O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que irá comandar o Fundo Soberano, candidato a captar dólares especulativos, que poderão se transformar em investimentos em infraestrutura, como fazem os chineses, destacou que há uma infinidade de providências governamentais que o BC poderá tomar , para frear a sobredesvalorização do dólar, que ameaça a produção, o consumo, o emprego, a arrecadação e os investimentos. De repente, as autoridades econômicas e monetárias demonstram a independência necessária diante do mercado para comandar a política econômica, antes determinada pela bancocracia, cujos interesses comandavam em vez de serem comandados pelo poder do Estado nacional.
A presidente Dilma Rousseff rodou a baiana em cima da bancocracia. Mandou o Ministério da Fazenda e o Banco Central fecharem o cassino especulativo do mercado futuro de dólar para tentar desvalorizar o real frente à moeda americana, que está desorganizando a economia nacional. De quebra, o BC cotará dólar sobrevalorizado no futuro, combatendo sua sobredesvalorização no presente, por meio do chamado swap reverso, repassando dinheiro ao Fundo Soberano, comandado pelo Ministério da Fazenda, que, por sua vez, poderá adotar critérios diferenciados para a aplicação do dinheiro, numa segunda etapa, no crescimento econômico, especialmente, para comandar as obras de infraestrutura e atacar a miséria. Fortaleceria, dessa maneira, o mercado consumidor, aumetando a arrecadação e, consequentemente, os investimentos do PAC.
O que faziam os banqueiros, impunemente? Pegavam dinheiro lá fora a juro baixo e aplicavam aqui dentro a juro alto. Ganhavam, e muito, na diferença das taxas interna, elevadíssima, a mais alta do mundo, e a externa, baixa. O mercado futuro havia se transformado em cassino total, especialmente, nos últimos meses, quando o governo americano decidiu inundar a praça global de dólar, para tentar reanimar a economia dos Estados Unidos, abalada, ainda, pela bancarrota financeira, estourada em setembro de 2009. A entrada excessiva de dólares, na jogatina do mercado futuro, levou o Banco Central, em ação conjunta com o Ministério da Fazenda, a recolher compulsoriamente 60% das posições vendidas em moeda americana, excedentes a 3 bilhões de dólares. Criou-se um corralito para as verdinhas de Tio Sam. Tal decisão se soma à tomada nessa segunda feira de permitir que o Fundo Soberano compre dólar no mercado futuro para subir a cotação dele, enquanto deprecia a moeda nacional, evitando pressões inflacionárias e, ao mesmo tempo, dando folga aos exportadores brasileiros, que ganham maior poder de competição frente aos concorrentes internacionais, escapulindo do perigo de desindustrialização, como alertam os empresários.
O BC caminha, nesse sentido, para se tornar independente, não do comando governamental, mas do comando do mercado. Este, desde o início da Nova República, ganhara força e poder frente ao governo crescentemente endividado pela sobrevalorização cambial, como arma para combater a inflação, e do juro alto, para atrair capital capaz de financiar as contas externas, tendo como contrapartida tensões cambiais permanentes. O fato de o governo americano ter decidido inundar a circulação mundial de dólar criou situação explosiva para as finanças públicas, tensionando não apenas a dívida pública, mas, igualmente, a inflação, exigindo,como contrapartida, taxas de juros elevadas. No final, o custo alto do dinheiro elimina a possibilidade de novos investimentos, ao mesmo tempo que, também, eleva os preços, visto que os empresários repassam suas despesas operacionais bombeadas pelos financiamentos caros para o bolso do consumidor. Como o crediário, sob o juro alto, encontra-se em crescente perigo, poderia ocorrer, no curto prazo, de agora em diante, situação explosiva relacionada ao aumento da inadimplência, tudo somando para perigar investimentos do PAC etc.
Crônica dependência externa
O mercado havia algemado o governo e o Banco Central, ditando as regras por intermédio de prepostos que indicavam para comandar as políticas monetárias. Agora, ao que tudo indica, as coisas estão mudando. O presidente do BC é um funcionário de carreira, Alexandre Tombini. Antes, eram os alienígenas, como o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, na Era Lula, ou Arminio Fraga, na Era FHC, indicados pela bancocracia. O BC independente, sob Dilma Rousseff, tenta bancar sua política monetária, para salvar a moeda nacional, ameaçada de sobrevalorização por meio da política monetária americana , que sobredesvaloriza o dólar, na tentativa de dominar, com os chineses, o mercado global. O nacionalismo dilmista dá grito de guerra.
A sobrevalorização do real vem sendo bombada desde 1994. O Governo FHC, seguindo os passos de Itamar Franco, sobrevalorizou a moeda nacional para combater a alta dos preços, enquanto, ao mesmo tempo, elevou, brutalmente, as taxas de juros. Estas chegaram em 1997 aos 45%(selic). Até os investidores começaram a fugir do santo com medo do milagre que se tornara excessivo. O país, então, viveu crises cambiais seguidas. As fugas de capitais destruíram a Era FHC e levaram o Governo Lula, no início, a uma política monetária austera, para acalmar os especuladores. Passados oito anos de Era Lula em que a taxa selic caiu, da Era FHC, de 45% para 10,75%, os efeitos cumulativos sobre o endividamento governamental, engordados, vegetativamente, criaram situação incapaz de produzir aumento sustentável dos investimentos, enquanto a política antiinflacionária ficou dificil de ser praticada em decorrência do elevado custo do dinheiro bombeado pelos juros compostos.
Tal conjuntura fora produzida originalmente pela política monetária americana detonada nos anos de 1980, quando a Casa Branca, em nome da salvação do dólar, afetado pelos elevados deficits americanos, gerados na guerra fria e nas guerras anticomunistas, como a do Vietnan, elevou a taxa de juro, de 5% para 17%, em 1979. Dançaram feio os devedores em dólar, Brasil, por exemplo. O governo americano, para garantir remuneração dos bancos americanos impôs duras exigências monetárias e fiscais, bem como privatizações do patrimônio público, para saldar os juros incidentes sobre as dívidas. A Constituição brasileira de 1988, nesse particular, no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, salvou os bancos, proibindo contingenciamento dos recursos destinados aos serviços da dívida, enquanto todos os demais custos não-financeiros governamentais – saúde, educação, segurança, infraestrutura etc etc – entravam na faca das restrições orçamentárias obrigatórias.
Tudo, então, destinava-se à formação de elevados superavits primários, capazes de garantir os banqueiros, que chegaram aos 5% do PIB. Até investimento da Petrobrás, que dá lucro, passou a ser considerado deficit. Na Era Lula, especialmente, depois do segundo mandato, no calor da grande crise global, as coisas mudaram e entrou em campo o pensamento nacionalista para diminuir o superavit, diminuindo, relativamente, os juros, embora o poder da bancocracia se mantivesse enorme. As descobertas do petróleo no pré-sal, a guinada nacionalista para capitalizar a Petrobrás e dar-lhe maioria das ações, já que os sócios privados caminhavam para ser dominadores da estatal, criaram nova história.
Com Dilma Rousseff, não apenas deixam de ser considerados deficits os investimentos das empresas estatais como todos os investimentos relacionados no Programa de Aceleração do Crescimento(PAC) poderão, também, deixar de sê-lo. Paralelamente, em meio à devastação monetária que a política de Barack Obama provoca ao sobredesvalorizar o dólar, emitindo moeda sem lastro a juro negativo, a nova titular do Planalto acentua o viés político nacionalista, conferindo ao Banco Central autonomia para agir frente aos especuladores. Estes, que pediam autonomia do BC frente ao governo, estão tendo, agora, que engoliar o inverso, ou seja, a autonomia do BC frente ao mercado. É a nova versão do swap reverso em cima da bancocracia.
| Postado em 16/01/2011 ás 10:18 |