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Coluna de Noam Chomsky

Carta ao NY Times
14 de maio de 2013.

Estimada Margaret Sullivan,

Em uma coluna recente (12/4/2013) você comentou:

“Embora as palavras e frases por si mesmas não tenham a importância que merecem pelo grande fluxo diário que se cria, a linguagem importa. Quando as organizações de notícias aceitam a maneira de expressar dos governos, elas parecem aceitar a forma de pensar destes governos. No ‘Times’, estas decisões têm mais peso.”

À luz desses comentários, nós a exortamos a comparar a caracterização do New York Times à liderança do desaparecido Hugo Chávez na Venezuela com aquela a Roberto Micheletti y Porfirio Lobo em Honduras.

Nos últimos quatro anos, o ‘Times’ tem caracterizado Chávez como ditador, déspota, líder autoritário, e um “caudilho” em suas coberturas noticiosas. Se incluirmos os artigos de opinião, o ‘Times’ publicou pelo menos quinze trabalhos empregando tal linguagem, descrevendo Chávez como “ditador” o “homem duro”. No mesmo período — desde o golpe militar que derrubou o hondurenho Manuel Zelaya no dia 28 de junho de 2009 — nenhum colaborador do ‘Times’ utilizou esses termos para referir-se a Micheletti, que presidiu Honduras depois do golpe a Zelaya, ou Porfirio Lobo, que o sucedeu. Ao invés disso, o jornal os têm descrito em suas coberturas como “interino”, “de fato”, e “novo”.

Porfirio Lobo assumiu a presidência depois de ganhar as eleições que tiveram lugar sob o mandato do governo golpista de Micheletti. Ditas eleições foram marcadas pela repressão e pela censura e os observadores internacionais, como o Centro Carter, as boicotaram. Desde o golpe de estado, as forças militares e policiais hondurenhas assassinaram civis com assiduidade.

Nos últimos 14 anos, a Venezuela realizou 16 eleições ou referendos. Jimmy Carter elogiou as eleições na Venezuela, entre as 92 eleições que o Centro Carter monitorou, e as descreveu como “um magnífico sistema de votação”. Ele concluiu que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. Enquanto alguns grupos de direitos humanos criticam o governo de Chávez, as forças de ordem na Venezuela não têm indícios de haver assassinado civis, como aconteceu em Honduras.

Qualquer coisa que se pense sobre as credenciais democráticas da presidência de Chávez — e achamos que algumas pessoas responsáveis podem não estar de acordo com isto — não há nada registrado, ao compará-lo com sua contraparte em Honduras, que justifique as discrepâncias nas coberturas do ‘Times’ em ambos governos.

Convidamos você a examinar essa diferença nas coberturas e o uso da linguagem, em particular aquela que possa fazer ver aos seus leitores a parcialização na posição do governo estadunidense com respeito a seu par de Honduras (ao que apoia), e o governo venezuelano (ao que se opõe) — precisamente a síndrome que você escreve e adverte em sua coluna.



Sinceramente,

- Noam Chomsky, Professor Emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts;

- Edward Herman, Professor Emérito de Finanças na Wharton School, Universidade da Pensilvânia;

- Greg Grandin, Professor de História na Universidade de Nova York;

- Sujatha Fernandes, Professor de Sociologia no Queen College e do Centro Graduado da Universidade de Nova York;

- Corey Robin, Professor de Ciências Políticas, Brooklyn College;

- Adrienne Pine, Professor de Antropologia na American University;

- Mark Weisbrot, Doutor em Filosofia e codiretor do Centro para o Estudo da Política e Economia;

- Miguel Tinker Salas, Professor de História e Estudos latino-americanos no Porma College;

- Katherine Hite, Professora de Ciências Políticas no Vassar College;

- Steve Ellner, Professor de Assuntos Internacionais e Públicos na Universidade de Columbia e na Universidade do Oriente;

- George Ciccariello-Maher, Professor de Ciências Políticas - Universidade de Drexel;

- Daniel Kovalik, Professor de Direitos Humanos Internacionais da Faculdade de Direito na Universidade de Pittsburgh;

- Gregory Wilpert, Doutor em Filosofia, autor de “Cambiar a Venezuela tomando el poder”;

- Joseph Nevins, Professor de Geografia no Vassar College;

- Zazih Richani, Diretor de Estudos da América Latina, Universidade de Kean;

- Steven Volk, Professor de História no Oberlin College;

- Aviva Chomsky, Professora de História na Salem State University;

- Keane Bhatt, Congresso norte-americano para a América Latina;

- Chris Spannos, analista do New York Times;

- Michael Albert, Znet.”

Extraído do NACLA (Congresso Norte-americano sobre Latino-américa).


Tradução: Liborio Júnior
Fonte: Cuba Si

Postado em 19/05/2013 ás 13:24

Quando a farsa beira a tragédia
Não é fácil sair da própria pele, ver o mundo de modo diferente da forma como ele nos é apresentado dia após dia. Mas é útil tentar. Vejamos alguns exemplos.

O rufar dos tambores de guerra está cada vez mais alto em torno do Irã. Imagine a situação inversa.

O Irã está realizando uma campanha de guerra de baixa intensidade, homicida e destrutiva, contra Israel com a participação de uma grande potência. Seus líderes anunciam que as negociações não estão indo a lugar nenhum. Israel se recusa a assinar o Tratado de Não Proliferação e a permitir inspeções, apesar do Irã fazer o mesmo. Israel continua desafiando o pedido internacional por uma zona livre de armas nucleares na região. O tempo todo, o Irã desfruta do apoio de sua superpotência protetora.

Os líderes iranianos passam então a anunciar sua intenção de bombardear Israel, e proeminentes líderes militares iranianos dizem que o ataque pode acontecer antes das eleições americanas.

O Irã pode usar sua poderosa força aérea e os novos submarinos enviados pela Alemanha, armados com mísseis nucleares e posicionados além da costa de Israel. Seja qual for o prazo, o Irã está contando que sua superpotência apoiadora se juntará ao ataque, mesmo que não o lidere. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta, diz que apesar de ser contrário ao ataque, como país soberano, o Irã agirá segundo seus melhores interesses.

Tudo inimaginável, é claro, apesar de estar acontecendo de fato, com o elenco de personagens invertido. É verdade que analogias nunca são exatas e esta é injusta –em relação ao Irã.

Como sua superpotência apoiadora, Israel recorre à violência à vontade. Ele persiste com assentamentos ilegais em território ocupado, alguns anexados, tudo em desafio descarado à lei internacional e ao Conselho de Segurança da ONU. Ele realizou repetidos ataques brutais contra o Líbano e ao povo aprisionado de Gaza, matando dezenas de milhares sem pretexto crível.

Trinta anos atrás Israel destruiu um reator nuclear iraquiano, um ato que foi recentemente elogiado, mas sem mencionar as fortes evidências, mesmo da inteligência americana, de que o bombardeio não colocou um fim ao programa de armas nucleares de Saddam Hussein, mas sim o iniciou. O bombardeio contra o Irã poderia ter o mesmo efeito.

O Irã também realizou agressão –mas nas últimas várias centenas de anos, apenas sob o regime do xá apoiado pelos Estados Unidos, quando conquistou as ilhas árabes no Golfo Pérsico.

O Irã teve programas de desenvolvimento nuclear sob o xá, com forte apoio de Washington. O governo iraniano é brutal e repressivo, assim como os aliados de Washington na região. O aliado mais importante, a Arábia Saudita, é o regime fundamentalista islâmico mais extremo e gasta fundos enormes disseminando suas doutrinas wahabistas radicais por toda parte. As ditaduras do Golfo, todas aliadas dos Estados Unidos, reprimiram duramente os esforços de suas populações para se juntarem à Primavera Árabe.

O Movimento Não Alinhado –os governos da maioria da população do mundo– agora está se reunindo em Teerã. O grupo endossou vigorosamente o direito do Irã de enriquecer urânio, e alguns membros –a Índia, por exemplo– aderem ao duro programa de sanções americano apenas de forma parcial e relutante.

Os representantes do Movimento Não Alinhado sem dúvida reconhecem a ameaça que domina a discussão no Ocidente, articulada de modo lúcido pelo general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico dos Estados Unidos: “É perigoso ao extremo que no caldeirão de animosidades que chamamos de Oriente Médio”, um país possa se armar com armas nucleares, o que “inspira outros países a fazê-lo”.

Butler não está se referindo ao Irã, mas sim a Israel, o que é considerado pelos países árabes e pela Europa como sendo a maior ameaça à paz. No mundo árabe, os Estados Unidos são considerados em segundo lugar como ameaça, enquanto o Irã, apesar de não apreciado, está longe de ser temido. De fato, em muitas pesquisas, a maioria considera que a região estaria mais segura se o Irã tivesse armas nucleares, para equilibrar as ameaças percebidas.

Se o Irã está de fato buscando capacidade de armas nucleares –o que ainda não é de conhecimento da inteligência americana– isso poderá acontecer por ter sido “inspirado a fazê-lo” pelas ameaças americanas e israelenses, feitas regularmente em violação explícita à Carta da ONU.

Por que então o Irã é a maior ameaça à paz mundial, segundo o discurso oficial do Ocidente? O motivo principal é reconhecido pela inteligência e militares americanos e seus pares israelenses: o Irã poderia se tornar um dissuasor ao uso da força pelos Estados Unidos e Israel.

Além disso, o Irã deve ser punido por seu “desafio bem-sucedido”, que foi a acusação feita por Washington a Cuba meio século atrás, e ainda é o motivo principal para o ataque americano contra Cuba, que prossegue, apesar da condenação internacional.

Outros eventos presentes nas primeiras páginas também poderiam se beneficiar de um ponto de vista diferente. Suponha que Julian Assange tivesse vazado documentos russos revelando informação importante que Moscou quisesse esconder do público, e fora isso as circunstâncias fossem idênticas.

A Suécia não hesitaria em buscar sua única preocupação anunciada, aceitando a oferta de interrogar Assange em Londres. Ela declararia que se Assange retornasse à Suécia (como ele concordou em fazer), ele não seria extraditado para a Rússia, onde as chances de um julgamento justo seriam mínimas.

A Suécia seria elogiada por essa posição cheia de princípios. Assange seria elogiado pela realização de um serviço público –o que, é claro, não impedira as acusações contra ele de serem levadas tão a sério como em todos os casos semelhantes.

A notícia mais proeminente do dia aqui é a eleição americana. Um ponto de vista apropriado foi fornecido pelo ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos, Louis Brandeis, que declarou que “nós podemos ter democracia neste país, ou podemos ter concentração de riqueza nas mãos de poucos, mas não podemos ter ambos”.

Guiada por esse entendimento, a cobertura da eleição deveria se concentrar no impacto da riqueza sobre as políticas, analisada extensamente no estudo recente, “Riqueza e Influência: A desigualdade econômica e o poder político na América”, de Martin Gilens. Ele apontou que a vasta maioria é “impotente para moldar as políticas do governo” quando a preferência dela diverge da dos ricos, que basicamente conseguem o que querem quando importa para eles.

Não é de se estranhar que em um recente ranking de justiça social envolvendo os 31 membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, os Estados Unidos ficaram em 27º lugar, apesar de suas vantagens extraordinárias.

Ou que o tratamento racional das questões tende a evaporar na campanha eleitoral, de formas que às vezes beiram a comédia.

Para pegar um caso, Paul Krugman relata que o muito admirado Grande Pensador do Partido Republicano, Paul Ryan, declara que tira suas ideias sobre o sistema financeiro do personagem de um romance de fantasia –“A Revolta de Atlas”– que pede pelo uso de moedas de ouro em vez de papel-moeda.

Só resta as ideias serem tiradas de um escritor realmente distinto, Jonathan Swift. Em “As Viagens de Gulliver”, seus sábios de Lagado carregam todos seus bem com eles em bolsas em suas costas, de modo a usá-los em permutas sem o estorvo do ouro. Assim a economia e a democracia poderiam realmente florescer –e melhor de tudo, a desigualdade poderia cair acentuadamente, um presente ao espírito do ministro Brandeis.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Postado em 27/10/2012 ás 13:30

Alienação à moda dos Estados Unidos
Em novo episódio do ataque à democracia, eleições norte-americanas escondem da sociedade exatamente o que ele mais precisaria saber.

Por Noam Chomsky

Nossos políticos mostram uma estraordinária vontade de sacrificar as vidas de nossos filhos e netos por ganhos a curto prazo. No momento em que as eleições para a Presidência chegam ao momento decisivo, é útil indagar como as campanhas políticas estão lidando com os temas mais cruciais que enfrentamos. A resposta é: ou muito mal, ou simplesmente não tratam destes assuntos. Sendo assim, surgem algumas questões importantes: por que? E o que podemos fazer em relação a isso?

Existem dois problemas de importância fundamental, porque o destino da espécie está em jogo: o desastre ambiental e a guerra nuclear. O primeiro está regularmente nas primeiras páginas. Em 19 de setembro, por exemplo, Justin Gillis escreveu uma reportagem para o New York Times sobre como o derretimento do gelo do Oceano Ártico cessou por esse ano, “mas não sem antes derrubar seu recorde anterior — desencadeando novas preocupações sobre o ritmo acelerado nas mudanças da região.” O derretimento está se dando de modo muito mais rápido do que era previsto por modelos matemáticos sofisticados e pelos últimos relatórios da ONU sobre o aquecimento global.

Novos dados indicam que o gelo deve desaparecer durante o verão até 2020, com consequências severas. Pesquisas estimam que o gelo desaparecerá completamente por volta do ano 2050. “Mas os governos não responderam à mudança com a urgência necessária para limitar as emissões de efeito estufa,” escreve Gillis. “Ao contrário, sua resposta principal tem sido planejar a exploração dos agora acessíveis minerais do Ártico, incluindo a extração de mais petróleo” — isso é, acelerando a catástrofe. A reação demonstra, novamente, uma extraordinária vontade de sacrificar vidas das nossos filhos e netos pelo curto prazo.

Ou, talvez, uma vontade igualmente notável de fechar nossos olhos, para que não vejamos o perigo iminente. Não é só. Um novo estudo do Monitor da Vulnerabilidade Climática verificou que “as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global estão reduzindo a produção econômica mundial em 1,6% ao ano, e provocarão a duplicação de certos custos estratégicos nas próximas duas décadas”. O estudo foi amplamente divulgado em outros países, mas os norte-americanos foram poupados de tais notícias perturbadoras. As plataformas dos partidos Democrata e Republicano sobre assuntos climáticos foram analisadas na edição de 14 de setembro da revista Science.

Num caso raro de ação comum, os dois partidos propõem que tornemos o problema mais grave. Em 2008, ambas as plataformas dedicavam alguma atenção às políticas do governo diante da mudança climática. Agora, o tema quase desapareceu da plataforma republicana — que, no entanto, pede que o Congresso “aja rapidamente” para evitar que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) — criada pelo ex-presidente republicano Richard Nixon em dias mais sãos — regule a emissão de gases do efeito-estufa. E devemos abrir o Refúgio Ártico do Alaska à perfuração, para tirar “vantagem de todos os recursos que Deus ofereceu aos americanos”. Não podemos desobedecer o Senhor, afinal de contas. A plataforma também sustenta que “devemos restaurar a integridade científica de nossas instituições de pesquisa e eliminar incentivos políticos relacionados à pesquisa desenvolvida com recursos públicos” — um código para referir-se à ciência do Clima.

Tentando escapar do estigma de ter se preocupado com mudança climática há alguns anos, Mitt Rommey, o candidato republicano, declarou que não há consenso científico sobre o tema. Portanto, deveríamos apoiar mais debate e investigações — mas não ações, exceto as que tornam o problema mais sério. Os democratas mencionam, em sua plataforma, que há um problema, e recomendam trabalharmos “em direção a um acordo para definir limites às emissões, com outras potências emergentes”.

Porém, o presidente Barack Obama enfatizou que os EUA devem conquistar cem anos de independência energética empregando extração por fratura hidráulica (fracking) e outras tecnologias — sem se perguntar o que este tipo de prática provocará no planeta, em cem anos. Há, portanto, diferenças entre os dois partidos: dizem respeito a quão entusiasticamente os ratos devem marchar até o abismo. Um segundo grande tema, a guerra nuclear, também está nas primeiras páginas todos os dias, mas de uma forma que escandalizaria um marciano observando fatos estranhos na Terra.

A ameaça atual está, de novo, no Oriente Médio, especificamente no Irã — ao menos segundo o Ocidente. No próprio Oriente Médios, os EUA e Israel são considerados ameaças muito maiores. Ao contrário do Irã, Israel recusa-se a permitir inspeções ou a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Possui centenas de ogivas nucleares e sistemas avançados de mísseis, além de uma longa história de violência, agressão e desrespeito ao direito internacional, graças a apoio norte-americano incessante. Se o Irã está tentando desenvolver armas nucleares, os serviços de inteligência dos EUA não sabem. Em seu último relatório, a Agência Internacional de Energia Atômica afirma que não pode demonstrar “a ausência de material e atividades nucleares não-declaradas no Irã” — um rodeio em que a instituição condena o país, como Washington exige, ao mesmo tempo em que reconhece não poder acrescentar nada às conclusões da inteligência norte-americana.

Portanto, deve-se negar ao Irã o direito de enriquecer urânio, que é assegurado pelo TNP e endossado pela maior parte do mundo — inclusive o movimento dos países não-alinhados, que acabam de se reunir em Teerã. A possibilidade de que o Irã desenvolva armas nucleares sobressai na campanha eleitoral (o fato de Israel já tê-las, não…). Duas posições se contrapõem. Os Estados Unidos deveriam declarar que atacarão, caso o Irã alcance capacidade de desenvolver armas nucleares, como dezenas de outros países? Ou Washington deveria manter a “linha vermelha” mais indefinida? A segunda posição e a da Casa Branca; a primeira é exigida pelos falcões israelenses — e aceita pelo Congresso norte-americano.

O Senado acaba de votar, por 90 x 1, em favor do apoio a Israel. Está ausente do debate a alternativa óbvia para mitigar ou eliminar qualquer ameaça que o Irã possa representar. Basta estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. A oportunidade está ao alcance da mão: uma conferência internacional sobre o tema irá se reunir em alguns meses para trabalhar por este objetivo, apoiado no mundo todo — inclusive, por uma maioria de israelenses. O governo de Telaviv, no entanto, anunciou que não participará, até que haja uma acordo de paz na região, algo inatingível enquanto Israel persistir em suas atividades ilegais nos territórios ocupados da Palestina. Washington aferra-se à mesma posição, e insiste que Israel deve ser excluído de tal acordo regional.

Podemos estar caminhando para uma guerra devastadora, talvez nuclear. Há caminhos diretos de superar esta ameaça, mas não serão adotados exceto se houver ativismo social em larga escala, exigindo que se aproveite a oportunidade. Isso, no entanto, é muito improvável, enquanto tais temas permanecerem fora da agenda — não só a do circo eleitoral mas também a da mídia e do debate nacional mais amplo. As eleições são feitas pela indústria de relaç?os públicas, cujo principal afazer é a publicidade comercial. É concebida para subverter os mercados, criando consumidores desinformados que tomam decisões irracionais — o oposto exato de como se supõe que os mercados funcionariam. As vítimas, porém, não estão obrigadas a obedecer. A passividade costuma ser o caminho mais fácil — porém, quase nunca, o honroso.

Fonte: Blog Outras Palavras. Tradução: Gabriela Leite e Antonio Martins

Postado em 10/10/2012 ás 09:35

Se queremos mudar o mundo, vamos entendê-lo
O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupa Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky - La Jornada

Dar uma conferência Howard Zinn é uma experiência agridoce para mim. Lamento que ele não esteja aqui para tomar parte e revigorar um movimento que foi o sonho de sua vida. Com efeito, ele pôs boa parte de seus ensinamentos nisso.

Se os laços e associações que se estão estabelecendo nesses acontecimentos notáveis puderem se sustentar durante o longo e difícil período que os espera – a vitória nunca chega logo -, os protestos do Ocupar Wall Street poderão representar um momento significativo na história estadunidense.

Nunca tinha se visto nada como o movimento Ocupa Wall Street, nem em tamanho nem em caráter. Nem aqui nem em parte alguma do mundo. As vanguardas do movimento estão tratando de criar comunidades cooperativas que bem poderiam ser a base de organizações permanentes, de que se necessita para superar os obstáculos vindouros e a reação contra o que já está se produzindo.

Que o movimento Ocupem não tenha precedentes é algo que parece apropriado, pois esta é uma era sem precedentes, não só nestes momentos, mas desde os anos 70.

Os anos 70 foram uma época decisiva para os Estados Unidos. Desde a sua origem este país teve uma sociedade em desenvolvimento, não sempre no melhor sentido, mas com um avanço geral em direção da industrialização e da riqueza.

Mesmo em períodos mais sombrios, a expectativa era que o progresso teria de continuar. Eu tenho idade o suficiente para recordar da Grande Depressão. De meados dos anos 30, quando a situação objetivamente era muito mais dura que hoje, e o espírito bastante diferente.

Estava-se organizando um movimento de trabalhadores militantes – com o Congresso de Organizações Industriais (CIO) e outros – e os trabalhadores organizavam greves e operações padrão a ponto de quase tomarem as fábricas e as comandarem por si mesmos.

Devido às pressões populares foi aprovada a legislação do New Deal. A sensação que prevalecia era que sairíamos daqueles tempos difíceis.

Agora há uma sensação de desesperança e às vezes desespero. Isto é algo bastante novo em nossa história. Nos anos 30, os trabalhadores poderiam prever que os empregos iriam voltar. Agora, os trabalhadores da indústria, com um desemprego praticamente no mesmo nível que durante a Grande Depressão, sabem que, se as políticas atuais persistirem, esses empregos terão desaparecido para sempre.

Essa mudança na perspectiva estadunidense evoluiu a partir dos anos 70. Numa mudança de direção, vários séculos de industrialização converteram-se numa desindustrialização. Claro, a manufatura seguiu, mas no exterior; algo muito lucrativo para as empresas mas nocivo para a força de trabalho.

A economia centrou-se nas finanças. As instituições financeiras se expandiram enormemente. Acelerou-se o círculo vicioso entre finanças e política. A riqueza passou a se concentrar cada vez mais no setor financeiro. Os políticos, confrontados com os altos custos das campanhas eleitorais, afundaram profundamente nos bolsos de quem os apoia com dinheiro.

E, por sua vez, os políticos os favoreciam, com políticas favoráveis a Wall Street: desregulação, transferências fiscais, relaxamento das regras da administração corporativas, o que intensificou o círculo vicioso. O colapso era inevitável. Em 2008, o governo mais uma vez resgatou as empresas de Wall Street que eram supostamente grande demais para quebrarem, com dirigentes grandes demais para serem encarcerados.

Agora, para 10% de 1% da população que mais se beneficiou das políticas recentes ao longo de todos esses anos de cobiça e enganação, tudo vai muito bem.

Em 2005, o Citigroup – que certamente foi objeto em ocasiões repetidas de resgates do governo – viu o luxo como uma oportunidade de crescimento. O banco distribuiu um folheto para investidores no qual os convidava a investirem seu dinheiro em algo chamado de índice de plutonomia, que identificava as ações das companhias que atendessem ao mercado de luxo.

Líderes religiosos, principalmente da comunidade de negros, cruzaram a ponte do Brooklyn no último domingo com lonas e tendas para entregá-las aos membros do movimento Ocupar Wall Street que estão acampados no coração econômico da cidade de Nova York.

O mundo está dividido em dois blocos: a plutocracia e o resto, resumiu. Estados Unidos, Grã Bretanha e Canadá são as plutocracias-chave: as economias impulsionadas pelo luxo.

Quanto aos não ricos, às vezes se lhe chamam de precariado: o proletariado que leva uma existência precária na periferia da sociedade. Essa periferia, no entando, converteu-se numa proporção substancial da população dos Estados Unidos e de outros países.

Assim, temos a plutocracia e o precariado: o 1% e os 99%, como se vê no movimento Ocupem. Não são cifras literais mas sim, é a imagem exata.

A mudança história na confiança popular no futuro é um reflexo de tendências que poderão ser irreversíveis. Os protestos do movimento Ocupem são a primeira reação popular importante que poderão mudar essa dinâmica.

Eu me detive nos assuntos internos. Mas há dois acontecimentos perigosos na arena internacional que ofuscam todos os demais.

Pela primeira vez na história há ameaças reais à sobrevivência da espécie humana. Desde 1945 temos armas nucleares e parece um milagre que tenhamos sobrevivido. Mas as políticas do governo Barack Obama estão fomentando uma escalada.

A outra ameaça, claro, é a catástrofe ambiental. Por fim, praticamente todos os países do mundo estão tomando medidas para fazer algo a respeito. Mas os Estados Unidos estão regredindo.

Um sistema de propaganda reconhecido abertamente pela comunidade empresarial declara que a mudança climática é um engano dos setores liberais. Por que teríamos de dar atenção a esses cientistas?

Se essa intransigência no país mais rico do mundo continuar, não poderemos evitar a catástrofe.

Deve fazer-se algo, de uma maneira disciplinada e sustentável. E logo. Não será fácil avançar. É inevitável que haja dificuldades e fracassos. Mas a menos que o processo estão ocorrendo aqui e em outras partes do país e de todo o mundo continue crescendo e se converta numa força importante da sociedade e da política, as possibilidades de um futuro decente são exíguas.

Não se pode lançar iniciativas significativas sem uma ampla e ativa base popular. É necessário sair por todo o país e fazer as pessoas entenderem do que se trata o movimento Ocupar Wall Street, o que cada um pode fazer e que consequências teria não fazer nada.

Organizar uma base assim implica educação e ativismo. Educar as pessoas não significa dizer em que acreditar; significa aprender dela e com ela.

Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar. Todos temos de alcançar conhecimentos e experiências para formular e implementar ideias.

O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupar Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Esses laços podem se manter e expandir, e o movimento poderá dedicar-se a campanhas destinadas a porem a sociedade numa trajetória mais humana.

(*) Este artigo é uma adaptação de uma fala de Noam Chomsky no acampamento Occupy Boston, na praça Dewey, em 22 de outubro. Ele falou numa atividade de uma série de Conferências em Memória de Howard Zinn, celebrada pela Universidade Livre do Ocupar Boston. Zinn foi historiador, ativista e autor de A People’s History of the United States.)

(**) Chomsky é professor emérito de Linguística e Filosofia do Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge, Massachusetts. É o maior linguista do século e um dos últimos anarquistas sérios do planeta.

Tradução: Katarina Peixoto

Postado em 07/11/2011 ás 14:44

luta antidrogas visa grupos sociais específicos
La Jornada

Tradução COLETIVO DAR

A raiz do “problema das drogas” está nos Estados Unidos e não no México, e as estratégias de ambos os países não podem resolver o problema, afirmou o linguista estadunidense Noam Chomsky.

Em entrevista à revista cibernética Guernica, dos EUA, o pensador declarou: “O problema das drogas está nos EUA, não no México. É um problema de demanda e precisa ser tratado aqui, mas isso não é feito. Provou-se uma e outra vez que a prevenção e o tratamento são muito mais efetivos do que a ação policial, as operações fora do país, o controle fronteiriço e muito mais. Mas o dinheiro vai em outra direção e nunca tem impacto. Quando os líderes aplicam durante décadas políticas que não têm consequências para os fins indicados e são muito caras, é preciso saber se eles estão dizendo a verdade e se essas políticas são para outro alvo, porque elas não reduzem o uso de drogas”.

Chomsky questiona por que são aplicadas essas políticas ineficazes e dispendiosas embora se saiba que há outras mais eficazes e mais baratas. “Há apenas duas respostas possíveis: ou todos os líderes são coletivamente insanos, o que podemos descartar, ou simplesmente temos que buscar outros objetivos. No exterior é uma campanha de contra-insurgência, em casa, uma maneira de se livrar de uma população supérflua, há uma correlação muito estreita de raça e classe, não perfeita, mas quase: na verdade, os homens negros estão sendo jogados fora. Na Colômbia, chamam de limpeza social. Aqui nós simplesmente dizemos que é colocá-los na prisão”.

Ele disse que o aumento maciço do encarceramento, especialmente entre os afroamericanos e latinos, é devido à chamada guerra contra as drogas na América, mas tem raízes em uma longa história de controle e escravização, tanto formal como através do sistema de justiça criminal contra os negros.

Enfatizou também que as conseqüências dessas políticas “são significativas para os centros de poder: empreender operações de contra-insurgência na Colômbia e em outros lugares, e limpeza social aqui, na tradicional maneira estadunidense. Está tudo muito claro”.

Os líderes sabem como proceder

Chomsky acredita que a outra parte do problema são as armas. “Onde os cartéis de drogas conseguem suas armas? Elas são fornecidas pelos Estados Unidos. Se você cortar o fluxo de armas não iria acabar com a violência, mas teria um grande efeito. Se os cartéis no México querem rifles de assalto, buscam no Arizona”.

Questionado sobre as opções disponíveis para o governo do México enfrentar a violência e se seria justificável a suspensão de garantias para restaurar a ordem em áreas como Ciudad Juarez, Chomsky disse: “Primeiro é preciso perguntar o que o governo do México está tentando fazer, e que é um pouco opaco. Parece que em algum grau apoiaum dos cartéis contra os outros. Se é isso que está tentando fazer, não há justificativa”.

“Mas se você quer parar o negócio da droga, acho que se sabe como proceder, e não é com ação militar: você tem que ir ao cerne da questão. Parte da resposta foi dada na declaração dos ex-presidentes (Ernesto) Zedillo, (Fernando Henrique) Cardoso e (Cesar) Gaviria: alguns anos atrás, apresentaram um relatório que propunha que a criminalização das drogas só aumentou o problema e que algunmas devem ser legalizadas, como o álcool, e regulamentadas. Isso é parte do assunto, mas a questão de fundo está aqui nos Estados Unidos”.

Na entrevista, Chomsky disse que se reuniu com repórteres e editores de La jornada, com quem discutiu, entre outras coisas, o perigo enfrentado pelos jornalistas ao tentarem abranger a questão do tráfico de drogas e a inevitável auto-censura. Ele explicou que falaram sobre relatórios que abordam o problema e inclusive sobre a grande quantidade de negócios no México que estão de alguma forma envolvidos com o tráfico de drogas. “Quando alguém publica coisas assim e as investiga, está ameaçando os centros de poder na sociedade mexicana, que não desejam ser expostos. Se podem usar pistoleiros para pará-lo, eles o farão”.

Ele disse que há cada vez mais áreas no norte do México protegidas por criminosos e forças de segurança, e que áreas antes dedicadas à agricultura são hoje parte do negócio ilegal. Destacou ainda um relatório de La Jornada revelou que os economistas dz Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) estimam que a renda real dos trabalhadores caiu drasticamente como resultado das políticas econômicas do governo de Felipe Calderón. Por isso, “o México tem opções limitadas”, no que tange ao problema das drogas, “já que o chefão da máfia está aqui, do outro lado”.

Chomskyu considera que o problema está ligado a uma série de políticas em ambos os países e que, nos Estados Unidos, nos últimos 30 anos, a promoção do setor financeiro da economia e a destruição do sistema produtivo fizeram com que os rendimentos reais estagnassem para a maioria da população. “Tem o mesmo efeito que o neoliberalismo no México, de forma menos aguda, mas similar.”

Isso tende a confirmar que, da mesma forma que acontece com as políticas de drogas, “os governos não servem aos seus cidadãos; trabalham para suas estruturas”, que são principalmente formadas por membros do setor financeiro.
Livres Mercados e trabalho livre

Perguntado se de alguma maneira se opunha à ideia de um país soberano como os Estados Unidos para tomar as medidas necessárias para deter e deportar imigrantes ilegais, Chomsky disse: “É uma questão interessante essa nos EUA, onde todos são imigrantes ilegais, exceto aqueles que vivem em reservas indígenas.” Ele disse que tudo depende do que você está falando. “Se alguém se diz ‘campeão do livre mercado’, então deve estar a favor da livre circulação dos trabalhadores. Segundo Adam Smith, não se pode ter livre mercado sem isso”.

Postado em 22/08/2011 ás 20:36

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