O terrorismo do 11 setembro não criou um momento de glória apenas para Osama Bin Laden e sua al-Qaeda. Permitiu ainda à mídia, naqueles meses sombrios entre 2001 e 2003, fabricar uma celebridade, elevando-a ao status de Madonna ou, quem sabe, O. J. Simpson. Fui testemunha da façanha, ao ver Donald Rumsfeld, secretário da Defesa dos EUA, passar a ser reverenciado como os astros de rock e do futebol.
Nunca o vi cantar e requebrar na TV como Elvis Presley, mas o sucesso dele com o pessoal da mídia era inacreditável. Tornou-se atração diária à tarde nas redes "all news", em confraternização promíscua com jornalistas de todos os veículos (entre eles os dos jornais mais influentes) na sala de imprensa do Pentágono. No espetáculo deprimente, jornalistas gargalhavam com ele, para vergonha da profissão.
Eu me lembrei disso tudo no início do ano passado, quando Rumsfeld abandonou o governo quase escorraçado, como antes seu ex-adjunto Paul Wolfowitz, rejeitado logo depois no Banco Mundial. E lembrei de novo agora, quando o nome dele voltou ao destaque - desta vez como o principal entre os acusados de crimes como abusos, tortura e mortes em Guantánamo e demais prisões secretas dos EUA pelo mundo.
Quem pagará por estes crimes?
As acusações criminais, em tom vigoroso, estão no relatório bipartidário elaborado pela comissão dos Serviços Armados do Senado americano e divulgado há uma semana. Junto com Rumsfeld podem ser acusados ainda seu assessor jurídico William Haynes; o ex-assessor do presidente Bush na Casa Branca e ex-Procurador Geral Alberto Gonzales; e o ex-chefe de gabinete do vice Dick Cheney, David Addington.
O "New York Times" acordou, com alguns dias de atraso, para a relevância do relatório do Senado. Lembrou como a ação desses personagens conspícuos "levaram diretamente" ao que aconteceu em Abu Ghrabi, no Afeganistão, na baía cubana de Guantánamo (em território sob ocupação militar imoral dos EUA há mais de um século) e em outras prisões secretas da CIA, muitas das quais permanecem um mistério.
Claro que todo mundo sabe que os responsáveis maiores são o próprio presidente George W. Bush e seu vice Dick Cheney, que antes de violarem a Carta da ONU e lançarem a agressão ao Iraque, também já tinham encomendado à CIA as provas falsas sobre armas de destruição em massa (ADM). Rumsfeld e o resto da turma foram os que, para atendê-los, atolaram a mão na lama, fizeram o serviço sujo.
O relatório revelado foi distribuído tanto pelo presidente da comissão, o senador democrata Carl Levin, como pelo republicano de maior hierarquia, o ex-candidato presidencial John McCain. Resultou do estudo mais profundo feito até hoje no Congresso sobre as origens dos abusos sofridos por prisioneiros sob custódia de autoridades dos EUA.
Aprovados na alta hierarquia
O documento rejeitou explicitamente a alegação do governo Bush de que os métodos de interrogatório usados ajudaram a evitar que o país voltasse a ser atacado por terroristas. Rejeitou também as alegações anteriores de Rumsfeld e outros, segundo as quais as políticas do Pentágono nada tiveram a ver com os abusos praticados contra os presos de Abu Ghrabi e em outros casos de torturas.
As autoridades americanas sustentavam, desde o escândalo de Abu Ghrabi, que tudo fora provocado por uns poucos soldados fora de controle, agindo por conta própria. O relatório refuta a desculpa esfarrapada. Deixa claro que aqueles métodos de interrogatório foram aprovados pelo próprio secretário Rumsfeld e outras altas autoridades do departamento, a pretexto de que "pressões físicas e degradação eram apropriadas".
Como destacou o editorial do "Times" no dia 18, aquelas autoridades "encarregadas de defender a Constituição e a postura da América no mundo, introduziram metodicamente práticas de interrogatório baseadas em torturas ilegais a que agentes chineses recorriam na guerra da Coréia". Até o governo Bush, a única utilização de tal conhecimento nos EUA era para treinar soldados a resistirem no caso de serem capturados por inimigos sem princípios.
A comissão constatou que à época do escândalo de Abu Ghraib, Rumsfeld tinha revogado uma aprovação que expedira para o uso das técnicas mais duras. Autorizara tais métodos em dezembro de 2002, voltando atrás depois. Segundo o relatório, os excessos, inclusive posições extremas e nudez forçada, já tinham sido disseminados em todo o sistema de detenção militar, "prejudicando nossa capacidade de coletar informações confiáveis de inteligência, capazes de salvar vidas. Fortaleciam a mão do inimigo e comprometiam nossa autoridade moral".
O zelo e dedicação aos chefes
A maioria dos americanos, segundo o "Times", sabia há muito tempo que os horrores de Abu Ghrabi não eram obra de uns poucos sociopatas de hierarquia inferior. Todos, à exceção dos mais obcecados na dedicação ao presidente Bush, reconheciam haver uma cadeia de decisões inescrupulosas que levaram aos abusos, às torturas e às morte em prisões dirigidas pelos serviços militares e de inteligência dos EUA.
O excesso de zelo de gente que servia a Bush (como Gonzales, seu consultor no governo do Texas e na Casa Branca, depois promovido a Procurador Geral e forçado a renunciar) e a Cheney (como Addington, que fazia pareceres trabalhosos para dar fundamento jurídico às obsessões do vice) produzia documentos jurídicamente e moralmente reprováveis na ânsia de justificar as ações desejadas pelos chefes.
Foi o caso da Ordem Presidencial (equivalente a decreto) estabelecendo que as convenções de Genebra não se aplicam a presos da chamada "guerra ao terror" - a primeira vez que um país democrático reinterpretou unilateralmente as convenções. Coisas assim golpearam a imagem dos EUA no mundo. Guantánamo e Abu Ghrabi, segundo um ex-advogado da Marinha, estão hoje entre as causas de mortes de militares do país.
O "Times" acha compreensível a ansiedade dos americanos para esquecer logo essa questão sombria. "Mas seria irresponsável para o país se o novo governo ignorar o que ocorreu - e pode ainda estar acontecendo em prisões secretas da CIA", disse o editorial, que defendeu ao mesmo tempo a nomeação de um promotor para fazer a acusação às altas autoridades do Pentágono e demais envolvidos no planejamento dos abusos.
| Postado em 23/12/2008 ás 10:26 |