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Coluna de

Os maoístas também são gente (e são indianos)
MK Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2012/06/30/the-maoists-are-also-indians/

A Índia independente tem sido coerente na abordagem a milhões de motins que ameaçaram a unidade e a integridade nacionais nos últimos mais de 60 anos[1]. O padrão é mais ou menos o seguinte: ninguém se preocupa com o povo viver alienado, apesar de as causas da alienação não serem mistério e poderem ser atacadas; vez ou outra, o partido governante até explora a alienação popular, para atender seus objetivos eleitorais (Khalistan); com o tempo, as feridas se agravam; quando já estão gravemente infeccionadas, o Estado indiano cauteriza uma ou outra ferida mais infectada, sem anestesia, para que o paciente, se não morrer da cura, encolha-se de medo, guarde para sempre a horrenda memória da brutalidade do Estado, escafeda-se, com sorte, para sempre, e aprenda a lição.

Mas nenhuma ferida, de fato, é tratada, para ser curada e nenhuma se cura. Os estados de Jammu & Kashmir e os estados do nordeste da Índia continuam sob ocupação do exército indiano. Não haverá outro modo para enfrentar a alienação política no século 21?

A Índia se orgulha de ser país diferenciado na comunidade das nações, porque é país moral. Nos fóruns internacionais, a Índia já começa a perder a timidez e começa a assumir posições no campo dos direitos e da segurança humanos – por exemplo, no caso do Sri Lanka e da Síria, no Alto Comissariado da ONU para Refugiados, em Genebra, recentemente. Tem-se manifestado nos debates no Conselho de Segurança da ONU – sobre o Sudão e o Afeganistão. São atitudes que se recomendam, é claro, para país que aspire a ser potência regional.

Mas, no que tenha a ver com questões nacionais, a situação é bem outra. O “grande confronto” entre o Estado indiano e os maoístas nas selvas de Chhattisgarh na 6ª-feira (29/06), mais uma vez, obriga a ver a tragédia da situação. Já começam a chegar noticias de que as forças de segurança da Índia atacaram vilas isoladas na selva e massacraram civis, na calada da noite de 5ª para 6ª-feira.

Entre os 19 maoístas mortos, há uma jovem de 15 anos – e apenas dois dos 19 mortos foram identificados como guerrilheiros extremistas de esquerda. Nesse caso, quem são os outros 17 mortos?

O ministro do Interior está preocupado com o prêmio de 10 milhões de dólares que os EUA ofereceram pela cabeça de Hafiz Saeed, fundador do grupo paquistanês Lashkar-e-Toiba, acusado de ser o principal responsável pelos ataques de 2008 em Mumbai. Façamos votos de que, quando o ministro resolver esse caso, cuide de informar o que de fato aconteceu. O pessoal dos serviços de segurança declarou que “uns poucos moradores inocentes podem ter morrido no fogo cruzado”. Santo Deus! Quanto é “uns poucos”, em termos de mortos?

O mais chocante é que nenhum político indiano, todos os partidos considerados, nada têm a dizer. Estão ocupados com a eleição do próximo presidente da Índia – ou, então, só pensam nas “reformas”. Quando 19 cidadãos são assassinados pelas forças da ordem em país civilizado, na segunda década do século 21, espera-se alguma comoção no mundo ‘político’. Na Índia, não? O silêncio dos políticos aponta claramente o terrível enfraquecimento da fibra moral.

Ainda mais repreensível é o ensurdecedor silêncio dos partidos da esquerda indiana que, pelo menos em tese, operam ou deveriam operar no mesmo campo ideológico que os maoístas indianos. OK. Os maoístas são rebeldes desiludidos com a esquerda partidarizada e com a democracia burguesa. Nem por isso se tornaram ‘de direita’. A China não os reconhece. OK. É problema da China. Mas... e a esquerda da Índia?

De fato, a presença dos grupos maoístas em partes da Índia onde a esquerda indiana ‘oficial’ sequer existe mostra que eles têm legitimidade e credibilidade conquistada por eles mesmos, em trabalho com as populações locais de um país imenso, que ainda são sensíveis aos ideais igualitários e democratizatórios do comunismo. Liderança mais ilustrada, na esquerda indiana, buscaria o diálogo com aqueles militantes, talvez isolados, talvez desorientados. Bom ponto de partida seria indignar-se ante o assassinato de 19 camaradas, na selva de Chhattisgarh. Que tenham enterro comunista decente

[1] A Índia recuperou a independência (dos ingleses) em 1947 [NTs].

Postado em 01/07/2012 ás 20:45

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