Brasília - Quinta , 20 de Junho de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de José Ribamar Bessa Freire
Adeus a um prefeito singular
Prezado Serafim Corrêa (PSB)

Saudações!
Escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que penso sobre a sua administração nestes últimos quatro anos como prefeito de Manaus, uma cidade que, desde a época em que se chamava Lugar da Barra, foi sistematicamente saqueada e pilhada por seus governantes. Quem diz isso não sou eu. É Bertino de Miranda, autor do livro publicado em 1908: ‘A Cidade de Manáos – Sua história e seus motins políticos’.
O rei de Portugal nomeava bandidos para governar a Capitania do Rio Negro. Um deles, Joaquim Tinoco Valente (1763-1779), “homem pobre, avarento e sem instrução”, meteu-se nas “negociatas mais sórdidas e abjetas”, uma das quais foi roubar as “camisas e meias dos soldados que o Rei manda distribuir todos os anos pelas tropas na América”. Esse é o inspirador, o herói, o modelo do Zé Mello Merenda. Depois dele, José Antônio Évora, membro da Junta Governativa (1786), nomeou o filho Felipe Évora almoxarife do Erário. Dessa forma, comprou fazendas de gado e ficou podre de rico.
Era comum dar trambiques e desfalques. José Joaquim Vitório (1806-1818) entrou pobre no governo e, em doze anos, se tornou dono da “célebre chácara no Tarumã, onde explorava os índios na plantação de café e canela. Um escândalo”. Ele roubou, roubou, mas roubou TANTO que Governador Vitório é, hoje, nome de rua, no centro de Manaus, cidade que reverencia e celebra seus corruptos. Foi substituído por Manoel Joaquim do Paço (1818-1821), o governador depravado, chefe da ‘quadrilha de facínoras’, que extorquia os empresários da construção civil (Taquiprati 10/12/96).
De lá para cá, mudou a forma de escolher os governantes. O rei, agora, é o povo, o eleitor, mantido desinformado. Talvez, por isso, não mudou a natureza dos políticos, que continuam usando os cargos para enriquecer. A maior parte deles só quer mesmo é “se arrumar”. Conspurcaram a política. De uma atividade bela e nobre feita por pessoas que dedicam suas vidas ao bem comum – tal como idealizaram os filósofos gregos – a política passou a ser algo asqueroso, o chiqueiro da sociedade. Com isso, mataram as esperanças de jovens idealistas, que hesitam em se enlamear.

O chiqueiro
Em todo o Brasil, políticos eleitos têm problemas com a Justiça e só conseguem tomar posse graças a advogados bem pagos, competentes e inescrupulosos, que contam com a cumplicidade de um Judiciário muitas vezes venal. O currículo deles é folha corrida da policia, cheia de antecedentes criminais. Exagero? De uma lista de 38 vereadores de Manaus, me diga, honestamente, quantos demonstram preocupação com o bem comum, a justiça, o bom governo, a coisa pública? Quatro, três, dois? Pobre Manaus!
Em 2004, Serafim derrotou os velhos esquemas de poder enraizados na sociedade amazonense. Elegeu-se prefeito de Manaus, numa coligação pela mudança social. O que fez? Qual o balanço de sua gestão? A oposição diz que a cidade está esburacada, que a água não chega a vários bairros, que foi um erro nomear seu filho Marcelo Corrêa secretário de articulação política, que Serafim foi um prefeito singular: construiu apenas uma creche, um viaduto, uma maternidade, um centro de educação especial e reformou um cemitério. Tudo no singular.
Numa democracia, esse é o papel da oposição: criticar. Não moro em Manaus, não contei os buracos nas ruas. Aqui de longe não posso ver a árvore, é verdade, mas vejo o bosque, a floresta, que quem está perto não enxerga. Assim, distanciado, me parece que sua singularidade foi outra. Sabe qual foi? Em vez de meter o pé-de-cabra nos cofres públicos para enriquecer, ele tentou promover o bem comum, com erros e acertos, divorciando a política da bandidagem. Isso, no Amazonas, é singular.
O bem comum consiste na defesa dos direitos e deveres do cidadão, sobretudo os mais frágeis, os lascados, os humilhados, os excluídos dos serviços de educação e saúde. Em quatro anos, Manaus se tornou a terceira cidade brasileira em número de alunos na rede municipal de ensino, perdendo apenas para o Rio e São Paulo. São 247 mil crianças, com aulas dadas por mestres valorizados. O professor de 20 horas, nível 1, ganhava R$ 509,00, no início da gestão. Hoje, ganha R$1.095,00, um aumento de 115%, numa inflação acumulada no período de 26,7.

Fala aos moços
E daí, Serafim? Qualquer prefeito pode construir, reformar, ampliar e climatizar as escolas municipais, fornecer merenda, uniforme e kit escolar com uma original borracha socialista, como foi feito (Taquiprati, 02/04/06). Sua gestão escolheu diretores das escolas com base no mérito e não no apadrinhamento de edis trambiqueiros, olhou para os índios urbanos, garantiu um Plano de Cargos para a área da saúde, reformou 158 casinhas do médico da família, implantou o remédio fácil, criou um fundo de previdência para funcionários. E daí? Nada disso teria valor, sem transparência.
Essa foi sua grande singularidade. Todas as contas da Prefeitura estão na internet. È possível saber o credor e o valor recebido, a arrecadação de tributos, fluxo de caixa, pagamentos. A Prefeitura de Manaus, uma das primeiras do Brasil que implantou este serviço, emite nota fiscal eletrônica, criou comissões de licitações, com realização de pregão – um leilão ao contrário - o que gerou uma economia significativa para os cofres públicos. A transparência do pregão eletrônico fez com que empresas de outros estados passassem a disputar a licitação e a prestar serviços para a prefeitura.
O Governador Vitório acharia que só um ‘otário’ abre o jogo assim e sai do governo com os mesmos bens com os quais entrou, conforme mostra a declaração de bens publicada no Diário Oficial do Município (23/12) de Serafim, um prefeito realmente singular, pois provou que é possível viver no chiqueiro sem se emporcalhar. Ensinou que se pode perder uma eleição com elegância, serenidade e sabedoria. Quem sabe, isso não estimula os jovens bem intencionados a entrarem na política?
Na sua ‘Fala aos moços’, Darcy Ribeiro diz: “Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas”. Suspeito que os eleitores de Serafim compartilham esse sentimento, sabendo que a luta continua. Ele, que agora conhece melhor a máquina, tem o dever de nos ajudar a defender essas conquistas da sociedade amazonense contra sua raiz histórica apodrecida.

P.S. 1 – A coluna criticou aqui a gestão Serafim, sobretudo na questão ambiental, onde faltou coragem para defender os fragmentos de floresta na cidade. Se ele fosse reeleito, as criticas continuariam, com gozação sobre a inauguração do cemitério no último dia do ano. Esperamos sua volta ao poder para cobrar dele umas boas chineladas na bunda do Marcelo, cuja eleição para deputado federal, na forma como foi feita, contribuiu para selar a derrota do pai na prefeitura.

P.S. 2 - Artigo similar – Os dois filhos de arigós - reconhecendo a contribuição de Arthur Neto e Felix Valois para a vida política do Amazonas foi publicado em 29/12/1992 (www.taquiprati.com.br).

Postado em 05/01/2009 ás 10:55

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