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Coluna de José Ribamar Bessa Freire |
| Em defesa de Dona Miloca |
- Dona Miloca não tem culpa neste crime! Nem os moradores de Novo Hamburgo! A culpa é exclusivamente do réu!
Essa frase solene, com três pontos de exclamação, caiu como uma bomba, quando foi proferida pela testemunha identificada como TAQUIPRATI, amazonense, colunista do Diário do Amazonas, nascido em Manaus num dia qualquer de 1947, filho de João Taquiprati e de Elisa Taquiprati. Foi na Ação Penal movida pelo Ministério Público Federal, cujo réu é Ivar Paulo Hartmann, brasileiro, casado, colunista do Jornal Novo Hamburgo e promotor de justiça aposentado, nascido em 15.12.1940, filho de Pedro Hartmann e de Miloca Hartmann, residente em Novo Hamburgo/RS.
Do local do crime
O crime do qual é acusado o jornalista Hartmann ocorreu a 40 km. de Porto Alegre, na pacata cidade de Novo Hamburgo (RS), banhada pelo Rio dos Sinos, numa região que já foi densamente habitada por índios Charrua, Minuano, Guarani, Carijó e Kaingang. A história desses povos poderá ser contada pelo Museu Arqueológico do Vale do Rio dos Sinos, cuja criação é reivindicada, entre outros, por Agnaldo Charoy, autor de "A Pré-História de Novo Hamburgo: A História dos Vencidos".
Os vitoriosos foram os colonizadores. Primeiro, vieram os portugueses de Açores, no século XVIII e, a partir do início do século XIX chegaram os alemães, seguidos dos italianos, que com seu trabalho e suor ajudaram a construir Novo Hamburgo, a "capital nacional do calçado". Todo mundo entende que o melhor agora é criar relações amistosas e pacíficas, como forma de reparar a violência histórica contra os índios e a usurpação de suas terras. Para isso, é preciso reconhecer a participação de todos na formação gaúcha e aprender a conviver com a diversidade.
Em Novo Hamburgo, a diferença é, quase sempre, respeitada. A cidade possui hoje um bairro chamado Guarani e sedia o Museu Tukuna, com um rico acervo dos índios do Alto Solimões, no Amazonas, ampliado com doação de peças artesanais da pesquisa de campo realizada por Angela Brock na aldeia Belém, em Benjamin Constant (AM), incluindo esculturas, máscaras, vestes, cerâmica e instrumentos musicais. Conserva ainda um pouco mais de 100 peças arqueológicas do Rio Grande do Sul. As crianças que visitam o Museu aprendem a conhecer e a respeitar os índios.
Mas a presença dos índios não se limita aos museus, como se fossem apenas figuras de um passado distante. Não! Eles continuam vivinhos da silva, inseridos no presente da região, como atestam a comunidade indígena Kaingang de São Leopoldo, da qual se emancipou Novo Hamburgo, e os guarani com suas duas aldeias fixadas em Riozinho.
Os índios convivem hoje muito bem com os descendentes dos europeus, que ergueram um Monumento ao Imigrante em homenagem aos alemães e, o que é mais importante ainda, edificaram na Praça do Imigrante um Monumento da Paz, construído com armas de fogo derretidas. A paz é uma meta que só pode ser atingida se, além das armas, forem derretidos também os preconceitos, com respeito às diferenças culturais. Na região, além do português, sobrevivem idiomas minoritários de origem europeia - o hunsrückisch e o talian, e de origem ameríndia - o guarani e o kaingang.
Essa diversidade é a base da busca do diálogo respeitoso, embora às vezes tenso e, por essa razão, o crime cometido por Hartmann repercutiu dentro e fora da região, porque deixou inseguros não apenas os que estão vivos, mas até mesmo os mortos. Como diz Walter Benjamin, "também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer", conforme constatamos no crime cometido.
Do crime
O fato delituoso descrito na peça acusatória aconteceu em outubro de 2008, algumas semanas após o ministro Carlos Ayres Britto ter dado parecer, no Supremo Tribunal Federal, favorável aos índios de Roraima que reivindicavam a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. O filho da dona Miloca, Ivar Paulo Hartmann, promotor aposentado, não gostou. Manifestou opinião contrária em sua coluna do Jornal NH no artigo "Raposa do Sol e outras raposas". Até aí tudo bem: liberdade de imprensa. Mas ele apelou para a ignorância e tratou os índios com ofensas como:
- "No Brasil de hoje, as tribos remanescentes são compostas por indivíduos semicivilizados, sujos, ignorantes e vagabundos, vivendo das benesses do poder branco".
Além disso, escreveu no jornal com todas as letras, sem exibir qualquer prova, um enorme besteirol: que "os Estados Unidos, a primeira potência da terra, querem apropriar-se dos recursos minerais de Roraima" e para isso contam com "os índios atrasados do Brasil-Norte". Só que, diante de acusação tão grave, em vez de se revoltar contra os gringos potencialmente expropriadores, Ivar falou fininho com eles, quase pedindo desculpas, e atacou os índios expropriados, com quem engrossou a voz.
O texto racista de Hartmann contraria as relações amistosas com os índios e reforça preconceitos ainda existentes. Por isso, o Conselho de Missão entre Índios - COMIN, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB) não deixou por menos e protocolou uma representação na Procuradoria da República em Novo Hamburgo. O juiz recebeu a denúncia e foi aberto uma ação penal, na qual o acusado teve amplo direito de defesa. Testemunhas foram ouvidas. Uma delas foi justamente o Cacique da Comunidade Kaingang de São Leopoldo, Alécio Garfej de Oliveira.
- "Perguntado, sr. Alécio respondeu que tomou conhecimento do texto publicado e, ainda que tenha sido escrito acerca de todas as comunidades do Brasil, atinge de forma direta os indígenas daqui. Disse não ser "vagabundo", nem "sujo", pois trabalha e sustenta sua família e que ficou muito triste como que estava escrito e que não concorda com nada. Disse sentir-se 'com uma discriminação total' e que ficou chocado ao tomar conhecimento das palavras escritas".
O Cacique, em cuja aldeia moram vinte e cinco famílias, declarou que "recebe lá qualquer pessoa sem discriminar cor ou raça". Disse que o terreno de 2,5 hectares em São Leopoldo foi reconquistado após muita luta e que sobrevivem basicamente do artesanato que vendem. "Que não é verdade que vivem 'às custas do poder branco', pois muitos vivem ali, na aldeia, embaixo de lonas, com muitas dificuldades. Disse que ficou sabendo do segundo texto publicado pelo acusado, mas que isso de nada adiantou, pois atingiu todo o povo".
O segundo texto foi uma tentativa de corrigir o primeiro. Nele, o autor alega que "não há de fato, nenhum cunho racista" naquilo que escreveu, onde "o povo indígena apenas é apresentado como frágil, pouco culto e consequentemente facilmente ludibriado por grupos que tem algum interesse subjacente". O cara ainda acha que existe povo muito culto e povo pouco culto. A emenda saiu pior do que o soneto.
Da sentença
Depois de tramitar quase três anos, a juíza federal Jacqueline Michels Bilhalva, no dia 28 de março de 2011 proferiu, enfim, a sentença. Deu um creu em Hartmann condenando-o, por incitar a discriminação contra índios, a prestar dois anos de serviços comunitários e a pagar 24 salários mínimos de multa, que será destinada à Comunidade Kaingang de São Leopoldo. A sentença é lúcida, oportuna e clara, apesar do latinorum que contém.
Os advogados de Hartmann recorreram. Na última quarta-feira, dia 14 de maio, após examinar o recurso, outra juíza federal Salise Monteiro Sanchotene, convocada para atuar na 7a. Turma do Tribunal Regional Federal - essa é a nossa tchurma - deu outro creu e confirmou a condenação, mantendo integralmente a sentença da colega. Bem feito! Se o Ivar tivesse escutado os conselhos e as palavras amorosas de dona Miloca, não passaria por esse vexame.
Tem gente que xingou dona Miloca, esquecendo que mãe é mãe. Ivar agiu como uma besta, mas dona Miloca não tem culpa pelas ofensas racistas de seu filho. Nem ela, nem os moradores de Novo Hamburgo que dessa forma ficaram expostos a todo o Brasil. Não foi isso que dona Miloca e Nova Hamburgo ensinaram para ele.
P.S. - A açao penal de número 2009.71.08.004943-2/RS ouviu as testemunhas citadas, menos evidentemente o Taquiprati, cujo depoimento não consta no processo e foi dado a posteriori, aqui no Diário do Amazonas, depois de proferida a sentença por duas juízas maravilhosas que conseguiram identificar o "fumus comissi delicti", assim mesmo, porque tudo que é dito em latim soa profundo: "quid latine dictum sit, altum sonatur".
Aproveitando a deixa, lembramos o que Cícero dizia no Senado Romano: "Hic culum cotiae sibilare", isto é, aqui é que o fiofó da cotia começa a assoviar. Que a sentença sirva de lição às bestas, antas e cotias que circulam por ai. O referido é verdade e dou fé.
| Postado em 19/05/2013 ás 13:40 |
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| A ex-irmã Gleisi e os índios |
- Quero ser freira - disse para sua mãe, dona Getúlia. O physique du rôle ela já tinha, faltava apenas a Congregação. Escolheu a das Irmãs Franciscanas Bernardinas com sede no Rio Grande do Sul. Isso foi em 1979, quando tinha 14 aninhos e vivia em Vila Lindóia, bairro de Curitiba. O pai Júlio, apavorado, brecou o ingresso da filha no convento. Não fosse isso, a Pastoral Indígena e o CIMI contariam com a militância da irmã Gleisi, que teria acumulado experiências e conhecimentos capazes de conferir, hoje, legitimidade ao seu discurso sobre os índios.
Mas ela perdeu qualquer legitimidade quando sepultou definitivamente a freira natimorta que simpatizava com a teoria da libertação. Com ela, enterrou também a líder estudantil, ex-presidente da União Metropolitana dos Estudantes de Curitiba que militou no PCdoB com o codinome de Rosa Luxemburgo, antes de se filiar ao PT. Pariu, em seu lugar, alguém que, embora sem entender bulhufas, pontificou nesta semana sobre os índios como se fosse renomada especialista. O corpo é o mesmo da ex-quase-freira, mas outra é a alma que traiu os princípios pelos quais sempre lutou.
A alma é da pré-candidata ao governo do Paraná, em 2014, Gleisi Helena Hoffmann, atual ministra da Casa Civil, que já está em plena campanha. Na última quarta-feira, ela foi convocada para a sessão da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara de Deputados, numa manobra da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que é uma espécie de bancada evangélica do agronegócio. Obrigada a comparecer, sob pena de incorrer em crime de responsabilidade, não resistiu às pressões dos ruralistas. Entregou o ouro aos bandidos.
Durante mais de seis horas, os bandidos atacaram a Funai e exigiram a suspensão das demarcações das terras indígenas. Ao invés de defender o governo federal, ao qual pertence, Gleisi afinou seu discurso com eles e anunciou que vai alterar as regras. Criticou também a Funai, órgão responsável pela delimitação, e se comprometeu a apresentar até o fim do semestre novo procedimento, que prevê a intervenção da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Agrário na definição das terras indígenas.
As raposas exultaram com a função a elas atribuída de cuidar do galinheiro. No caso do Paraná, a Embrapa já havia elaborado um laudo sobre 15 processos demarcatórios em curso, recomendando sua interrupção, com o argumento furado de que os ocupantes daquelas terras, em alguns casos não são índios de verdade, e em outros, a ocupação não é suficientemente antiga para justificar a delimitação de terras. A recomendação foi acatada nesta semana e os processos de delimitação de terras indígenas no Paraná - reduto político de Gleisi Hoffmann - foram todos suspensos.
Para não pensarem que está legislando em causa própria, a ministra da Casa Civil explicou que estudos referentes à ocupação de terras em outros estados foram solicitados à Embrapa, que já produziu relatório sobre as ocupações de índios em Mato Grosso do Sul, entregue à Casa Civil, com o mesmo argumento fajuto de que se trata de ocupação recente. Entusiasmados, os deputados presentes fizeram novos pedidos, que foram anotados pela ministra.
Desta forma, Gleisi Hoffman atropela o Ministério da Justiça e engrossa a campanha orquestrada recentemente em todo o território nacional pelo agronegócio que, de um lado, no Congresso Nacional, busca atentar contra os direitos constitucionais dos povos indígenas e, de outro, açula a opinião pública contra os índios, mantendo inclusive um blog com esse objetivo. Foram os ruralistas que mobilizaram mais de mil pequenos e médios empresários - alguns deles domingos, outros afifes - que aos gritos de "Demarcação, não. Sim à produção", vaiaram discurso da presidenta Dilma em Campo Grande (MS).
Desta ofensiva radical faz parte a tentativa de instalar uma CPI da Funai proposta pelo deputado Moreira Mendes (PSD-RO, vixe, vixe) com o objetivo de questionar os critérios usados nas demarcações. Criaram até um Movimento Contra a Demarcação da Terra Guarani de Morro dos Cavalos (SC) que fez camisetas com a inscrição "CPI da Funai Já!".
O objetivo é criar pânico em determinados setores da população, semeando desinformação para retirar a simpatia com a qual parte da opinião pública vê os índios, como vem ocorrendo em Santa Catarina, onde o agronegócio continua divulgando que se a reivindicação dos índios em Morro dos Cavalos for acatada, entre 5.000 a 10.000 guarani virão do Uruguai, Paraguai e Argentina "para ocupar terras do Brasil". Eles apelam para o terrorismo midiático:
- "Quanto vale a sua propriedade? Sua liberdade? O seu sonho? A água pura que você bebe? A mata o meio ambiente que o cerca? O marisco que você cria? Você vai ficar omisso e perder tudo isso?" - diz o panfleto anônimo que circulou na região, provocando ódio e hostilidade contra as comunidades indígenas.
Digamos que isso não é nenhuma novidade, pois esses cretinos agem assim desde Pedro Álvares Cabral. O novo, aqui, é o fato de eles receberem, agora, apoio justamente de quem, por lei, deve defender a Constituição, como é o caso da ministra da Casa Civil e de outros setores do governo federal. Eles são obrigados a defender a Constituição vigente, cujo artigo 231 obriga a demarcação das terras ocupadas de forma tradicional pelos índios. O mais estarrecedor é que o Partido dos Trabalhadores, no poder, empreste seu nome para tal empreitada contra setores historicamente sofridos da população.
- "Não podemos negar que há grupos que usam os nomes dos índios e são apegados a crenças irrealistas, que levam a contestar e tentar impedir obras essenciais ao desenvolvimento do país, como é o caso da hidrelétrica de Belo Monte”, denunciou a ex-quase-futura freira, Gleisi Hoffmann, sem dizer que grupos são esses e porque são irrealistas suas crenças. Ela não falou de outros grupos, apegados a outras crenças irrealistas, que usam o argumento da produção para contestar as terras indígenas.
De que adianta votar num programa do PT que anuncia a defesa dos desvalidos, dos deserdados, dos lascados, de que adianta eleger a Dilma se quem acaba governando são os ruralistas e o agronegócio? Por que alguém com a biografia de luta da ex-quase-freira aceita fazer esse jogo político sujo, puxando o saco de ruralistas?
- "Ela age com interesse eleitoral. Interrompe a demarcação para fazer a vontade dos fazendeiros que vão financiar sua campanha" afirma documento da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul, lembrando que Gleisi Hoffmann, provável candidata ao governo do Estado do Paraná em 2014, quando se candidatou ao Senado, em 2010, recebeu R$ 390 mil de empresas ligadas ao agronegócio.
Se a irmã Gleisi retornar ao convento - ainda é tempo - será recebida com festas e afagos. Nós a apoiaremos na luta contra os ruralistas. Mas se ficar mesmo do outro lado, daremos o troco. Atenção, paranaenses sensíveis e solidários com aqueles cujas terras vem sendo saqueadas e expropriadas há cinco séculos! Quem financia as campanhas eleitorais são eles. Mas quem vota somos nós! Não esqueçam disso em 2014. Güle güle kullan!
| Postado em 13/05/2013 ás 15:31 |
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| Confesso que trai |
(Enviado de Bogotá) Siempre recuerdo una antigua amiga colombiana que nació en Antioquia, a quien no veo hace algún tiempo. Por eso, me animó la esperanza de reverla cuando recibí la invitación de la Fundación Para el Fomento de La Lectura (Fundalectura), para participar de una mesa-redonda en un Congreso Internacional ahora, a fines de abril, en Bogotá, durante la Feria Internacional del Libro.
Antigua pasión, ay ay ay que tentación! Como dice el refrán, un viejo amor ni se olvida ni se deja. Después de tantos años, ahora con cabellos blancos, sin el ímpetu juvenil de otrora, me moría de curiosidad por saber si el tiempo había sido cruel también con ella. Tenía la esperanza de reencontrarla entera, tal como había permanecido en mi memoria, donde el reloj había parado. ¿Cómo sería ese redescubrimiento?
En el vuelo de Avianca que salió de Rio, iba pensando en ella. En mi recuerdo desfilaban las imágenes de cuando nos conocimos hace muchos años. Sucedió de repente, por acaso en el restaurante Entre pues en Chía, en los alrededores de Bogotá, durante mi primera visita a Colombia. Me la presentó una amiga común, investigadora del Instituto Caro y Cuervo.
Amores que se fueron
Fue amor a primera vista. Estoy viéndola como si fuese hoy. Aquel día, estaba especialmente seductora y – que me perdonen las feministas - apetitosa, bien compuesta, vistosa, un verdadero bocadito. Intercambiamos miradas cómplices. Para confundir más, la música del restaurante tocaba Espumas, un pasillo cantado por Garzón y Collazos:
- Amores que se fueron, amores peregrinos, amores que se fueron dejando en tu alma negros torbellinos.
Supe en aquel momento que algo irreversible estaba por acontecer. Tuve la nítida sensación de que mi mirada lánguida era correspondida y que nacía allí una pasión ardiente, fulminante. Ay, Dios mío, ¿por qué me diste una alma tan vulnerable, tan viciada en telenovela? Parece que la colombiana estaba esperándome desde siempre como Morena, la niña, esperaba a Theo, el galán.
El galán engaña a la niña en su viaje a Turquía. Los viajes que rompen nuestra rutina acaban estimulando las escapadas con el descubrimiento de nuevas relaciones. No soy hipócrita, ni quiero crear suspenso. Vamos directo al grano, a lo que interesa. Lo que sucedió fue muy intenso, dejó huellas indelebles en mi alma y marcas en el cuerpo.
Pero no se crea que es tan fácil, a pesar del tipo de formación judío-cristiana que tuve en la infancia que me da coraje para hacer una confesión pública tan embarazosa: sí, traicioné y fui infiel, especialmente porque atropellé una relación tan sólida iniciada en el Perú en 1970. Sí, prevariqué también dejando de lado compromisos afectivos heredados desde Manaos. Mea culpa, mea máxima culpa.
Sin embargo, lo más grave no es lo que pueda haber acontecido en el pasado sino lo que pasó ahora en 2013, una especie de reconstitución - digamos - del crimen. Cuando llegué a Bogotá, no la vi en el aeropuerto y al día siguiente no resistí. La busqué. Escogí para nuestro reencuentro el mismo escenario de cuando la conocí: el restaurante Entre pues en Chía. Le pedí al gerente que tocase Espumas.
- Igual que a las espumas / que lleva el ancho rio, / se van tus ilusiones / siendo destrozadas por el remolino./ Espumas que se van / bellas rosas viajeras...
Por ironía, la música que tocó después fue un bambuco, cantado por los mismos Garzón y Collazos que suspiraban: "Yo también tuve 20 anos".
Entonces me levanté, y con toda reverencia, extasiado, pude contemplar a mi Dulcinea. Después de tanto tiempo, no había cambiado mucho, por lo menos en la apariencia. Pude observar que una que otra piel le colgaba, pero la abundancia de carnes continuaba impresionante, así como el aroma que exhalaba, los adornos que la acicalaban. Su apariencia exuberante contribuyó para que yo prevaricase otra vez. Cuando Uds. vean esa imagen, me perdonarán.
Bandeja paisa
Pero al final, ¿quién es esa colombiana campesina santanderiana, sabor de fruta madura, tan seductora, capaz de alborotar todavía un viejo, ya no tan libidinoso? Tal vez la respuesta pueda estar en la poesía de Pablo Neruda, en su autobiografía Confieso que viví, o en un poema en que da la receta del caldillo de congrio, o cuando menciona el plato único: "La palabra pan se come, la palabra copa, se llena, la palabra nave navega".
Aprovechando esta licencia poética, puedo ahora revelar quién es la colombiana capaz de derribar cualquier virtud o cualquier fortaleza. Responde por el nombre de Bandeja Paisa. Se trata de un plato típico de la culinaria de Antioquia, un departamento al noroeste del país, que el gobierno colombiano intentó convertirlo en plato nacional, cambiándole el nombre en ‘bandeja montañera’. Precisamente este nombre deriva del hecho de que contiene tanta comida que no cabe en un único plato, solamente en una bandeja.
En verdad, son 14 diferentes platos en uno, pero en algunos lugares le aumentan otros siete tipos de carne. Tiene arroz, frijol, chicharrón, chorizo, carne molida, tomate, aguacate, hogao - una especie de guiso con cebolla, pimienta, orégano, azafrán, además de arepas - masa de maíz molido asada en hoja de bananera y patacón - banana verde, cortada en tajadas fritas y después amasadas y refritas, espolvoreadas con queso rallado. Tiene hasta huevo frito. Razón tiene el humorista brasileño Stanislaw Ponte Preta cuando dice:
- No existe ningún plato en el mundo que no mejore adornado con un huevo frito encima.
La bandeja paisa es una delicia épica. Es una bomba, una bomba del bien, pero siempre bomba. No es cualquiera que le puede hacer frente, se necesita estar preparado psicológica y gástricamente para el combate amoroso, porque derriba y aniquila a los débiles, pero si uno es aguerrido, sale fortalecido del combate, como dicen los versos cantados por Gonçalves Dias en la Canção dos Tamoios: "Si es duro el combate, a los débiles abate, pero a los fuertes, a los bravos, solo puede exaltar".
El menú del restaurante ofrecía variedad de platos colombianos, peruanos y hasta algo de la Amazonía colombiana. Sin embargo, bajo el encantamiento de la bandeja paisa, traicioné - confieso que fui infiel – al ceviche, al seco de cordero, al ají de gallina, al pirarucu, al tambaqui a la brasa, al pacu y al jaraqui. Comí, con alegría y entusiasmo ese plato intraducible a otras lenguas. Günter Schlamp, conferencista que participó del Congreso, intentó traducir bandeja paisa al alemán, pero no lo consiguió. No todo lo que se saborea con la lengua, puede ser traducido a otra lengua. Palatable sí, pero traducible no.
Los franceses que me perdonen, pero el cassoulet no llega a los pies de la bandeja paisa, cuyo equivalente, en Brasil, sería nuestra feijoada, a tal punto que aqui también se aplica lo que Stanislaw Ponte Preta dice sobre nuestro plato nacional:
- Bandeja paisa completa solamente con ambulancia en la puerta.
Confieso que traicioné y voy a traicionar de nuevo, cuando vaya a Manaos. Ya concerté un próximo encuentro con ella en el restaurante colombiano La Finca, que queda en el barrio Dom Pedro I, atrás de la caballería del Rocam. Aparece citado en una tesis de doctorado, en preparación, a ser defendida en la Universidad Federal Fluminense por Lúcia Puga, que colectó datos sobre la migración colombiana en Amazonas. Aviso que voy a rematar con una olla molida o dulce macho.
Bandeja paisa al son de Garzón y Collazos es algo antológico. Inolvidable. Funciona como un bajativo. A los dueños de La Finca, la pareja colombiana Jorge y Mónica Molina, les voy encomendando desde ya que se esmeren con la música:
- Ya nunca volverán / las espumas viajeras / como las ilusiones que te depararon dichas pasajeras.
| Postado em 29/04/2013 ás 21:12 |
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| Stradelli: As vozes da floresta |
O rio fala, a floresta fala e os índios falam através das fotos que o conde italiano Ermanno Stradelli (1852-1926) fez na Amazônia, no século XIX. Essas vozes serão ouvidas em São Paulo, a partir desta quarta-feira, 10 de abril, quando depois da abertura da exposição organizada pelo Instituto Italiano de Cultura no Memorial da América Latina, estreará o filme "O filho da cobra" do cineasta italiano Andreas Palladino, seguido de mesa-redonda com pesquisadores italianos e brasileiros. A exposição fica no Pavilhão da Criatividade, até o dia 20 de maio e bem que merecia ser levada depois a Manaus, junto com o filme, para ser apreciada pelos amazonenses.
Foi justamente lá, na periferia de Manaus, que Stradelli morreu, solitário e pobre, num casebre improvisado em leprosário. Foi enterrado no cemitério de Paricatuba, em 24 de março de 1926. Ele nasceu rico, num castelo na Itália, viajou para o Amazonas onde viveu mais de 43 anos. Com recursos próprios, percorreu florestas, rios e igarapés, aprendeu a falar o Nheengatu e se apaixonou pelas histórias que os índios contavam. Coletou e registrou mitos. No final, contraiu lepra. Com o corpo deformado pelas chagas, foi enxotado de hotéis, de pensões e até mesmo de hospitais, segundo seu biógrafo, Câmara Cascudo, que destaca o legado de imagens e narrativas registradas.
As fotos
Tive a sorte, em 2008, de visitar o Colégio Romano onde Stradelli deu palestras sobre o Amazonas. Guiado pelo documentarista Andrea Palladino, naquela ocasião consultamos nos arquivos da Sociedade Geográfica Italiana, em Roma, mais de 80 fotos das expedições do Conde pela Amazônia entre 1887 e 1889, algumas amareladas pelo tempo, mostrando rios, paisagens, índios, barcos, malocas, Manaus e suas ruas, avenidas, praças, a catedral, o porto. Numa delas, com uma legenda bem humorada feita pelo Conde - Como se acende um fósforo - aparece o botânico Barbosa Rodrigues, vestido de paletó e gravata, no meio do mato, entre os índios Waimiri.
Para essa exposição "A Amazônia de Stradelli - rios, povos e lendas sob o olhar de um explorador italiano" foram selecionadas 64 fotografias, mapas e cartas originais do Conde, que viveu com os índios e registrou o que viu. Ele entrava nas aldeias com sua farmácia portátil, equipamentos topográficos, caixas para recolher material ornitológico e entomológico, máquina fotográfica, microscópio e outros aparelhos que, inicialmente, assustavam os índios. Ele, então, levava cada índio para ver os instrumentos, tocar neles e verificar como funcionavam. Dessa forma, o tuxaua Mandu descobriu que “a máquina fotográfica servia também para matar formigas”, quando observou que os ácidos fixadores caídos em cima de um formigueiro agiram como um poderoso formicida.
- "Sou fotógrafo e minha primeira obrigação é para com o público pagante. Assim é o mundo" - escreveu Stradelli para a Sociedade Geográfica Italiana no dia 4 de março de 1889, explicando que gostaria de ter escrito um relatório sobre o Purus, mas não havia sido possível. Acrescentou: "Como, por enquanto, sou fotógrafo, ao invés de relatórios, envio-lhes fotografias" - conforme carta publicada por Teresa Isenburg, em seu livro "Naturalistas italianos no Brasil".
Mas quem começou a se interessar pela vida do conde Stradelli foi Câmara Cascudo, em 1930, quando viu três cadernos volumosos com milhares de verbetes escritos à mão. Era o dicionário Nheengatu-Português, Português-Nheengatu. Impressionado com a obra e com a vida trágica do autor, Cascudo decidiu correr atrás de mais dados. Numa carta ao então governador do Amazonas, Álvaro Maia, Câmara Cascudo se queixa da cortina de silêncio e da inexistência de documentos. Sobre o seu biografado, ele encontrou apenas dois artigos publicados, um no Diário Oficial do Amazonas, e outro em O Jornal de Manaus, além de breves notas em quatro livros.
- “Quase nada se sabia dele. Morrera em 1926 e seu nome se diluíra na sombra, como uma inutilidade. Raras citações. Raríssimos informadores. Percentagem altíssima em erros, enganos, omissões” - escreve Cascudo, que não encontrando documentos fidedignos, resolveu criá-los. Escreveu oitenta cartas a familiares e amigos de Stradelli: professores, jornalistas, viajantes, padres, bispos, embaixadores.
Muita gente respondeu com depoimentos, entre os quais o padre jesuíta Alfonso Stradelli, o caçula, que lembra as cartas mensais enviadas pelo irmão mais velho à sua mãe, com notícias detalhadas das viagens pela Amazônia e histórias contadas pelos índios. Embora o arquivo particular da família não tivesse sido consultado, o material coletado permitiu traçar um perfil do personagem. A infância de Stradelli no castelo de Borgotaro – residência senhorial da família, os estudos na Universidade de Pisa, os primeiros versos, o encantamento com os índios, as rotas e a cronologia das viagens pelos rios da Amazônia – tudo isso ganha contorno mais nítido no livro de Cascudo.
Memória do Conde
Concluída a biografia, seu autor convenceu o Governo do Estado do Amazonas a editá-la em 1936, com o sugestivo título – Em Memória de Stradelli. Esse livro teve o cuidado de revelar como é que o Conde fazia quando queria conhecer algum aspecto da vida da Amazônia: o trabalho de campo. Ele mergulhava na realidade e ia ver de perto, conversar com as pessoas, anotando e fotografando tudo.
Stradelli intuiu que o pesquisador decidido a conhecer uma sociedade que lhe é estranha devia partir do interior dela, impregnando-se da mentalidade de seus integrantes e esforçando-se para pensar na língua deles. Para entender um ritual onde rolava o caxiri, Stradelli deixou que os índios pintassem o seu corpo e dançou convictamente com eles na maloca de Miriti-Cachoeira, “bebendo repetidas cuias de capy entontecedor”. Aprendeu as línguas indígenas e viveu com os Tukano e Tariana, observando e registrando suas tradições. Com eles, comeu paca moqueada, beiju, quinhapira e “molhou os lábios no molho estonteante das pimentas”.
O resultado foi a publicação de textos dispersos por jornais e revistas especializadas da Itália e do Brasil, um poema sobre Ajuricaba, um vocabulário em língua Tukano, o dicionário clássico de Nheengatu, mapas geográficos do Amazonas, e versões variadas de mitos indígenas. Stradelli revelou que Jurupari era um herói civilizador, criador dos usos, leis e preceitos transmitidos pela tradição oral, retirando dele a imagem do diabo criada por missionários.
O filme de Andrea Palladino, que será lançado com a presença do diretor, mistura documentário e ficção para contar, em 50 minutos, a história de Stradelli, o filho da Cobra Grande, que ainda hoje, mais de cem anos depois, continua sendo lembrado pelos xamãs do Alto Rio Negro. Descreve como a única empresa de navegação que fazia a ligação com a Europa, em 1923, recusa a levar o Conde leproso para a Itália, o que o obriga a se internar no leprosário do Umirizal, onde conhece Nininha, filha de ex-escravos. É ela que, no documentário, narra as histórias de Stradelli que lhe ensina noções básicas de Nheengatu, a primeira língua dos amazonenses. Para isso, o documentário se baseia nos textos dos diários de Stradelli.
Muitas dessas questões serão discutidas nesta quinta-feira, 11 de abril, no Memorial da América Latina, em São Paulo, durante a Jornada de Estudos: Ermano Stradelli na Amazônia que acontecerá no Auditório do Anexo dos Congressistas, com a presença do Cônsul Geral da Itália, Mauro Marsili, do diretor do Istituto Italiano di Cultura Attilio De Gasperis e do presidente da Società Geografica Italiana, Franco Salvatori.
Os organizadores convidaram especialistas de peso como Sérgio Medeiros, da Universidade Federal de Santa Catarina, que tem várias publicações sobre o tema e vai falar sobre "O mundo das imagens na Lenda de Jurupari de Stradelli". Entre os pesquisadores da Itália estão Nadia Fusco, diretora do Acervo Fotográfico da Sociedade Geográfica Italiana, Ettore Finazzi Agró, da Universidade La Sapienza de Roma e Aniello Angelo Avella que estarão conversando com pesquisadores do Amazonas, entre os quais Antônio Loureiro, presidente do Instituto Geográfico Histórico do Amazonas, Selda Vale da Costa e este locutor que vos fala.
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PR0GRAMAÇAO
JORNADA DE ESTUDOS: ERMANNO STRADELLI NA AMAZÔNIA
11 Aprile 2013, Auditório do CBEAL - Anéxo dos Congressistas, Memorial da América Latina
Organizado pelo Istituto Italiano de Cultura, .em parceria com o Centro Brasileiro de Estudos da América Latina.
Participarão ilustres estudiosos e pesquisadores das principais universidades brasileiras e italianas que, sob diferentes perspectivas – histórico-geográfica, antropológica, literária, – propiciarão ao público conhecer a personalidade de Stradelli, extraordinário viajante que muito contribuiu com a etnografia da Amazônia e que pode ser considerado um verdadeiro mediador cultural entre as civilizações indígenas e o mundo dos “civilizados”.
Como parte da programação, haverá a apresentação do filme Ermanno Stradelli. O filho da cobra grande (2013) do cineasta italiano Andrea Palladino.
O encontro é aberto ao público e não necessita de inscrição prévia; serão fornecidos certificados de presença.
Programa
10h00
Prof. Dr. João Batista de Andrade, Presidente da Fundação Memorial
Min. Mauro Marsili, Cônsul Geral da Itália
Prof. Dr. Attilio De Gasperis, Diretor do Istituto Italiano di Cultura de São Paulo
Prof. Dr. Franco Salvatori, Presidente da Società Geografica Italiana
10h30
Prof.ª Dra. Nadia Angela Fusco (Responsável do Acervo Fotográfico da Sociedade Geográfica Italiana) : L'esplorazione italiana alla fine dell'Ottocento tra scoperte scientifiche, mire espansioniste e ambizioni personali.
Prof. Dr. Antônio Loureiro (Presidente do Instituto Geográfico Histórico do Amazonas; Cadeira Stradelli na Academia Amazonense das Letras) : As andanças de Ermanno Stradelli
Prof. Dr. Ettore Finazzi Agrò (Università degli Studi di Roma “La Sapienza”) : Passagens, passeios, passos perdidos: Ermanno Stradelli e os relatos de viagens
Prof.ª Dra. Selda Vale da Costa (Universidade Federal do Amazonas) : A fotografia de Ermanno Stradelli
15h30
Prof.ª Dra. Aurora Fornoni Bernardini (Universidade de São Paulo) : Ermanno Stradelli: vida, lendas e viagens
Prof. Dr. Aniello Angelo Avella (Università degli Studi di Roma Tor Vergata – Universidade Estadual do Rio de Janeiro) : Stradelli e os italianos na Amazônia da época da borracha
Prof. Dr. José Ribamar Bessa Freire (UNI-Rio, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e UERJ - Universidade do Estado do RJ) : Stradelli, o nheengatu e a literatura da floresta
Prof. Dr. Sergio Medeiros (Universidade Federal de Santa Catarina) : O mundo das imagens na Lenda de Jurupari de Stradelli
Conversa com o Dr. Andrea Palladino, diretor do filme Ermanno Stradelli. O filho da cobra grande - 2013)
18h00 - Apresentação do filme Ermanno Stradelli. O filho da cobra grande (52’), Sala Video do Pavilhão da Criatividade.
| Postado em 08/04/2013 ás 09:15 |
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| EL CHE PAPA |
Tudo o que acontece no Vaticano repercute na Paróquia de Aparecida, em Manaus, de forma quase instantânea. Ainda mais, quando se trata de mudança de papa. Se o Sumo Pontíficie, com todo respeito, soltar sem querer um pum discreto em Roma, ele vai ecoar pelos becos do bairro onde nasci. Sempre foi assim, mas agora a velocidade e o estrondo são maiores, com o poder da mídia, que usa as novas tecnologias para ampliar e espetacularizar o fato, digo o flato, infantilizando o telespectador, anestesiando e agredindo a nossa inteligência.
O Jornal Nacional (JN) da Rede Globo se especializou nisso de confundir fato com flato. Enviou um exército de repórteres a Roma e dedicou 71% do seu espaço só para a eleição do papa, segundo o Controle da Concorrência, instituição que monitora inserções comerciais para o mercado. No entanto, deu pouca informação substancial. Tudo foi formatado para evitar qualquer brote de pensamento crítico. Entrevistou na Praça de São Pedro turistas brasileiros, seminaristas, brazucas enrolados na bandeira do Brasil, socialaites verde-amareladas, num exibicionismo folclórico do tipo "Galvão, filma eu". Pura perfumaria! Saturação de fragrância.
Perfume demais agride o olfato, enjoa e dá dor de cabeça. O JN gastou tempo precioso para dizer que o papa tem só um pulmão, que ele recusou a limusine, que anda de ônibus, que pagou pessoalmente a sua hospedagem, que ama os pobres, que é carismático, que tem bom humor, que o sapateiro mexicano fez um novo modelo de sapato papal. Ou para mostrar a gaivota na chaminé da Capela Sistina, o que lhe permitiu especular sobre a presença do Espírito Santo.
A Igreja, coitada, sufocada em escândalos e problemas administrativos e de valores que angustiam 1.2 bilhão de fiéis espalhados pelo mundo - pedofilia, negociata do Banco Ambrosiano, roubo de documentos, cardeais ficha-suja, celibato dos padres, uso de camisinha, aborto, matrimônio gay, divórcio... E o JN nem seu-souza. A fé virou mercadoria. E espetáculo.
O JN seria mais jornalístico se enviasse um correspondente para acompanhar a eleição do papa, não da Piazza di San Pietro, mas da Praça Bandeira Branca, em Manaus. Lá comprovaria a importância de um novo papa e de como ele mexerá com a vida dos paroquianos.
Tiro por mim. Posso testemunhar historiando dois exemplos: eu e meu primo Caio. Ambos, de família inescapavelmente católica, vivemos a infância em Aparecida, mas sob diferentes papados, porque ele é mais novo do que eu. E isso influenciou de forma diferenciada nossas práticas e nossas mentes. Eu fiquei mais amargo, rancoroso e ressentido. Ele, mais aberto, mais light, mais afável. Por que?
Cruzada Infantil
O Papa Pio XII era quem comandava a Igreja Católica, nos anos 1950, quando entrei na Cruzada Eucarística Infantil. A Cruzadinha, como era conhecida, reunia meninos e meninas de 7 a 13 anos, tinha como padroeiro São Tarcísio, mártir da Eucaristia, e veio "trazer ao Brasil, um vigor novo e forte, dos pampas ao norte", com a participação de milhões de crianças.
Comecei como "aspirante", nas aulas de catecismo para a primeira comunhão. Usava, então, uma fita amarela com uma cruz azul no centro, presa na camisa por um broche. Depois, passei a "perseverante", quando ganhei uma faixa da mesma cor amarela que cruzava diagonalmente o tórax, do ombro esquerdo até o quadril direito.
O padre Cristovão, um americano simpático, organizava o catecismo aos sábados, as missas aos domingos, e de vez em quando uma procissão, onde a Marlene Bandeira, uma menina que era membro da Diretoria, vestida de branco, carregava o estandarte da Cruzadinha. Ela era responsável por redigir as atas das reuniões. Rezávamos e cantávamos o hino da cruzada: "Somos pequenos da Cruzada / Terna esperança do Senhor".
O outro hino era mais belicoso. O "Cruzadinhos amantes da Igreja" exaltava "a santa peleja, no combate do bem contra o mal", advertia que "para sermos perfeitos cruzados, sempre ao Papa estaremos unidos" e finalizava com um grito de guerra:
- "Eia! Sus! Cruzadinhos amigos / a marchar nos impele o dever / Sem temor afrontando os perigos / Pois lutar por Jesus é vencer".
Saíamos da igreja com os cascos afiados, cocainados, incendiados por um furor guerreiro, nós, os soldados mirins do Exército de Cristo. De lá íamos, muitas vezes, atirar bombinhas de São João, como se fossem granadas, dentro do templo Batista, na Xavier de Mendonça, em frente à padaria do seu Armando! Gritávamos "crente do cu quente" na hora da explosão. Era um horror. As crianças batistas choravam. Os cultos celebrados pelo pastor Chagas Carneiro, um homem bom de cabeça branca, eram interrompidos. Até que a Igreja Batista cansada de guerra se mudou para a praça da Saudade, fugindo assim do terrorismo paroquial.
As bombinhas não eram produto apenas da molecagem. O papa tinha culpa no cartório. O próprio nome infeliz - Cruzada - remetia aos guerreiros antigos, que marcharam ao Oriente para combater os infiéis e libertar os lugares santos. A Cruzadinha queria libertar as almas e as nações do jugo do demônio. Essa era a consigna estabelecida por Pio XII: fora da Igreja, não há salvação. E lá de Roma ele fazia nossa cabeça no Bairro de Aparecida. E tome intolerância. E tome agressão. Taí o Geraldão que não me deixa mentir.
Mais sorte do que eu, teve meu primo Caio. Ele só entrou no circuito depois da morte de Pio XII, quando João XXIII - aquele camponês gordo e bonachão - assumiu, pregando o ecumenismo, a convivência com a diversidade, o respeito à fé dos outros, a tolerância. Depois do Concílio Vaticano 2°, ele publicou em 1963 a encíclica Pacem in Terris, que falava dos "sinais do tempo", estabelecendo diretrizes para a opção preferencial pelos pobres, criticando o colonialismo, defendendo os direitos dos trabalhadores e a dignidade da mulher.
Jovens em movimento
O Caio se deu bem, porque nunca foi um cruzado, jamais considerou outras religiões como obra do Satanás. É que João XXIII, com experiência na Turquia onde havia sido delegado apostólico da Santa Sé - terá visitado a Capadócia? - extinguiu a Cruzada Eucarística Infantil, que era - aqui pra nós - uma aberração, pois usava crianças para o exercício da intolerância. João XXIII criou, para substituí-la, o Movimento Eucarístico Jovem. Meu primo, que viveu nesse ambiente pós-conciliar e moderno, tem outra cabeça, é um homem de fé, mas não carrega sentimento de culpa por agressões contra quem professa outra religião.
Agora, Francisco, o novo papa argentino assume tropeçando em um discurso ambíguo. De um lado, faz um gesto em favor do ecumenismo, afirmando querer melhorar as relações entre católicos e judeus, o que é positivo, mas de outro afirma que "quem não reza para Jesus, reza para o diabo". É um ecumenismo limitado, porque deixa de fora o Islamismo, o Kardecismo e as religiões afro-brasileiras e indígenas: Umbanda, Pajelança, Catimbó, Toré, Candomblé, Culto de Ifá, Encantaria. O Caboclo das Sete Encruzilhadas, penhorado, agradeceria ser tratado com respeito.
Vamos ver qual será o discurso predominante do novo papa - o da Cruzada ou o do Ecumenismo amplo e irrestrito - e como vai operar na cabeça dos paroquianos de Aparecida. A professora da PUC/SP, Maria José Rosado Nunes, que dirige a associação das Mulheres Católicas pelo Direito de Decidir, está preocupada com o autoritarismo e a posição de Bergoglio contra os direitos das mulheres. Ela recomenda o diálogo entre religiões, a liberdade de expressão, o respeito à diversidade entendida como uma releitura evangélica nos dias atuais e não como uma ameaça aos valores cristãos.
- Queremos que o pontificado de Francisco se deixe refrescar pelos ventos do Concilio Vaticano II e abra a possibilidade de uma revisão doutrinal e pastoral sobre o conceito de família, divórcio, celibato, sacerdócio feminino, direito das mulheres, união entre pessoas do mesmo sexo e uso de preservativo para a vivência de uma sexualidade livre e saudável - disse a socióloga.
Se isso vai acontecer ou não saberemos logo que Jorge Mário Bergoglio se livrar do bombardeio ao qual foi submetido, com acusações pesadas sobre sua cumplicidade com a ditadura militar na Argentina ou sua omissão na prisão de dois padres, considerados subversivos, e no acobertamento do roubo de Ana, neta de Alicia La Cuadra, ex-presidente das Avós da Praça de Maio.
Uma guerra de acusações e de denúncias tomou conta das redes sociais, obrigando a mídia a registrar quem acusa o papa e quem o defende. Graciela Yorio, católica praticante, irmã do ex-professor de teologia de Bergoglio, o padre Orlando Yorio, já falecido, diz que está "convencida de que Bergoglio delatou meu irmão aos militares" e que ficou com sua fé abalada depois da eleição do papa. "Essa igreja não me representa mais. Tenho um profundo sentimento de injustiça". Diz que pode perdoar, mas citou Santo Agostinho: "Primeiro vem a verdade, depois a compaixão".
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi jura que as acusações são feitas por "uma esquerda anticlerical", que Bergoglio, uma vez nomeado arcebispo de Buenos Aires, "pediu perdão em nome da Igreja por não ter feito o bastante durante o período militar", deixando de seguir o exemplo de dom Paulo Evaristo Arns no Brasil, e que "depois de ser interrogado pela justiça argentina, Bergoglio nunca foi acusado de nada".
Mas a situaçao se complica porque o Vaticano acaba de convidar Carlos Blaquier, dono do engenho Ledesma, para a posse do novo papa. Ele aceitou o convite, mas o Poder Judiciário não permitiu sua saída. Blaquier está sendo julgado por haver sequestrado 29 trabalhadores de sua empresa, que foram encaminhados para os centros clandestinos de tortura. Além disso, na última sexta-feira, um grupo de torturadores, encabeçados pelo general Menendez, se apresentou ao tribunal de Córdoba com o escudo do Vaticano no peito, saudando o novo papa.
O papa Francesco alerta - segundo a Folha de São Paulo - que a Igreja não é uma ONG, mas devia ter dito também que não é uma OG, uma organização governamental. De qualquer forma, resta esperar que a verdade aflore. Por enquanto, só me resta recorrer à memória da Cruzadinha Infantil e dizer que "eu, Marlene Bandeira, lavrei a presente ata que será assinada por mim e pelos demais membros da diretoria".
P.S. A foto foi "pirateada" na internet.
| Postado em 17/03/2013 ás 08:19 |
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