Brasília - Sexta , 24 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de Emir Sader
Cultura: mercadoria ou bem comum?
Todo o programa neoliberal, assim como o diagnóstico que levou a ele, pode ser sintetizado em um ponto: desregulamentar. O diagnóstico de por que a economia tinha parado de crescer, depois do ciclo mais longo de expansão capitalista no segundo pos-guerra, se centrou no suposto excesso de regulamentação. O capital se sentiria inibido para investir, por estar cerceado por excesso de normas, leis, políticas, que bloqueariam a “livre circulação do capital”.

Chegado ao governo, o neoliberalismo se pôs a privatizar patrimônio público, a diminuir o tamanho do Estado, a abrir as economias nacionais ao mercado internacional, a “flexibilizar” as relações de trabalho, entre tantas outras medidas padrão codificadas no chamado Consenso de Washington e colocadas em prática por governos às vezes com origens ideológicas distintas, mas todos rendidos ao “pensamento único”. Todas elas são formas de desregulamentação, de retiradas de supostos obstáculos à circulação do capital.

Quando se privatizam empresas, se está levantando obstáculos para que o capital privado se aproprie delas, se está desregulamentando o mercado de propriedade de empresas. Quando se aceita a não obediência a normas básicas da legislação do trabalho para contratar trabalhadores, se está desregulamentando o mercado de trabalho. Assim para todas as medidas do receituário neoliberal.

Promoveu-se assim, rapidamente, o maior processo de concentração de riqueza que tínhamos conhecido, tanto a nível nacional, quanto mundial. Sem proteções dos Estados, os mais frágeis, os mais pobres – a grande maioria de cada sociedade, em especial as periféricas, - se viram indefesos diante das ofensivas do capital e dos Estados centrais do capitalismo.

Direitos, como aqueles à educação e à saúde, foram deixando de ser direitos para se transformar em mercadorias, compráveis no mercado. Quem tem mais recursos, compra mais e melhor, em detrimento de quem não tem. Riquezas naturais, como a água passaram a ser mercadoras, compradas e vendidas.

O Estado, principalmente nas suas funções reguladoras – de afirmação dos direitos contra a voracidade do capital – passou a ser vítima privilegiada dos ataques neoliberais, pregando-se o “Estado mínimo” e a primazia do mercado, isto é, da concorrência feroz, em que os mais fortes e mais ricos ganham sempre.

Até a cultura foi vítima de um grande embate, para definir se se trata de uma mercadoria mais ou de um bem comum. Do ponto de vista institucional o debate se deu para definir se a cultura deveria ser objeto da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, portanto, uma mercadoria a mais, ou no âmbito da Unesco, considerada como patrimônio da humanidade, como bem comum, com as devidas proteções. Terminou triunfando esta segunda versão – apesar da brutal oposição e pressão dos EUA, que chegaram a se retirar da Unesco.

Foi um momento muito importante de resistência ao neoliberalismo, que queria reduzir também a capacidade de cada povo, de cada nação, de cada setor da sociedade, de afirmar suas identidades específicas, dissolvidas pela globalização. Queriam desregulamentar também a cultura, deixá-la ao sabor das relações de mercado, sem proteção de regulações estatais.

Mas o embate não terminou por aí, porque o poder avassalador dos capitais privados, nacionais e internacionais, é um fluxo permanente, cotidiano, buscando expandir seu poder de mercantilização. As TVs públicas, por exemplo, se debilitam no seu papel diferenciado dos mecanismos de mercado que regem as TVs privadas, enfraquecidas pela falta de financiamento, apelam ao mercado e induzem seus mecanismos – como aconteceu tristemente com a TV Cultura de São Paulo.

Programas como o de Pontos de Cultura, do MINC, surgiram na contramão dessa lógica homogeneizadora da globalização na esfera cultural, buscando incentivar e proteger todas as formas de diversidade de cultural, de afirmação da heterogeneidade das identidades de setores sociais, étnicos, regionais, diferenciados.

Muitos outros debates atuais hoje no Brasil – o dos Commons, da propriedade intelectual, dos direitos de autor – são também objeto de duas concepções diferenciadas, uma regulamentadora – anti-neoiberal – outra desregulamentadora, neoliberal, mercantilizadora. No marco mais geral do embate entre neoliberalismo e posneoliberalismo, é que a natureza das posições fica mais clara. Por um lado, as normas protetoras que consideram a cultura como um bem comum, de outro, a desregulamentação, que a consideram uma mercadoria como outra qualquer. Do seu desenlace depende a natureza da cultura no Brasil na segunda metade do século XXI.

Postado em 21/05/2011 ás 19:39

[ Imprimir ]

Veja Também
» Lula na Argentina
» Afinal, quem tem medo da democracia no Brasil?
» A direita latino-americana
» O caminho da França, da esquerda à direita
» T – D (Todos menos Dilma)
» Diário do reino da austeridade
» A imprensa brasileira não é democrática
» "Erro" ou manipulação de El País?
» O suicídio da imprensa brasileira
» A Primavera Árabe e suas contradições
» Força e fraqueza do partido da mídia
» "A opção e a diversidade são necessidades da alma"
» A democratização do Estado
» As raízes do golpismo da direita brasileira
» O resgate de São Paulo
» Os tucanos, do começo ao fim
» No mundo das ilusões da velha mídia
» Diário de Beirute (2): Líbano, os mal-entendidos
» Os sonhos da oposição
» 11 x 11
» Diário da Bolívia 2012 (1)
» O estado da democracia no Brasil
» A refundação do Mercosul
» O México, entre fraude e fraude
» O Fórum de São Paulo e a esquerda latinoamericana hoje
» A volta do PRI
» América Latina, 50 anos depois
» Onde há democracia no mundo?
» O dedo do Lula
» De ex a anti-esquerdistas
» Verdugos e vítimas
» Que morra de sede o capital especulativo
» O trabalho, a atividade mais transversal da humanidade
» O Uruguai, por Eduardo Galeano
» Fim das utopias e ditadura dos mercados?
» O golpe de 2002 na Venezuela: a praia Giron da mídia golpista
» O golpe, a ditadura e a direita brasileira
» A janela e o espelho
» O discurso da direita
» A lógica da loucura
» Democratização ou mercantilização da política
» A Cuba que Dilma visita
» O lugar do Estado para a direita e a esquerda
» África, um continente sem história?
» As palavras e as coisas: sobre as ditaduras
» América Latina 2011
» Direitos, humanos
» A primavera não chegou ao Marrocos
» A cara da dignidade
» Crônica de uma debacle anunciada
» A natureza da crise atual
» Capitalismo ou democracia
» A construção de hegemonias alternativas
» A urgência da democratização da mídia
» Jorge de todos os Brasis
» Reforma política democrática, só com Constituinte
» A primavera dos direitos humanos
» Minhas lembranças do 11 de setembro
» E agora, PT?
» De céticos a cínicos
» Diário do novo Peru (1): Antecedentes do novo Peru
» A orfandade das derrotas
» Agenda para um espanhol indignado
» Os Otavinhos
» Os eixos da política externa brasileira
» O PRI prepara sua volta ao governo do México
» A rebeldia dos jovens que nos faz tanta falta
» Balanço do governo Lula: Neoliberalismo versus Pós-Neoliberalismo
» Lições da crise
» A crise e as saídas da crise
» A morte de Allende
» Cultura: mercadoria ou bem comum?
» A discriminação no Brasil é étnica, social e regional
» Groucho Marx e os Direitos de Autor
» Elogio dos trabalhadores
» Lula, Dilma e o futuro do Brasil
» Os brasileirinhos
» As razões do golpe de 64
» Os 35 anos do golpe argentino
» O imperialismo, fase atual do capitalismo
» Quem tem medo da democracia no Brasil?
» Perseguido, por boas razões
» Comunicado - Sobre a Casa de Rui Barbosa
» Lula, Dilma e a velha mídia
» Mudou Lula ou mudou o FSM?
» Nova oportunidade para o FSM
» A crise da hegemonia ocidental no Oriente Médio
» Os prostíbulos do capitalismo
» Capitalismo: o que é isso?
» IPEA faz a radiografia do Brasil
» Aula de imperialismo contemporâneo
» A via brasileira
» O sistema tributário brasileiro é regressivo
» Colônia, Monarquia, República: pactos de elite na história brasileira
» Civilização ou barbárie
» FHC ganha o prêmio Roberto Campos (Bob Fields): o entreguista do ano
» A campanha, na reta final
» Mineiros chilenos, vítimas da flexibilização trabalhista
» Lula+Dilma x FHC+Serra
» A velha imprensa
» As verdades da crise
» Viva o povo brasileiro!
» Corvos pregam golpe - como sempre
» O que é um tucano?
» Quem compra a Veja
» O escândalo Lula
» Se tudo fosse igual
» A esquerda e o Brasil
» Um Brasil sem analfabetos
» Ficha limpa da ditadura
» O que está em jogo nas eleições de 2010
» Voto: direito ou dever?
» Razão e Paixão
» A prostituição n(d)a imprensa
» Mockus: o pós-uribismo
» Página 12: um grande jornal
» O dilema de Ciro
» Para que o Sul seja o norte do mundo
» Serra é o candidato da direita
» Outra Colômbia, de paz, é possível
» Cambalache? Tudo é igual: Dilma ou Serra?
» O liberalismo, trunfo ideológico da direita
» O passado e o futuro do Brasil
» De Pepe a Dilma
» Que tal o primeiro ano do governo Obama?
» A maior de todas as batalhas
» O Berlusconi chileno
» Política e religião
» Bancos Centrais, independentes do quê?
» Quem tem medo do Lula?
» A década da América Latina
» Brasil 2009-2010
» Uribe, rei da salsa
» O sub-udenismo
» 10 anos de Seattle
» Desafios do pensamento crítico
» Fracassomaníacos
» Quem paga, quem recebe?
» Duas trajetórias distintas
» Adriano, Dunga e Lula
» Argentina contra a privatização do futebol
» Verdes: esquerda ou direita?
» Pochmann, o pensamento que o Brasil precisa
» A crise da mídia e a democracia
» O maior drama humanitário contemporâneo
» Os chacais de guarda
» Chile: as duas avenidas
» Os reconhecimentos a FHC
» Diário da Palestina (1): a resistência cultural
» Entre quatro paredes
» O que quer a oposição?
» A esquerda chega ao governo em El Salvador
» Financeirização e precarização: os males do Brasil são
» O dia em que a PETROBRAS deixou de ser BRASileira
» Futebol não é solidário nem na gripe
» A débâcle da FSP
» Brasil, de Getúlio a Lula
» What about Cuba, Mr. Obama?"
» Quem é democrata no Brasil?
» Crise: oportunidade e disputa hegemônica
» Oposição: neoliberal ou pós-Lula?
» “Todas as vozes, todas” (Mercedes Sosa)
» El Salvador: eleições decisivas
» Obama: chega de listas
» Por que Hugo Chávez ganhou?
» 84% e 5%
» As condições do massacre e como evitá-lo
» Gaza: perguntas e respostas
» Para não sermos cúmplices do novo holocausto
» Cuba, Revolução, 50
» Diário da Nova China: o gato e o rato
» Fala, Lula!
» A crise da extrema esquerda
» Primavera na nova Bolívia
» Uribe ou paz
» O Brazil dos tucano-pefelistas (II)
» A hora do Banco do Sul
» As cassandras neoliberais
» O neoliberalismo acabou?
» A crise do capitalismo e a esquerda
» Desequilíbrios estruturais do capitalismo atual
» O medo à revolução
» A nova utopia brasileira
» A dignidade de Allende
» Turbulências latino-americanas
» Autonomia ou hegemonia?
» Lula e os intelectuais
» Fases da luta anti-neoliberal
» 1808, 1822 e os negros
» Críticas - de direita e de esquerda - ao governo Lula
» O novo Paraguai
[ Ver todas as publicações da coluna ]

 

Buscar Conteúdo
Colunistas

Fatal error: Cannot redeclare foto_existe() (previously declared in /home/patria/public_html/colunaconteudo.php:16) in /home/patria/public_html/lado_colunistas.php on line 13