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Postado em 28/11/2017 1:30

“Como se pode ser norte-coreano?”

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por Robert Charvin [*]

Iniciativa Comunista: A sua obra inspira-se na questão de MontesquieuComment peut-on être persan? [Como se pode ser persa]. Não acha que a maneira de tratar a Coreia do Norte no espaço mediático em França, assente em preconceitos, é indigna do espirito analítico próprio das Luzes?

Robert Charvin: Montesquieu ironizava com os etnocentristas incultos do seu tempo, que não concebiam que se “pudesse ser persa”! Alguns séculos mais tarde, passa-se o mesmo na “pátria” dos direitos do homem (na realidade do homem ocidental) cujos valores são, por si, “universais”. 

Os outros não têm senão de receber lições do alto da nossa grandeza eterna: os “trumpistas” franceses são anteriores aos americanos!

Os países que não alinham vivem no erro e os seus governantes são bandidos perigosos para o mundo!

Em Paris como em Washington, sabe-se que a única democracia que vale é a eletiva, pouco importando que o dinheiro ou a violência (conforme os países) decidam os resultados. Quanto aos direitos económicos e sociais, não têm de ser tomados em conta para se fazer a avaliação… ou aplicar as sanções contra os regimes que “desagradam”! Os euroamericanos, donos (provisórios) do mundo, autoproclamam-se, assim, juízes do “Bem e do Mal” na ordem internacional. Os principais órgãos de comunicação social e os partidos adotam sem crítica estes julgamentos judiciais. A Coreia do Norte é consensual: é a incarnação da maldade, se bem que ninguém faça alusão à trágica história nacional (colonização japonesa feroz, guerra americana devastadora, embargo e sanções repetidas desde 1953, etc.). Raros são aqueles que conhecem o seu sincretismo ideológico feito de marxismo e confucionismo. Para se sentirem confortáveis com o seu “bom direito”, grande número de ocidentais prefere.

Iniciativa Comunista: Na sua obra, recorda certas realidades da história coreana (o suicídio de um embaixador coreano perante a indiferença geral das grandes potências, entregando a colonização do seu país ao Japão,  o não ter ficado um único edifício de pé em Pyongyang depois dos bombardeamentos dos EUA durante a guerra da Coreia, etc). É esta história trágica que explica a resistência patriótica feroz que a RPDC opõe constantemente ao imperialismo?

Robert Charvin: Maltratar um povo, como o foi o povo soviético desde a Revolução de Outubro, o povo palestiniano desde há mais de um século, o povo cubano desde 1958, ou o povo nortecoreano, é provocar o que se pode chamar um“efeito cidadela”. Assaltados por todos os lados, por todos os meios, ameaçados de agressão militar, colocados em dificuldades económicas, desacreditados pelas potências mediáticas na opinião internacional, estes povos não podem deixar de ter uma reação defensiva feita de um patriotismo virulento, de uma mobilização feroz, de um monolitismo sem falha. Qualquer crítica não pode deixar de ser uma traição, numa situação de beligerância crónica! Qualquer concessão torna-se um caminho para a capitulação.

Se o ocidente e os seus defensores profissionais dos “direitos do homem” tivessem realmente vontade de defender os direitos humanos na Coreia e no mundo, como fingem, eles teriam de denunciar as sanções coletivas e favoreceriam o desanuviamento e a cooperação. A política de agressão e as condenações mediáticas sistemáticas são incompatíveis com “a ajuda ao desenvolvimento da democracia”. Estrangular um povo condu-lo a mal respirar e a debater-se!

Esta patologia feroz, ligada à necessidade que o capitalismo tem de inimigos, apresenta, contudo, vantagens para as vítimas. O povo coreano está concretamente informado do que é o imperialismo e as suas taras destrutivas. Soube constituir-se como uma força de resistência homogénea, coerente, e aprendeu a ultrapassar todas as dificuldades impostas. É grave que as pessoas progressistas e numerosos comunistas no ocidente não tenham uma consciência clara disto, parecendo que preferem o imperialismo dos grandes à soberania dos pequenos!

Iniciativa Comunista: Manobras militares gigantescas, deslocamento de mísseis, de submarinos e porta-aviões nucleares, os Estados Unidos escolhem uma estratégia de tensão na Coreia: é exagerado falar de ameaça à paz mundial?

Robert Charvin: Permanentemente, há décadas, os Estados Unidos e os seus aliados (em particular os de Seul e de Tóquio, mas também de Paris) ameaçam a própria existência da Coreia do Norte, invocando paradoxalmente as suas “provocações “! A mais gigantesca armada do mundo, a dos Estados Unidos, está, porém, à porta, dotada das armas mais sofisticadas, incluindo as nucleares. Todos os anos, manobra nas fronteiras com as armadas sulcoreanas e outras, simulando cerco e ataques! O povo coreano já sofreu massacres, designadamente das suas populações civis, perpetradas pelas armadas ocidentais, sempre que querem destruir um sistema que não lhes convém: a guerra de 1950-1952 não está esquecida!

São os Estados Unidos que, bem longe do seu território nacional, provocam todos os povos da região que querem manter ou pôr sob a sua tutela!

São os Estados Unidos que jogam perigosamente a sua potência nuclear, ousando invocar a legítima defesa. Ao discurso delirante de Trump junta-se uma propaganda massiva e sem nuances contra a Coreia do Norte, retomada pelos europeus. Certos filmes americanos vão ao ponto de imaginar uma invasão militar nortecoreana do território dos Estados Unidos: o filme “Aurora Vermelha”, por exemplo, que passou recentemente numa cadeia de TV francesa!

De facto, esta paranóia anticoreana é um completo alibi. Dissimula uma realidade geoestratégica de primeira importância para os Estados Unidos: a Coreia é uma zona de contactos com a China, a Rússia e o Japão. A manutenção da presença militar americana é considerada necessária para os interesses dos Estados Unidos. A pequena Coreia do Norte é um inimigo “útil”. É preciso manter a sua má reputação comunista, é preciso impedir a sua reunificação com o sul para conservar um abcesso de fixação justificando a ingerência norte americana na região (designadamente as bases na Coreia do Sul, em Guam, etc.). Todos os meios são bons para manter um estado de guerra larvar que impeça um desenvolvimento rápido da Coreia do Norte, sob pena de desencadear um confronto entre as potências.

Sobre isso, também,  impõe-se um reparo crítico: certas correntes progressistas, obcecadas pelo eleitoralismo, negligenciam o facto de que a RPDC propõe desde sempre a desnuclearização de toda a região, está pronta para assinar um tratado de paz com os Estados Unidos que garanta a sua soberania e para cooperar com todos os Estados do mundo. Pôr de costas, umas para as outras, as partes em presença, como foi feito para os palestinianos e os israelitas, para a Rússia e os Estados Unidos, em nome de uma paz cujo conteúdo não se explica é, de facto, gritar com os lobos!

Iniciativa Comunista: Em 2016 e 2017, um importante movimento popular conduziu à queda do governo de Park. Existe uma evolução para uma democratização do regime autoritário do sul? As primeiras declarações do novo presidente sobre a reabertura de um diálogo direto com a Coreia do Norte e sobre o sistema antimíssil americano em implementação são contraditórios. Não é o povo coreano o principal trunfo para a paz?

Manifestação em Seul.Robert Charvin: A força decisiva para mudanças positivas na Coreia é todo o povo coreano. Se ainda não existem boas relações entre o norte e o sul desde o fim da guerra mundial, deve-se principalmente às grandes potências, em primeiro lugar aos Estados Unidos.

Assim que se derem mudanças em Seul (como aconteceu com a eleição de Kim Dae-Jung ou, recentemente com a eliminação da presidência corrupta da Sra. Park (hoje detida), a reaproximação norte-sul dar-se-á. Os média ocidentais têm sido muito discretos sobre o vasto movimento de massas que derrubou em Seul a equipa dirigente, grande aliada de Washington! Infelizmente, a nova equipa, que não é tão sistematicamente hostil ao norte, continua subordinada aos Estados Unidos e a sua linha política ainda não é livre.

Mas o povo sulcoreano, incluindo os grandes grupos económicos como a Hyundai, como o povo do norte, desejam a reunificação e a paz: a coreanidade tem para as duas partes mais virtudes, que o ocidente não se ofenda, do que o American Way of Life importado do sul a partir de 1949.

Com razoabilidade, pode conceber-se que o norte e o sul, apesar de todos os obstáculos, encontrem o caminho através de uma confederação, que num primeiro tempo respeite as duas soberanias e os dois regimes socioeconómicos, primeiro passo de uma marcha para a unidade, que faria da Coreia uma nova potência emergente importante.

A solidariedade internacional, hoje amputada pela contaminação das teses dos neoconservadores e pelas conceções da socialdemocracia (à exceção de alguns casos individuais como o de J. Lang) que invadiram a corrente progressista, deve conseguir renascer se a lucidez prevalecer sobre o etnocentrismo e o esquecimento da geopolítica. A causa coreana merece-o.

27/Novembro/2017

27/Novembro/2017

[*] Decano honorário da Faculdade de direito de Nice, militante comunista, autor do livro recente Comment Peut-On Etre Coreen (Du Nord)? .

O original encontra-se em www.initiative-communiste.fr/… e a versão em português em

pelosocialismo.blogs.sapo.pt/crise-estados-unidos-coreia-a-analise-26458

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

 

28/Nov/17

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