Brasília - Terça , 21 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de José Ribamar Bessa Freire
O canário nas minas de carvão
O canário está ferido. Suas plumas estão tintas de sangue. Ele foi atingido nesta quarta-feira, 21 de março, pelos disparos feitos por trinta e oito deputados que aprovaram, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, um relatório destinado a mudar a atual Constituição Federal do Brasil. A mudança proposta redefine as terras indígenas, quilombolas e ambientais, num retrocesso histórico que, se for confirmado por três quintos dos parlamentares, condena o canarinho à morte.

A imagem do canário é do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Ele conta que nas minas de carvão do Reino Unido, os mineiros tinham o costume, até 1986, de levar com eles, para dentro dos socavões, um canário em uma gaiola. O bichinho, muito mais sensível que os humanos aos gases tóxicos acumulados dentro dos túneis, começa a agonizar quando o ar fica envenenado. Sua morte é um sinal para os mineiros, um "aviso" de que devem evacuar as galerias. "Canary in the coal mine" - canário na mina de carvão - virou expressão que indica perigo iminente.

Dessa forma, os mineiros usavam o canário como um "indicador ecológico" toda vez que iam cavar os "ossos da terra" - é assim que os Yanomami chamam os metais extraídos das jazidas.

Viveiros de Castro considera que os índios, bem à sua revelia, são os nossos canários sociológicos ou socioambientais. A agonia dos índios é um "aviso", anunciando que a sociedade envolvente está podre, na iminência de falir, do ponto de vista ecológico e sociopolítico. E acontece que, no Brasil, se essa emenda passar, o ar vai ficar irrespirável. Só que, ao contrário dos mineiros, nós não temos para onde nos picar. O nosso destino está amarrado ao das sociedades indígenas.

Nova Era
Aqui, durante cinco séculos, os índios tiveram suas terras pilhadas, saqueadas, usurpadas, sempre através da violência armada. Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte deu um basta nisso, quando aprovou a Constituição, selando um pacto novo com mais de 200 povos. O Brasil falou, então, aos índios, que não era mais possível recuperar os 87% das terras que eles haviam perdido, mas daqui pra frente o Estado garantia a demarcação dos 13% restantes que ainda ocupam. A partir de agora, ninguém mais pode roubar terra de índio.

Esse foi o pacto assumido pela "carta cidadã" de 1988, que acatou o pressuposto da antecedência histórica, reconhecendo aos índios os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, posto que eles estavam aqui antes do que qualquer fazendeiro. O quadro jurídico novo reconhece ainda organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, bem como a relação integrativa com a terra, que é tão essencial para os índios como o ar para qualquer ser vivo.

Com esse espírito, a Constituição criou mecanismos de ações afirmativas para compensar os crimes históricos cometidos contra os índios, permitindo que o país inaugurasse uma "nova era constitucional", para usar a expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ayres Britto, em seu relatório sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

O Brasil chamou, como testemunhas desse novo pacto, o mundo inteiro, quando assinou, em 2002, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece, no plano internacional, a proteção das instituições, das pessoas, dos bens e do trabalho dos índios. Depois, no dia 13 de setembro de 2007, numa Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, o Brasil aprovou a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e se comprometeu, na frente de todos os países do mundo, que iria respeitar esses direitos.

Agora, 38 deputados pretendem rasgar a Constituição e descumprir os acordos nacionais e internacionais do Brasil. Eles ressuscitaram a Proposta de Emenda Constitucional - a PEC 215/2000 - de autoria do deputado Almir Sá, do PPB (atual PP - vixe, vixe) de Roraima. Esta PEC estabelece que quem decide se uma terra é indígena não é a forma tradicional de ocupação, mas o Congresso Nacional, que pode até mesmo rever as demarcações já feitas. As raposas votam que são elas que devem tomar conta do galinheiro.

O relatório aprovado do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR - vixe, vixe) retirou essa última parte sobre as terras já demarcadas, mas conservou o restante, que representa um golpe contra índios e quilombolas. Manteve várias outras propostas incorporadas à PEC 215, como a do deputado Carlos Souza (PSD-AM, vixe, vixe), que determina que as Assembleias Legislativas devem ser consultadas sobre demarcações - o que é competência da União - "a fim de se evitarem os significativos prejuízos que a demarcação de terras indígenas impõe às unidades federadas". Ele não explica que prejuízos são esses e, afinal, quem são os prejudicados.
Agonia do canário
A sessão da CCJ, tumultuada, durou mais de quatro horas. Os índios, é claro, se fizeram presentes e protestaram, entre eles, Jaci Makuxi, comandante da luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Tiveram o apoio do deputado Alessandro Molon (PT-RJ), para quem a PEC é um "gravísimo retrocesso, gritantemente inconstitucional, que atende a sanha do ruralistas por novas terras".

O relatório foi aprovado com o voto de 38 deputados da CCJ. Entre eles, a fina flor da moralidade pública, da retidão e da honestidade, com uma larga folha de serviços prestados a si próprios: Paulo Maluf, Esperidião Amin, Alberto Lupion, Eduardo Cunha, Eliseu Padilha e - que vergonha! - Roberto Freire, além dos cultivadores de cacau do sul da Bahia, Felix Mendonça e Paulo Magalhães, inimigos declarados dos Pataxó e Tupinambá.

Agora, com o relatório aprovado, uma Comissão especial criada exclusivamente para isto, vai elaborar a emenda que deve ser apresentada ao plenário. Resta saber se a parte sadia do Brasil vai assistir acocorada, de braços cruzados, a morte do canário, e vai morrer junto com ele, ou se vai se levantar contra essa vergonhosa legislação em causa própria.

O ministro Ayres Britto, que assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal, representa um fiapo de esperança. Quando ele foi relator no caso Raposa Serra do Sol desmontou o alegado antagonismo entre a questão indígena e o desenvolvimento e defendeu "a efetivação de um novo tipo de igualdade, qual seja, a igualdade civil-moral de minorias que têm experimentado historicamente e por preconceito desvantagem corporativa com outros segmentos sociais".

Contra essa igualdade civil-moral é que votaram os 38 deputados, que parecem retomar o espírito das comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, cuja sessão magna, no dia 4 de maio de 1900, foi aberta com um discurso do engenheiro Paulo de Frontin, empossado depois como prefeito do Rio de Janeiro. Ele disse, com todas as letras, que o Brasil nada tinha de indígena: "Os selvícolas (...), não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los".

O cara, que presidia as solenidades, estava propondo eliminar os índios, como se estivesse dando um presente de aniversário ao País. Afinal, qual é o lugar dos índios na construção do Brasil? Se for aquele planejado por Paulo de Frontin e pelos ruralistas, então quem está ameaçada é toda a sociedade brasileira, nós, nossos filhos e nossos netos, e já podemos ouvir os gritos soando nas galerias: - "Canary in the coal mine".

Postado em 28/03/2012 ás 09:23

[ Imprimir ]

Veja Também
» Em defesa de Dona Miloca
» A ex-irmã Gleisi e os índios
» Confesso que trai
» Stradelli: As vozes da floresta
» EL CHE PAPA
» Mil meu com mil teu
» Dona Taci: A sabedoria fulniô
» Coitada da Lazinha
» O cantar do Cid
» Doña Aurélia, a última sogra
» Weffort, o explorador do Brasil
» Feliz 2013, Tataitá!
» Na cama, com Silvio Tendler
» Na escola do Igapó
» Niemeyer no sonho de Darcy
» Kátia, a antropóloga, criadora da abreugrafia
» Um índio museólogo na canoa das almas
» Os eleitores prefulgenciados
» Os candidatos vira-casaca
» Entre Amazonino e Aquilino
» Planejando a própria morte
» O professor que torturava
» O biquinho francês: Um patrimônio escondido
» Os museus da resistência
» Os bundões e a bíblia da bunda
» Manicy e a porcaria da AGU
» Um cardeal sem passado
» Brand - Um amigo dos índios
» A prisão de Lupicinio
» As primaveras da UFAM
» THOMAZINHO
» A bola dos Kamaiurá
» Os indios do século XXI
» Pão molhado na CPI
» Neiva Moreira, o contados de histórias
» Creio em Tupã
» Unibiótica, nunca mais!
» Tia Suzana, meu amor
» Fale com o presidente
» O canário nas minas de carvão
» O ex-governado Illinoizinho
» O leite do meu filho
» O omelete do Belão
» Dois presos e uma medida
» AI DE TI, HAITI!
» Volta pro navio, seu porra!
» Faz mal uma palmadinha?
» Alguém morreu em Cuipiranga
» Um berço de escritores
» Lúcio Flávio: Ameaças a um jornalista
» Alberto Santoro: A partícula de Deus
» Dona Yedda
» O agrobanditismo: A hora de a onça beber
» Rondônia: A operação magnifico Januário
» Um deles já nos viu!
» O album da família Pirroque
» Dois médicos e uma briga
» O milagre da pimenta murupi
» Carta aberta à Comissão da Verdade
» Os cães farejam livros
» A província se defende como pode
» A provícia se defende como pode
» O tambor do caboco suburucu
» Canta lá que eu conto cá
» As duas mortes do avô da Rosi Odina
» Conradinho close up
» AI DE TI, IJUÍ !
» Falta um contínuo no Ministério dos Transportes
» Maria Pucú, a militante fiel
» Tu és Pedro
» O pirarucu safado
» Que time é teu?
» O português e o Tupi no Brasil
» Oa Tarumã estão voltando
» Os xerifes da língua
» O tacacá do Bolsonario
» Com o coração enterrado na curva do rio
» O carimbo da Kate
» O olhar dos índios
» O pajé que fala com as árvores
» Alô Alô, Realengo!
» Faltou alguém no velôrio do Zé
» O detetive da palavra
» Peret, o contador de histórias
» Cadê o Thomazinho?
» Nem ruim da cabeça, nem doente do pé
» O Berlusconi da floresta: "Essa coisa"
» O discurso dos surdos
» Confissão na era digital
» Lá se foi nosso Jardim
» Essa Manaus, que se foi
» Dona Alvina, a tacacazeira
» Maria fecha a porta
» O ministro e a pipa do vovô
» Um natal com bolo e bola
» O cordelista que não se vendeu
» O Rio de Janeiro continua lindo?
» A anta que virou elefante num domingo espetacular
» O cafofo da Rua da Instalação
» O circo sem teto da Amazônia
» Vovó Dilma ou vovô Serra?
» Pedro e o Globo
» Serra: A fé de um ambientalista
» O encardido: Seu filho, seu neto
» Ai de ti, Amazonas!
» Ele, Ely, é o cara
» A sogra do Jacamim em busca da beleza
» O capeta apareceu em Dourados
» Ação redibitória neles!!!
» Da arte de ser Manoel Octávio
» Para não falar com o espelho
» Para não falar com o espelho
» Suplica do eleitor brasileiro
» A filosofia do pão francês
» Zé Melo no Espoca-Velha
» O horóscopo nas eleições
» Aldo e a maldição do curupira
» Serra e a derrota do Brasil
» Te mando um passarinho
» A tribo dos escritores e o jabuti
» Dona Dadá da jaca
» LULA, O PÜTCHIPÜ´Ü DO MUNDO
» As bruxas também morrem
» Quem tem olhos que veja
» O IDD do Brasil é mais embaixo
» Avisa que estão matando o Mindu
» Um filho teu fugiu à luta
» Um namoro etnodigital
» Um namoro etnodigital
» Judas no Brasil
» Um blog chamado Lucta Social
» O dicionário do Bewrinho
» A cotia risonha ri de quem?
» Vai lavar teu tcherembó!
» O tocador de pandeiro
» O dia em que a Geny me salvou
» As várias fomes da Marina
» Ê, OLHA A FUNAI, CAMARÁ!
» Brasil: A lagoa dos negros
» A paçoquinha de dona Maria
» Madinha e a taxa de lixo
» O revolver do Quidoca
» Amazonino e a baronesa de Igarapé
» Ore Roimé nderehe ym
» A ponte que partiu
» Levi-Straus e Verequete
» O filho da cobra
» Lula, Cristo e Judas
» O dia em que Mercedes encantou Manaus
» Nós que amamos as pererecas
» As donas das receitas
» A volta dos kabokoves
» A sena da Sasha
» You are my sunshine
» PT: VIXE, VIXE ?
» O Rio Negro e a sua universidade
» Os donos da memória
» O boto navegador
» Senhor juiz, pare agora!
» A caneta do Sarney
» O senado e o caso da tartaruga
» Na enfermaria 209
» A novela dos irmãos Souza
» Ninguém mais será Jaú
» Se eu fosse os índios: as línguas
» Tikuein, Entxeiwi
» Confirmando suspeitas
» Aldo, o bandeirante vermelho
» O almirante Kadiwéu
» O almirante Kadiwéu
» Morte e vida das línguas
» Eu telo chê chenadô
» A menina, o bispo, nós
» Uma cronica censurada
» Belão, o gato bilingue
» Mamãe, eu quero tribumelo!
» Adeus a um prefeito singular
» Gandra: A fábrica de tijolos
» LÉVI-STRAUSS: Tão perto da Amazonia
» TAQUI PRA TI - Contra a leitura
» Tem um negão na Casa Branca
» As aventuras de Jean Frébourg
» Novela eleitoral: O favorito
» Caboco tranca-rua: Nu e cru
» Cartas de Vania e Marilza
» Adeus Manaus, adeus Waldick!
» a SOBREMESA ESTA GOSTOSA
[ Ver todas as publicações da coluna ]

 

Buscar Conteúdo
Colunistas

Fatal error: Cannot redeclare foto_existe() (previously declared in /home/patria/public_html/colunaconteudo.php:16) in /home/patria/public_html/lado_colunistas.php on line 13