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Coluna de Fausto Wolff |
| A última crônica de Fausto Wolff: 'À sombra do medo em flor' |
JB Online
RIO - O escritor e jornalista Fausto Wolff morreu nesta sexta-feira, dia 5, no Rio de Janeiro. Confira a seguir a última crônica do colunista, publicada nesta sexta no Caderno B, do Jornal do Brasil.
Fausto
À sombra do medo em flor
Dêem a chefia da portaria ao mais dócil empregado e logo ele se tornará um tirano
Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos. Seremos sempre caricaturas, títeres perdidos na ventania, sempre com cara de “desculpe, não era bem isso que eu queria dizer”.
Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar.
Uma dessas imperfeições é a constatação de que, à medida que envelhecemos, vamos nos tornando mais medrosos. Quando deveria acontecer o contrário: à medida que envelhece, o homem deveria tornar-se mais corajoso, porque mais sábio, mais justo, mais conhecedor dos seus deveres e direitos.
Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, todos os dentes e era um sujeito bonito, era também dado a papagaiadas. Certa vez, ainda noivo (havia noivados e até virgens naquela época), estava no falecido Bar Castelinho, tomando um chope com minha futura mulher, quando um dos donos de uma revista para a qual eu escrevia sentou-se à nossa mesa e se comportou de forma grosseira.
Gentilmente, mandei que se retirasse, pois já tinha de aturá-lo o dia inteiro e não pretendia fazer isso quando estava namorando. Fui despedido no dia seguinte. Na hora, a sensação foi boa, mas eu era muito jovem para perceber que os rateios estavam contra mim.
Outra imperfeição: ser burro, viver e conhecer o mínimo do seu potencial energético interior e, além disso, ter de suportar a consciência da sua mortalidade. Algumas pessoas percebem isso, mas, como são ignorantes, aceitam o princípio nada otimista de que a vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora.
Hoje em dia, em pleno século 21, a grande maioria de escravos aceita essa condição fingindo não saber dela, fingindo que a vida é assim mesmo. Uns entram com o pé e os outros com o popô, uns com o pescoço e os outros com a foice. Excetuando os psicopatas que, aparentemente, já nascem tortos, alguns poucos escravos se rebelam e saem fazendo bobagens: roubando, assaltando, matando, estuprando.
Quando isso acontece, todos ficam com cara de tacho, fingindo que não têm nada a ver com o peixe. Em seguida, os políticos pedem “responsabilidade criminal aos 16 anos”. Logo, pedirão responsabilidade aos 15, 14 e cosi via. Cosi via significa que aumentará o número de crianças assassinadas ao nascer; aceitação literal da loucura religiosa de que o homem já nasce pecador. Claro que essa lei só valerá para crianças pobres.
Sou contra a pena de morte, mas, como a tragédia, mesmo quando coletiva, é sempre individual, o que eu faria se matassem alguém indispensável à minha vida? E se alguém tirasse a vida de uma pessoa e, ao fazer isso, me deixasse aleijado interiormente pelos anos que me restam?
Como não acredito na Justiça e também não acredito que podemos julgar oficialmente os efeitos sem punir as causas, eu simplesmente mataria o assassino. E o faria pessoalmente, com as minhas mãos.
Em seguida, cidadão exemplar que sou, me entregaria ao juiz. Não teria resolvido nada, mas como sou humano em estágio ainda bárbaro, pelo menos isso atenuaria um pouco a minha dor.
Como vejo a coisa hoje? Dêem a chefia da portaria de um edifício ao mais dócil dos empregados e logo ele se tornará um tirano para agradar ao poder imediatamente acima dele.
O poder ama a si mesmo e aos poderosos. É tão implacável na sua injustiça que consegue convencer mais de 100 milhões de brasileiros adultos de que devem escolher entre o algoz da esquerda e o da direita. E nada acontece.
| Postado em 06/09/2008 ás 01:37 |
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| Do diário |
Minha mente quer produzir e não me deixa dormir. Meu corpo cansado quer dormir. Ambos tentam me proteger. Uma para a posteridade e o outro para a vida.
Creio sinceramente que não venci na vida por ter seguido os conselhos do meu pai – não roube, não minta, não dê a bunda. Houvesse contrariado o velho poderia ter tido muito sucesso na política, na área econômica, no jornalismo ou no show business.
Não se pode nem falar em democracia enquanto o Estado – não importa qual – não garantir casa, comida, hospital, escola, trabalho, transporte, educação a todos os cidadãos. Qualquer outra coisa é escravidão.
Continuei exercendo meu ofício sem, porém, jamais perder de vista o fato de que escrever bem pode ser importante mas não é essencial. Essencial é a sinceridade. Pelo menos tentar ser sincero de todo o coração. Isso, em si só, já é um estilo. Um livro que não é o autor não serve para nada. Ousaria dizer, como Walt Whitman, que quem toca num livro meu está tocando num homem.
Ora, a dialética platônica contém em si – acabei descobrindo – sua própria destruição. Se apenas tem valor moral a matéria original criada por Deus, cabe a pergunta: quem inventou Deus senão o poeta? Prefiro ficar com Aristóteles – tão genial quanto Platão e que, paradoxalmente, era capaz de afirmar que os homens têm mais dentes que as mulheres, quando lhe bastava examinar a boca de uma mulher para tirar a dúvida. Ainda assim fico com Aristóteles que vê na tragédia a passagem do homem da boa fortuna para a má fortuna, motivada puramente por uma falta ocasional em algum momento de sua vida em que tomou a atitude que o conduziria ao corredor sem portas que acaba no abismo e a que chamamos tragédia.
Na missa de sétimo dia da morte do meu pai, em Porto Alegre, na velha Igreja Evangélica Luterana, um templo simples, ouvi um pastor, formado em teologia, proferir um comovente sermão. Tratava-se da lenda de Jesus que ao ser procurado pela mãe na sinagoga onde dava lição aos doutores, teria perguntado: "O que queres, mulher, não vês que estou na casa do meu pai?" Segundo o pastor cujo nome não lembro mas que certamente imprimia um espírito de missão ao seu trabalho e conhecia minha família – paroquianos antigos – meu pai fora para a casa do seu pai.
Convenhamos: é muito pouco, se levarmos em conta que o mundo oriental, principalmente, árabes, chineses, japoneses e hindus, possuíam alta ciência, teatro, literatura enquanto que o nosso mundo cristão nos presenteava com guerras de reis medíocres, com a miséria, a fome, a peste e a sujeira. Da relação acima escapam apenas alguns poucos nomes: o poema Beowolf, Dante Alighieri, Petrarca, Boccacio, Chaucer, Villon, Fernando de Rojas e Erasmo de Roterdam. É claro que durante esses mil anos surgiram milhares de livros mas esses discutiam o sexo dos anjos, a cara do diabo, se era preferível morrer a trabalhar num domingo e outras estultices. O maior crime cometido contra a humanidade foi o estúpido incêndio de Alexandria.
Com raras exceções, prefiro os cavalos aos seres humanos, por isso se você não tiver interesse no assunto pule para a 342ª noite, pois esta entrará pela madrugada. Os ancestrais do cavalo, ao contrário dos nossos, estão bem documentados e datam de 65 (vamos dar um desconto, afinal o que são uns números a mais ou menos?), 66 milhões de anos. O cavalo, no princípio, era do tamanho de um coelho médio, tinha cinco dedos em cada pata e as costas arqueadas. Deram-lhe o nome de eohippus ou papaizinho. Fósseis já foram encontrados na América e por toda a Europa. Cinqüenta mil anos aqui, 50 mil anos ali, seu tamanho e seus dentes – Grama!. Grama! Grama! – foram aumentando mais e mais até tornar-se a bela criatura que é hoje.
Em 1976 eu ensaiava um grupo de atores dinamarqueses, ingleses e norte-americanos que apresentariam Hércules furioso, de Ésquilo, no bosque do Castelo do Conde Moltke, na ilha de Mon, na Dinamarca. Estávamos em março e a temperatura beirava os cinco graus. Meu quarto ficava numa ala do castelo, distante uns cem metros do banheiro. Como o frio era intenso, eu costumava deixar umas garrafas vazias de cerveja ao lado da cama. Sempre que sentia vontade de mijar, o fazia numa das garrafas. Certa madrugada, ao retornar de Copenhague, o filósofo Jurij Moskvitin, também hóspede do castelo, entrou no meu quarto e ao ver uma garrafa quase cheia ao lado da minha cama, bebeu metade do conteúdo num gole.
Acordei enquanto ele bebia e perguntei:
– Deste para beber mijo, agora, Jurij?
E ele imperturbável:
– Era mijo?
– Era.
– Pois não era de todo ruim.. Mas agora levanta e vamos tomar umas cervejas de verdade na cozinha
| Postado em 22/07/2008 ás 01:52 |
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| Ironias à parte |
Como dizia Brahms sóbrio e Roniquito de porre: "Esgotei minha coleção de insultos. Se esqueci alguém, por favor, perdoe-me e considere-se insultado. No bom sentido". É este "bom sentido" que faz toda a diferença entre a falta de educação. Não só o sarcasmo e a ironia. Os leitores inteligentes entendem e sofrem. Os não inteligentes (duvido que existam, com exceção do Marcone e do Leal) tentam ser sarcásticos quando só sabem ser mal-educados. Se você estiver desatento, o sarcasmo pode ser infeccioso como a AIDS e a corrupção. Direi apenas que é uma vergonha, na certeza de que o nosso bom Casoy não se sentiria plagiado. Um exemplo: digamos que ele trabalhe para uma emissora que combata o governo. Dará a notícia da compra do Air-Lula e depois exclamará "É uma vergonha!". Se amanhã ele trabalhar num canal governista, o que fará aquele seu sorriso matreiro-paulistão ao anunciar que o sr. Silva mandou instalar duas pistas de tênis no avião. Comentará que às vezes o presidente exagera, entre outras coisas porque não sabe jogar tênis. Houvesse comprado um porta-aviões, até um campo de tênis seria compreensível. Enfim, são essas pequenas vicissitudes firúlicas que dão frescor à vida e fazem a alegria do povão.
Semântica, glotologia, lingüística são como andar de bicicleta. Ou você aprende até os 5 anos ou não aprende mais, como é o caso entre a maioria dos nossos políticos, que só sabem andar de chofer. Pergunto-vos, leitores, como classificariam o fato de o mensalão (que vem tendo empanada sua popularidade pelo CPFM, CTT e Pacote, Vale Ração e Fome Zero) poder continuar sendo julgado até 2014? Não cabe um insulto? Algo assim como um "Vai trabalhar, vagabundo!" Além do salário líquido que daria para sustentar a merenda escolar de 10 Cieps (caso ainda existissem), receberão, comes, bebes, cheires se os banheiros não estiverem lotados, as comissões e jetons de costume, automóveis para as testemunhas e passagens de avião para a maioria que não vive em Brasília. No final, se não morrer o governo, os réus, as testemunhas, o presidente, o relator, morre o mensalão. No barato custará ao povo uns três mensalões originais. Na Câmara e no Senado nossos lingüistas mostrarão suas carinhas na TV diariamente, recitando o papel decorado, sejam representantes da oposição ou do governo, pois todos pertencem ao PU, Partido Único.
Outra palavra que me invoca, mas que não sai da pista de danças das diversas casas do povo (vejam, isso foi uma ironia, pois se o senado, as câmaras federal e estaduais e municipais fossem mesmo do povo, seriam dirigidas por contínuos, ascensoristas, garçons e aquelas moças de belas pernas que vivem dizendo coisas nos ouvidos dos políticos) é hipócrita. Paulo Ramos, um deputado estadual pelo PDT e um homem de bem, decidiu conceder-me a a honraria máxima da casa que é a Medalha Tiradentes. Como a maioria da assembléia é composta por flores que não se deve cheirar, imagino as inúmeras reuniões para ver se me davam a corda do dentista militar ou sua medalha. Ganhou a medalha e fui recebê-la com prazer, uma vez que os outros agraciados são excelentes pessoas honradas e excelentes profissionais nas suas áreas: José Augusto Nunes, Argemiro Ferreira, Silvio Tendler e Villas-Boas Coréia. Fiquei contente em ver na platéia Afonso Arinos de Melo.
As reuniões, disse eu, não foram hipócritas porque quem queria votar a favor votou. Quem queria votar contra votou contra. Creio que, à exceção das medalhas, que não são de ouro, o custo foi mínimo.
Morreu Jeferson Peres, um intelectual, um idealista, um grande senador. Em compensação, Roberto Jefferson aparecerá na TV num programa que se chamará, se não me engano, A hora do povo – que conseguiu ser tão canalha que até mesmo os condescendentes procuradores o consideraram um caso de policia e foi retirado do ar. Nataniel Jebão disse-me uma vez que Roberto Jefferson sofria de hemorróidas no cérebro e só por isso tinha tanta sorte. Perdeu no mensalão e está mais rico do que nunca.
| Postado em 09/07/2008 ás 02:12 |
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| Oi! |
Não É que a Assembléia do Rio teve a extrema coragem de me conceder segunda-feira passada a Medalha Tiradentes? Unanimidade não foi, pois tem muita gente ali que preferiria botar uma corda no meu pescoço. Fiquei emocionado e obrigado aos que votaram em mim e aos que votaram contra mim. Aparentemente a hipocrisia andou distante das reuniões.
Depois da internet tornou-se difícil a comunicação. As pessoas desaprenderam o falar. A Telemar oferecia um serviço lastimável mas o povo acabou acostumando-se à tortura. Agora, dizem-me, a Telemar foi vendida para a Oi e há três dias meu telefone não funciona. Tenho me comunicado via janela, ou seja, fico em frente à janela e vou dizendo "Oi" para as pessoas que passam. Estamos todos discretamente civilizados mas o diálogo é mais enxuto do que nas peças de Beckett.
Os nossos algozes-escravos estão se comunicando de forma bem eficiente. Aconteceu o que venho dizendo há anos: grupos ilegais (os legais já metem medo, imaginem!) de segurança estão se espalhando pela Zona Sul e logo tomarão conta do Brasil, uma vez que o Rio é o tambor da nação. Está na hora dos madamos e madames se comunicarem. Perguntarem, por exemplo: "Adianta pagar guarda-costas se os milicianos, a polícia e o tráfico pagam mais?"
Ainda no terreno da comunicação. Se você sente enjôos e não consegue vomitar sugiro que assista um capítulo de novela dessas que dão mais para o Ibope (epa!), sem esquecer a publicidade que é oleosamente nauseabunda. As novelas são muito ruins mas a propaganda que nos intervalos permanece o tempo que bem entender, é indiscutivelmente pior. Tratam os leitores como asnos e se comportam como se o país fosse dirigido por jovens adolescentes idiotas. Os velhos, coitados, aparecem em anúncios de companhias de seguro ou asilos. Aparecem como crianças oligofrênicas. jogando pique e bolinha de gude. Depois um idiota que bola um troço desses, vai para casa e escreve um poema. É de lascar! Veja um capítulo inteiro, mais anúncios, e verá que sua saliva fica mais grossa e a náusea chegará à sua garganta. Depois corra para o banheiro.
A inflação, por exemplo, tenta se comunicar conosco de todas as maneiras, principalmente, no comércio e na área de serviços. O governo, entretanto, tenta disfarça-la para passar despercebida como figurante em filme de terremoto. Chega o dia, porém, em que ela tem de botar a cabeçorra para fora e a asnática classe média desconfia que está pagando o rato. (é rato mesmo, revisor). Meu caso, o exemplo: se aumentarem meu aluguel vou morar na rua. Isso, depois de 52 anos de jornalismo honesto, jamais tendo perdido um processo. Não é bom exemplo para nenhum jovem repórter. Solicitado a falar sobre o assunto, seu Luiz disse: "Eu não sei de nada. Não sei de nada mas os culpados serão punidos rigorosamente." Logo mais, ao tomar vinho com Meirelles e Manteiga perguntará: "Me expliquem esse negócio de inflação."
Ainda no terreno da inflação: antigamente polícia só matava pobre, pois sabia que tudo daria em nada. Quando os ladrões de colarinho branco decidiram invadir descaradamente seu curral, ela acabou se associando a qualquer tipo de banditismo e a justiça. Agora não livram a cara de ninguém. Há dias, o estudante Daniel Duque, de 18 anos, foi morto a tiros pelo PM Marcus Pereira do Carmo, não muito mais velho, que era segurança do filho de uma promotora!!! O óbvio está acontecendo na cara da elite e da classe média que finge que não é com ela.. O povo quer o mínimo e a classe média reconquistar sua dignidade.
E dizer que quando seu Luiz assumiu as manchetes eram reservadas para as abobrinhas que ocorriam durante o futebol dos ministros na Granja do Torto. Agora não jogam mais ou se jogam usam moletons Super-Gigantes com o máximo de espaço. Mesmo assim não conseguem esconder a grana. Por que não depositam num banco?. Porque não têm confiança. Preferem os bancos suíços que só aceitam dinheiro rigorosamente limpo. O dos políticos em geral leva dias na lavanderia e ainda assim fica uma sujeirinha aqui e outra ali, resquícios da cueca.
PS: Já fui do ramo e sei que essa vida é duríssima. Minha solidariedade ao pescador braçal, cuja profissão começa a agonizar. O governo quer aumentar a produção em cativeiro e reduzir o preço do pescado. E o pobre do pecador? Que vá comprar sardinha no supermercado. A idéia de uma cooperativa gerada pelo governo e pelos pescadores não lhes diz nada? Falta de comunicação e excesso de ganância. Acabou, até amanhã se Deus quiser, eu volto pra te ver ó mulher!
| Postado em 05/07/2008 ás 09:38 |
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| O pirata, o juiz e as melancias |
Marcelo Carotta tem mais de 40 anos e, como jornalista, trabalhou em Minas toda a sua vida. Como jamais foi colunista amestrado, desses que quando estão muito irritados com alguma patifaria escrevem "homessa, que maçada", jamais conseguiu ficar muito tempo nos jornais, revistas e rádios em que trabalhou. Abriu um botequim onde bebia mais que os clientes que, eles mesmos, punham o dinheiro da conta na caixa registradora e faziam o troco. Não demorou a falir. Decidiu fazer um sítio na net, um dos mais lidos – Pirata Zine – para ver no que dava enquanto ganhava uma graninha aqui e outra ali. Seu sonho, como os de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Zuenir Ventura, Ziraldo, Drummond, sempre fora vir para o Rio onde teria, pensava ele, mais oportunidades. Ficou em Minas cuidando do pai com câncer há anos e quando o velho morreu botou o pé na estrada. Convidei-o para ser o sub-editor do meu sítio eletrônico – O G/lobo e lá está ele assistindo o editor Jean Scharlau. As coisas andam que é uma beleza. Sai até artigo me esculhambando.
No Rio, tentou em vão todas as redações de jornais Algumas não o aceitaram por escrever bem, o que é verdade, outras por ser muito velho, outras porque só podiam pagar salário de estagiário ou não pagar nada. Houve até uma que o botou para correr por ter sido recomendado por mim. Verdade é que ele embora tenha uma excelente base cultural e ser um grande repórter, continua no Rio. Mas seus gritos não atingem nem os cachorros que riem das suas tentativas de acabar com eles.
Por que conto esta história pela qual todos passamos, até mesmo o velho Machado, homenageado recentemente com uma bela biografia de Daniel Piza e pela Flip, para a qual este ano, tenho certeza, me convidarão? Conto porque quero e, como não sou açougueiro, não necessito de ganchos embora esta crônica tenha muitos, como todos perceberão.
Pessoal que me acompanha sabe que não faço bom juízo da nossa Justiça decretada por ricos para ricos. Contei casos de nossos irmãos brasileirinhos que estão em cana, inocentes, sem julgamento porque às vezes o juiz ficou doente e outras decidiu ir para o motel com a namorada. Chegou então um e-mail do Carotta contando-me o caso de um juiz decente que faço questão de publicar, pois ele deveria ser o nosso ministro da Justiça. Duraria algumas horas, creio.
A Escola Nacional de Magistratura incluiu, em seu banco de sentenças, o despacho incomum do Juiz Rafael Gonçalves de Paula, da 3.ª Vara Criminal da Comarca de Palmas, em Tocantins. A entidade considerou de bom senso a decisão de seu associado, mandando soltar Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha. É o auto de prisão em flagrante de Saul e Hagamenon, detidos pelo roubo de duas (2) melancias. O promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.
Agora vejamos a obra-prima que é a decisão do Rafael:
"Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Gandhi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito Alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados e dos políticos do mensalão deste governo, que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional)...
Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém.
Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário, apesar da promessa deste Presidente que muito fala, nada sabe e pouco faz.
Poderia brandir minha ira contra os neoliberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia...
Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra...
E aí? Cadê a Justiça nesse mundo?
Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade.
Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas. Não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir...
SIMPLESMENTE MANDAREI SOLTAR OS INDICIADOS... QUEM QUISER QUE ESCOLHA O MOTIVO!
Expeçam-se os alvarás de soltura. Intimem-se".
RAFAEL GONÇALVES DE PAULA
Juiz de Direito
A mentira e a loucura
Menti muito na infância. Descobri – certo de que só eu pensara naquilo até então – que afirmar ter feito uma façanha e tê-la feito traziam como conseqüência os mesmos elogios. Apesar disso, a satisfação não era a mesma, pois eu sabia da mentira. Quando, no primário, ganhei uma medalha pela melhor redação sem precisar mentir, a gratificação foi muito maior. Nunca mais menti, a não ser em questões fundamentais e que não feririam ninguém. Você não precisa informar ao vizinho que a mulher dele é dadeira, já que isso não vai deixar ninguém feliz e muito menos você, o dono da verdade. Esta eu posso criar à vontade na minha literatura. No jornalismo não se pode mentir e quem mentir deliberadamente, dependendo dos estragos, deveria ir para a cadeia.
Dos políticos brasileiros, 99% mentem. Uns mais que os outros, uns em questões venais, a maioria em questões capitais. Os mais velhos ensinam, e os mais novos aprendem. De um modo geral, as pessoas que elegemos não merecem a nossa confiança. Às vezes algum homem de bem chega à Câmara e ao Senado: se não for cooptado pelos grandes pinóquios, será ignorado, não participará de comissão, jamais se mostrará na TV e no ano seguinte não será reeleito. Havia partidos confiáveis, como o PDT, que tinha excelentes quadros, mas que está se tornando um partido de aluguel. Brizola jamais aceitaria esta aliança com o PT e todos os demais partidos, com exceção do PSol, uma agremiação pequena e socialista, que assim deve permanecer para ser a referência para as novas gerações. Finalmente temos o PCB, liderado por esse maravilhoso dom Quixote que é Ivan Pinheiro. Acho que devemos voltar a ensinar aos jovens que o PCB reconhece seus erros e, mais que um partido, é uma filosofia cristã humanista, que vê no homem a razão que lhe dá significado. No PMDB destaco Pedro Simon e Ibsen Pinheiro, que não têm mais desculpas para permanecer naquela cova de serpentes.
O melhor mentiroso até agora foi FHC, um mestre da mentira e um homem ferido de nauseabunda vaidade, um sociólogo que não acredita em si mesmo. Levou mais de 30 anos para confessar que tudo o que escrevera era mentira. E, além disso, é um chato, mente pelo prazer de mentir. Münchausen e Pinóquio faziam isso, mas não eram genocidas. FHC extrai prazer da mentira. Extrai prazer da impunidade. Ele sabe que as pessoas não acreditam nele, mas sabe também que não podem fazer nada, e isso o leva ao orgasmo psicológico. Como disse o genial Nelson Sargento: "O nosso amor é tão bonito. Ela finge que me ama e eu finjo que acredito."
Sem confiança, votei em Lula das duas ou três vezes em que Brizola chegou em terceiro por erros primários. Lula sempre me pareceu um ator repetindo palavras escritas por seus "intelectuais" de "esquerda", a essa altura já riquíssimos, não mais na casa dos papais com a foto de Che na parede. A boba classe média me pareceu um daqueles personagens de Frank Capra iludidos pela classe dominante. Fiz sua campanha, mas, assim que apareceu com o demagógico Fome Zero, o mensalão, a CPMF e agora a CSS, deixou-me num dilema. É alguém que se faz de ingênuo para enganar seus inventores? Ou é isso que sempre aparentou ser: um grande mentiroso, maior ainda que FHC, porque é apoiado por três parcelas da população: os mortos de fome, que recebem ração e se identificam com ele; os "intelectuais" que o criaram para realizar seu sonho de poder; e finalmente uma minoria, como Paulo Paim (PT-RS), que, creio eu, reza todas as noites para acreditar, pois caso contrário sua vida decente e sua brilhante carreira terão perdido boa parte do seu sentido.
Depois de elogiar todos os ladrões que o cercam – Valério e mais tarde Geisel, Médici e os usineiros – e depois que anunciou a CSS, vi que a bandalha havia vencido. Era tudo um plano para tirar dinheiro para a campanha. Digo campanha pois ainda não vi governo. Não o governo até as próximas eleições, quando a bolsa comida será aumentada.
Estou esperando o discurso de Lula para explicar a última malandragem. Como FHC ele mentirá, dirá os mesmos lugares-comuns de sempre, falará sobre futebol e até fingirá que está sendo boicotado pelos hiper-milionários que o apóiam. Agora, porém, a coisa é diferente. Não creio que a voz roufenha, o olhar enviesado, o cabelinho "Vem cá garoto" ainda consigam enganar a maioria. Por trás da mentira, vejo com muito temor algo realmente assustador. Parece-me um garoto pobre, como eu já fui, esquecido dentro de uma sorveteria, lambuzado, feliz. Sem livros e sem consciência que o atrapalhem. É trágico no sentido de não ter volta, de acabar no inferno. Atrás da mentira vejo o brilho insano da loucura que não duvida do que diz e faz. Só que seus brinquedos agora são a Varig, a Amazônia, os compromissos com a América Latina que quer ser livre, assuntos sobre os quais não entende. Mas o que importa isso se todos os seus parentes e amigos são arquimilionários, se o povo confia nele e ele está inaugurando uma dinastia (seu filho comprou há semanas uma fazenda de US$ 7 milhões). Infelizmente, destruíram o povo antes.
Urano comia os próprios filhos
São poucos mas existem. Em qualquer jornal sério do mundo você poderá ler sobre os inúmeros campos de concentração de Bush espalhados pelo Globo. O baixinho maluquinho da Fraternidade Skull and Bones, de Yale, que manda nos Estados Unidos está tranqüilo em relação à mentalidade americana (não se incomodou com a cobertura do jornal Marinho) de dizer que, eventualmente, a tortura é necessária. Isso significa tortura, humilhação, estupro, assassínio. Isso aconteceu em Ghraib e Guantanamo, onde as evidências eram tão evidentes (gostaram?) que os jornais tiveram de dar publicidade. Numa das fotos obrigam um pai iraquiano a ver seu filho de 12 anos ser estuprado vezes seguidas enquanto outros monstros mijavam sobre a cabeça dele (pai).
Segundo as autoridades americanas, não há crime enquanto não se souber quem foi o mandante, estilo mensalão, que, porém, só matou de fome. Chegaram até o ex-secretário de Defesa Rumsfeld, mas de lá não passaram. A máfia é uma grande escola.
Foi para esse império de O Coiso que nosso filósofo oficial, Caetano Veloso, pediu penico, dizendo que gosta mais da liberdade americana do que da ditadura cubana. Ô Caê, não precisa fazer a gente passar essa vergonha. A gente já desconfiava que quando cantavas Soy louco por ti América, vestido de seda persa, que te referias à América do Norte; quando falavas do hombre muerto, não falavas de Guevara, mas do morto dentro de ti. Agora vai dar aula de democracia nos presídios do Texas, rapaz! Ou o erro terá sido de Fidel, por não ter mostrado o texto ao moreno antes de declamá-lo?
A verdade é que nem meus quatro ou cinco amigos comunas acreditaram que a Varig seria vendida para os gringos. Nem os milicos que atrasaram este país em 30 anos acreditaram que Luiz Silva chegaria a tanto. A Associação Nacional dos Laranjas é mais bem organizada do que eu pensava.
Alvíssaras, Avante, Deleite! Se vocês quiserem saber o nome dos inúmeros candidatos a qualquer boca que têm suja ficha na polícia – ou seja, aqueles sujeitos que em outros países têm de andar acompanhados de um agente da condicional – pode ligar todas as sextas-feiras às duas da manhã no canal francês da Net. É claro: precisará entender francês, precisará entender os nomes brasileiros ditos com sotaque francês e, finalmente, ter um computador e insônia.
Essa é braba! O Parlamento Europeu aprovou a lei que permitirá aos imigrante ilegais – desde que descobertos – desfrutar de até 18 meses da cozinha dos presídios franceses. Depois disso serão despachados aos países de origem. O que vai dar de dama da noite falando francês na Avenida Atlântica não vai serrrr brrrrincadeirrrra. Só poderão voltar depois de cinco anos se provarem que têm dinheiro para se sustentar durante 18 meses.
Há que refletir sobre os casos: 1) a violência da medida: 2) a não diferenciação entre exploradores de drogas, lenocício, prostitutas e travestis e trabalhadores honestos. O que dá nojo nisso tudo (desculpem a expressão, é a expressão de horror – desculpem outra vez) das autoridades dos países de onde provêm esses ilegais. Se tirarmos os que exercem atividade ilegal, os demais, como já disse – na França ou em qualquer nação rica – imigram para receber um salário e ajudar a família que ficou no Brasil. Vergonha não é expulsar imigrantes em situação ilegal. Nós também o fazemos. Vergonha é sermos um país tão rico e não podermos sustentar os nossos filhos. Como Urano, os devoramos.
Queria terminar com uma piada, mas não dá. Quando Lula soube que soldados do Exército haviam entregue três rapazes para serem executados por traficantes do Morro da Providência, fez aquela cara de ministro das Relações Exteriores ao verificar que o caviar está salgado: "É abominável e insano. É preciso indenizar as famílias dos rapazes mortos." Passou-se uma hora, um dia, uma semana e até agora seu Silva não mandou ninguém indenizar ninguém. Dentro de um mês ninguém se lembrará de nada e os que se lembrarem serão corridos a pontapés do Palácio do Planalto.
| Postado em 25/06/2008 ás 11:23 |
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