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Coluna de Mario Augusto Jakobskind
Getúlio Vargas: 55 anos depois
No armazém da memória volto a 1954. No dia trágico de 24 de agosto. Lá pelas 8 horas da manhã, uma família reunida no café da manhã e, como sempre, a rádio Nacional ligada à espera do Repórter Esso, na voz do Herón Dominguez. De repente, a família pára a conversa matinal para ouvir uma edição extra que anunciava o suicídio do Presidente Getúlio Vargas. No posto quatro e meio de Copacabana, os lacerdistas, as mal amadas preparavam a festa deles, aguardando a qualquer momento a renúncia do dirigente trabalhista.
Pouco tempo depois de a primeira informação ser divulgada, era lida a Carta-Testamento, um documento que entrou para a história. Na rua, as pessoas caminhavam atônitas. As aulas nos colégios foram suspensas. As donas de casa corriam para os armazéns, ainda não era tempo de supermercados, para estocar alimentos prevenindo-se para o agravamento da situação. Os jornais matutinos, das mais variadas tendências, com raras exceções, exigiam a saída do homem do Catete. Estavam juntos o de extrema direita, Tribuna da Imprensa, então de propriedade de Carlos Lacerda, e a publicação do Partido Comunista do Brasil (mais tarde, brasileiro), Imprensa Popular, este último que o menino ia às vezes na banca comprar para o pai ler.
Para uma criança de 8 anos era difícil entender a crise, a não ser uma nutrida simpatia pelo Presidente que acabava de morrer, porque tempos atrás tinha recebido o aceno de mão, nas proximidades do Hotel Copacabana Palace, depois que gritou o nome de Getúlio para saudá-lo.
Com o passar dos anos, o menino de 8 anos começou a entender o que levara Getúlio Vargas, a quem lembrava não só pelo aceno de mão, como pela música de Carnaval “Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar...”, cantado por Nuno Roland,um artista do cast da rádio Nacional.
Já adolescente, o menino passou a se interessar por política e tinha como parâmetro ficar ao lado de quem era contra o corvo da rua do Lavradio, o político Carlos Lacerda. Assim foi em 1958, quando ajudava a distribuir santinhos do candidato a senador pelo PTB, nada mais nada menos que o filho de Getúlio Vargas, de nome Lutero, que não conseguiu se eleger, sendo derrotado por Afonso Arinos de Melo Franco, então aliado do corvo e que na época da crise de agosto de 1954 foi um dos parlamentares que fazia discursos mais radicais contra o presidente, mas que posteriormente se arrependeu, reconhecendo o erro.

Nacionalismo e estatais promissoras
Hoje, 55 anos depois, Getúlio Vargas continua presente na história brasileira, apesar de um presidente ter tentado acabar com os resquícios da sua Era, ou seja, o nacionalismo que resultou em promissoras estatais e mesmo alguns avanços na legislação trabalhista. E isso apesar de anos e anos de discursos moralistas que iludiam setores da classe média carioca, mas que de fato escondiam a verdadeira estratégia de entregar as riquezas do país a grupos internacionais. Era tempo de hegemonia da União Democrática Nacional no Rio de Janeiro, então capital federal, um dos partidos responsáveis pelo golpe de abril de 1964 que levou o Brasil a uma longa noite escura, que a rigor deixou cicatrizes até os dias atuais.
Em todos estes anos, os livros de história e o mundo acadêmico de um modo geral, sempre com honrosas exceções, reproduziram estereótipos que tinham por objetivo varrer da história a figura de Vargas e o ideário nacionalista que sempre o acompanhou. Mas, depois de muitos anos, uma releitura do período Vargas foi feita e está em pleno desenvolvimento. Nesse aspecto, merece destaque a “Era Vargas”, uma trilogia escrita pelo jornalista José Augusto Ribeiro sobre o estadista brasileiro. Há no trabalho muita informação, provavelmente desconhecida pelas novas gerações e até mesmo pelos mais velhos que viveram os anos Vargas.
Getúlio Vargas, mesmo não sendo de esquerda, teve um destacado posicionamento antiimperialista, como demonstra a sua Carta-testamento de 24 da agosto de 1954. Não foi entendido por setores da esquerda dogmática brasileira, que, como já foi dito, se igualou nas críticas à direita entreguista. Mas no exterior, ao contrário, um grupo de jovens de uma ilha caribenha que estava fazendo história e lutava contra uma ditadura captava a mensagem antiimperialista da carta testamento.

Jovens revolucionários e a Carta Testamento
Nos anos 50, segundo resgate histórico feito pelo pesquisador brasileiro João dos Santos Filho em documentos encontrados na Universidade da Havana, integrantes de um movimento político que lutavam contra um tirano de nome Fulgêncio Batista, conseqüentemente contra os apoiadores da ditadura, os Estados Unidos, esmiuçavam a Carta Testamento. Eram os revolucionários do Movimento 26 de Julho, integrado por jovens liderados por Fidel Castro, consideravam a Carta Testamento de Getúlio Vargas leitura obrigatória por entenderem que se tratava de uma importante peça de caráter antiimperialista.
Os jovens tiveram acesso ao documento através de exilados cubanos, organizados no Rio de Janeiro no Comitê de Exilados Cubanos. Eram 16 ao todo. Muito atuantes chegaram até conseguir o apoio de parlamentares brasileiros nacionalistas como Neiva Moreira e Romeu Franco Vergal, que em 31 de dezembro de 1958, portanto, um ano antes do triunfo da Revolução cubana, aprovaram moção, pedindo que o governo do então presidente Juscelino Kubitschek rompesse relações diplomáticas com Cuba.
(ver reflexão Uma leitura obrigatório de Fidel Castro no livro A América que não está na mídia – II Volume).

Ideário da TV Pública
São inúmeras as conquistas do Brasil vinculadas a Vargas: da Petrobras, as bases programáticas da Eletrobrás (consolidada pelo seu herdeiro político, João Goulart), a valorização do funcionalismo público, o fortalecimento do Estado e o esboço do ideário de uma TV Pública. No caso da TV Pública, Getúlio tinha em mente a criação de um canal do Estado brasileiro. Na época não se falava em canal público, mas a idéia estava presente. Não conseguiu levar o projeto adiante porque a crise de agosto não permitiu, sendo retomado pelo Presidente Juscelino Kubitschek com a criação da TV Nacional.
Mais recentemente, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta ao projeto com a criação da EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Da mesma forma que Vargas enfrentava as pressões da mídia hegemônica, porque tinha um jornal ao seu lado, a Última Hora, agora esta mesma mídia, como a Folha de S. Paulo, investe contra a TV Brasil, o espaço midiático que faz parte da EBC, com argumentos que não resistem a menor análise, mas que em essência se aproximam dos textos contra Getúlio.
Na época de Vargas foi criada a emissora do trabalhador, a rádio Mauá, que merece um estudo mais aprofundado do que significou para o Brasil aquele importante espaço radiofônico. A Mauá acabou sendo fechada pelos golpistas de 64, velhos conspiradores que nunca se conformaram com a eleição de Vargas em 1950. É importante que hoje se conheça essa história, sobretudo quando Lula concede licença para que sindicatos do ABC tenham garantido espaços eletrônicos de televisão e rádio.
Quando hoje o Mercosul se tornou uma realidade e o governo Lula dá passos decisivos pela integração sul-americana com a criação da Unasur (União das Nações Sul-Americanas), vale lembrar alguns fatos relacionados com a política externa da Era Vargas, como o protagonizado por um dos mais radicais
representantes do conservadorismo do início dos anos 50 investindo furiosamente contra o Presidente, denunciando nas páginas de O Globo o pacto ABC (Argentina, Brasil e Chile). Nome: João Neves da Fontoura, um aliado que rompeu com Vargas por causa das posições nacionalistas do presidente, e que veio a se tornar colunista do jornal de Roberto Marinho, defendendo até o fim de sua vida posições retrógradas e antinacionais.

Não a um pedido de tropas para uma guerra
Também naqueles anos, o conservadorismo, como hoje, que defendia o atrelamento do Brasil aos interesses dos Estados Unidos, pressionava o governo Vargas para mandar tropas à guerra da Coréia, o que foi rejeitado solenemente pelo presidente, para desespero dos oposicionistas que nunca esconderam o desejo de derrubar o
presidente constitucional. Ficou para a história inclusive um pronunciamento do maior opositor de Vargas, o jornalista Carlos Lacerda: “candidato, vamos combater a pretensão de Getúlio de se eleger presidente, se for eleito nos mobilzaremos para que ele não tome posse, se tomar posse faremos tudo que estiver a nosso alcance para que não cumpra o mandato até o fim”.
Ao serem lembrados neste 24 de agosto os 55 anos da morte do ilustre político que deixou como legado inúmeras conquistas para o povo brasileiro, não pode deixar de ser mencionado que no ano p assado Lula assinou decreto criando a semana Vargas, para que as novas gerações conheçam o que representa para a história brasileira o estadista que o Brasil teve.
Daqui a 100 anos, a figura de Vargas na história brasileira será lembrada, enquanto a dos moralistas de plantão, ainda presentes nos dias atuais, ocuparão o lugar devido e que lhes pertence, o do lixo da história.
Em suma: querendo ou não as aves de rapina sobrevoando o horizonte político e midiático atual, Vargas está mais presente do que nunca. O próprio Presidente Lula em entrevista nestes dias a uma rádio do Rio de Janeiro voltou a reconhecer a figura do estadista que foi vítima dos denuncistas da sua época agrupados na moralista UDN.
E o menino que ouviu a notícia do suicídio de Vargas no jornalismo da rádio Nacional continua atento e tenta sempre aprender as lições da história para entender melhor o momento atual em que o seu país ainda tem muitos desafios pela frente a serem vencidos para consolidar a soberania que tanto o presidente Vargas defendia naqueles longínquos início dos anos 50.

Postado em 24/08/2009 ás 21:11

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