Cesar Fonseca.
Sebastiao Gomes
A China joga para cima e para baixo o câmbio internacional, graças às reservas em dólares que acumulou na casa dos 3 trilhões de dólares, no tempo da bonança americana, para fixar o poder de mando mundial nas novas relações de troca que transformam Pequim na nova meca do capitalismo global de estado - ou de estado global capitalista? - sob partido único ditatorial, que se impõe sobre o capitalismo democrático neoliberal. É o jogo leninista chinês.
A China está estocando, estocando, estocando matérias primas: minérios, petróleo,alimentos. É a fome industrial chinesa. Ela busca garantir seu abastecimento no mundo. Na África e na América do Sul, principalmente. Amplia-se a vontade dos chineses de não apenas lançarem mão das importações. Buscam, também, controle da produção dessas matérias primas. Semana passada, bateu no Palácio do Planalto informação de que grupo empresarial chinês fechou negócio para compra de 250 mil hectares de terras agricultáveis ao longo da fronteira Piaui-Maranhão. Já, já o grande latifúndio maranhense deverá ser comandado não mais pelo cacique Sarney, mas por Wen Jiabao, primeiro ministro da China. Os chineses controlarão Sarney e similares e estenderão, naturalmente, seu poder ao Congresso, onde as forças sarneysistas etc mobilizam a maioria conservadora que vai garantindo a desnacionalização das terras brasileiras para o capital chinês e internacional. No setor de minérios, a mesma coisa. Eles estão se aliando ao maior empresário brasileiro da atualidade, Eike Batista, para entrar na exploração mineral. Não entrariam, também, na Petrobrás? Como as ações da grande estatal são negociadas na bolsa, poderiam, perfeitamente, adquiri-las, e logo , logo abocanharem “O petróleo é nosso”. Getúlio Vargas revira-se em sua tumba, incomodado.
Neo José do Egito
Qual o resultado dessa estratégia comercial e industrial chinesa? Lembram do caso da soja? Os chineses estocaram o produto, esvaziando a praça mundial, valorizando suas cotações, depois colocaram defeito, dizendo que viera no meio das compras a soja transgênica, algo não combinado. Não pagaram o produto. Beiço geral na praça. O preço despencou. Mutatis mutantis, não poderia acontecer, igualmente, em relação às demais matérias primas? Depois de suficientemente estocados, saciada a fome industrial com os dólares desvalorizados acumulados pelos superavits comerciais acumulados no comércio bilateral com os Estados Unidos, não poderiam, também, de repente, pararem, temporiamente, de comprar, como fizeram com a soja, para derrubar os preços?
Evidentemente, se já estiverem estocados, terão suficiente quantidade para suportar por algum tempo. Abalariam os mercados vendendo pelo preço que impuserem. É a velha história de José do Egito. Comprou alimentos e escravizou os concorrentes. Negócio mais velho que Jó. Ou não? Os orientais têm mais de 5.000 anos de história. Malandragem não lhes falta. Cheios de dólares adoentados pelo grande deficit americano candidatos a virar papel podre, se Tio Sam não tiver gás para enxugar o excesso monetário dolarizado global, subindo os juros – como fazia antigamente e não pode fazer mais porque sua dívida está saindo pelo ladrão – , os chineses correm para desovar o estoque de moeda, adquirindo, com esse ativo que desvaloriza , ativos altamente valorizados. Quem tem grana compra barato, especialmente, as mercadorias(matérias primas) das quais depende a manufatura global. Como esta, diante da capacidade de oferta maior, graças ao aumento da produtividade, impulsionada pela ciência e tecnologia colocadas a serviço da produção, tende a ter seus preços desvalorizados perante aquelas, que são limitadas, relativamente, portanto, mais valorizadas, os chineses, ao estocá-las, dão o tom da dominação nas relações de troca. Impondo senhoriagem sobre moedas desvalorizadas e fragilizadas pela crise, como são os casos do dólar e do euro , quanto mais a China acumula matérias primas estratégicas mais terá, claro, poder de troca global. Ou não?
Câmbio imperial chinês
Dispondo, agora, não apenas da vontade de acumular estoques, mas, também, de dominar as fontes de matérias primas, trocando moeda desvalorizada por ativos valorizados, a partir de determinado momento, o poder de troca chinês imporá dominação internacional, fazendo o preço que quiser. Devidamente estocados de petróleo, de minérios, de alimentos, balançariam os chineses o mercado ao seu sabor, subindo ou derrubando preços. Com suas reservas cambiais , eles já estão fazendo isso, de certa maneira. Se jogam dólares na América do Sul, valorizam as moedas sul-americanas. Estas, devidamente, valorizadas compram, por sua vez, manufaturados chineses baratos, fabricados pelas matérias primas que estão estocando a custo baixo. Se seguram o dólar, desvalorizam as moedas da periferia, podendo, assim, comprar barato. O câmbio internacional, dessa forma, está sendo manipulado pela China com o excesso de dólares que acumulou, na ordem de quase 3 trilhões de verdinhas. O jogo cambial chinês com o dólar americano vai sendo exercitado para manter não apenas os Estados Unidos prisioneiros do poder monetário internacional conquistado pela China, mas, também, todos os demais países capitalistas, que passaram a depender da demanda chinesa. Ela pode sustentar ou derrubar o comércio internacional. Não é à toa que resiste a interagir totalmente com a Organização Mundial do Comércio, aceitando suas regras. Em vez de aceitá-las, formalmente, ao contrário, impõe, praticamente, sua vontade.
Fomes inglesa e japonesa
A fome industrial chinesa é mais ou menos semelhante à fome da Inglaterra por algodão, em 1863, e à do Japão por petróleo, em 1973. Em ambos os casos, a capacidade de oferta de matérias primas , algodão e petróleo, havia se tornado insuficiente para atender a capacidade de produção do parque industrial inglês-japonês. No primeiro caso, do algodão, as consequências foram a guerra de Secessão, nos Estados Unidos, e no segundo, o estouro da crise de petróleo, que deu início à derrocada capitalista americana, ampliando os deficits de Tio Sam. Estes cresceriam exponencialmente em forma de moeda escritural – eurodolares, nipodólares, petrodólares – por intermédio das manobras especulativas que passaram a acontecer em cima do endividamento americano. No final dos anos de 1970, os Estados Unidos tiveram que elevar a taxa de juro para enxugar a liquidez internacional, desvincular o dólar do ouro, gerando, como consequencia, escalada monetária especulativa que se prolongaria até setembro de 2009, quando estourou a capacidade americana de puxar a demanda global. Chegara ao limite o poder imperial americano de lançar moeda sem lastro na circulação global, transmutada, especulativamente, em derivativos tóxicos, que intoxicou geral o sistema capitalista. A fragilidade da economia americana, cuja moeda deixa de ter autonomia, já que o poder dela não está nas mãos dos presidentes americanos, mas nas dos comandantes do governo chinês, que a acumularam mediante superavits comerciais, no tempo da bonança, representa e, ao mesmo tempo, sustenta a maior demanda da China por matérias primas. Banca, com ela, sua fome industrial, a ser saciada por intermédio da desova desse estoque monetário, expresso em compra de ativos, especialmente, na América do Sul e da África.Qual o preço desse jogo em termos globais?
Ditadura do partido único
No continente africano, os chineses jogam indústrias extrativas que exportarão matérias primas para China fabricar manufaturas. Em troca, com o aumento da circulação capitalista na África, o excesso de trabalhadores chineses desloca-se para terras africanas. Na América do Sul, idem. As compras de ativos, terras e indústrias extrativas – minério, petróleo e grãos – visam, do mesmo modo, abastecer a fome industrial da nova potência da Ásia. Com suas imensas reservas cambiais em dólar, os chineses estão deixando os americanos na corda bamba, sob freio curto. Podem jogar dólar no mercado, fragilizando Tio Sam, ou podem mantê-lo respirando por aparelhos, enxugando a moeda dele, comprando ativos e matérias primas, estocando, estocando, estocando. A onda chinesa é a nova expressão da dominação internacional em que o capitalismo global passa a ser comandado pela estratégia macroeconômica estatal, sob domínio polítido ditatorial. O futuro da democracia americana – que é modelo para os governos ocidentais – passa a depender do capitalismo de estado autoritário chinês. Este controla, via partido único, a moeda e o crédito, dando ordem de comando monetário global. Segue a recomendação de Lenin, da ditadura do proletariado, para botar ordem na casa capitalista em bancarrota total.
| Postado em 06/09/2010 ás 11:16 |