Brasília - Sexta , 24 de Maio de 2013 Página Inicial | Indique aos amigos
Coluna de Cesar Fonseca
Petróleo agita sucessão presidencial
As recentes descobertas bilionárias de reservas de petróleo na camada pre-sal, na bacia de Santos, que despertaram a cobiça internacional e aumentaram o status econômico e financeiro do Brasil no mundo, podem agitar a sucessão presidencial em 2010 e até bombear terceiro mandato para o presidente Lula, se os estudantes se engajarem na ressurreição da campanha nacionalista pelo Petróleo é Nosso, convocada pelo titular do Planalto em histórico discurso, no Rio de Janeiro, na terça, 12, em frente, à extinta sede da União Nacional dos Estudantes(UNE), destruída pela ditadura militar, a ser indenizada pelo governo. Emergiria uma neo-UNE chapa branca?
"Precisamos mexer na lei do petróleo deste país. Não podemos abrir mão desse patrimônio a 6 mil metros de profundidade. É um patrimônio da União, de 190 milhões de brasileiros e não de meia dúzia de empresas privadas. É preciso usar esse patrimônio para fazer a reparação aos pobres desse pais", disse sob ovação estudantil e popular.
São, segundo o presidente, citando o campo gigante de Tupi, 8 bilhões de barris de petróleo, que poderão estender-se para 50 bilhões ou até 300 bilhões de barris, se existir um só campo de produção, como se cogita, para explorá-lo sobre o princípio da unitização, descartando predominâncias individualizadas relativamente à distribuição da produção em diversos campos, hoje, explorados pelas empresas internacionais BG, Repsol, Shell, Galp, ExxonMobil, Petrobrás, entre outras.
O titular do Planalto, na prática, convocou a classe estudantil para defender as riquezas nacionais. Apelou para o espírito patriótico estudantil que, em 1954, engajou-se na campanha pelo Petróleo é Nosso, lançada pelo presidente Getúlio Vargas, que culminou com a criação da Petrobrás.
Essa é a nova e surpreendente encenação política do presidente Lula que o alinha a Getúlio Vargas, a Hugo Chavez, presidente da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, e Cristina Kircnher, da Argentina, Saddan Hussein, protagonistas de políticas econômicas neonacionalistas e populistas.
O terceiro mandato teria chances de prosperar sob discurso neonacionalista? Os desdobramentos dos debates, no Congresso, responderão, nos próximos meses.
Os estudantes, portanto, estariam sendo convocados para engajar-se em movimento dominado pelo pensamento nacionalista, que influenciaria o Congresso de fora para dentro, na medida em que seriam envolvidos, também, outras classes sociais.
Ou seja, o presidente Lula deu pontapé a movimento semelhante ao impulsionado pelo presidente Chavez, de defesa das riquezas nacionais, em nome do controle do Estado sobre as riquezas nacionais e sul-americanas.
Novo status internacional
Depois do anúncio estratégico dos oito campos de exploração na Bacia de Santos, situados numa área correspondente a 14 quilômetros quadrados, as relações entre governo e investidores privados foram alteradas, com as disposições políticas governamentais de mudar a Lei do Petróleo(lei 9478/77). Aprovada na Era FHC, ela permite a ampliação dos acionistas privados no capital da Petrobrás, hoje em torno de 49%, dos quais 80% são investidores americanos, e, também, a participação deles nas concessões de novos campos de exploração.
A correlação de forças do capital externo na empresa estatal petrolífera, dominada pela União mediante propriedade de 51% do capital votante, embora disponha de, apenas, 32% do capital total, e a ampliação privada nas descobertas na bacia de Santos, acenderam sinal vermelho que detonou resistência política nacionalista. Encabeçada pelo ministro neonacionalista das Minas e Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), tal emergência transforma-se, crescentemente, no principal fato político do momento.
O discurso neogetulista-lulista, que justifica onda estatizante sobre a maior riqueza nacional, para reverter-se em fortalecimento dos investimentos em educação, como opção de Estado para transformar o país numa grande Coréia do Sul, fortalece-se nas águas da sobrevalorização dos preços dos metais, no contexto em que ocorre a sobredesvalorização do dólar, como forma de compensação monetária.
Tais riquezas passaram a impor senhoriagem nas relações de troca internacionais em forma de poder político nacional. O governo Lula fatura esse momento como expressão da nova liderança do Brasil no cenário econômico global.
Sua investida sobre os estudantes, para apoiar campanha nacionalista , representaria ressurreição de movimento neo-queremista, pela continuidade da Era Lula, via terceiro mandato, a ser viabilizado via plebiscito, referendo, previstos na Constituição?
O presidente, ao que tudo indica, pela opção feita pelos estudantes como fator de mobilização para sua campanha nacionalista, demonstra-se disposto a criar forças cujas reivindicações políticas poderiam fugir do seu próprio controle no que diz respeito a sua continuidade ou não no poder.

Novas regras, novo poder
Estão em jogo investimentos da ordem de R$ 600 bilhões, necessários para incrementar a produção de petróleo nos campos descobertos. Não é jogar no risco, é na certeza. Os contratos existentes , em relação aos investidores, obedecem a modalidade de concessão, de acordo coma legislação atual, mas a onda nacionalista em marcha impõe novo conceito, ou seja, contrato de parceria.
Tal modalidade para exploração do potencial petrolífero nacional envolveria a União, a verdadeira proprietária das reservas, na discussão da totalidade da exploração de uma riqueza pública no subsolo do território nacional, seja pela Petrobrás, empresa estatal, seja pelas empresas privadas internacionais.
Os acionistas privados da empresa chiaram, ameaçam ir à justiça, mas a orientação presidencial se faz sob argumento do interesse do Estado e não apenas de governo. A Petrobrás foi ultrapassada em seu interesse empresarial, de dispor da concessão para explorar em parceria com seus sócios todo o empreendimento, como se fosse a própria União, verdadeira proprietária da riqueza petrolífera, agindo, constitucionalmente, em nome do interesse público.
O discurso do presidente favorável à nova Lei do Petróleo lança, no entanto, ambiguidades sem fim no espaço político, abrindo possibilidades para ampla conjectura relativamente ao conceito de propriedade das reservas, seja sob exploração de empresa privada, seja de empresa estatal.
Se a riqueza está no subsolo do pais e nas suas águas territoriais, de acordo com conceito amplo de territorialidade, assegurado constitucionalmente, não importaria ser empresa estatal ou privada, pois, enquanto estiver debaixo da terra ou do mar territorial brasileiros, não se trataria de direito adquirido pelo explorador privado, mas, essencialmente, direito público sobre o patrimônio público.
O temor dos acionistas privados veio rapidamente à tona em forma de ameaça, prometendo "levante judicial". Seria aberta luta política ideológica?
Isso ajudaria ou prejudicaria o presidente em sua campanha de mobilização popular em curso em favor de nova campanha pelo Petróleo é Nosso, repetindo Getúlio?
Seguramente, a decisão de Estado representará abertura para maior inserção estatal na fixação de novas regras para ajustar as relações atualmente existentes, bem como relações futuras, a configurarem parcerias público privadas suficientemente flexíveis em favor do interesse público, sob fiscalização da Procuradoria Geral da União.
Lula jogou politicamente com os estudantes, dando uma sacudidela na classe estudantil brasileira.
Qual será a resposta das universidades?

Espólio lulista
Quem vai tentar faturar o espolío lulista como representante das forças governistas na sucessão presidencial embalada pela ressurreição da campanha do Petróleo é Nosso?
O próprio Lula, se uma campanha popular, que ele incentiva, pegar e alastrar geral país afora?
O senador Edson Lobão(PMDB-MA), que se desponta no PMDB como nacionalista maior dentro do governo, por ter desencadeado a discussão relativamente à criação da nova empresa estatal?
Roberto Requião, do PMDB, governador do Paraná, que prega a ação lulista de defesa mais enérgica do patrimônio nacional, desde a primeira hora, nas hostes peemdebistas, sendo acusado de precipado e radical, mas, agora, seguido pelo presidente?
Dilma Roussef, do PT, que, por cautela excessiva, perdeu o discurso nacionalista para Lobão, do PMDB, entusiasmando os peemedebistas
nesse instante?
Ou pintaria dobradinha Dilma-Lobão, de cores fortemente nacionalistas, para 2010?
As descobertas petrolíferas abriram possibilidades políticas que criam novo contexto a desenrolar-se no Congresso, nos próximos meses, no ardor da discussão da nova Lei de Petróleo de cores nacionalistas.
Vai se configurando semelhança de propostas entre Lula e os militares, que, embora governassem ditatorialmente, economicamente eram nacionalistas, aliados de Getúlio Vargas, na primeira hora da revolução nacionalista de 1930, de perfil fascista.
A Nova República, no plano ideológico, entra em simbiose com a posição militar nacionalista, colocada em prática, no período 1964-1984, quando a economia brasileira se transformou na oitava maior do mundo.



Ouro olímpico lulista
O presidente Lula, na China, em plena olimpíada, deve estar se sentindo o próprio atleta. Conseguiu uma façanha que vale medalha de ouro do ponto de vista político: em seu governo, a classe média tornou-se maioria no país, no compasso do aumento do emprego, do salário e dos investimentos em programas sociais, que bombaram o consumo interno das massas miseráveis.
Ganha ele, portanto, o apoio dos estratos médios da população, enquanto permanece e amplia sua condição de ídolo popular, sem falar que as classes mais ricas estão adorando-o, pois nunca ganharam tanto na especulação. Ouro olímpico lulista.
Trata-se de cacife político histórico indiscutível. Poderá desatar novas pressões para que o titular do Planalto dê uma de Dom Pedro I, reinaugurando o Dia do Fico, em busca de terceiro mandato, ou significa garantia de eleição da sua tida como favorita para sucedê-lo, ministra Dilma Roussef, da Casa Civil?
A pesquisa do professor Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, constatou que, em seis regiões metropolitanas - São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre - diminui o número de pobres, cresce a proporção das famílias de classe média e aumenta, também, a percentagem das famílias de renda alta.
O estudo, baseado em números da Pesquisa Mensal de Emprego(PME), do IBGE, combinados com dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego(Caged) do Ministério do Trabalho, comprovou que, desde que foi superado o período de desacelração da economia, em 2003, primeiro ano da Era Lula, a pobreza vem diminuindo.
De cada cem trabalhadores considerados em situação de miséria em janeiro deste ano, 32 tinham conseguido aumentar sua renda o sufuciente para serem classificados em classes mais altas quatro meses depois. A evolução vem positiva desde 2004, ressalta o estudo. Em abril daquele ano, das famílias das seis regiões metropolitanas pesquisadas, 46,13% estavam na faixa de pobres ou remediados. Em abril de 2008, a fatia reduziu para 32,59%.
Dessa forma, cresce a faixa considera de classe média - família com renda mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.590 - , que, de acordo com a pesquisa, em abril deste ano, já correspondia a 51,89% das famílias dos trabalhadores das seis regiões metropolitanas. Em 2004, esse percentual era de 44,19% no mesmo espaço geográfico.
Da mesma forma, aumentou a parcela das famílias que compõem a elite dessas regiões, ou seja, famílias com renda mensal superior a R$ 4.591. Em abril de 2003, representavam 11,59%; quatro anos depois, pulou para 15,52%.
A pesquisa confirma resultado positivo, pelo menos até o momento, da estratégia lulista - uma no prego, outra na ferradura -, que combina juro alto, que gera renda especulativa para os estratos médios e elevados da população, com aumento do investimento público em programas sociais - valorização do salário mínimo, gastos ascendentes com previdência social e bolsa família. Keynesianismo duplo: um, para gerar renda, na moeda, outro, na produção, via bombeamento do consumo popular, garantido pelo dinheiro estatal. O retorno desse gasto vem em forma de aumento da arrecadação, visto que o incremento do programa Bolsa Família ativa no mínimo cinco etapas da circulação produtiva, gerando 40% de arrecadação em cada uma delas. Melhor negócio do mundo, que comprova ser o programa social gerador de aumento de ingressos públicos para retornar ao investimento.
Não se confirmou, na prática, a teoria acadêmica de que melhor distribuição da renda - mais dinheiro estatal para os programas sociais, dividindo tal distribuição com as classes mais ricas beneficiadas pelo juro mais baixo nos empréstimos do BNDES - empobreceria a classe média em favor dos mais pobres, enquanto as ricas, que são protegidas, continuariam mais ricas.
Não houve nivelação por baixo. A classe média não estaria pagando prejuízo. Ao contrário, fortalece-se nas águas do aumento do consumo dos mais pobres. Comprova-se, sobretudo, que uma depende da outra e vice-versa. Indústria, agricultura e comércio serão os responsáveis pela sustentação do PIB na casa dos 5% em 2008, como destacam os analistas.

Fortalecimento do mercado interno
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A estratégia econômica lulista inverteu processo histórico que mantinha a economia em permanente instabilidade inflacionária, dada o subconsumismo subdesenvolvimentista vigente desde o início da industrialização nacional, a partir dos anos de 1950, gerando contradições estruturais que levaram às crises políticas e ao fim da democracia.
Basicamente, inexistia mercado interno e a maioria da população espoliada tinha que abrir mão de sua renda para concentrar renda em poucas mãos a fim de garantir consumo de bens duráveis produzidos por indústrias concentradas nas regiões sul e sudeste do país, mediante sistema tribuário ditado por regras ditatoriais, ainda vigentes.
As instabilidades monetárias e cambiais, portanto, eram frutos do subconsumismo econômico, que marcava o perfil do subdesenvolvimentismo nacional, caracterizado por eterna instabilidade.
A opção distributiva lulista inverteu o processo ao aumentar o consumo interno. As desvalorizações cambais se transforamaram em valorizações cambiais, pois os estoques internos foram consumidos internamente e não mais pelo consumidor externo, privilegiado pelas desvalorizações que empobreciam a maioria da população brasileira, expressa em inflação, inviabilizando seu consumo sustentável, dada a deterioração permanente do rendimento dos salários.
Em vez de bombar a classe média consumidora dos países importadores dos produtos brasileiros, com preço barato, passou a ser bombada a própria classe média nacional.
Na medida em que aumentou o consumo da massa, as ações das indústrias, do comércio e dos serviços, em posse da classe média, valorizaram-se. Ao mesmo tempo, a valorização cambial se transformou em arma de combate à inflação, cujo resultado, por sua vez, foi valorização do salário, expressa em aumento do consumo.
Tornou-se atrativo, com o aumento da renda interna, ampliar o crédito interno pelos bancos. Segundo Peter Shaw, analista-chefe de bancos da Fitch Ratings para a América Latina, o crédito , no Brasil, passou de 20% para 50% do Produto Interno Bruto entre 2003 e 2007, na Era Lula.
O fortalecimento da classe média, ao lado da garantia da subsistência da classe baixa, da qual a média depende, visceralmente, demonstra que a estratégia lulista de combinar ganhos financeiros elevados para a classe média e consumo básico para as classes mais baixas, resultou em parceria social indissolúvel.
Restaria saber se seus efeitos políticos tenderiam a consolidar lulismo político brasileiro ou se tal construção não teria consistente suporte básico suficiente para susportar eventual derrocada da economia americana que viesse abalar as estrutura do mundo, levando a uma tempestade bíblica, que exigisse nova Arca de Noé.

Novos ares nacionalistas
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No contexto do embalo do crescimento e do fortalecimento da classe média, o discurso do presidente Lula, ao lado da auto-confiança que tomou conta do seu espírito, vai ganhando nuances nacionalistas, especialmente, no plano da energia, maior riqueza nacional , cuja valorização se impõe por si mesma no ambiente da sobredesvalorização do dólar, detonadora da inflação mundial.
O titular do Planalto, no embalo do apoio das classes médias e baixas, comanda, na prática, poder geoestratégico que vai ganhando corpo no cenário global, como destacam as reportagens da grande mídia mundial.
Tal poder, por sua vez, fortalece corrente favorável à criação de nova estatal de energia para gerir os bilionários potenciais petrolíferos da camada pré-sal, como defende o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, expressando o neonacionalismo lulista, para desconfiança da ministra Dilma, que ficou sem a patente dessa poderosa arma política.
O presidente brasileiro estaria seguindo os passos de Hugo Chavez, da Venezuela, que está estatizando o banco Santander, de Cristina Kirchner, da Argentina, que reestatizou a Aerolinas Argentinas, e Evo Morales, que fez o mesmo com a área energética boliviana, e do presidente W. Bush, que estatizou o sistema bancário mobiliário americano, para evitar bancarrota financeira?
Seria a tendência nacionalizante fruto das preocupações que a crise bancária internacional, em curso, desata, no compasso da desvalorização do dólar, que mantém a mantêm a população sob aguda sensação de perdas concretas em seu patrimônio?
Não por acaso Lenin disse que esse é o momento ideal - o das bruscas desvalorizações monetárias - para o renascimento do pensamento nacionalista-socialista.
A Era Lula, na qual a classe média vai ganhando maioridade, sob discurso capitalista consumista, temperado por discurso neonacionalista, navega na globalização olímpica, belamente representada na coreografia chinesa, com o pé no mercado interno como âncora do desenvolvimento.
Sem dúvida, significa inversão histórica progressista relativamente ao que vigorou no passado recente em que o mercado interno, afetado pelo subconsumismo decorrente da excessiva concentração da renda, era relegado a segundo plano. Reconhece-se, agora, que sem ele, o desenvolvimento é mera ilusão.


Grande mídia detonou Gil
A grande imprensa neoliberal brasileira - que não estranhou o fracasso de Doha, fracasso das suas próprias pregações pelo livre mercado, detonado pelos países capitalistas cêntricos, resistente à abertura das suas fronteiras para os produtos agrícolas dos países capitalistas periféricos - não fez o dever de casa, para avaliar, por que o ministro Gilberto Gil, igualmente, não conseguiu acertar suas estratégias culturais, destinadas a promover o produto cultural brasileiro.
Dominada pelo pensamento neoliberalizante, no qual sequer acredita, pois quando está numa pior corre para os braços do Estado, pedindo recursos, como fizeram os banqueiros americanos, diante da crise bancária, a grande mídia realizou pífia cobertura sobre a saída de Gil e a forma em que ela se deu.
Não deu atenção ao essencial que ele disse, isto é, que não teve condições de trabalhar, porque não superou o discurso defendido pelo poder midiático, baseado no apoio à prioridade número um do governo, fixadada no artigo 166, parágrafo terceiro, II, letra b, da Constituição de 1988, que proibe contingenciamento para quase tudo, menos para o pagamento dos juros da dívida pública interna. Uma república constitucional bancocrática.
Para a saúde, educação, segurança, cultura, pode haver brutais contingenciamentos, que paralisam as atividades governamentais nos mínistérios atingidos. Para os juros pagos, religiosamente, aos credores, não pooooode, como diria a humorista pernambucana, Fabiana Karla.
O Ministério da Cultura teria, apenas, R$ 1 bilhão e pouco de recursos, mas, contingenciados, sobrariam menos de R$ 400 milhões, uma ninharia. Enquanto isso, o pagamento dos juros toma R$ 200 bilhões por ano, já tendo consumido mais de R$ 1 trilhão na Era Lula.
Nesse ambiente, Gil ficou de pés e mãos amarrados, sem nenhuma apoio midiático contra o contingenciamento neoliberal lulista para a cultura e descontingenciamento anti-neoliberal para a banca.
Tentou uma ação maior, nacionalista, por meio da criação da agência nacional do audiovisual e do cinema, mas, como estão por trás desses interesses a grande mídia, dançou.
Sobrou sua tentativa de descentralizar o processo cultural, centralizado pela legislação que concentra recursos para a cultura, favorecendo aqueles que estão suficientemente organizados, em lobbies, para abocanhá-los, historicamente, no eixo Rio-São Paulo, especialmente, para obter gordas verbas na Petrobrás, a tetal estatal para a cultura.
Sequer a mídia trabalhou com dignidade, em favor do produto cultural brasileiro, a boa ação gilbertiana de liberar os certificados digitais de modo a permitir que haja ampla mobilidade para os internautas criarem seus produtos sem sofrerem a condenação centralizadora dos que combatem o software livre. Ela ficou a favor da manutenção do oligopólio das importações da microsoft cujos programas pautam o consumo tanto privado como governamental, de forma acachapante.
Gil, bloqueado pelo neoliberalimo cultural vigente, que tem o poder midiático como estandarte, conseguiu disseminar essa democratização internáutica, num mercado, que, infelizmente, ainda é restrito para pouca gente, marcando importante tento. Hoje, no espaço global é, inclusive, chamado de "Ministro hacker", graças a essa ampliação das oportunidades gerais no plano da circulação na banda larga.
Mas, no espaço da legislação vigente, saiu amplamente derrotado pelos grupos oligopólicos da comunicação nacional, apoiados pelo presidente Lula, que se rendeu à tentativa da desconcentração das ações culturais, afetadas pela escassêz de verbas. Prioritária não é a cultura, mas a bancocracia, constitucionalmente, garantida.
O ministro, frente a essa avalanche neoliberal do poder midiático, mereceu a caricatura de ministro, como tentou classificá-lo as revistas Veja e Época. O editorial do Estado de São Paulo, na quinta-feira, foi na mesma linha, traduzindo a ação do compositor-ministro como marcada pelo que seria uma incapacidade gilbertinana de agitar a cultura nacional, e não por conta das razões básicas, tão defendidas pelo grande jornal, isto é, o privilégio concedido aos banqueiros, que engordam nos juros reais mais altos do mundo.
A mídia bancocrática vê a cultura como entretenimento absoluto, como ocorre nos Estados Unidos, ricos, que mercantilizam tudo, mas atuam, sem dúvida, nos bastidores, do mesmo modo em que jogam para favorecer os agricultores norte-americanos, frente às tentativas de dessamarrar o mercado de Tio Sam para os produtos agrícolas de outros países, vale dizer, concendendo subsídios, subvenções, política fiscal privilegiada - e, agora, o dólar sobredesvalorizado que incrementa exportações - para que o estilo americano invada culturalmente o mundo.
Os segundos cadernos, no final de semana, lixaram-se para uma apreciação mais demorada sobre a gestão Gilberto Gil. Não deram um panorama decente para o tema. Teriam que abordar a tentativa da regionalização da cultura nacional, pressuposto básico da política cultural, detonada pela política econômica conjunta do Banco Central e do Ministério da Fazenda, que vêem a cultura como estorvo para as contas públicas, sob intenso aplauso do poder midiático.
Gil, minado pela inteligência midiática, perdeu as forças para prosseguir com a discussão do nacionalismo cultural, no plano interno, como demonstram tendências que se ampliam em todos os espaços regionais, na atualidade globalizada , especialmente, na América Latina.
Vale lembrar o discurso de Octávio Paz, em 8 de novembro de 1990, em Estocolmo, desancando o discurso neoliberal, enquanto recebia o premio nobel de literatura: "La declinación de las ideologias que he llamado metahistóricas, es decir, que asignam un fin e una dirección a la história, implica el tácito abandono de soluciones globais". O nacionalismo cultural, nesse caso, como reconhece o grande escritor-poeta mexicano, representa a necessidade da afirmação nacional para atuar como coadjuvante global.
O ministro tropicalista esqueceu o mandamento do tropicalismo de guerra contra as estruturas carcomidas. Não agiu, como, provavelmente, agiria Glauber Rocha, seu conterrâneo, para quem a luta política, é essencialmente, luta ideológica.
A determinação constitucional existente para a integração latino-americana no plano cultural - como, também, para o econômico, político e social - foi desdenhada pelo ministro, no esforço geral da promoção-união sul-americana. Preferiu voltar suas ações para os países ricos, mas sem uma articulação interna, para promover o produto cultural brasileiro como pauta prioritária do comércio exterior.
No mundo onde os empregos estão sumindo, em que a humanidade vai sendo liberada pela ciência e pela tecnologia, a serviço da produção, de modo a ampliar as horas de lazer, a aposta na cultura, certamente, é alternativa para geração de renda, emprego e consumo, especialmente, para a juventude.
As tentativas, nesse sentido, do ministro foram vistas pela grande mídia como algo sem maior importância. Ficou, assim, sem bala para levar adiante um projeto cultural que vai sendo dificultado pelas forças concentracionistas que se fortalecem em torno de uma legislação excludente, favorável apenas aos interesses dos grandes grupos investidores.
Nesse sentido, o governo vai dando a entender que tem apenas retórica. A TV pública, por exemplo, está se transformando numa esfinge. Prega, filosoficamente, a disseminação-regionalização, mas, nos bastidores, está sob pressão da falta de dinheiro, que a obriga a abandonar sua política pretensamente desconcentracionista.
Vai levando pauladas, como levou Gil, que, cansado, entregou a rapadura. O jogo da grande mídia, que pensa oligopolicamente no plano econômico, político, social e cultural, continua faturando seus conceitos ideológicos que determinam a intensificação do processo de concentração.
Sobra, tão somente, os discursos e as boas intenções, como a do "Ministro hacker", aplaudido lá fora, mas capado aqui dentro pelo neoliberalismo cultural vigente. Como dependente dessas articulações poderosas, para vender seu próprio produto, Gil pensou com seu umbigo e deixou a luta para lá.

Postado em 03/08/2008 ás 23:40

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