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Coluna de José Dirceu |
| Um brasileiro à frente da OMC |
Apesar da torcida sempre contrária dos setores conservadores no sucesso da nossa política externa, o embaixador brasileiro Roberto Azevêdo é o novo presidente da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Trata-se de uma conquista importante para o Brasil e os demais países em desenvolvimento e também de uma aposta em favor do multilateralismo comercial que o novo diretor-geral sempre defendeu.
A vitória de Azevêdo sobre o mexicano Herminio Blanco -- um dos idealizadores do NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e fiel representante dos interesses que mergulharam o mundo rico em uma crise da qual não consegue sair -- representa um peso importante na balança que começa a equilibrar a nova correlação de forças do mundo atual.
Afinal, hoje os BRICS e os demais países emergentes são os principais dinamizadores da economia internacional. A escolha é também uma consequência natural da crescente participação da América Latina no comércio internacional e nas negociações multilaterais.
A eleição de Azevêdo e a do ex-ministro José Graziano da Silva para presidir a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 2011 -- candidatura que teve apoio massivo dos países africanos e da América Latina -- revelam um novo ciclo e a urgente necessidade de reformar a governança global, a fim de compatibilizá-la com as profundas transformações pelas quais o mundo vem passando.
Por mais que a nossa mídia tente minimizar o feito, o Brasil conquistou o mais importante posto internacional de sua história e isso não aconteceu por acaso.
A eleição de Azevêdo para o posto de diretor-geral da OMC reflete o êxito da política externa dos governos Lula e Dilma, voltada para o Sul, para a integração sul-americana, para os BRICS, a África e o Oriente Médio, ou seja, uma política que resgata todos os interesses nacionais do Brasil no Século 21 e que tem consolidado nosso país como liderança entre as economias em desenvolvimento.
A existência de um brasileiro em um cargo de linha de frente em uma grande organização internacional, sem dúvida, significa o reconhecimento da atuação cada vez mais ativa do Brasil no cenário internacional.
Como ressaltou Azevêdo, o Brasil é hoje um país de grande relevância e que está no centro de quase todas as grandes decisões de governança mundial, seja na política, seja na economia.
A postura firme do Brasil, desde 2003, por negociações que eliminassem as barreiras comerciais e os subsídios e regulassem de fato o comércio e o mercado global, além da liderança do presidente Lula por uma nova ordem multilateral, criou as bases para essa vitória depois da constituição do G-20, dos BRICS, do IBAS (Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul) e de tantas outras articulações que colocaram o Brasil no centro das negociações internacionais.
É claro que a vitória do embaixador brasileiro é também uma expressão de seus próprios méritos, de sua carreira diplomática iniciada no Itamaraty em 1984 e dos cargos que exerceu com competência.
Representante permanente do Brasil na OMC desde 2008, Azevêdo foi um dos principais protagonistas do destaque que o Brasil passou a ganhar no organismo, tornando-se um dos maiores países negociadores junto da União Europeia, do Japão, da China, da Índia, dos EUA e da Austrália.
O diplomata brasileiro é um hábil negociador e já foi chefe de delegações brasileiras em litígios importantes vencidos pelo país na OMC, como o dos subsídios ao algodão contra os EUA e ao açúcar contra a União Europeia. Também participou de praticamente todas as conferências ministeriais desde o lançamento das negociações de Doha sobre a liberalização do comércio mundial, em 2001.
Todas essas credenciais serão bem-vindas e necessárias diante dos muitos desafios que Azevêdo terá de enfrentar para fazer com que a OMC retome o seu papel de reguladora do comércio mundial, empreendendo as mudanças de que a entidade necessita e vencendo a paralisia a que está submetida.
Segundo o próprio Azevêdo, a OMC atravessa um estágio crítico e há inúmeras negociações completamente travadas. Caso não mude suas bases e se modernize para agir em áreas como comércio eletrônico e transações financeiras, o novo diretor-geral acredita que o organismo corre o risco de se tornar irrelevante.
O embaixador já revelou também que está entre suas prioridades retomar a Rodada de Doha de liberalização do comércio, cujas negociações de 11 anos empacaram pela intransigência de EUA e União Europeia, que se negaram a reduzir a proteção a seus produtos agrícolas, ao passo que exigiam dos países em desenvolvimento que abrissem seus mercados de bens industriais, de serviços e de compras governamentais.
Azevêdo afirmou que encontrar uma solução para Doha é uma necessidade para desbloquear o sistema como um todo e que é preciso criatividade e flexibilidade para tratar dos empecilhos de uma forma realista.
Outro desafio será liderar uma coordenação global que coloque fim à insana guerra cambial executada pelas nações hegemônicas, que manipulam suas moedas para tornar suas exportações mais competitivas, praticando uma nova forma de protecionismo. Por outro lado, criticam duramente os países emergentes quando estes adotam suas próprias defesas.
A OMC precisa discutir e se posicionar em relação a esses desequilíbrios e impor limites às políticas predatórias dos países ricos, que asfixiam as nações mais pobres.
Apesar de todo o simbolismo que a conquista de Azevêdo carrega do ponto de vista da nova configuração geopolítica, a vitória folgada, com 30 votos de diferença, revela que ele obteve respaldo não só de países pobres e emergentes, mas também de alguns países ricos. Aliás, depois de se conhecer o resultado da eleição, representantes dos países desenvolvidos declararam apoio à gestão do diplomata brasileiro.
Esse clima de conformidade pode significar muitas coisas, desde o reconhecimento de sua habilidade e capacidade técnica para a função, até o menosprezo de alguns países ricos pelo papel da OMC, uma vez que, na prática, não se submetem à regulação da instituição, fazendo as suas próprias regras e esvaziando-a.
O novo diretor-geral da OMC terá quatro anos para vencer estes e tantos outros obstáculos e para fortalecer esse organismo de fundamental importância para mediar os interesses de todas as nações -- em especial daquelas com menor poder de fogo em suas relações comerciais e que, portanto, mais precisam de um mecanismo de conciliação eficaz --, abrindo caminho para que tenhamos negociações mais equilibradas e menos desajustes no comércio mundial.
| Postado em 19/05/2013 ás 13:37 |
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| Caminhos para democratizar as comunicações |
O debate sobre a regulamentação dos meios de comunicação no Brasil sempre alcança pontos essenciais como a desconcentração dos meios, o fim da propriedade cruzada e a promoção de pluralidade de vozes.
Porém, é imprescindível ampliar a discussão para outros aspectos desta agenda, uma vez que a democratização da informação também passa necessariamente por questões como o fortalecimento do sistema público de radiodifusão, a desconcentração das verbas publicitárias e a promoção de mídias alternativas que possam propagar a diversidade.
Apesar dos intensos debates e dos esforços feitos por vários movimentos representativos da sociedade, continuamos na contramão do mundo em termos de democratização e regulamentação da mídia.
Recentemente, até o governo do México, que não é exatamente um exemplo de progressismo, propôs um projeto de alterações no marco regulatório das comunicações do país, com vistas a quebrar o oligopólio de conglomerados como América Móvil e a Televisa, e promover a concorrência no setor.
Isso sem falar dos exemplos vindos da Inglaterra e da Argentina e até mesmo de países como EUA, Canadá, França e Portugal, que há anos adotam medidas regulatórias para seus meios de comunicação audiovisuais e impressos. Ou seja, parece que só no Brasil a questão não avança.
Mas o atraso em relação aos outros países não deve esmorecer a luta daqueles que acreditam na pluralidade de opiniões e na afirmação de formas alternativas de informação e comunicação.
Ao contrário, devemos continuar forçando o debate -- do qual a grande mídia brasileira continua esquivando-se, sempre blindada pelo seu falso argumento de que a regulamentação impõe censura e limites à liberdade de expressão -- e aprofundá-lo o quanto mais possível.
Não é admissível que, depois dos inúmeros avanços tecnológicos nas últimas décadas, da tecnologia digital, das redes virtuais de onde se pode emitir conteúdo de qualquer parte do globo, e da confluência de mídias cada vez mais apoiada em plataformas comuns, continuemos tendo como referência o obsoleto Código Nacional de Telecomunicações de 1962.
Como continuar convivendo com leis que impedem a participação de grupos estrangeiros no segmento de mídia, se as empresas de telefonia, privatizadas e desnacionalizadas, estão não apenas no mercado de internet, mas no de televisão, de radiofonia e de produção de conteúdos? Como submeter tais empresas às jurisdições nacionais?
Apesar da Lei do Cabo (1994) e da Lei da TV Paga (2011), é premente estabelecer novas regras de funcionamento a um setor que se modifica rapidamente.
As empresas de telefonia, por exemplo, que nos anos 1990 tinham a seu cargo apenas a comunicação de voz à distância, consolidaram-se como os maiores provedores de internet e apresentam um poder de fogo dificilmente igualado por qualquer rede de TV tradicional.
As respostas e propostas para tornar a nossa mídia mais democrática são muitas. Não podemos negar que a constituição de um serviço público de rádio e televisão capaz de competir com a mídia comercial seria um avanço.
O princípio da complementaridade dos sistemas de radiodifusão (privado, público e estatal), contido no artigo 223 da Constituição, exige um novo modelo, para além do paradigma clássico voltado apenas ao serviço público de televisão associado à reserva em favor do Estado.
Até porque, sem regulamentação, a natureza pública da comunicação tende a ser desfigurada, incorporando mecanismos burocráticos que impedem a sua execução, fazendo com que as poucas emissoras públicas sejam pressionadas a adotar práticas privadas.
O sistema público de radiodifusão precisa ser fortalecido com recursos e espaços, de forma que possa oferecer conteúdos de qualidade, promover Educação, Cultura e a diversidade regional e, ao mesmo tempo, conquistar a audiência. Como bem apontou o professor Laurindo Leal Filho, um dos principais obstáculos da TV pública está na forma como o telespectador sintoniza essas emissoras.
Enquanto as grandes redes comerciais são sintonizadas nos canais tradicionais de números baixos (hoje, vão do 2 ao 13), restam os mais longínquos para as redes públicas. E, para que o telespectador possa comparar os programas e escolher os que lhe interessam, é fundamental que públicas e privadas estejam lado a lado, e também que haja mais opções de canais públicos, capazes de dar conta da grandeza territorial do nosso país, mostrando as nossas múltiplas realidades, diferentemente do que fazem as emissoras comerciais que mostram, todas elas, a mesma coisa.
Não podemos perder de vista que a comunicação é um bem público e um direito de todos. Direito esse que não será respeitado, enquanto o mercado continuar concentrado nas mãos de poucos grupos, que ditam as regras, impõem suas agendas e fazem do espectro concedido palanques para os seus interesses políticos e econômicos.
A outorga não é uma licença para fazer o que se bem entende e é preciso que isso fique claro para a sociedade. O que dizer do absurdo das subconcessões -- o arrendamento a terceiros promovido por concessionários do setor sem a autorização competente? Trata-se de um mercado que só agrava o quadro atual de dominação pelas oligarquias políticas proprietárias e no comando de emissoras de rádio e TVs regionais, religiosas e políticas.
Em 2012 o governo federal anunciou novas regras para o setor e a elaboração de um plano de outorgas para o lançamento dos editais de licitação. A renovação das concessões seria um bom começo e uma ótima oportunidade para discutir o que o radiodifusor fez e como atuará na vigência de sua concessão.
Também seria importante para conferir ao processo maior transparência e ampliação da concorrência, a fim de que tenhamos mais pluralismo e diversidade de atores com direito de antena.
Outro ponto que precisa ser revisto e que pode contribuir para desconcentrar o mercado e promover as mídias alternativas é a destinação das verbas publicitárias federais. A Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom) tem defendido, entre outros pontos, que se estabeleça como política a destinação de 30% das verbas publicitárias às micro e pequenas empresas de comunicação.
Esse tratamento diferenciado já existe para outros setores da economia e está previsto na Lei de Licitações, de 1993, e também na Lei Complementar nº 123, de 2006, que regulamentou artigo da Constituição que permite a reserva de 25% do valor das licitações de bens e serviços divisíveis às MPE's.
Em 2012, cerca de 62% das verbas de publicidade federais foram programadas para o meio televisão, sendo que desse total 43% foram investidos na emissora líder, a qual, como é de conhecimento público, tem registrado acentuado declínio.
Ainda que fosse diferente, não é razoável que o principal critério para a destinação de recursos seja audiência quantitativa, já que a legislação atual não restringe a distribuição das verbas de mídia ao critério exclusivo de quantidade de pessoas atingidas. É preciso combinar fatores que garantam o alcance, considerando também a qualidade do veículo programado e a promoção da diversidade e do pluralismo informativo.
É verdade que houve ampliação do número de veículos programados de 2000 para 2012, mas a quantidade de veículos na internet ainda está bem abaixo de meios como jornal e rádio.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, inclusive, admite que está entre os objetivos estratégicos da atual gestão utilizar o maior número possível de veículos em suas campanhas, evitando a concentração. Portanto, é hora de reverter esse jogo e rediscutir a distribuição dos recursos, levando em conta a multiplicidade de canais de informação existentes hoje, cada dia mais acessíveis à população.
Para não dizer que não há nenhum avanço, existe uma boa proposta em discussão na Câmara dos Deputados. A Comissão de Cultura da Casa, presidida pela deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), propôs a criação de uma linha de financiamento para mídias alternativas como blogues, rádios e TVs comunitárias, com condições especiais disponibilizada pelo BNDES.
Trata-se de um instrumento importante, pois embora a tecnologia seja um facilitador para a mídia alternativa, existem desafios de infraestrutura para manter a longevidade desses veículos. Na nova era da Internet, que mexe fortemente com todo o cenário de comunicação no mundo, não podemos fechar os olhos para isso.
Como se vê, além da urgente necessidade de procedermos a uma regulamentação dos meios de comunicação, precisamos também de uma política de governo para o setor e da criação de instrumentos que inibam os monopólios e as reservas de mercado. Assim, apesar dos percalços, resta à sociedade civil continuar mobilizando-se e trabalhando por uma mídia democrática e plural.
Além da campanha liderada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e do esforço para elaborar uma proposta que possa ser transformada em Projeto de Lei de Iniciativa Popular, é preciso que os partidos políticos e o Congresso Nacional se engajem nessa luta.
O Brasil precisa de um marco regulatório para suas comunicações e não é mais possível esquivar-se a um posicionamento claro sobre isso. Ou se está do lado daqueles que acreditam na qualidade e pluralidade informativa como direito e como mecanismo imprescindível ao aperfeiçoamento da nossa democracia, ou se está do outro lado.
| Postado em 13/05/2013 ás 16:49 |
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| Reforma política não é golpe |
(artigo publicado no Blog do Noblat em 26.04.2013)
Volto ao complexo e controverso tema da reforma política - ao qual me dediquei neste mesmo espaço na semana passada - para, desta vez, rebater as críticas feitas pelo ex-governador José Serra à proposta defendida pelo PT, elaborada pelo relator do principal projeto sobre o assunto na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS).
Em artigo publicado no dia 11 de abril, no jornal o Estado de S. Paulo, sob o título "Reforma ou golpe?", o tucano, dedicado menos em esclarecer suas posições sobre o tema e mais em atacar as de seus adversários, classifica de "golpe" as proposições apresentadas pelo PT e por Fontana para pôr fim a uma série de distorções do atual sistema político-partidário brasileiro.
Empenhado na realização do projeto há alguns anos, Fontana procurou o Estadão para apresentar seus argumentos. Contudo, o jornal tratou de forma diferenciada as duas posições e recusou o debate proposto por Fontana no mesmo espaço conferido a Serra.
O que parece ser uma opção editorial se configurou em uma grande oportunidade perdida pelo jornal para colaborar com a discussão de um assunto fundamental ao aperfeiçoamento democrático em nosso país.
De todo modo, as críticas de Serra ao projeto do PT e de Fontana seriam bem-vindas se, na contrapartida, trouxessem alternativas para os principais itens que defendemos, como o financiamento público das campanhas eleitorais, o voto em lista flexível e o fim das coligações proporcionais, dentre outros que visam valorizar o embate programático em detrimento do poder econômico e de arranjos casuístas nas eleições.
Mas, em tom arrogante e autoritário, Serra dedica-se apenas a desqualificar nossas propostas, classificando-as do início ao fim de "golpistas".
O ex-governador estranhamente diz em seu texto que o PT pretendia "enfiar a reforma goela abaixo do país", já que não houve debate a respeito.
Não houve debate? Como não, se a reforma está em discussão no Congresso há mais de 15 anos e se o projeto apresentado pelo PT é fruto de amplas discussões com diferentes setores da sociedade, tendo sido discutido também com todas as bancadas dos partidos políticos, por mais de uma vez? Sejamos razoáveis: não é porque Serra não participou do debate que ele não aconteceu.
O presidenciável critica de forma contundente a ideia do financiamento público exclusivo de campanha, sob o argumento falacioso, e também já bastante ultrapassado, de que ela oneraria o cidadão. Como bem colocou o deputado Fontana em resposta na Internet, Serra deveria esclarecer à população que hoje ela já paga pelos recursos das campanhas bilionárias que o projeto do PT visa baratear.
Os números evidenciam o crescente peso do poder econômico nas campanhas eleitorais. Em 2002, os gastos declarados por partidos e candidatos nas campanhas para deputado federal alcançaram R$ 189,6 milhões; em 2010, esse valor chegou ao montante de R$ 908,2 milhões, um crescimento de 479% em oito anos. Com maior intensidade, os gastos declarados nas campanhas presidenciais passaram de R$ 94 milhões, em 2002, para R$ 590 milhões, em 2010, um crescimento de 628% em oito anos.
Além disso, não há dúvidas de que o investimento feito pelos grandes financiadores nas eleições é cobrado tanto na exigência de relações privilegiadas, quanto no preço final de obras que são pagas com os recursos do contribuinte. Esse, sim, é o grande golpe praticado pelo modelo vigente.
Embora José Serra diga que "uma reforma política de verdade procuraria aperfeiçoar o mecanismo de representação, aproximando mais o eleito do eleitor", nega-se a enxergar que, no sistema atual, apenas os candidatos que contam com generoso apoio de empresas privadas -- as 72 grandes empresas que contribuíram com um bilhão de reais nas eleições de 2010 -- têm chances efetivas de vencer uma eleição, o que exclui do páreo eleitoral muitos líderes populares, legítimos representantes da população, incapazes de competir com campanhas milionárias.
Já a argumentação de Serra de que, ao levar em conta a representação na Câmara dos Deputados e o volume de votos obtidos na eleição anterior, a distribuição dos recursos para o financiamento público beneficiaria o PT, não sei se é uma crítica ou o reconhecimento de que o partido é o único que continua crescendo no Brasil. Nunca é demais lembrar que o número de votos e de deputados é, de fato, o melhor fator para auferir representação e que as conquistas do PT vêm sendo obtidas no contexto das regras vigentes.
Por fim, depois de defender ao longo do texto a continuidade do financiamento da democracia brasileira pelos grandes grupos econômicos, o tucano apresenta sua única proposta de reforma política -- o voto distrital -- que, conforme podemos perceber pelos exemplos vindos de fora, transforma a eleição em uma disputa entre dois nomes, diminuindo o papel dos partidos e das propostas.
Para adoção do voto distrital, seria necessária a aprovação de emenda constitucional, já que o modelo institui o sistema majoritário, contrário a toda experiência brasileira de voto proporcional.
O sistema distrital não contribui para o aprimoramento da democracia representativa; ao contrário, com ele há o risco de que as minorias desapareçam, ficando espalhadas em diferentes distritos, sem conseguir eleger representantes. Além disso, o modelo mostra-se bastante complexo, pois exige a reformulação dos distritos de tempos em tempos, devido às modificações populacionais -- óbitos, nascimentos e mudanças de residência.
Como frisou Fontana, esse debate não é propriedade de nenhum partido e os problemas do nosso modelo de financiamento aparecerão com força revigorada nas eleições de 2014, se nada for mudado. Assim, ganharemos todos se, ao invés de desqualificarem as propostas em discussão, os líderes políticos realmente interessados em tornar o sistema político mais justo e democrático se unirem para encontrar uma maneira mais adequada para financiar as campanhas eleitorais no Brasil.
Outra saída, caso o Congresso não consiga entendimento para votar as atuais propostas, é a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para a realização da reforma política, ou ainda de um plebiscito através do qual a população seja consultada sobre os pontos mais prementes dessas mudanças.
A Constituinte exclusiva poderia ser convocada para a eleição do ano que vem, quando os eleitores já escolheriam também os deputados constituintes, e teria o mérito de aperfeiçoar uma série de mudanças e de atualizar leis que vigoram no país há 25 anos.
São propostas para não deixar a reforma política, mais uma vez, sem desfecho, como desejam aqueles a quem só interessa manter tudo como está.
| Postado em 29/04/2013 ás 21:14 |
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| Novas soluções para os BRICS |
Embora haja quem deliberadamente desqualifique a força dos BRICS como aliança política e econômica de mútua cooperação, a 5ª Cúpula do bloco, realizada na última semana em Durban, na África do Sul, deixou claro o objetivo de seus integrantes em viabilizar mecanismos capazes de converter o crescente poder econômico do grupo em benefícios que possam ser compartilhados por todos os seus membros.
O anúncio e o início dos acordos para a criação do chamado Banco dos BRICS foi, sem dúvida, a expressão mais evidente desta intenção, um acontecimento de grande peso, que servirá principalmente ao financiamento de infraestrutura e desenvolvimento sustentável dos cinco países que formam o grupo - Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul.
Porém, mais do que isso, a iniciativa explicita a nova correlação de forças no mundo atual, já que se trata da primeira manifestação multilateral entre países de regiões diferentes desde a criação de instituições como a ONU, o FMI e o Banco Mundial, que aglutinaram as várias nações em torno de si.
A criação de uma entidade própria dos BRICS ocorre em um cenário no qual, por pressão e controle dos EUA, esses organismos internacionais, surgidos após a 2ª Guerra Mundial, continuam recusando-se a reconhecer a nova realidade do século 21 e a emergência do mundo asiático, africano e latino-americano.
O banco significa, ao mesmo tempo, uma alternativa ao Banco Mundial e uma resposta à incapacidade dos organismos existentes de promover reformas necessárias para atender às novas demandas que surgem. Como destacou o presidente sul-africano, Jacob Zuma, a criação do novo banco representa o surgimento de uma nova era "em um mundo que necessita urgentemente de uma origem mundial mais justa".
Evidentemente, não será uma tarefa simples constituir o banco, já que há diferenças políticas e econômicas muito relevantes entre os cinco países, disputas entre si na questão comercial e uma certa preocupação em relação ao expansionismo da China, que, ao reproduzir a estratégia colonialista de comprar matéria prima e vender manufaturados, torna-se pouco conveniente para seus parceiros.
Contudo, os interesses comuns deverão prevalecer, afinal, é inegável a potência dessa aliança. Para se ter uma ideia, juntos, os cinco países respondem por 43% da população mundial e dispõem de US$ 4,4 trilhões em reservas de moedas estrangeiras. O comércio entre os cinco países cresceu mais de dez vezes em dez anos e deve dobrar até 2015, chegando a meio trilhão de dólares.
O Investimento Estrangeiro Direto (IED) no grupo triplicou na última década, chegando a US$ 263 bilhões, de acordo com a ONU. Nesse período, a participação do grupo saltou de 6%, em 2000, para 20% em 2012. Sem dúvida, um crescimento extraordinário.
Dentre os principais desafios do banco, está o incentivo aos investimentos entre os integrantes dos BRICS, que atualmente são baixos. Apenas 2,5% do que investem se direciona para países do grupo, contra 40% que se destinam às economias desenvolvidas, particularmente União Europeia, EUA e Japão.
Uma das primeiras medidas já acertadas foi a criação de um fundo de reserva de US$ 100 bilhões para ser usado em caso de eventuais crises de liquidez. Além de representar uma alternativa ao FMI, o fundo pode ser de grande contribuição para a estabilidade das moedas dos países do grupo.
Uma das primeiras medidas já acertadas foi a criação de um fundo de reserva de US$ 100 bilhões para ser usado em caso de eventuais crises de liquidez, o que pode ser de grande contribuição para a estabilidade das moedas dos países do grupo.
A presidenta Dilma lembrou que a iniciativa faz parte do esforço dos países emergentes, em especial Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, de criar fontes próprias de investimento e financiamento e que será um instrumento importante para que se protejam dos efeitos da crise econômica internacional. Aliás, àqueles que desacreditam no poder atual dos BRICS e não enxergam mais tanto vigor em suas economias, nunca é demais lembrar que menos vigor é melhor do que a falência total apresentada por muitos países desenvolvidos. Além disso, nenhum país dos BRICS sofreu crise bancária, tendo os prejuízos financeiros sido decorrentes das turbulências globais.
Outro ponto importante apontado por Dilma é que os problemas dos países ricos não podem se tornar obstáculos para o crescimento econômico dos países em desenvolvimento. Por isso, é necessário encontrar novas soluções e criar ferramentas que garantam a esses países crescer de forma sustentada e inclusiva, desenvolvendo sua infraestrutura, gerando empregos de qualidade e promovendo a melhoria da qualidade de vida de seus cidadãos.
A criação do Banco dos BRICS e o fortalecimento das relações dos países do grupo caminham nesta direção e estão em consonância com o peso de suas economias no novo contexto geopolítico mundial.
| Postado em 08/04/2013 ás 09:12 |
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| Folha quer imobilizar Lula |
O Brasil não merece a oposição que tem. Tinha mesmo que ser um tucano para repercutir as matérias sensacionalistas da Folha de S.Paulo sobre as viagens do ex-presidente Lula. Ontem, o jornal deu a manchete "Empreiteiras patrocinam 13 das 30 viagens de Lula ao exterior". Foi tão despropositado que nem os outros jornalões embarcaram nessa.
Hoje, a Folha tenta manter o assunto de pé ouvindo, claro, tucanos. O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, "cobrou" explicações de Lula. O senador Álvador Dias fez o mesmo.
A assessoria do ex-presidente já disse que ele trabalha para promover interesses da nação e não de empresas. E o deputado André Vargas, secretário de Comunicação do PT, disse que as críticas dos tucanos são infundadas, uma vez que Lula beneficiou diversos setores da economia: "Quando ele leva o Brasil, leva as empresas junto. Enquanto as empresas foram beneficiadas por ele, foram prejudicadas por Fernando Henrique".
Sob o pretexto de transparência, a Folha quer é imobilizar Lula e o impedir de fazer política e diplomacia características de ex-presidentes, algo comum nos EUA e na Grã-Bretanha, para citar apenas dois países. Bill Clinton e Tony Blair, por exemplo, viajam pelo mundo promovendo os interesses de seus países.
Lula pode e deve fazer isso. Para tanto, constituiu uma instituto dentro da legislação. Pode e deve fazer palestras, algumas cobrando, as empresas podem promover seminários e encontros, patrocinar ou não conferências e palestras.
O que não pode é se omitir e não defender o Brasil e seus interesses. No fundo, tudo isso é inveja pelo prestígio e pela liderança de Lula, que expressa a força do Brasil.
| Postado em 24/03/2013 ás 09:25 |
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