Com um faro de repórter tal como cão perdigueiro em busca implacável de sua caça que não cansa de persegui-la enquanto não a abate, o repórter e escritor Fernando Morais manuseia os fatos em grande abundância hierarquizando-os tal qual o cientista diante da sua descoberta em batalha incenssante em movimento de coordenação dos contrários que impulsiona a contradição para frente em busca da sua superação. Trata-se de relato em forma de novela ficcional, com a diferença de que está em jogo a narrativa da realidade amplamente documentada – uma construção literária apoiada nos fatos devidamente apurados e vívidos, tocados pela emoção contida de um construtor de aventuras jornalístico-literárias, objetivando segurar o leitor até o fim da história, com requintes de expectativas e sobressaltos. Morais acaba demonstrando que a realidade é mais espetacular que a ficção.
Sobressai, ao final, uma luta entre Davi e Golias no cenário de atuação do imperialismo americano em sua tentativa persistente de dar cabo do socialismo cubano, tarefa, até agora, impossível, porque para impedi-la encontra-se uma resistência moral e ética ancorada numa justificativa humana e heróica que eleva a auto-consciência e auto-estima da sociedade cubana em sua defesa da justiça e da liberdade de viver dos cubanos.
Não dá para não ler, como diz a propaganda inteligente da Folha de São Paulo. O livro de Fernando Morais, “Os últimos soldados da guerra fria”, Companhia Das Letras, 396 pgs, é leitura obrigatória. Ele mostra a recente história contemporânea do massacre imperialista americano contra a ilha de Cuba, heroicamente, defendida pelo socialismo castrista. Claro, a grande mídia, paga com dinheiro grosso, minimiza o acontecimento literário. Cuida de adotar o comportamento de Goelbs de que uma mentira repetida mil vezes vira, evidentemente, verdade absoluta.
Fidel, goelbianamente, é o inferno. Morais vai dentro do problema, no âmago dos acontecimentos, levantando as histórias, os personagens, as motivações, a defesa do interesse nacional a estimular a inteligência humana como salvação de si mesma, pela luta em favor de uma causa justa, embora seja desvirtuada pelos interesses tenazes que tentam vendê-los como produto ideológico. Igualmente, mergulha no terreiro dos inimigos daquela causa, seguindo seus passos e suas estratégias, manipulando e ordenando fatos concretos, objetivos, esmiuçando-os.
No fundo do livro-romance-reportagem, onde se encontra enredo cinematográfico de forte dose de emoção e intensidade humana, em uma linguagem simples, direta e ao mesmo tempo romanceada, demonstrando que os fatos reais servem para construir as grandes novelas, Morais, repórter e escritor sulamericano de projeção internacional, traça a resistência cubana por intermédio da ação de espionagem de Havana dentro dos Estados Unidos no meio dos grupos direitistas anticastristas, ligados à comunidade política e financeira dos Estados Unidos em meio à disposição generalizada desta de destruir a prática socialista cubana.
Certamente Fidel e seus homens estão por trás de tudo. Um grupo de cubanos de grande experiência nas ações de espionagem, nas lutas de Cuba em solidariedade às guerras revolucionárias na África, quando se encontrava aliada ao socialismo soviético, antes de sua explosão, expressa formalmente na queda do muro de Berlim, em 1989, foi arregimentado pelo governo cubano para tentar se proteger contra as ações terroristas, financiadas pelos poderosos agentes do anticastrismos, atuantes de forma aberrantemente livre, em todas as direções, em território americano, especialmente, em Miami, com o objetido de detonar o regime socialista na Ilha.
As manobras são claras e articuladas em grande estilo, sob cobertura ampla da imprensa americana, sem que o governo de Washington reaja de forma exemplar, para evitar o avanço do terrorismo político em território nacional.
O governo de Tio Sam que tanto reclama e age drasticamente contra o que considera terrorismo muçulmano organizado fora e dentro dos Estados Unidos para minar a democracia americana nada faz de sério diante do mesmo fenômeno terrorista produzido pelas forças reacionárias cubanas em ação na América.
Dois pesos duas medidas. Evidentemente, o laxismo de Washington em relação aos terroristas direitistas cubanos em Miami relaciona-se ao poder político que o terror anti-Cuba produz no parlamento americano. Políticos influentes no Congresso dos Estados Unidos são eleitos com o dinheiro canalizado pela máfia terrorista reacionária.
Esta age de forma sintonizada com os propósitos imperialistas dos Estados Unidos de acabar com o socialismo em Cuba, algo renitente, em ação disciplinar, envolvendo, claro, muito dinheiro. Pois bem. Como fator preventivo necessário à saúde política e econômica de Cuba, esses interesses teriam que ser descobertos por dentro pelos espiões de Fidel atuando na casa de Tio Sam. Trata-se de um relato emocionante de Morais em relação à espécie de espionagem realizada pelo governo de Cuba na América.
Não tem nada a ver com as estórias espetaculares de James Bond ou de qualquer articulação de espiões muito bem pagos para atuarem de forma destemida e ousada à luz do dia, mais como uma prática confrontacionista relativamente aos poderes públicos.
Os espiões cubanos são algo quase de dar dó. Quebrados, financeiramente, vivem como operários nos Estados Unidos. Trabalham a maior parte do tempo e espionam em tempo integral, porém, têm que construir sua renda necessária a sua sobrevivência em meio ao capitalismo, porque o que recebem do governo de Fidel dá para pagar o aluguel e olhe lá.
Embora estejam submetidos às mais duras dificuldades, em meio a tarefas arriscadíssimas, sujeitas aos arrombamentos de suas programações pelas forças adversárias muito mais poderosas e organizadas, eles conseguem penetrar no íntimo das forças terroristas anticastristas para alcançar o objetivo a que almejam, ou seja, frustrar a tentativa do terror em inviabilizar a economia e o regime em Cuba.
Pegagogia literário-jornalística do imperialismo
A grande mídia brasileira minimizou até agora o lançamento do livro de Fernando Morais, colocando-o como um acontecimento corriqueiro, quando, na verdade, trata-se de de denúncia fortíssima, um retrato vibrante da realidade imperial americana em ação contrarevolucionária na tentativa de segurar os processos políticos de libertação na América Latina, para fugir do guante americano, em sua insistência em escravizar as mentes por meio do domínio do capital, que, como disse Marx, é poder sobre coisas e pessoas.
As coisas e as pessoas, no ambiente do poder midiático nacional, cuidam de retratar a realidade cubana como se tratasse de um inferno antidemocrático, sem considerar a causa das precauções do governo de Cuba contra as tentativas de derrubá-lo, ordenadas a partir de um bloqueio comercial implacável.
Este começou nos anos de 1960, reforçado com requintes imperiais por legislações aprovadas no Congresso pela força do dinheiro da direita mafiosa e golpista anticastrista, cuja ação em território dos Estados Unidos é totalmente livre, contrastrando com as providências que Washington toma contra o que considera terrorismo muculmano e outros terrores. Há terror e terror para Washington.
Aquele que visa destruir Cuba, obrigando-a a stuar como resistente contra ação de guerra permanente, merece todo o cuidado em sua preservação diabólica. O livro de Morais é uma aula sobre essa realidade insofismável que a mídia esconde em seu trabalho jornalístico ideologicamente falsificado.
Como se sabe, depois do fim da guerra fria e do socialismo soviético, que morreu por não dar conta de repetir o mesmo modo de ação do inimigo americano para tocar os gastos do governo em favor da economia de guerra – a guerra para os Estados Unidos é a solução, para a União Soviética, problema, como disse Norman Gall – , a vida de Cuba virou inferno econômico financeiro.
Debaixo do bloqueio imperialista imposto por Washington contra Havana, nos anos de 1960, reforçado em 1992 pela chamada Lei Torricelli e intensificado em 1996 pela Lei Helms-Burton – legislações estas impulsionadas pelo poder financeiro da máfia cubana, em sua competente ação de manipular o Congresso, comprando mandato de congressistas – , Cuba, ao perder o mercado soviético, para onde mandava suas matérias primas, até final dos anos de 1980, viu-se obrigada a lançar mão da última cartada econômica, capaz de movimentar a vida nacional, gerando emprego, renda, consumo e arrecadação para os cofres do tesouro: o turismo. Seria a forma de dar conta de suas obrigações sociais, especialmente, com educação, saúde e infraestruturas socialistas.
Conscientes das debilidades econômico-financeiras da Ilha, os reacionários cubanos de Miami, empenhados até a alma em destruir os irmãos Castro, decidiram atuar, na base do terrorismo, para afastar os turistas de seu propósito em visitar e gastar suas economias em Cuba em tempos de férias. Miami tranformou-se na anti-Sierra Maestra dos terroristas de direita. Seria o fim da economia, eliminando o que restou ao país depois do desastre socialista soviético.
Os espiões cubanos em Miami e em diversos pontos dos Estados Unidos, tendo que investigar a máfia anticastrista em atuação na América Latina, para minar a resistência socialista, tinham que agir rápido e certeiramente.
O roteiro compõe obra cinematográfica, com a movimentação e emoção dos personagens, enfrentando os desafios, enquanto, na aparência, tenham que vender a imagem de irresponsáveis traidores da pátria. Fugiram de Cuba para entregar os segredos da Revolução aos mafiosos de Miami.
Era a forma de empregar-se entre eles e conseguir sobreviver. De posse das informações, por dentro dos acontecimentos tenebrosos, articulados pelo terror, com pleno conhecimento de aliados americanos do jogo terrorista anticatrista, os espiões, verdadeiros herois nacionais, correm todos os riscos, para alcançar os objetivos nacionais, ou seja, informar Havana da ação dos seus inimigos. Alcançam, mas acabam se sucumbindo.
O trabalho de investigação do repórter Fernando Morais é sistemático,disciplinado e detalhista. Cão perdigueiro em busca de sua caça, Morais não descansa enquanto não atinge o alvo, e quando o faz expõe-no em linguagem eletrizante, que leva o leitor a uma ação compulsiva, de passar página por página em velocidade, para acompanhar os desdobramentos da novela como se tratasse de uma história de ficção.
A realidade é tão punjente que ultrapassa esse aspecto da imaginação, rendendo-se à evolução dos fatos narrados encadeadamente com o toque da expectativa e da racionalidade emocionalmente trabalhada com perseverança. No final, a história é conhecida: a prisão e julgamento dos espiões cubanos, debaixo de grandes controvérsias que levantaram lutas políticas e mobilizações em todo o mundo. Mas, pergunta-se: a grande imprensa brasileira acompanhou, detalhadamente, por meio dos seus correspondentes internacionais, o assunto? NADA.
Tudo ficou desconhecido, até que Morais viu na história real o enredo fantástico para uma boa reportagem literária latinoamericana. Envergonha os brasileiros e brasileiras o comportamento do poder midiático nacional, que não tem a independencia suficiente para acompanhar a história da América Latina, especialmente, da saga cubana contra o bloqueio imperial.
Ela não ousa, por meio do jogo independente do jornalismo de investigação, ferir os interesses de Washington, para quem ela trabalha, alinhando-se às suas coordenadas ideológicas. Seria, portanto, novidade que o livro de Morais tenha sido resenhado com tão pouca economia de palavras pelos principais jornais, revistas e tevês, se sustentando, como produto cultural, apenas, nos blogs, principalmente?
| Postado em 27/11/2011 ás 19:58 |