Bate biela a economia dos ricos: o excesso de dívidas não permite que os governos gastem mais, puxando a demanda privada. O rombo nos Estados Unidos é de 8,8% de déficit; Reino Unido, 12%; Japão, 7,8%; Espanha, 9,9%. Todos eles estão encharcados: Alemanha, 68,6 de dívida em relação ao PIB; Inglaterra, 71,6%. Ou seja, Estados inchados de papagaios, impedidos de cortarem gastos, em ambiente em que o desemprego avança. A crise abala os trabalhadores, enquanto os banqueiros continuam ganhando horrores, exigindo mais arrochos. As greves, por isso, pipocam, colocando em risco, na Europa e nos Estados Unidos, a social democracia, que fica entre o avanço dos radicais. De um lado, a direita, que arreganha nacionalismos fascistas; de outro, palavras de ordem comunistas de assalto ao poder começam a ser ensaiadas. A luta política ideológica entra em cena no compasso da crise global.
Tudo parece estar ficando previsível demais. Alguém tem dúvida que pipocarão greves para todos os lados, no compasso da bancarrota capitalista européia e americana? Tal emergência não ressuscitaria os antagonismos de classe, responsáveis por produzir lutas ideológicas crescentes?
Os europeus estão um caco. É caco para todos os lados. A Grécia de tantos gênios, Sócrates, o maior deles, pregador da genial tese socialista de que “a metade é maior que o todo”, está devendo até as cuecas. Trabalhadores nas ruas se descontrolam. Os governantes perdem chão. Começam a atender ao chamamento do partido comunista. A palavra de ordem, se a coisa ficar preta, pode ser o assalto ao poder. Para que? Pegar o espólio totalmente sem caixa.
Em Espanha, fumacê geral de desemprego. Igualmente, a esquerda mais radical se organiza. Ninguém vai engolir a escalada do desemprego, que pode chegar aos 20%. Na faixa dos 15 aos 26 anos, a taxa de desocupação aproxima-se dos 30%.
Acostumados aos prazeres da social democracia, que estava começando a abolir até às sextas feiras do calendário do trabalho semanal, como acostumar, de novo, a quebrar pedra? Jamais.
Os portugueses, idem. Estão em fase de desorganização política, no compasso da crise, abrindo-se às pregações socialistas e fascistas. Trabalhar, de novo, às sextas e aos sábados? Começava o alvorecer da quinta feira, e todos já iam se prolongando naquele final de semana espetacular. Com os arrochos fiscais, creditícios e cambiais, a corda começa a apertar o pescoço.
Quequeisso, pá?
José Sócrates, primeiro ministro português, não sabe o que faz. Se atender as pressões dos baqueiros que têm excesso de títulos do governo em carteira, para que corte gastos públicos, poderá começara a enfrentar, em Portugal, o que já está em marcha na Grécia e na Espanha, o povo nas ruas, resistindo a pagar a conta em forma de arrochos salariais. Se estes se efetivam, o governo perde arrecadação. Sem arrecadação, as autoriades, sob pressão da bancocracia, perdem utilidade aos olhos do público, que vota, nas democracias. O welfare state europeu vai entrando em estresse total, abrindo-se aos discursos radicais, forjados nas lutas grevistas, no calor das ruas, superando os parlamentos.
Os gajos já olham para o Atlântico. Imaginam pegar Santa Maria, Nina e Pinta e zarpar, novamente, em busca de novas descobertas. Encontrarão ouro, prata e mirra?
Irlanda, igualmente, é uma angústia só. Dali, os irlandeses zarparam para o novo mundo. Construiriam a Nova Inglaterra. Ousadia maior, impossível. Para onde ir, no presente instante, se dentro de casa não há alternativas?
Com o dinheiro solto da União Européia se lambuzaram todos, ricos, pobres e remediados. As contas chegam, agora, acompanhadas dos juros. Ó céus!
Se os mais apertados, espanhóis, portugueses, gregos, irlandeses estão entrando em sufoco financeiro, com o dinheiro das famílias encurtando em relação ao calendário, acelerando desempregos, no ritmo dos ajustes draconianos, impostos pelos banqueiros, que, por sua vez, quebrados, ancoram-se no colo dos governos desorganizados e endividados, aqueles que eram considerados mais folgados, como os franceses, italianos, alemães, holandeses, dinamarqueses, belgas etc, também, entram na fila do empobrecimento relativo geral.
Estão todos olhando para os Estados Unidos e jogando pragas nos filhos de Tio Sam.
Afinal, não foram eles que criaram as armadilhas que lançam o euro na danação monetária do demônio? Preocupado e temeroso de que o euro viesse sobrepujar o dólar, Tio Sam armou o esquema para detonar a moeda europeia. Está conseguindo.
Armada espanhola perde gás
Os espanhóis jogaram com a possibilidade de avançar num segundo momento das descobertas marítimas rumo à América do Sul, alavancando empresas e bancos, capitalizados pelo juro barato europeu, mediante converesão dos derivativos importados dos Estados Unidos, transferidos aos bancos, que emprestaram aos governos emissores de dívidas públicas, impulsionadoras do espírito animal empresarial. Com a bancarrota, a vaca vai para o brejo e o povo desemboca nas calles. O pepino é grande, reconhece o primeiro ministro, Luiz Zapatero. Uma boa, para aliviar a barra, seria a Espanha faturar o campeonato, mas seria apenas um suspiro temporário na terra de Picasso.
É sabido que desde a segunda guerra mundial, quando saiu vitorioso do conflito bélico, os americanos jogam com a dialética do capital especulativo sem lastro, a moeda estatal inconversível, gerada pelo governo, como irrigador e enxugador, ao mesmo tempo, fazendo a dívida crescer no lugar da inflação.
Por um lado, emitindo dólar sem lastro, decidiram fazer déficits fiscal e comercial, para salvar a Europa, que saíra da guerra arrasada, correndo perigo de cair nas garras do comunismo. Consumindo os produtos europeus e, também, os japoneses, os Estados Unidos atuaram como o polo do consumo global.
Fizeram, de um lado, déficits comercial e fiscal; de outro, compensaram o buraco deficitário com superavit financeiro, mediante dólar forte, ancorado nas armas atômicas. Faturavam grande senhoriagem cambial. Como diz Keynes, o rico, armado até os dentes, emite sua moeda e cobra juro sobre ela, repassando-a para ser o equivalente geral das trocas comerciais. Depois da bancorrota da libra, entrou em cena o dólar. O jogo se estenderia por muito anos, mas não eternamente.
Inundaram os americanos a praça global, no pós guerra, de eurodólares, nipodólares e petrodólares, nos anos do pós guerra, como inundaria, mais tarde, com os derivativos tóxicos. A capacidade de endividamento de Tio Sam parecia interminável.
A grana derivativa, dessa vez, chegava na Europa, nas mãos dos bancos. Estes reciclavam, espalhavam o numerário na praça e impulsionavam o consumo. Quando havia exagero, como aconteceu no final dos anos de 1970, Tio Sam, para proteger o dólar, puxava os juros. Enxugava o dinheiro que estava boiando, ameaçando inflação. Chegaria o momento dos limites intransponíveis?
Canastrões deficitários
Os dois canastrões europeus, Sarkozy, na França, e Berlusconi, na Itália, são obrigados a uma tremenda ambiguidade. Devem os tubos, são obrigados a lançarem programas fiscais contracionistas, para satisfazer os banqueiros, quebrados no colo do Estado, mas terão que enfrentar os eleitores e eleitoras que caminham para o desemprego, no compasso da desaceleração econômica européia, incapaz de sustentar o processo político social democrata. Abre-se espaço para os socialistas e comunists, de um lado, e fascistas e nazistas, de outro. Diante do desespero do povo, apavorado com a queda do poder aquisitivo das moedas, se dispõem aos discursos salvacionistas que levam aos desastres, conforme comprovam a história.
Mas, tudo que tem início, tem meio e tem fim. A força da moeda americana, potencializada pela capacidade de endividamento de Tio Sam, um dia encontraria o seu atoleiro.
E de crise cambial em crise cambial, exportando elas para a periferia, chegaria a hora de a América começar a perder o fôlego, para sustentar o jogo da divisão internacional do trabalho, inaugurado a partir de 1944, com o acordo de Bretton Woods.
A grande bancarrota de 2008, bem mais potente que a depressão de 1929, ocorre, justamente, porque o poder de Tio Sam de enxugar o excesso de dólares no mercado está pipocando.
O juro não pode ser mais positivo. Tem que ser negativo. Caso contrário, o tesouro americano quebra. Aquela jogada anterior, de passar o prejuízo para os outros, fugindo para frente com suas crises de realização da acumulação capitalista, alcançaria o estertor geral com os derivativos tóxicos em outubro de 2008, depois de passar por vários estágios anteriores, nos quais encavalaram-se problemas crônicos, embalados pela irresponsabilidades dos governos, estimuladores da especulação financeira bancocrática sem limites.
Os derivativos, como os antigos eurodólares, petrodólares, nipodólares são filhotes do dólar. Emitidos pelo tesouro americano os dólares ancoraram, no mercado secundário, a reprodução derivativa dolarizada global. Montanhas e montanhas de dinheiro podre. Vem a hiper por aí, repetindo a Alemanha de 1933?
Senilidade anglo-saxonia
David Cameron, na velha Albion, não pode sustentar a aristocracia inglesa, como nos velhos tempos. Abalada desde a segunda guerra mundial, a libra, dominante no século 19, rendeu-se ao dólar, que perde gás, no século 21, em meio aos deficits que fragilizam o estado capitalista. O primo predileto dos americanos são obrigados a cortar fundo nos gastos, desempregando milhões de ingleses. A duração do seu reinado pode ser relâmpago. O capitalismo anglo-saxão, refratário da esperteza da bancocracia inglesa, com os bancos, literalmente , falidos, rende-se ao medo, dada a incapacidade do governo inglês de realizar o que sempre buscou, por meio dos deficits, ou seja, a eficiência marginal do capital, mediante força monetária da libra, socorrida pelo dólar há 50 anos. Meu reino pela volta da velha Rainha Vitória sob o padrão ouro, a relíquia bárbara!
Os Estados Unidos tentaram, e conseguiram, dar um grande beiço do euro. Só que pode ser uma vitória de Pirro. O dólar, nesse jogada, está sendo levado, também, de roldão.
A União Européia, potencializada, inicialmente, pela força da Alemanha e da França, que, aos poucos, foram agregando outros parceiros, a fim de formar a famosa e, agora, quebrada Eurolândia, não se sucumbirá sozinha. Levará junto, como abraço do afogado, a moeda americana.
A perfomance econômica ridícula dos Estados Unidos e Europa, nesse momento, comprova que ambos vão indo para o fundo do poço. Suas moedas se apresentam como dois sacos vazios. Não param em pé.
A pregação dos neoliberais é a de que se deve enxugar as despesas que fizeram a festa da social democracia, tanto nos Estados Unidos como em toda a Europa. Mas, se as dividas não podem ser enxugados, sob pena de produzir hiperinflação, que fazer?
Tiro no pé
Merkel, na África do Sul, busca fugir dos problemas na Alemanha onde seu prestigio político está em queda. Repete o erro do Tratado de Versalles imposto aos alemães depois da primeira guerra. Os alemães, sob pressão , tiveram que se humilhar, abrindo espaço aos ressentimentos que levaram a Hitler, com a queda da República de Weimar.
Agora, rica, a Alemanha, que fatura exportações e empréstimos aos países da Eurolância, prega, na crise, o mesmo arrocho que impuseram a ela, nas horas de dificuldades, que desembocaram, antes da segunda guerra, no nazismo e no fascismo. Cortar drasticamente os deficits é o que pregam os alemães aos aliados, como se tais cortes não fossem estourar , também, as próprias finanças da Alemanha, que terá menos comércios para consumir os produtos que sua poderosa máquina industrial despeja nos mercados mundiais, em especial, nos países europeus, financiados pelos bancos alemães. Tiro no próprio pé.
Como será possível compatibilizar economia com política diante da sociedade que se acostumou com a melhor distribuição da renda nacional, responsável por manter estabilizados os preços, evitando descontroles inflacionários?
Aquilo que o neoliberalismo passou a pregar, a partir de 1989, depois da queda do Muro de Berlim, que a história havia acabado, que as ideologias entraram em estresse, desaparecendo, frente a emergência da eternidade da predominância do capitalismo financeiro especulativo, vai deixando de ser verdade.
O capital , que deixou de ser reproduzir no trabalho, enterrando a lei do valor trabalho, como determinante das relações sociais, volta, em meio às contradições, a ressuscitar as lutas ideológicas. Tem dificuldades de garantir seu quinhão.
Está em marcha, de novo, com o advento da bancarrota, agravada pela decisão dos governos superendividados de praticar ajustes fiscais draconianos, as lutas ideológicas. Estas, por sua vez, animam as greves, simultaneamente, de caráter econômico e político.
As moedas, em compasso de desastres, expressam quedas no poder de compra dos trabalhadores. Nada mais favorável ao radicalismo político do que tal movimento cuja essência é o de lançar sobre a comunidade em geral insegurança total.
O capital vai à guerra
Como Tio Sam não pode puxar a demanda global, porque não tem condições de utilizar os juros como arma capaz de salvar as moedas do colapso, sua representação negra segue à risca os mandamentos imperialistas: quando a coisa fica preta, parte-se para a agressividade. É o que acontece, nesse momento, com os Estados Unidos, rumando com sua fronta de guerra para as águas marítimas iranianas, secundada por navios de Israel, todos carregados de bombas atômicas, para tentarem, na base da intimidação, a continuidade do programa nuclear do Irã, sob argumento de que ele desestabiliza o desenvolvimento mundial. Pratica-se o subterfúgio para confundir, dando razão a Freud, segundo quem as palavras servem para esconder o pensamento.
Os radicais, de direita e de esquerda, ganham espaço para suas pregações. O nacionalismo direitista emerge para tentar impedir a ressurgência do movimento socialista internacional, tanto mais as moedas, ao perderem poder de compra, entram em colapso. O assalto ao poder passa a constar dos programas políticos.
No ambiente das trocas comerciais, no mercado internacional, os lucros não se realizam. Nele se buscava a solução para os impasses que emergiam nos espaços nacionais, onde a reprodução, no embate do capital e do trabalho, tornava-se, crescentemente, problemática, dados os antagonismos de classe.
Marx destaca em O Capital que o estágio de deterioração final do capitalismo se dá no colapso do comércio internacional. Inicialmente, diz, a reprodução do capital se dá no espaço nacional. As contradições, que se expressam em concentração de renda, de um lado, e empobrecimento, de outro, responsável por gerar insuficiência crônica de demanda global, levam os empresários a buscar desovar seus excedentes no mercado internacional.
Entretanto, se nos espaços nacionais , como acontece, por exemplo, nesse momento, nos Estados Unidos e na Europa, a reprodução do capital não se realiza, bem como , também, tal realização encontra crescente dificuldade de ocorrer no espaço internacional, pois todos recorrem a ele, jogando, cada vez mais agressivamente na base do protecionismo, como se verifica com a ação chinesa, o impasse se vislumbra, sinalizando um big bang planetário.
Ele traz em seu bojo a ressurreição da luta ideológica em escalada que aumenta quanto mais o perigo de deflação se apresenta, destruindo não apenas os salários, mas, também, o capital, jogando a taxa de lucro no chão e a de desemprego nas nuvens. O pior dos mundos.