Brasília - Quarta , 22 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de José Ribamar Bessa Freire
Belão, o gato bilingue
Escrevo de uma aldeia indígena Tikuna, em Benjamin Constant, no Alto Solimões (AM). Vim ministrar um curso de formação de professores indígenas bilíngües. Aqui, seguindo obrigatoriamente o exemplo do presidente Lula, não leio jornais. Portanto, nada sei sobre as fofocas relacionadas à eleição para presidente do Senado, desconheço também se a sobrinha do Belão, presidente da Assembléia Legislativa do Amazonas, fez mais denúncias contra seu tio.
Ignoro, ainda, se o prefeito de Manaus já inaugurou o seu gabinete-ônibus, de onde iria governar a cidade - uma das milhares de promessas feitas. Onde estão as creches que prometeu construir? Pois é, rapaz! Como escrever nessas condições? Sequer posso comentar as fofocas das novelas, porque sem ver televisão não sei se o filho do Tony Ramos encontrou os caminhos da Índia, digo, do Rio de Janeiro, e se ele vai ou não peitar seu pai. Não vi mais a Juliana Paes dançando samba em Calcutá.
Sem assunto da atualidade, resolvo te contar, leitor (a), uma história, que os Tikuna e os Guarani adoram ouvir. É a história de um gato, barrigudo, bigodudo e careca, que podemos chamar aqui de Belão, porque parece muito com certo deputado.
Pois bem, estava o Belão, morto de fome, se espreguiçando ao sol, coçando a pança, quando passou diante dele um ratinho. Aí, o gato, que via tudo com o rabo do olho, deu um pulo para agarrá-lo. Mas o ratinho, magro e ágil, foi mais rápido. Fugiu, entrando no tronco de uma árvore por um pequeno buraco. O gato Belão, gordão demais para passar por aquela abertura, ficou lá fora, miando, ameaçador: - Miaaaau, miaaauuu! O que ele queria dizer? Em língua gatês, o miado dizia: - Uma hora você vai ter de sair. Aí, eu te pego.
O ratinho não falava gatês, mas tremia de medo, porque sabia que estava em perigo. Pensou: - Só saio daqui, depois que esse gato for embora.
De lá de dentro, não dava pra ver nada. Depois de certo tempo, o rato não ouviu mais os miados: - Será que o gato foi mesmo embora, ou parou de miar só pra me enganar?
Foi aí que ele ouviu latidos de cachorro: - Au-au-au! Então, feliz, o rato raciocinou: - Ôba! Gato tem medo de cachorro, cachorro não come rato, agora eu posso sair.
No que ele saiu, o gato Belão enfiou as unhas em suas carnes. Estraçalhou o ratinho. Depois de comê-lo, enquanto lambia os ossos, comentou em voz alta: - É impressionante! Hoje, quem não for bilíngüe, morre de fome. Ainda bem que eu falo também o cachorrês.

XIVI´I E ANGUJA´I
Depois de ouvir, muitas vezes, essa história, os professores guarani decidiram contá-la, usando o teatro de bonecos. No entanto, apresentaram a versão deles, que tem um final diferente e revela muito bem a alma guarani.
Nessa versão, o gatinho – que em língua guarani é xivi´i – continua barrigudo e bigodudo, com cara de deputado. Ele persegue o ratinho – anguja´i – que se esconde no buraco da árvore. Mas acontece que esse ratinho aqui era bilíngüe, entendia o cachorrês. Por isso, quando ouviu os latidos, percebeu que havia algo estranho, um som diferente, carregado, cheio de erres, não era au-au-au, mas aur-aur-aur. Parecia até um turista francês falando português.
Quando ouviu aquele sotaque arretado, o rato bilíngüe pensou: Esse latido é de alguém que não sabe pronunciar direito. O cachorrês não é sua língua materna. É sua segunda língua. Não é o cachorro. É o gato, que está tentando falar cachorrês pra me enganar. Dessa forma, o ratinho descobriu o truque do gato e não caiu na armadilha. Ele se salvou, dizendo lá dentro do buraco: - “É impressionante! Hoje, quem não for bilíngüe, é devorado pelo inimigo”.
Quando perguntamos por que haviam mudado o final da história, um professor guarani respondeu: - Ah, o ratinho é o mais fraco, e numa história guarani a gente não pode deixar o mais fraco sofrer.

MITCHI E TCHICÜRE
Os Tikuna ouviram a história. Cachorro, em língua tikuna, é ´airu´. Gato é ´mitchi´. Existem vários nomes para rato na língua deles. O rato de peito branco é chamado de ´uca´ e o rato comum, essa ratazana de esgoto, é conhecido como ´tchicüre´.
Pensei em contar aqui, na aldeia Tikuna, a versão meio pornô dessa história inventada pelos guarani. Nela, o rato não é rato, é rata. Não contei, porque havia senhoras no recinto. Por isso, não posso contá-la aqui também, porque algumas crianças freqüentam essa página do Diário do Amazonas. Fica pra próxima vez.



Médicos, pajés e rezadeiras
O que aconteceu, afinal, com LB, a menina Tukano de 12 anos, que foi picada por uma cobra jararaca, quando pescava, no início do mês, em Pari Cachoeira? De lá até Manaus são mais de 1.100 km, e sete dias de barco. Dois dias depois, ela já chegou a São Gabriel da Cachoeira, com sinais de necrose.
Dali foi, então, transferida para Manaus, criando uma polêmica, apresentada pela TV Globo, no Jornal Nacional. É que os índios recusaram a amputação do pé esquerdo dela, indicada pelos médicos, e insistiram em celebrar um ritual de pajelança dentro do Hospital João Lúcio, na Zona Leste de Manaus, onde estava internada desde o dia 14.
O Hospital, no entanto, rejeitou a pajelança e as restrições alimentares sugeridas pelos índios, bem como a proibição de acesso ao local de gestantes e mulheres no período menstrual. O diretor do Hospital, Joaquim Alves, justificou: "Eles não podem fazer os rituais com tambores, o som da cerimônia incomoda os outros pacientes. Além disso, não temos conhecimento da eficácia no resultado da aplicação conjunta das ervas com os medicamentos convencionais".
Descontente, o tio da menina, João Paulo Barreto, invocou o artigo 213 da Constituição, que reconhece aos índios seus costumes, línguas, crenças e tradições. O Ministério Público recomendou, então, um tratamento combinado da medicina indígena com os métodos convencionais. A menina foi transferida para a Unidade de Apoio Clínico Hospitalar Indígena (Uachi), e daí para o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), onde foi reservado um espaço para a realização dos rituais de cura. Agora, ela está sendo tratada por pajés e por um cirurgião.

As ervas dos bárbaros
Esse não é um caso isolado. No Alto Rio Negro, acidentes com mordidas de cobras ocorrem com muita freqüência e matam mais do que no resto do Brasil. Os especialistas explicam que o veneno da jararaca da região é trinta vezes mais potente do que das cobras de São Paulo, limitando assim a eficácia do soro genérico produzido pelo Ministério da Saúde. Em 2006, uma equipe do Instituto Butantã planejou coletar serpentes no Rio Negro, mas os resultados ainda não apareceram.
Nas comunidades indígenas da região, quando alguém é mordido por cobra, procura logo o pajé. Ele, muitas vezes, resolve, com os conhecimentos acumulados nos últimos dois milênios. Mas o pajé, como o médico, não faz milagres. Nesse caso, a família procura o pólo-base do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) que, dependendo da gravidade, transfere o paciente a São Gabriel para receber o soro antiofídico, segundo Andreza Andrade, do Instituto Socioambiental (ISA).
Lá, as equipes de saúde costumam realizar um tratamento em conjunto com o pajé, unindo a medicina tradicional indígena com a medicina ocidental. O médico gaúcho Oscar Soares, que vem atuando há vários anos no pólo de Iauareté, na fronteira com a Colômbia, testemunha que “essa nova concepção de tratamento tem ajudado muito na recuperação dos pacientes”.
Os índios do Rio Negro estão convencidos de que a amputação do membro afetado, tal como indicado pelos médicos, não é cura. Por isso, demonstram resistência em se submeter a esse procedimento. Foi o caso do índio Fernando José Baniwa, de 62 anos, cuja amputação da perna estava recomendada, programada e marcada. A família lutou bastante, conseguiu retirá-lo do hospital e levá-lo de volta à comunidade, onde foi tratado. Depois de um ano, ficou bonzinho e voltou a andar, segundo Andreza Andrade.
O médico holandês Guillerme Piso (1611-1678), que morou oito anos em Pernambuco como médico de Maurício de Nassau, confirma a eficácia da medicina indígena. No livro sobre a história natural e médica do Brasil, ele repete o pensamento dominante de que os índios eram “povos ignorantes, bárbaros, atrasados e de nenhumas letras”, mas registra, maravilhado, como os pajés evitaram que muito soldado virasse saci.
“Lembro-me que os bárbaros, nos acampamentos, por meio de gomas frescas, sucos e bálsamos, livraram do ferro e do fogo e restabeleceram com êxito os membros dos soldados feridos por balas de espingardas, que estavam para ser amputados por cirurgiões europeus, lusitanos e batavos... Na preparação, prescindem de laboratórios e, ademais, sempre tem à mão sucos verdes e frescos de ervas...”.

Soro, raízes, rezas
A medicina ocidental realizou conquistas admiráveis, mas se não reconhecer outras formas de conhecimento, vai continuar decepando pernas e braços que poderiam ser, algumas vezes, preservados. A boçalidade ocidental confunde os saberes indígenas com crença absurda, superstição, folclore, exotismo. “Quem não sabe, não vê”, critica o psicólogo uruguaio Nestor Ganduglia, para quem é preciso escutar os índios e seus saberes, abandonando a posição arrogante da cultura ocidental ensinada em nossas escolas, que consideram o saber científico como o ‘único universalmente válido’.
Nesses tempos bicudos de crise identitária, o conhecimento acadêmico ocidental se mostrou incapaz de resolver, sozinho, as necessidades sociais básicas. Por isso – escreve Ganduglia – a busca de novas sínteses entre saberes é uma necessidade urgente. Não se trata, portanto, de ‘estudar a natureza do homem primitivo’, mas de poder reconhecer, a partir de uma postura aberta de aprendizagem, o saber quase clandestinamente oculto nas entrelinhas dos ritos de pajelança e das narrativas populares.
Essa idéia é reforçada pelo antropólogo Roberto da Mata: “Nós estudamos os índios, não porque eles estão desaparecendo ou só para denunciarmos as injustiças que sofrem, mas para realmente aprendermos com eles as lições que não sabemos”. Tal aprendizagem, porém, só é possível, se nos convencemos da nossa ignorância. “Nosso estudo das sociedades tribais deve estar fundado na troca igualitária de experiências humanas e no fato de que podemos realmente aprender a nos civilizar com elas”.
No momento em que escrevo, ignoro o estado de saúde da menina Tukano. De qualquer forma, o tratamento baseado no diálogo respeitoso entre médico e pajé tem dados frutos. No sertão cearense, os índices de mortalidade infantil caíram depois que médicos, rezadeiras e raizeiros trabalharam juntos no programa “Soro, Raízes e Rezas”. Dependendo do caso, ou as 188 rezadeiras encaminhavam o paciente para o posto de saúde, ou o médico receitava uma visita a elas. De 36 óbitos para cada 1.000 nascidos vivos, em 1998, registrou-se apenas 13 em 2003. Vidas podem ser salvas se a gente aprende o caminho da tolerância. Parece tão evidente, não é não?

P.S. – Morreu o líder indígena do Vale do Javari, Edílson Kanamari, conhecido nacionalmente. De hepatite. Perguntem a FUNASA – órgão encarregado da saúde indígena - quem é o responsável pela morte.
1. Jornal Nacional – 20/01/2009 - Índia mordida por cobra divide médicos e pajés
2. Andreza Andrade. Mordida de cobra mata muito mais no Rio Negro do que no Restante do Brasil. Instituto Sociambiental. ISA. 26/06/2006. In Povos Indígenas no Brasil 2001/2005., pp.272-273
3. Guilherme Piso. História Natural e Médica da Índia Ocidental Coleção de Obras Raras. Rio de Janeiro. Instituto Nacional do Livro. 1957. Traduzida e anotada por Mário Lôbo Leal
4. Soro, raízes e rezas para crianças reduzem mortalidade no Ceará. Gazeta Mercantil. São Paulo, 25/11/2003

Postado em 26/01/2009 ás 22:50

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