A tendência unilateralista dos últimos oito anos nos EUA, mesmo tendo sido extremada por George W. Bush, começou a nascer com Ronald Reagan, na Guerra Fria. Ao lado de Bush I (o pai), seu vice, ao tomar posse em janeiro de 1981 ele assumiu a hostilidade aberta ao sistema da ONU, como pregava a direita nos templos de reflexão política da Heritage Foundation e American Enterprise Institute (AEI)
Na política continental, por exemplo, foi notória a mudança de rumo da era Reagan-Bush. A defesa ostensiva dos direitos humanos pelo governo Jimmy Carter (1977-81) foi trocada pelo apoio às ditaduras sanguinárias do cone Sul (em especial Argentina e Chile, pois o Brasil divergiu dos EUA a partir de 1975) e a regimes da América Central (Guatemala, El Salvador e Honduras), que ganharam novo alento.
Na ONU, o discurso do governo Reagan - a princípio a cargo de Jeane Kirkpatrick, dos quadros da AEI - passou a acusar a ONU de estar controlada por uma "tirania da maioria" - referência ao Terceiro Mundo. Kirkpatrick até fabricou uma desculpa para o fato de condenar violações de direitos humanos em países hostilizados pelos EUA e não as de outros, sustentados pelo governo americano.
O apoio a ditadores amigos
Os ditadores amigos, dizia ela, eram apenas "autoritários" (tão inofensivos como um Suharto na Indonésia, que chegou ao poder após massacrar mais de 700 mil opositores); os outros, "totalitários" (fossem comunistas, esquerdistas ou apenas céticos sobre as boas intenções de Washington).
A primeira decisão relevante de Reagan na política externa após a posse, como lembrei há dias, foi a demissão sumária do Robert White, embaixador em El Salvador, onde cometera o pecado supremo de condenar atrocidades praticadas pelos militares locais, sustentados com armas e dinheiro dos EUA, e expor esquadrões da morte, apêndice paramilitar do regime.
A definição de para a política externa no continente foi também o aceno para o resto do mundo. E viram mais indícios do rumo unilateral - a saída dos EUA do Tratado do Direito do Mar (Law of the Sea), negociado ao longo de mais de uma década por quatro governos (dois deles republicanos), a saída da UNESCO, e o aviso de que não seria aceita decisão da Corte Internacional de Haia sobre a ação terrorista dos EUA minando portos da Nicarágua
Republicanos contra Clinton
O governo Reagan iniciou ainda os atrasos sistemáticos no pagamento das contribuições à ONU - chantagem destinada a ampliar o controle da organização pelos EUA. A nova postura unilateralista aprofundou-se no governo seguinte, de Bush I - que, no entanto, buscou o respaldo da ONU antes de usar a força para obrigar o Iraque a sair do Kuwait.
O fosso entre os EUA e os próprios aliados da OTAN, diz um estudo, também fora revelador: passou dramaticamente de 13 pontos (em 1980) para 36 (em 1992). Ou seja, além de se distanciar da maioria dos países, os EUA ainda ficaram cada vez mais sem o respaldo dos aliados, o que explica os episódios posteriores nos quais, depois de exercerem o poder de veto contra resoluções no Conselho de Segurança condenando Israel, viam texto idêntico ser aprovado pela maioria esmagadora na Assembléia Geral, contra dois ou três votos (de delegações tão expressivas como as da Micronésia, ilhas Marshall e Palao).
Acuado pela maioria republicana nas duas casas do Congresso, o governo seguinte (de Clinton) não ousou voltar à UNESCO. E depois o segundo Bush, a partir de 2001, levou o unilateralismo ao extremo: ignorar a ONU e a opinião pública mundial, invadindo o Iraque sem sequer esperar o fim do processo de inspeções internacionais de armas, como queriam até aliados tradicionais como França e Alemanha.
Rompendo tradição de 55 anos
Fez diferença ainda a proclamação arrogante da doutrina da guerra preventiva, até então não assumida ostensivamente por nenhum presidente dos EUA. Bush declarou sua doutrina estratégica num discurso sobre política externa em junho de 2002 na Academia de West Point. No mês seguinte o ex-embaixador Richard Holbrooke, ex-chefe da missão na ONU, considerou a nova estratégia um "rompimento radical da tradição bipartidária de 55 anos" na política externa dos EUA.
A mesma doutrina fora repudiada 10 anos antes pelo primeiro presidente Bush, ao ser formulada às escondidas no Pentágono por Paul Wolfowitz - por encomenda do então secretário da Defesa, Dick Cheney. Vazada à imprensa, gerou controvérsia tão grande que o velho Bush mandou Cheney recuar. "É receita literal para uma Pax Americana", horrorizara-se então o senador democrata Joe Biden
Tal falta de sintonia dos neoconservadores (Cheney, Wolfowitz e o resto da turma) com a corrente central, bipartidária, da política externa foi ignorada por Bush II. Nem Reagan fora tão longe. Com o pretexto do 11/9 os "neocons" impuseram a receita, indiferentes ao resto do país e ao mundo. Inventaram ao mesmo tempo a bobagem da "coalition of the willling", para a qual trouxeram… Palau.
| Postado em 21/03/2009 ás 22:55 |