Brasília - Quarta , 19 de Junho de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de Emir Sader
O Brazil dos tucano-pefelistas (II)
Serra foi o candidato do bloco tucano-pefelista em 2002 para dar seqüência aos 9 anos do desastroso governo de FHC e aos 12 anos de neoliberalismo, se contamos seu início com o governo Collor, sua continuidade com o governo Itamar Franco (que levou FHC ao Ministério da Economia e lançou o Plano Real). Foi derrotado por Lula. Mas se tivesse ganho, como pretendia a ditadura privada a mídia, a Fiesp e o grande empresariado, o que teria acontecido com o Brasil? Em que situação estaríamos? Como estaríamos enfrentando a crise atual?
Serra tem uma ambição desmesurada de poder. Foi presidente do Grêmio da Politécnica de São Paulo, atropelou todo mundo para ser presidente da União Estadual dos Estudantes e presidente da UNE. Neste cargo, no comício do Jango, na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, foi o mais radical, mais até do que o Brizola. Dezoito dias depois, com o golpe militar, decretou greve geral e fugiu do Brasil, no primeiro grupo que saiu do país, abandonando o cargo para o qual tinha sido eleito pelos estudantes universitários brasileiros (Pergunte-se a ele como terminou seu mandato de presidente da UNE, tem que ele nunca toca. Bem ao seu estilo, de declarações de um lado, comportamento de outro.)
Serra atropelou na campanha à Roseana Sarney e ao Ciro Gomes, utilizando todos os métodos – como é do seu feitio: não se surpreendam se começar a aparecer queimações do Aécio com notas plantadas na imprensa, especialmente no seu jornal, FSP, sobre a vida devassa do governador de Minas. Tentou se distanciar de FHC, de maneira oportunista, quando viu que a avaliação de FHC era a pior de um presidente no final do seu mandato, mas não conseguiu.
Não conseguiu, não apenas porque foi apoiado por FHC, ACM, Bornhausen, etc., mas também porque ele esteve durante todos os dois mandatos de FHC no governo, compactuando e, por tanto, sendo responsável por todas as calamidades que FHC fez. Tem por isso que responder por todo o dossiê daquele governo: as privatizações, a tentativa de privatizar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Caixa Econômicas, entre outros. O maior processo de precarização das relações de trabalho – cujas terceirizações, entres outros graves danos, entre eles o de deixar a maioria dos brasileiros sem carteira de trabalho, foi responsável pelo aumento exponencial de acidentes de trabalho na Petrobrás -, a compra de votos para mudar a Constituição em pleno mandato de FHC para que pudesse ser reeleito, entre outros.
Além disso, Serra foi grande propagandista do modelo chileno, especialmente da privatização da previdência nesse pais, que levou a que 95% das pessoas ficassem na previdência privada, tendo perdido, apenas até aqui, este ano, 20% das suas aposentadorias, tendo levado o próprio governo de Michele Bachelet ter confessado seu fracasso e tentado diminuir os danos que causa.
Serra teria mantido a equipe econômica, certamente teria levado de volta os irmãos Mendonça de Barros (que saíram do governo pelo flagrante dos telefones em que combinavam que deveria ganhar a privatização das telecomunicações), teria mantido Armenio Fraga no Banco Central e daria continuidade ao governo FHC. Celso Lafer ou outro ministro favorável à subalternidade com os EUA, teria levado o Brasil a promover a Alca e inviabilizado o Mercosul e os outros processos de integração regional que vieram depois que o Brasil teve papel central na inviabilização da Alca – porque Serra perdeu as eleições para Lula.
Como o bloco das direções partidárias do PSDB, do PFL, do PPS, da Folha, da Veja, do Globo, do Estadão, perderam a batalha para derrubar Lula, que detêm 80% de apoio e apenas 8% de rejeição (10 vezes menos, que é o público desses partidos e desses órgãos da imprensa privada), Serra diz que não será candidato anti-Lula, mas pós-Lula. Não é o que pensam os dirigentes daqueles partidos e órgãos da imprensa, que dariam a tônica no seu governo, mas estes sabem que tem que contar com Serra, porque seu objetivo maior é desalojar Lula e o PT do governo e voltar a apropriar-se dele, com seu apetite voraz, mal contido nestes 6 longos anos – para eles.
Para isso Serra dirá que vai manter os programas sociais de Lula, demagogicamente. Se aproveitará da crise internacional e da nova onda, para dizer que o Estado terá um protagonismo maior, tentando apagar uma das frases do seu chefe, FHC: “Vou virar a página do getulismo”, isto é, do Estado regular, indutor do desenvolvimento, promotor de políticas sociais redistributivas, da ampliação do mercado interno de consumo popular, da indústria nacional, da geração de empregos. Contra tudo isso agiu o governo FHC e Serra tem que responder por isto.
Talvez faça como seu sucessor, igualmente derrotado por Lula, Alckmin, que assinou no segundo turno compromisso que não ia privatizar mais. Será difícil para Serra, que compactuou com todas as privatizações do governo FHC e ainda deu curso às privatizações tucanas em São Paulo. (Na sua breve passagem pela prefeitura paulistana, autorizou a colocação de publicidade privada nos uniformes das crianças de escolas públicas, uniformes que o governo de Marta havia dado gratuitamente. Mas como tem critérios, Serra decretou que essas publicidades, que faz com que os alunos pareçam miniaturas de corredores de Fórmula 1, não possam ser nem de cigarros, nem de bebidas alcoólicas – ainda bem!).
Serra é homem da Fiesp, da Folha de São Paulo, dos grandes bancos, da retomada das alianças privilegiadas com os EUA e os países do norte do mundo, homem do modelo chileno, que gostariam de tirar o Brasil dos projetos de integração regional, para fazê-lo associado privilegiado com o Chile, que assinou vergonhoso Tratado de Livre Comércio com os EUA.
Disfarçado de pós-Lula, Serra seria o continuador do que o governo tem de negativo – hegemonia do capital financeiro, manutenção da ditadura privada da mídia, privilégios do agronegócio de exportação trangênica, etc. – e o revogador do que o governo tem de melhor: política externa independente, políticas sociais, política cultura e educacional, incentivo – ainda que tímido – à mídia pública. Retomaria os processos de privatização – da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, dando sequencia às negociações que o Malan tinha iniciado com o FMI.
Hoje, se Serra tivesse sido eleito em 2002, o Brasil teria aprofundado a desigualdade social que continua a caracterizar-nos mas que, pela primeira vez, tem políticas que diminuem a injustiça social no país. A Alca teria sido implantada, o Brasil teria assinado seu Tratado de Livre Comercio com os EUA, seríamos incomensuravelmente mais frágeis na crise atual, que teria repetido o que aconteceu com o país nas três vezes que o governo a que Serra pertenceu levou o Brasil à falência.
“Brasil para alguns poucos” – esse seria o Brazil tucano-pefelista, se Serra tivesse ganho – ou se chegar a ganhar, em 2010. No próximo artigo sobre o Brazil tucano-pefelista, de FHC e de Serra - Se Alckmin tivesse ganho.





O Brazil dos tucano-pefelistas (I)
O GOVERNO FHC – O BRASIL TERIA AGUENTADO OITO ANOS MAIS?
A aliança tucano-pefelista assumiu o governo em 1994, com FHC, prometendo que a estabilização monetária resolveria todos os grandes problemas do Brasil: inflação, divida pública, estagnação econômica, atraso na modernização do país, desemprego, poder aquisitivo dos salários, etc. etc. Era um bloco novo no Brasil, em que um partido que se dizia social-democrata, formava uma coalizão com um partido originário da ditadura (cuja mudança, novamente, de nome, não permite disfarçar sua origem, de que seus caciques são testemunhas: Borhnausen, ACM, Marco Maciel, Garibaldi Alves e outros que o dirigem atualmente), para aplicar o programa do FMI, do Banco Mundial e da OMC, que já estava sendo aplicado por Menem na Argentina, pelo PRI no México, por Carlos Andrés Perez na Venezuela, entre outros.
FHC reelegeu-se, quatro anos depois, com toda a urgência, porque o Brasil estava de novo quebrado nas mãos de sua equipe econômica, Pedro Malan negociava uma nova Carta de Intenções com o FMI – a terceira, em menos de quatro anos, na terceira quebra do país -, pelo que era necessário ganhar no primeiro turno, para impedir que o povo soubesse o que saberia poucas semanas depois: a nova falência, a nova Carta, as falcatruas do Banco Central – no caso Marka-Fonte Sindam, pelo qual vários dos diretores daquele Banco estão condenados – e a elevação da taxa de juros a 49% (sic). Tudo feito com todo o apoio da grande imprensa privada – FSP, Veja, Estadão, O Globo. O Brasil foi jogado numa recessão, da qual só saiu recentemente, com profunda feridas daquela política regressiva e anti-popular.
A quebra por três vezes do país foi conseqüência da política econômica de FHC, apoiada por todos os organismos internacionais, por 3/5 do Congresso – incluído o PMDB, o PPS, o PV, o PP, o PTB – e da grande mídia. O candidato que dizia que “o Estado brasileiro gasta muito e gasta mal”, fez a mágica de transformar a inflação em dívida pública, multiplicando-a por mais de 10 vezes, levando o Estado brasileiro à falência.
Privatizou todo o patrimônio público que conseguiu – da Vale do Rio Doce, empresa líder do seu setor no mundo, vendida a preço que permitiu pagar dois meses da dívida pública, a preço de banana, às telecomunicações, entre tantas empresas -, chegou a fazer com que a Petrobras mudasse de nome para Petrobrax – por 24 horas, teve que retroceder diante da indignação pública -, para tirar-lhe a referência a Brasil, torna-la “empresa global” e favorecer sua privatização, iniciada com a venda de ações da empresa nas Bolsas de São Paulo e de Nova York, depois da quebra do monopólio estatal do petróleo.
O governo tucano-pefelista de FHC promoveu o mais acelerado processo de concentração de renda que o Brasil conheceu em um breve espaço de tempo – de que a transferência de patrimônio publico a mãos privadas foi uma parte essencial – e FHC saiu do governo com a mais baixa avaliação que um presidente havia tido (quando Lula têm 80% de apoio, no seu sexto ano de governo, FHC tinha apenas 18%, quase cinco vezes menos), considerado o “candidato dos ricos”, a quem favoreceu como nunca havia acontecido no Brasil. O que seria do Brasil se Serra tivesse sido eleito, para dar continuidade ao governo FHC? Como o Brasil teria sofrido a crise atual, caso as orientações do bloco tucano-pefelista tivessem prevalecido?
A essas perguntas responderemos no próximo artigo da série "O Brazil dos tucano-pefelistas".

Postado em 22/10/2008 ás 17:33

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