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Postado em 14/03/2019 10:43

Democracia e Populismo

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Sergio Xavier Ferolla

     Em vários países de considerável importância no cenário internacional, surpreendentes resultados eleitorais têm demonstrado verdadeira tendência de rompimento com os modelos tradicionais na governança política, bem como na diplomacia, no que se refere ao relacionamento entre nações.

Esse complexo fenômeno já pode ser claramente observado nos Estados Unidos, Rússia e Turquia, além de outros estados com menor relevância no contexto das nações. No entanto, como cada povo convive com cenários próprios e circunstanciais, não seria adequado tentar-se uma generalização das causas para tal fenômeno, uma vez que, caso a caso, podem ocorrer fatores condicionantes na geopolítica regional e litígios religiosos.

     Genericamente, essas vertentes políticas têm sido classificadas pela mídia como “populistas”, um termo usado como sinônimo para “ante sistema” e cujo viés ideológico pode pender, tanto para a direita como para a esquerda. Visto de forma mais ampla, tais propostas também acabam refletindo um sentimento “ante elites” no seio da população, conduzindo à eleição de lideres que, tidos como únicos representantes do povo, ao mesmo tempo vêm os opositores como parte de uma imoral e corrupta elite.

     Esse tema tem motivado abrangentes estudos entre sociólogos e cientistas políticos, cujas análises acabam registradas em livros de referência como, por exemplo, o “What is Populism?” *(O que é Populismo), de Jan-Werner Müller, Professor de Política na Universidade de Princeton. Nele, o consagrado autor, ao relacionar algumas teses sobre populismo, conclui que o mesmo não representa uma autêntica fase da moderna democracia, nem uma manifestação de patologias incorporadas a cidadãos irracionais. Como, em algumas regiões, o fenômeno decorre da obscura atuação da política tradicional, qualquer análise sobre sua ascendência ao poder se defronta, como incógnita, se a eleição resultará a favor ou contra o populismo?

     Para Moisés Naín, que além da carreira acadêmica ocupa o cargo de editor-chefe da revista Foreign Policy desde 1996, o populismo não é uma ideologia, mas sim uma estratégia utilizada por todos os matizes ideológicos para alcançar e manter o poder.

Por meio dela os dirigentes se apresentam como defensores do povo maltratado pelas “elites” e, ao estimularem movimentos “do nós contra eles”, ressaltam que tudo o que foi feito no governo anterior é ruim, corrupto e inaceitável. Demonizam os inimigos externos, como expediente de curto prazo, ao mesmo tempo em que os patriotas, com pensamentos diferentes, são classificados como apátridas que precisam ser alijados dos quadros políticos.    Por todos esses matizes, modernamente já surgem citações os classificando numa categoria especial de “iliberais”.

     Como reflexo dos variados exemplos no cenário internacional, questionamentos começaram a surgir entre os opositores ao governo recém empossado. Alguns comentaristas na mídia e na economia brasileira, repisam argumentos que mais refletem suas privilegiadas convivências no período caótico das últimas décadas de desgoverno em nosso país. Sem isenção e valendo-se de infundadas considerações, não atentam para as emergências impostas pela realidade nacional, bem como das agravantes correlacionadas com o complexo cenário político e econômico internacional.

     O curto prazo de gestão da nova equipe não possibilita maiores considerações sobre as alternativas propostas pelo governo. No entanto, o quadro retratado nos estudos sobre os variados setores e os meios disponíveis para enfrentar tão desafiantes questões, certamente exigirão a adoção de rígidas medidas. Ao mesmo tempo, ações emergenciais, com alternativas para o desgastado modelo neoliberalista da troca de vantagens e interesses entre políticos e empresários, deverão ser impostas para exterminar os mafiosos que solapavam o erário público.

     A tão repugnante contesto somavam-se resultados calamitosos na administração e na economia, demonstrando a falência dos demagógicos e ilimitados direitos, da corrupção sistêmica e dos expansivos favorecimentos para disfarçadas e inidôneas organizações ditas de interesse social. Além dos carimbados usufruidores das benesses governamentais, interesses nada éticos conduziam a inserção na máquina pública de parasitas sindicalizados e minorias de desajustados no ambiente social, num conluio diabólico em detrimento da nacionalidade.

     Essa conjugação de demagogos e larápios da coisa pública, felizmente sob severo julgamento nos tribunais da república, encerrara seus crimes nos exemplares Processos de lavagem da podridão dos repetidos e sofisticados delitos. Não fazendo jus nem à classificação de populistas, bem se enquadram numa especial designação de “democracia ilícita”, para deixar registrado na história nacional sua falsidade e traição ao sagrado direito que lhes outorgou o voto dos homens de bem, iludidos pelas fingidas arengas eleitoreiras como defensores dos pobres e oprimidos.

*Penguin – RandomHouse– UK

               Tenente Brigadeiro do Ar Sergio Xavier Ferolla

                     Ministro Ap. do Superior Tribunal Militar

 

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