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Coluna de Emir Sader
O México, entre fraude e fraude
O México contemporâneo nasceu numa fraude eleitoral: o candidato do PRD, Cuahutemoc Cardenas vencia nas apurações em 1988, quando “caiu o sistema”, segundos as autoridades eleitorais. Quando a luz retornou, estava na frente o candidato do PRI, Salinas de Gortari, que pouco depois seria declarado vencedor e novo presidente do México.

A vitória de Salinas não ficou barata para o México. Foi ele o introdutor do modelo neoliberal no México, que desembocou na assinatura do Nafta – o Tratado de Livre Comércio com a América do Norte. As consequências dramáticas levaram a que seu sucessor, Ernesto Zedillo, fosse o último dos presidentes do PRI, desde 1929.

No entanto, foi um simulacro de mudança que substituiu o PRI – o PAN, com Vicente Fox, em 2000 -, que representou o mais típico transformismo: mudar para que nada mude. Nem sequer diminuiu a corrupção, um dos elementos típicos dos governos do PRI.

Na sucessão de Fox, em 2006, seu partido estava enfraquecido e o PRI ainda não havia se recuperado da derrota 6 anos antes. Lopez Obrador, do PRD, era o candidato favorito, mas na contagem dos votos, com evidências de fraude, Felipe Calderon, do PAN, apareceu na frente. As denúncias de fraude levaram à recontagem de apenas uma parte das urnas, que diminuiu a diferença a favor de Calderon a 0,56%, confirmando a fraude.

Para tentar conquistar a legitimidade que não tinha conseguido nas urnas, Calderon desatou a “guerra ao narcotráfico”, mobilizando maciçamente tropas do Exército, o que significou apenas jogar álcool no fogo e fez com que a violência atingisse no México os níveis que havia tido na Colômbia. Isso, mais a deterioração social da população e a continuidade da corrupção, levaram ao fracasso de Calderon e da candidata do PAN à presidência este ano, chegando em terceiro lugar.

Diante desse quadro, o PRI, tendo recuperado a maioria do governo dos estados, buscou aparecer como a mudança frente ao governo de Calderon. O PRD viveu muitos anos de conflitos internos, até que terminou aceitando a candidatura de Lopez Obrador como o candidato único da esquerda.

O candidato do PRI foi Pena Nieto, que foi governador do estado do México, com pinta de galã, casado com atriz de novela, que contou como seu principal apoio a campanha aberta das duas grandes redes que detêm o monopólio dos meios de comunicação. Como denunciou um jornal inglês, houve um acordo formal de apoio econômico de Pina Nieto a esses canais, para que o promovessem e atacassem a imagem de Lopez Obrador. As pesquisas davam grande vantagem para Pena Nieto.

Nas semanas finais da campanha, os estudantes irromperam com grandes manifestações contra Piena Nieto e os meios de comunicação que o patrocinavam abertamente. A vantagem do candidato do PRI foi diminuindo, mesmo com o apoio de Fox, sentindo que seu partido, o PAN, não tinha mais condições e a possibilidade de vitória de Lopez Obrador aumentava.

As bocas de urna deram uma vantagem menos de 10 pontos para Pena Nieto, este imediatamente se proclamou vencedor, recebeu reconhecimentos internacionais e o próprio Caderon o saudou como próximo presidente. Lopez Obrador não aceitou o resultado, invoncado as condições totalmente desiguais de concorrência na mídia, gastos da campanha de Pena Nieto que superaram amplamente os limites permitidos e uma compra maciça de votos – uns 5 milhões – que teriam sido feitas através de um cartão de crédito de um determinado banco, que permitia o consumo em uma rede de lojas.

A diferença final foi de menos de 7%, Lopez Obrador requer a anulação das eleições, mas as possibilidades de que tenha sucesso são pequenas. O resultado do requerimento será dado no começo de setembro. Pena Nieto se comporta como vencedor, acompanhado pela grande maioria da imprensa mexicana, enquanto cada vez mais governos vão reconhecendo a vitória do candidato do PRI.

O que é certo é que o México elege, pela segunda vez consecutiva, um presidente questionado por fraudes eleitorais. Mesmo seus partidários se sentem incomodados, o PRI trata de se distanciar das denúncias ou de desviar as responsabilidades para outros.

O país de maior referência dos EUA no continente revela assim que a ruptura da continuidade do PRI não representou nada de substancial do ponto de vista da transparência do sistema politico. A isso se somam a perspectiva do aumento da corrupção com o PRI hegemônico, assim como grandes dificuldades para deter a expansão da violência vinculada ao narcotráfico.

Os mexicanos se preparam para pelo menos 6 anos mais do PRI, que procurará introduzir os dois turnos nas eleições, o que facilitaria que sua aliança com o PAN garanta sua continuidade no poder, com alternância de forma apenas.

Postado em 15/07/2012 ás 10:53

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