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Economia

Postado em 07/02/2019 9:53

Direita ou Esquerda – Para a banca tanto faz…

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Por Pedro Augusto Pinho*

Herege ou religioso. Romano ou bárbaro. Católico ou protestante. Comunista ou capitalista. Por todos os tempos, o Poder sempre procurou simplificar as diversidades de qualquer natureza, em especial as ideológicas ou as que o pudessem enfrentar (ou apenas assumir) suas diferenciações. Uma carga com as polaridades do tipo: nós ou eles.

A Banca – o sistema financeiro internacional –, coloca estas polaridades de forma ainda ainda mais complexa. Tendo como únicos objetivos a apropriação de todas as rendas (de quaisquer origens, inclusive as ilícitas) e promoção da permanente concentração de renda, ela ora está com a Esquerda (Lula, Dilma) ora com a Direita (Collor, Bolsonaro), ora com meros oportunistas (Sarney, Temer) ou camaleônicos (FHC). E com todos ela se locupleta, torna-se mais rica e poderosa.

“Os 1% mais ricos possuem 45% da riqueza mundial” | Fonte: Credit Suisse, Global Wealth Databook (2018) – clique na imagem para acessar outros dados da desigualdade mundial

Mas há uma característica da Banca que nos indica quem ela realmente agride, combate, hostiliza. Isso aparece em seu projeto de dominação total, globalizador, como a maioria das religiões e ideologias. Daí, a Banca combater os Estados Nacionais e, em consequência, os nacionalismos, surjam eles na Federação Russa, no Iêmen, na Bolívia ou em manifestações como as dos Gilets Jaunes (Coletes Amarelos), na França.

Movimentos de rejeição à Banca, ainda que difusos e não conscientes, podem ser vistos nas eleições de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, na descrença da democracia plutocrata, pelas Américas e na Europa, e nosGilets Jaunes dos sábados parisienses.

O escritor a analista internacional Thierry Meyssan, em entrevista conduzida pela Éditions Demi-Lune(02/02/2019), intitulada “Il n’y a pas de recherche de la vérité sans recherche des documents originaux”afirmou (em tradução livre):

O livro Sous nos yeux – de 11-septembre à Donald Trump (Diante de nossos olhos – do 11 de setembro à Donald Trump) tornar-se-á um clássico quando o confronto que descrevo for resolvido. A globalização financeira está chegando ao fim. A revolta acaba de estourar na França e se espalhará pelo Ocidente. As pessoas sofrem sem entender porque empobreceram. Agora pode ser que esta revolta se acelere.

E Meyssan continua:

Vejo a ciência política como qualquer ciência, onde as hipóteses devem ser constantemente confrontadas com novos elementos e retificadas. Devemos, portanto, procurar e encontrar elementos que contradigam o que achamos que sabemos. (…) Ninguém pode acreditar que a democracia será conseguida bombardeando um país. Democracia é o poder do povo, não pode ser imposto por um estado estrangeiro.

Ao contrário do que se acredita comumente, os neo-conservadores tiveram origem num partido trotskista …… Embora eles tenham se juntado à administração Reagan e tenham mudado de partido político várias vezes, eles ainda são trotskistas, e pensam em fazer a “revolução mundial”, com o exército dos EUA (!). São esses mesmos indivíduos que forneceram o aval da Esquerda na Primavera Árabe ao apresentar seus colegas trotskistas árabes nas TVs ocidentais.

E estão programando um retorno triunfal na Venezuela.

Ainda na entrevista, diz Thierry Meyssan:

As noções de “Direita” e “Esquerda” evocam a Guerra Fria que não existe há um quarto de século. Não há povos de esquerda ou de Direita”, ao que acrescento, que aqueles “intelectuais” que assim se apresentam são, antes de tudo, farsantes.

A quem interessa, então, manter polaridades inexistentes?

Apenas ao sistema, que não pode deixar claro seu objetivo contra a humanidade: eliminar sua maior parte! Mais da metade da população terrestre deverá desaparecer para que alguns usufruam dos recursos naturais finitos e produtos industriais conquistados por gerações e gerações de seres humanos.

O caso da Venezuela seria de Esquerda versus Direita?

Observe, caro leitor, a informação que transcrevo do Deutsche Welle Notícias (30/01/2019), que não teve divulgação nem pelas chamadas “Esquerdas” nem pelas “Direitas” porque contraria os discursos de ambas sobre o posicionamento da Internacional Socialista face à duas situações atuais[DE1]:

O Conselho da Internacional Socialista (IS) expulsou de sua composição o partido no poder na Nicarágua por violações de direitos humanos e valores democráticos e manifestou apoio ao líder da oposição na Venezuela, Juan Guaidó.

Em reunião nesta terça-feira (29/01), o Conselho reconheceu os esforços de Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, para “conduzir uma transição para a democracia, apoiada na legítima Assembleia Nacional, e afirmou que a única maneira de o país avançar seria realizando novas eleições urgentemente”.

Agora, prezado leitor, voltemos a Meyssan:

O protesto dos coletes amarelos está apenas iniciando. O primeiro mês foi uma reação epidérmica à taxação excessiva denominada taxação “verde”. Lembremo-nos de que o Presidente Macron anunciou seu plano para financiar economias “verdes”. Mas isso é apenas a espuma das ondas”.

“Já passamos um quarto de século desde quando imaginamos alcançar a prosperidade com a dissolução da URSS dando rédea livre ao capitalismo. Nossos sucessivos líderes internacionais e nacionais aceitaram essa escolha, cujo preço agora estamos descobrindo: dezenas de milhões de pessoas de classe média desapareceram no Ocidente e no Oriente”.

“Algumas pessoas se perguntam se essa revolta [dos Coletes Amarelos] é comparável à da Primavera Árabe. Claro que não. A Primavera Árabe e as revoluções coloridas são eventos fictícios. Nós não fazemos a revolução para instalar a “democracia de mercado” de acordo com a expressão dos EUA (…) As revoluções coloridas duram apenas alguns dias ou semanas e permitem mudar os governantes sem mudar a sociedade. As verdadeiras revoluções duram anos. (…) Elas mudam a organização da sociedade”.

Vejamos o que ocorre, “sous nos yeux”, no Brasil e que alguns imputam às mídias – sejam de Direita ou de Esquerda – outros aos petralhas ou bolsominions: o que diferencia, efetivamente, um José Eduardo Cardozo (filiado ao Partido dos Trabalhadores) como ministro de Dilma Rousseff, de um Sérgio Moro, atual “super” ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Bolsonaro?

Ambos “elaboraram” legislações ou as interpretaram “contra a corrupção e selecionados corruptos”, e levaram Luís Inácio Lula da Silva – independente das razões, ações ou culpabilidade –, à prisão. Quem endeusa Moro deveria cantar loas ao Cardozo.

Mais um pouco do notável intérprete da realidade política, Thierry Meyssan:

Quando a classe dominante impede que se mude o paradigma da sociedade, força-a à violência. O que temos visto no momento não é muito, vandalismo e saques, alguns assassinatos acidentais. No entanto, toda a classe dominante se recusa a enfrentar a questão da globalização financeira. Ao fazê-lo, empurra a sociedade para a violência em grande escala.

Donald Trump é o presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Corresponde às necessidades dos estadunidenses e de sua cultura. Seria um presidente abominável na Europa, do qual ele não compartilha a história, mas é a melhor coisa que chegou nos EUA por um século (!).

Não procura distribuir riqueza, mas sim reviver o “sonho americano”, isto é, a possibilidade de todos saírem da miséria através do seu trabalho. No âmbito interno, portanto, questiona todos os acordos comerciais internacionais e tenta estabelecer regras econômicas mais justas para seus concidadãos. Simultaneamente, ele tenta derrubar a moralidade religiosa, politicamente correta, que os puritanos impuseram a toda a sociedade. No nível internacional, ele quer abandonar o imperialismo e voltar à hegemonia.

Tenho a impressão de ser quase o único autor não estadunidense a ter observado esse programa por três anos.

Todo mundo julga-o com critérios de seus oponentes, e conclui que ele é um tolo perigoso, mas, de acordo com os próprios critérios de Trump, é, ao contrário, um homem brilhante. Mas dada sua ignorância da política acadêmica, é improvável que tenha sucesso, especialmente desde que ele perdeu a maioria na Câmara dos Deputados. No entanto, ele melhorou a economia do seu país, onde já falta mão de obra no mercado de trabalho.

O que diferencia Bolsonaro de Trump é também o nacionalismo. A mesma impulsividade e ignorância do pensamento político estão presentes, mas é Trump quem procura ter os EUA acima de tudo e de todos efetivamente. Bolsonaro chama Paulo Guedes de seu “Posto Ipiranga”, e coloca fora das ações humanas muitas soluções para problemas brasileiros.

Afirmo constantemente que os eventos são como vetores resultantes de diversos outros com direções, sentidos, força e densidades diferentes. Análises consistentes da derrocada do Império Português no século XVI colocam a fé, ao lado do Império, como uma das causas. Trump não caiu nessa.

Vivemos um momento interessante, não redutível a simples polaridades.

Identifico os seguintes poderes disputando as nações:
a) Banca, o sistema financeiro, com objetivo de aparelhar e/ou destruir os Estados Nacionais. Exemplos: Líbia, França, Reino Unido, Ucrânia, Argentina, Chile. Tentativas recentes: Síria e Venezuela;
b) Neo-hegemonia estadunidense, oposta à Banca, com opositores na própria estrutura de governo, fruto da aparelhagem financeira a partir de Ronald Reagan;
c) Neomercantilismo chinês, um mercantilismo distinto do inglês do século XIX, com características únicas, buscando na expansão comercial o controle de economias nacionais; e
d) Nacionalismos. São diversos, e o próprio conceito cultural de nação impede identidades. No entanto, há articulações mais de caráter defensivo do que de imposições políticas. Federação Russa, índia, Irã, Turquia, Bolívia e Venezuela seguem neste objetivo.

“Líbia 2011 vs Venezuela 2019” | Fonte: página pessoal da jornalista Michele de Mello, correspondente em Caracas para a TeleSur

O grande esforço dominador, que criou a globalização como ideologia, decorre do neoliberalismo da Banca. E com a característica apátrida, como de todo grande capital financeiro.

Buscar bipolaridades é enfraquecer o conhecimento da realidade e, consequentemente, a luta pelo que lhe for correto, desejável ou simpático.

Thierry Meyssan vem discorrendo sobre estas realidades na Rede Voltaire e em livros, cujo único disponível em português é “11 de setembro de 2001 – uma terrível farsa” (Usina do Livro, Belo Horizonte – MG, 2003, 223 págs), tradução do “L’effroyable imposture – 11/septembre”. Além do citado neste artigo, e também em francês, foi editado um segundo tomo do “L’effroyable imposture – manipulations & fake news” pela Éditions Demi-Lune.

Onde a Banca conduzirá o Brasil?

Pedro Augusto Pinho é avô e administrador aposentado.

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