Brasília, 21 de abril de 2019 às 11:14
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Postado em 08/04/2019 10:58

Conclamação, por Alyne Bautista Vidal

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Alyne Bautista Vidal

Convivi com o General Andrada Cerpa muito amigo de meu pai, homem humano, convivi também com o Brigadeiro Camarão Teles Ribeiro em Capinas, que tinha dez filhos e adotou uma indiazianha, já adulta quando a conheci. Meu pai foi Secretário de Tecnologia Industrial e montou o pro-álcool no período militar. Havia uma parte de militares nacionalistas, intelectualizada e humana.

Mas, tanto meu pai como muitos militares não apoiavam a tortura.

Certa vez bem depois da ditadura ele me advertiu a não me aproximar de determinada família cujo pai, tão respeitado, fez parte do grupo dos torturadores e assassinos do DOI-CODI.

As coisas eram feitas às escondidas como tudo que é criminoso, ilegal e imoral. Nem mesmo para os militares essas práticas eram claras.

Como sabemos muitos militares humanos que estavam em hierarquia inferior foram torturados e assassinados, não se podia discordar.

Aliás, é sabido que nas forças armadas em alguns lugares e com os novatos, de hierarquia mais baixa, se pratica atos sádicos que já levaram alguns à morte.

Por outro lado há grandes intelectuais com o General e o Brigadeiro citados acima.

Acho que existe muita confusão nesta época que estamos vivendo.

Todos nós estamos fartos de impunidade, de desvios de verba pública, de corrupção, sonegação…

O equivoco é pensar que os militares são o grupo adequado para combater os desmandos no Brasil.

Neste grupo há tanto corrupto, mau caráter e criminoso quanto em qualquer outro.

A meu ver, a única forma de melhorar o trato com os recursos públicos no Brasil é o fortalecimento dos órgãos de fiscalização e punição. Qualquer um que aja de forma ilegal deve ser punido, seja ele juiz, promotor, militar, presidente, senador…

Nossa única garantia é o estado legal, o Estado de Direito.

Fora do Estado de Direito estaremos à mercê de grupos armados, militares ou guerrilheiros, que fazem valer sua vontade com uma arma na mão. Não importa se o ditador é de esquerda como Mao Tse Tung ou de direita como Hitler. NÃO QUEREMOS DITADURA.

Queremos que as leis sejam respeitadas.

Quando vi um homem sendo preso, com duzentos policiais armados e um helicóptero da Rede Globo filmando tudo, e eu soube que aquilo era APENAS uma primeira intimação para depor eu me assustei muito. Não por esse homem ser quem era, mas por VER com clareza cristalina que não estávamos mais vivendo em um Estado de Direito e sim um estado de exceção comandado pela vontade de pessoas humanas que estavam desrespeitando a LEI.

Ou a lei vale para todos ou não vale para ninguém.

Desde então passei a “gritar” a todos quantos quisessem ouvir que o Brasil estava sofrendo uma ditadura dissimulada, um “golpe colorido” (vide http://www.patrialatina.com.br/nove-teses-sobre-golpes-coloridos/). Fui buscar os textos de grandes intelectuais brasileiros nada divulgados pela mídia comprometida, fui ler Rogério Cerqueira Leite, Mauro Santayana, Adriano Benayon e claro, passei toda minha vida escutando meu pai Bautista Vidal. Todos eles sempre escreveram sobre o processo de dominação intelectual e financeira em que sempre viveram os países do terceiro mundo.

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Nos últimos anos o Brasil conseguiu emergir no plano internacional e estava sendo uma grande ameaça à hegemonia global estabelecida desde a segunda guerra mundial quando o dólar passou a ser a moeda padrão. O dólar não precisava ter lastro. Assim os EUA que tinham a bomba atômica impuseram seu dinheiro ao mundo. Emitiam papel e emprestavam ao mundo recebendo pagamento em riqueza real: minérios, madeira, ouro.

Impuseram a todos a sua tecnologia.

O Brasil não podia desenvolver tecnologia própria. Meu pai montou 30 centros de desenvolvimento tecnológico e todos misteriosamente viraram sucata. É mais fácil financiar pessoas para fazer leis aqui que entrar em guerra. Desta forma os recursos para o desenvolvimento tecnológico iam sendo legalmente retirados e o Brasil vendia a matéria prima a preço de banana e tinha que pagar pelo produto acabado e pela tecnologia externa numa drenagem de recursos absurda.

A economia aberta sem regulamentação internacional tem propiciado uma evasão de recursos incalculável e por fim, nosso solo, nosso espaço aéreo, nossa biodiversidade, tudo está sendo vendido a preço de banana.

Meu pai e vários generais entraram com ação criminal no ministério público militar contra FHC quando, enquanto presidente, entregou a Vale pelo valor que tinha em caixa, recurso naturais que poderiam sustentar nosso povo sem o pagamento de impostos.

Nascemos em uma terra rica e fomos doutrinados a nos acreditar pobres, burros, incompetentes.

Não somos.

Só precisamos nos libertar das amarras mentais.

Conclamo a todos: militares,  juízes, servidores públicos, profissionais autônomos, empresários, trabalhadores, aposentados, estudantes e desempregados a lutarmos juntos pelo retorno do Estado de Direito, pela não interferência estrangeira no serviço público, pela impossibilidade de financiamento de campanhas, que os líderes venham dos grupos sociais formados.

Conclamo a todos para juntos afirmarmos nossos valores, nossa cultura, nossa humanidade.

O que está acontecendo no Brasil é uma vergonha.

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