos lá: As reservas cambiais, vendidas como solução inteligente pelo Banco Central, representariam, mesmo, solução ou problema?

O BC adota política monetária que valoriza o câmbio. Os investidores e especuladores correm para o Brasil para faturar no juro alto meirelliano. Mas, o dinheiro que entra a rodo é enxugado via emissão de títulos governamentais, de modo a manter escassez relativa de moeda, de um lado, e alto endividamento, de outro. Garante rentabilidade elevadíssima aos banqueiros, enquanto os setores produtivos ficam expostos a todo o tipo de volatilidade. Os empresários, por sua vez, não podem usufruir da enchente de dinheiro, que deveria, pela lógica, barateá-lo. Ao contrário, permanece cada vez mais caro. Assim, a política monetária do BC nem estimula o mercado interno nem as exportações.

O BC, fundamentalmente, com as reservas elevadas, está importando crise do primeiro mundo falido. Sem poderem enxugar o excesso de moeda na Europa e nos Estados Unidos via juros mais altos, porque teriam suas economias, já excessivamente endividadas, liquidadas, os governos europeus, americano e japonês enxugam por meio do Brasil. Para tanto, funciona a ideologia. Colocam na cabeça dos comandantes neoliberais do BC a teoria de que estarão se protegendo de riscos, quanto mais dólares acumularem. A grande mídia entra, acriticamente, na onda.

Os ricos, relativamente, mais pobres, estão exportando para o Brasil suas crises monetárias. Se pudessem, enxugariam. Como estão excessivamente endividados, transferem essa tarefa para Henrique Meirelles.
Lembrai-vos da década de 80

O PMDB despachou o sonho de Meirelles de ser vice, condenando-o a virar comida de onça sob ataques de Dilma e Serra, durante a campanha eleitoral, quanto mais conduzir a política monetária no rumo de favorecer os países capitalistas ricos excessivamente endividados que tentam exportar suas crises parao Brasil que eleva suas reservas cambiais em dólares, ativo que se desvaloriza e vira risco constante para a periferia capitalista.

Em 1979, quando a praça mundial estava encharcada de dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, acumulados pela estratégia americana de gerar déficits comerciais para serem pagos por superávits financeiros, mediante emissão de dólares sem lastro, para dar ordem nas relações de trocas globais, Washington subiu imperialmente os juros de 5% para mais de 17%.

Transferiu o pepino para a periferia. Conceituou a crise por meio do Consenso de Washington, operado pelo FMI, para vender a tese neoliberal de que os efeitos da política monetária americana não decorriam das desestruturações do próprio capitalismo americano, mas, sim, das desestruturações congênitas da periferia capitalista. Esta teria que ter um custo para importar a crise americana. Tal custo, por sua vez, implicaria em ajuste do capitalismo periférico, para pagar o prejuízo que deveria ser transferido aos países devedores.

Agora, com o crash de 2008, que abalou geral, os países capitalistas ricos, tendentes a uma pobreza relativa mais acentuada, graças à nova fragilidade do dólar, encharcando a praça global, não podem adotar o mesmo remédio que adotaram nos anos de 1980: subir os juros, para enxugar a base monetária alagada, a fim de evitar enchente inflacionária, escondendo a inflação na dívida pública em ascensão.

Passados quase três décadas, a capacidade de endividamento dos ricos que ficam mais pobres diminuiu, sensivelmente. O instrumento de esterilização monetária – o keynesianismo de guerra – quebrou.

A crise mundial decorre, justamente, como diz Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980) da impossibilidade de os ricos enfrentarem eficazmente a crise que criaram. Sem poder transferi-la, dados os elevados deficits que apavoram o mercado financeiro internacional, tiveram que suportar a explosão dela no próprio colo.

Felizmente, para os Estados Unidos, ainda, existem aqueles que tentam minimizar os prejuízos americanos, como é o caso do BC brasileiro, com sua orientação subordinada à estratégia imperialista americana financeiramente fracassada que deixou de ser útil e funcional para o capitalismo global.

Vale dizer, o mundo capitalista desenvolvido em colapso especula violentamente contra a moeda brasileira em forma de acumulação de reservas em dólar.
Como, pelo critério de reservas, estas não podem ser utilizadas para investimento interno, têm que, ou ficar parada no BC ou se movimentando no exterior sem render nada.

Nesse contexto, em que as economias européia, americana, japonesa e chinesa buscam, desesperadamente, fugir das suas reservas monetárias, candidatas à desvalorização, o governo Lula atrai a crise abrindo a ela a porta dos juros altamente favorecidos.

Tidas como proteção contra risco especulativo, as reservas podem, dialeticamente, virar no seu contrário, ou seja, alto risco especulativo, quanto mais elas crescerem no ritmo da valorização da moeda nacional.

O pensamento neoliberal é altamente contraditório. O que, aparentemente, parece ser não é. O que não parece, por sua vez, é.
Solução venenosa

Pregador da máxima de que somente é possível entender o capitalismo pelo olhar do capital , Lauro Campos via as crises capitalistas como originárias do centro para a periferia , como Marx, em decorrencia das desestruturações decorrentes da sobreacumulação capitalista, tendo a periferia como receptora obrigatória delas, como forma de pagar por prejuízos que não construiu, mas que a ideologia a faz crer que seja a verdadeira culpada, colonizadamente.

O conceito de reservas foi criado pelo imperialismo monetário estabelecido pelo Consenso de Washington, nos anos de 1980, com a violenta crise monetária que atacou o dólar no final dos anos de 1970. Iniciavam, naquela ocasião, os tremores da estratégia keynesiana americana fixada depois da segunda guerra mundial de gerar superativ financeiro, via emissão de dólar em lastro, para sustentar o déficit comercial dos Estados Unidos a fim de garantir superávit comercial da Europa e do Japão, de modo a evitar que caíssem nas malhas do comunismo no pós-guerra.

A expansão da guerra fria, na sequência da segunda guerra mundial, jogou na circulação monetária global 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Peel, constituindo-se no fator de dinamismo da demanda global. Foi esse excesso de moeda americana, transbordada em eurodólares, nipodólares, petrodólares etc, que, ao final dos anos de 1970, ameaçava a moeda americana, especialmente, depois da derrota de Tio Sam na guerra do Vietnan.

Para evitar o estouro do dólar, Washington radicalizou puxando violentamente a taxa de juro. O imperialismo financeiro americano, ao se ajustar, quebrou a periferia capitalista. Em 1982, Delfim Netto, então ministro do Planejamento do Governo Figueiredo, destacou ser essa jogada de Tio Sam o preço a pagar pelos países pobres para que o império americano os protegesse do perigo comunista.

Durante a Nova República neoliberal, as explicações dos economistas tupiniquins adestrados por Washington cuidaram de alardear que eram as inconsistências internas que colocavam em riscos a saúde da economia brasileira e sulamericana em geral. Liam o capitalismo pelo olhar do devedor e não do credor, subordinada e colonizadamente.

Subordinação mental total, algo que se repete, agora, para explicar que as reservas cambiais acumuladas por conta da desestruturação do capitalismo cêntrico, depois da crise financeira, são soluções para a periferia a fim de se proteger de riscos, quando, na verdade, pode ser justamente o contrário, veneno que tende a matar. Acumular reservas representaria estocar veneno.

Quem, numa eventual corrida contra o dólar, no compasso do desastre, irá comprar as reservas brasileiras acumuladas pelo tesoureiro Henrique Meirelles?
Se vigorar o câmbio flutuante, para valer, no instante em que a Europa , Japão e China, cheios de dólares, tentam desfazer-se deles, a moeda americana tenderia a valer R$ 0,50. Quem pagaria o prejuízo, senão o povo?

Representaria prejuízo monumental para o tesouro, quando poderiam tais reservas desidratadas esterilizadas estar contribuindo para fazer o desenvolvimento interno, alavancando a infra-estrutura nacional, duplicando e asfaltando todas as rodovias nacionais de norte a sul e de leste oeste para escoar a produção agroindustrial, cujo custo de transporte decorre da ausência de tais providências.
Por que não utilizar as reservas cambiais – uma parte dela, por exemplo, 50 bilhões de dólares, de um total de 250 bilhões acumulados, dando prejuízo financeiro ao tesouro – para construir os portos e silos a fim acumular a produção nacional, a pronta entrega, aos clientes globais disponíveis a preço competitivo, com o prega o inteligente empresário brasiliense Sebastião Gomes da Silva?

O pensamento colonialista neoliberal financeiro americano falido continua dando as cartas, principalmente, na grande mídia nacional relativamente à utilização da própria riqueza brasileira.

Postado em 03/04/2010 ás 06:51

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